É sintomático como ficamos melhores pessoas face às dificuldades alheias.

Cá vou continuar a relatar os acontecidos da semana. Se correr bem passarei a publicar uma entrada a cada fim-de-semana com a descrição das preocupações e factos que marcam a vida pessoal e doméstica. Matéria tida pelos críticos de somenos importância e a sua exposição uma menoridade. Um dia talvez compreendam que tudo, incluindo a escrita, depende do modo como se faz o registo, como se imprime carácter na vida ao invés de impingir aparência. Duvido que cheguem a perceber que a vida em si e os pormenores têm interesse para lá do enredo e da intriga. Um patamar de entendimento que os iluminados que peroram no espaço público têm extraordinária dificuldade de alcançar.
Na sexta à noite dei por mim tristonha como tem acontecido amiúde nos últimos tempos. E agora tropeço no pensamento: de que matéria é feita a depressão que oiço relatar em tantos? Ia escrever “como não sou muito dada à tristeza” mas caí em mim e senti-me fugir à verdade. Nalguns momentos do percurso deixei-me abalar intensamente pela sensação de tristeza. Reconheço as causas, variam em torno de dois domínios de vida que não vou explorar como seria de esperar na literatura apreciada pelos críticos — pelam-se por desdenhar do egocentrismo cruo e singelo, todavia são peritos em enaltecer o narcisismo pretensioso encapotado. Além das razões, reconheço a forma como essas dores ou transtornos anularam uma caminhada mais bem-sucedida. Reveses próprios da vida. É comum dizer que endurecem o carácter fazendo de nós mais fortes, quantas vezes escondendo que, pelo contrário, nos tornam mais medrosos, mais hesitantes, mais inseguros. Com a agravante de levarmos com o rótulo de não termos aprendido as lições da vida. Resumindo, passarmos por falhados.
Não deixa de ser curiosa a forma como posso dizer isto parecendo que me estou a expor muitíssimo sem verdadeiramente o fazer. Sem dar azo a cativar simpatia para a minha causa de mártir a quem admirar e acudir. E o mesmo valeria se num plano oposto estivesse a dar conta de um momento de felicidade. Se, como habitual, declarasse a alegria, saboreasse os seus sentidos ao descrevê-la, sem concretizar os motivos que conduziriam à vanglória para assim potenciar a vontade de outros se juntarem ao meu sucesso.
E essa é uma diferença crucial de honestidade que não está ao alcance do entendimento de detractores intelectuais presumidos. O artifício da chico-espertice ilustrada recomenda que se dê ar de objectividade por sugestão de virtudes que produzem fictícia superioridade de carácter. Uma forma adulterada de sobriedade. Corre bem a vida a quem finge ser sóbrio e civilizado. Corre bem a vida a quem cria a aparência fictícia de inteligência e elegância pela omissão de menções a assuntos pessoais ou de suposta menor importância ao mesmo tempo que enxameia o espaço público de intervenções com quilos de suposta sapiência e referências.
Toda a vida reparei que o apoio e compreensão chega lesto a quem cumpre o bê-á-bá do pôr-se a jeito. Quem faz cena. Quem quer singrar num mundo de falsidade sabe que tem de invocar qualidades e pergaminhos que aparenta mas não possui, elogiar gente, causas e ideias que rendam lucro e reputação por ricochete, alegar injustiças fictícias cometidas contra si, etc. Enfim, ser intrujão/jona. É um caminho que só interessa a gente desonesta.
Mas deixemo-nos de teorias, como lhes chama a minha mãe.
Desço a assuntos mais prosaicos. Ontem peguei no pequeno bloco para um registo essencial, do género que há muitos anos faz parte das notas ocasionais e confusas dos meus cadernos. Escrevi planos e gastos, com a descrição dos itens e o valor em euros à frente, nos casos em que já tenho o custo apurado. Cilindro (termoacumulador), obras elevador condomínio, sofá escritório Nuno, exaustor, comparticipação teclado, obras desfazer parede da sala/corredor. São gastos relevantes previstos para os próximos tempos. Talvez fique tudo resolvido até ao Natal. A casa e o bem-estar em casa são essenciais. Invisto no que gosto e valorizo.
O facto de andar menos alegre e as alterações de vida dos últimos tempos levaram-me às habituais arrumações caseiras. Sempre que sinto necessidade de mudar alguma coisa no dia-a-dia ou em aspectos de maior relevo, acabo por fazer uma arrumação. Quando era mais novinha e vivia em casa dos meus pais, mudava a disposição do quarto. Depois comecei a mudar a posição dos móveis nas minhas casas, ou a mudar mesmo de apartamento. Gosto da ideia de começo. Nas últimas duas semanas destinei umas horas a organizar os guarda-fatos. Ontem dediquei-me à cozinha. Não gosto nada de limpezas, mas achei que o estado de desânimo em que me encontrava merecia uma medida mais enérgica e de maior esforço. Pelo que passei umas horas na cozinha a lavar azulejos de alto a baixo. Já combinei com a dona L. que nas próximas duas segundas-feiras limpará os armários por dentro.
E enquanto trato do termoacumulador, de arrumações e limpezas vou continuando a pensar devagar, e sem o chamado foco na concretização, naquilo que vou querendo escrever. Mais cedo dei por mim a pensar no Espanador e como raio vou dar claridade e beleza a um plano de escrita que parece árido por natureza. Em conversa com a minha mãe aqui no +1 dizia que me falta o brilho para a ficção que reconheço em autores talentosos. Não sei se me aventuro outra vez. E não lhe disse, mas congeminei: a não ficção não me vai bastar. Ando assim como o tolo em cima da ponte sem saber bem como aproveitar o tempo em termos de escrita para lá destes registos de diário ou de opinião antes nas Comezinhas agora aqui no Medium.
De resto a semana foi passando com bastante trabalho e ao contrário dos últimos tempos com um incidente desagradável de menor importância. Para contrariar a má onda comprei uma camisola de malha preta com atilhos no peito. Uma reminiscência de infância, dos westerns, leva-me à eterna atracção por peças de roupa com cordões.
Ontem falei ao telefone com o meu pai, que tem motivos de preocupação suficientes em matéria de saúde dos seus. Com o meu irmão F., que está a recuperar em pós-operatório, com a T., para a parabenizar pelo aniversário. E estive cá em casa na treta com a minha mãe que este Sábado excepcionalmente não leu ao Nuno. No fim-de-semana passado falei ao M., também em pós-operatório. Estamos a chegar à idade em que se percebe a razão do Serviço Nacional de Saúde não dar conta do recado para tanta procura. E por falar em saúde, o relevante aqui é dizer que o mundo descomplica muito, os defeitos dos outros ficam mais pequenos, as nossas críticas soam menos pertinentes ao depararmo-nos com as fragilidades dos outros. É sintomático como ficamos melhores pessoas face às dificuldades alheias. Mais gente, mais humanos.
O que há mais palpitante? Um agradecimento pela cirurgia bariátrica feita há quase três anos — o tempo passa, caramba -, atentas as melhorias no sistema respiratório. Ontem o Nuno acordou-me de manhã para se certificar que eu estava viva. Assustou-se com a minha quietude. Ou seja, encontrava-me em silêncio absoluto. Coisa que não aconteceria há quatro anos quando a chiadeira denunciava-me a presença viva.
Este Domingo de manhã tenciono nadar na piscina municipal como costume. Se não chover, à tarde é possível que dê um pulo ao Parque da Cidade. Eterna busca de verde, de ânimo.
Publicado inicialmente na plataforma Medium a 20 de Outubro de 2024.