
Entre intelectuais de baixa inteligência mas bastante audiência e em suposta defesa da liberdade de expressão tem vingado a corrente de elogio à contravenção e à agressão como manifestos de suposta sofisticação e maturidade democrática da sociedade. O fascínio pela ofensa ou mesmo pelo crime rende audiência e aparece como contraposição ao puritanismo. Os seus ideólogos manejam a arte da retórica e da distorção dos factos fazendo uso de conhecimentos históricos e literários.
Usam exemplos e julgamentos fáceis do moralismo de Savonarola ou das derivações e excessos jacobinos inspirados em Rousseau para condenar toda e qualquer visão moral optimista, catalogando-a de primária, fanática, violenta. Em contraposição faz-se o elogio simplista da sátira aos excessos da religião de Voltaire e pugna-se pela possibilidade de agredir verbalmente qualquer ser humano; se o visado ensaiar uma defesa logo é rotulado de puritano e fanático.
Explorar a dicotomia liberdade de expressão versus puritanismo em matéria por exemplo das causas identitárias traz audiência e rentabilidade aos que vivem de vender opinião nos órgãos de comunicação social, nas redes sociais e nos livros. Gera adesão a duas facções, tudo quanto é necessário para obter lucro monetário a quem força estes radicalismos a pretexto de alegada robustez intelectual na defesa das liberdades individuais.
Não ser razoável dá visibilidade e dinheiro e essa é a razão do clima crispado do mundo nos dias correntes. Ser cínico é rentável. Quem toma partido de forma facciosa, denuncia e empola os excessos do adversário congrega hostes em seu torno alimentando protagonismo, fama e fortuna, ao invés de procurar harmonização sensata em matéria de conflito de direitos ou interesses. Eis a razão dos absurdos e excessos ideológicos dos tempos modernos e da mediocridade do espaço público, no qual a contenda gera leitores, audiência e votos.
Obrigada por terem lido. Boa semana.
Publicado inicialmente na plataforma Medium a 14 de Outubro de 2024.