Não é o intuito crítico que predomina no que escreverei em seguida apesar de ser inelutável ressentir-me da mentalidade dominante. Será o testemunho de uma forma possível de abordar a leitura em particular e o conhecimento em geral.
Na última meia-dúzia de anos tenho vindo a comprar livros da colecção Para Pessoas com Pressa, uma série de livros didácticos sem pretensões para quem tem curiosidade por temas de vária ordem, mas não disponibilidade para aprofundar o conhecimento sobre cada assunto em particular.
Neste momento tenho onze livros da colecção e ainda só li cinco (os de cima na fotografia): História do Século XX, Europa, Portugal, Filosofia e Matemática. Nos próximos tempos tenciono ler a História do Mundo e da Ciência. Este último em voz alta ao Nuno, além de saber que vai gostar, tiro maior partido pela conversa que decorrerá da leitura.
É muito comum quem se considera conhecedor desdenhar deste tipo de abordagem abreviada por considerá-la superficial. Básica, primária. Não posso estar mais em desacordo ou no pólo oposto do apreço.
Ainda há pouco tempo mostrando a História do Universo da série a alguém, logo ouvi: ah, isso é nada depois de ler o que tenho lido acerca de física e astronomia. E há menos de dois meses outra pessoa dizia-me referindo-se à natureza de um programa académico que o essencial era reduzir o período temporal e o objecto do estudo para conferir seriedade e rigor ao trabalho.
Desde sempre senti necessidade do que chamo vôo de pássaro sobre o que leio e aprendo, não gosto de ficar demasiado presa em pormenores de circunstância fechados num curto espaço temporal por mais saiba da sua importância. Tive sempre a intenção de tentar perceber o que me ensinavam com distanciamento do momento e da circunstância específica de cada acontecimento. Não nego a importância do relato dos factos e abordagem imediata sobre eles, mas tendo a distanciar-me e tentar simplificar por enquadramento, o que pode ser uma manobra batoteira, se cair no simplismo. Mas pode também constituir uma visão bastante mais realista e fiel da realidade se a sensibilidade para os factos estiver ancorada num conhecimento mais vasto, ainda que sintético. Por exemplo, é fácil cair no simplismo da explicação da História pela ideia de ciclo repetitivo de causa efeito. Os pormenores podem explicar desvios que parecerão ínfimos a quem vê com distanciamento e a causa de tudo a quem se especializa numa determinada época e situação geográfica. Mas será que o calo trazido pela replicação de ciclos em vários períodos ou zonas do mundo não é aproveitável como sensibilidade para o estudo?
O mesmo vale por exemplo para o caso da pintura. Tenho vindo a ler aqui no Medium várias histórias acerca de pintores e telas conhecidas. Gosto de conhecer as leituras das obras, visões sobre o mundo da cor, das formas, da luz, da técnica, a história por trás dos quadros, a vida emprestada pelos artistas às suas telas. Não procuro teses muito elaboradas. É certo que também não aprecio quando me aparecem textos chapados da Inteligência Artificial, mas procuro singeleza na abordagem das pinturas e não me sinto diminuída por não ler tratados rebuscadíssimos sobre pintura que me cativou desde muito nova.
Acresce uma deficiência que já admiti por diversas vezes em textos passados, nomeadamente, no blog Comezinhas: a minha memória é muito fraca. Gostaria de reter o que leio, mas desde criança noto que não só retenho pouco como não sou fiel ao que aprendo, processando por tradução imediata para a minha língua e entendimento aquilo que leio. Há gente que lendo reproduz fielmente o que vê. Retrocedendo aos tempos idos de estudante, sempre percebi que havia alunos com grande capacidade de decorar ou memorizar grande quantidade de informação. Habilidade que nunca possuí. Em regra, quem vê de fora, determina que esta dificuldade decorre da falta de disciplina e hábitos de estudo. Mas hoje, aos cinquenta anos, pergunto-me: será? Sempre me acusei de estudar pouco e é facto que nunca cumpri como estudante regras e horas de estudo, mas será que o meu cérebro seria capaz de lhes obedecer? Nunca deixei de ler, talvez menos do que devia. Nunca deixei de reflectir de forma interminável, talvez mais do que devia. Daí a necessidade de me poupar a doses massudas de estudos académicos ou a doses massivas de intricados romances cheios de intriga e julgamento e pouco distanciamento de reflexão.
Tudo quanto entra é processado por tradução para língua e entendimento próprios para ser reduzido a qualquer coisa que me seja inteligível, e não memorizado. Não tenho o sossego dado pelo simples pousar e arrumar na prateleira do cérebro já mastigado e aceite, canso-me a tentar perceber cada vírgula e fico exausta por isso desisto com facilidade . Não posso ler muito, sob pena de esgotar. E isto não é desculpa de preguiçosa, é testemunho de quem se conhece e fartou-se de ouvir durante uma vida insultos generalizados dirigidos a quem lê menos, por gente muito menos inteligente e capaz do que se julga, bafejada apenas pela capacidade de reproduzir o que lê e ouve copiando e imitando. Lamento, sou burra, não tenho essa enorme capacidade intelectual de papagaio, nasci com a deficiência de querer pensar e compreender. Por isso me seduzem as histórias abreviadas e não tenho pachorra para a intriga da palpitante vida íntima e social dos reis e rainhas ou dos políticos da actualidade ou para a excitação das clivagens ideológicas de ocasião ou para o confronto entre polemistas e politicamente correctos ou para exibições de futilidade em palavreado e eloquência vã sobre estados de alma. Cansam-me e considero desperdício de tempo.
Há quem veja neste tipo de testemunho uma infantilidade de pessoa pouco preparada. Continuarei a seguir o meu rumo de simplicidade sabendo-me muito menos imbecil do que os e as cheios de si julgam.
Obrigada por lerem. Boa noite de Sábado.
Publicado inicialmente na plataforma Medium no dia 16 de Novembro de 2024