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25/12/2024

Claustrofobia








 


















 











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Imagem Google.


 




Foram mais cinco anos na presença de olhares e escritos pequenos num lugar acanhado. Uma paróquia de velhos conhecidos onde os novos beatos são apresentados como jovenzinhas ressessas de aspecto arrojadíssimo e inúmeros talentos vendáveis, peritas a deslizar nos salões bafientos do mundo online à semelhança das antigas noites de baile do clube. Prontos a fazer o papel convencional de mais um bibelô para manter o status quo. Muito competentes no elogio a quem está na mó de cima, mesmo à custa da verdade, mesmo traindo as origens. Vale tudo para singrar. Tudo destinado aos mesmos lugares, aos mesmos laços, empregos, infantários, colégios, serviços públicos, governos, oposições, empresas, jornais, televisões, redes sociais, plataformas online. Um nicho claustrofóbico mimetizado pelos alpinistas sociais que desde jovenzinhos tudo quanto fazem é acomodar-se aos interesses e fabricar redomas narrativas de encosto disfarçadas de sapiência e generosidade muito pia.


E vem à ideia a mesa da sátira juvenil: bocas cheias de nomes. Nomes cheios de casas. Casas feitas de proa. Proa vazia de verdade. O espaço público dos interesses mimetizou os tiques das mesas das antigas casas civilizadas sem conhecer o tesouro que podem conter: parcimónia e educação. Ficou-se pelo pior: aparência, pias alusões bíblicas a esconder as pulhices praticadas às escondidas. O falso despojamento na vida para impressionar incautos. O falso elogio ao esforço e integridade próprios. As muitas loas a quem interessa, palavras de conveniência e lugares-comuns repetidos à exaustão para perpectuar uma estrutura social podre, corrupta e decadente.


E o mundo veloz fora da janela. Todo ele se move em redemoinho de multidões em convulsão. Os contrastes gritantes do mundo rico e pobre, perigoso e violento assustam os encostados, não por receio dos males que venham à humanidade, mas por porem em causa as redomas que dão ser e sustento a oportunistas que almejam o topo da pirâmide. Enchem a boca para falar de liberdade, coragem, união, honestidade, discrição, cultura, trabalho e amizade, juntam imagens artísticas em puro cálculo vazio de sentimento, numa caça à aprovação e audiência. Pela calada mentem, enganam, agridem, envenenam, corrompem, furtam. E ganham à custa da mentira. Até ao dia em que a audiência perceba a massa podre de que são feitos.


A transformação acontece contra-corrente. Os pesados interesses esganiçam-se pela manutenção dos privilégios contra-natura. À custa do trabalho e sacrifício alheio. Quase todos são muito certos dos seus direitos e prerrogativas e desconhecedores dos custos elevados que esta situação de privilégio implica para o todo. A reboque as facções usam demagogia para elevar os seus interesses ao poder. Usam nomes, laços, casas, empregos, colégios, serviços públicos, governos, oposições, empresas, jornais, televisões, redes sociais e plataformas online. Tudo contaminado faz-se campo de batalha ideológica-utilitária.


Cada verdade dura minutos. O sucesso é feito do desdém pelos fragilizados ou malquistos de momento e elogio aos bem-sucedidos de oportunidade numa corrente de bajulação balofa sem fim, sem pontos de referência em genuínos sentimentos de pertença, afinidade e merecimento. A deslealdade enviesada impera num mundo de gente que se faz passar por muito cumpridora e correcta no trato, mas tudo quanto persegue é poder, lucro e protagonismo.


A realidade deslaça-se como um corpo celeste fragmentado. Os mesmos que conduziram à implosão da coesão social por pura ganância e falta de respeito pelo próximo surgem com discurso pseudo-bondoso, pseudo-pacificador. Tão lúcidos e pios que eles são. Admiráveis. Cresceram a considerar que valia tudo para vencer e ganharam a vida a dividir para reinar. A mentir, envenenar, ofender, agredir, distorcer as palavras dos outros, desprezar gestos honestos e esconder sacanices, invejar o talento e a roubar os frutos do esforço e trabalho alheio. Os ilustres da claustrofobia das boas relações, dos interesses e das audiências estão sempre apostos para reinar nas casas e países em agonia.


Obrigada por lerem. Bom fim-de-semana.


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Publicado inicialmente na plataforma Medium no dia 9 de Novembro de 2024.


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Nota. Este postal é impróprio para o dia de Natal, mas a sequência da reposição das histórias do Medium desde Outubro ditava que o publicasse hoje. Ontem abri uma excepção e antecipei o diário do passado fim-de-semana que só deveria ser republicado mais adiante. Mas hoje achei que não havia razão para mudar o rumo normal, o tom do post que calhou é áspero; não lhe mudaria uma vírgula apesar de desagradável. Isto apesar de agora estar bastante bem-disposta e os dias e o Natal em especial estarem a decorrer de modo harmonioso. No fim-de-semana escreverei o diário habitual que reflectirá estes dias.