Imagem do Jornal Económico.
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Fernando Medina disse na segunda-feira no espaço de comentário na TVI24 que “com maus chefes e pouco exército não é possível ganhar esta guerra”.
Imagem do Jornal Económico.
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Fernando Medina disse na segunda-feira no espaço de comentário na TVI24 que “com maus chefes e pouco exército não é possível ganhar esta guerra”.
Imagem do Observador.
«Os sindicatos da Função Pública entendem que o teletrabalho no Estado passa necessariamente por maiores remunerações ou bónus na progressão da carreira, segundo o Jornal de Notícias.»
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Desculpem os termos rudes, mas só me apetece agarrar nas fuças destes gajos e esfregar-lhes a cara na realidade da pobreza. Roçar-lhes a fronha na precariedade e nos salários baixos do sector privado, no desemprego, na mendicidade e no desespero de quem não tem para comer. É ultrajante, a lábia.
Para que tenhamos noção do que estamos a falar, leia-se esta notícia de Janeiro último.
«O ganho médio mensal bruto dos trabalhadores da Função Pública era de 1.730,80 euros em abril de 2019. Um valor 45,68% acima da média da totalidade dos portugueses, que se situava em 1.188,10 euros, segundo os últimos dados divulgados pelo Ministério do Trabalho, a que o Jornal Económico teve acesso.»

Imagem daqui, onde podem aprender um pouco sobre estas ervas medicinais. Aqui têm mais informação.
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Tive a fortuna de conhecer a Glória, uma mulher do campo. Andaria nos sessenta quando eu era criança. Altiva, de pele branca, carrapito na cabeça e olhos muito azuis. Não se podia dizer que fosse um primor de asseio, mas era uma mulher absolutamente extraordinária. Daria uma complexa e rica personagem de romance. Analfabeta, era a mulher dos sete ofícios. Ajudante em restaurante e cozinheira em casa particular. Jornaleira e jardineira. Distribuidora do pão pelas aldeias. Bruxa e curandeira temida pelas gentes de toda a redondeza, a quem recorriam quando tudo mais falhava, mas logo maldiziam à primeira oportunidade. "Matou-me as galinhas todas só de lhes botar aqueles olhos", asseverava uma conterrânea. Mais do que tudo, e pelo constante trazer e levar de novidades, o Jornal de Notícias lá do sítio, como a conhecíamos em casa. Mãe solteira, mulher de má fama, de quem se contavam histórias de arrepiar, hoje impronunciáveis por atentarem aos mais invioláveis valores.
Segui os seus gestos e palavras quando amanhava a horta e tratava do jardim. Fazia a melhor broa de milho que algum dia comi. Gostava de a ver amassar a farinha, das rezas e da benzedura. Ao seu lado, imitava-a e ajudava a fazer as mini broas individuais. Vi como preparava o forno de lenha, com as achas em brasa. No Outono ia com ela colher cogumelos. Os sentieiros, como os tratava (tive que mandar uma mensagem por whatsapp para que me recordassem este nome, esquecido com o passar dos anos; a tecnologia também serve para estas coisas). Sabia distinguir os bons dos venenosos. Examinava os anéis à volta do caule. E o reverso do chapéu para confirmar se a zona dos esporos era em folho. Confiámos em absoluto. Nunca falhou.
Sorrio quando me lembro da luz que saía daquele impressivo rosto ao afirmar: laranjas não posso, de manhã ouro, à tarde prata e à noite mata. E de toda a expressividade teatral com que nos disse: por estes olhos que a terra há-de comer que não sei da faca, enquanto se nos dirigia empunhando e gesticulando a dita. E eu ria cúmplice: mas está na sua mão. Alegro-me quando recordo as vindimas e como preparava a sopa de lavrador nas panelas tripé de ferro ou as sardinhas fritas sobre a broa. O manjar dos deuses.
Conhecia as mais variadas ervas medicinais. Sempre que era preciso uma mezinha, a Glória trazia a planta certa para o chá certo. Secava-as e mais tarde pendurava-as na porta no quarto onde dormia quando era preciso lá dormir. Quando não era punha-se a caminho, já noite feita, pelos carreiros entre as matas. Corajosa, nada temia. Eu dizia-lhe que levasse o cão. Ela respondia que sim, que ele ia. Não sei quem guardava quem. Os cães respeitavam-na. Todos a respeitávamos. Era uma sábia.
O chá (não me apetece usar o rigor da infusão) de mentrasto era a mezinha que mais tenho memória de ela usar. Confirmo que, entre outras propriedades terapêuticas, ajuda na digestão e é analgésico.
Texto corrigido a 17/05/21.

Hoje antes das 9:30h, no escritório e já a tratar de assuntos de trabalho ao telefone com uma colega, oiço isto: “a Isabel tem jeito para má”. São 10:00h e ainda não recuperei, acho que levei uma cotovelada de aviso. Serei má?

Hoje, em frente ao local de trabalho e num percurso de cinquenta metros, fui abordada por quatro pedintes: três homens e uma mulher. Todos com ar de efectiva carência. No início do mês fui duas vezes à baixa e o cenário era idêntico. Apesar de sempre ter visto as ruas do Porto com mendigos, não tenho memória de uma vaga desta dimensão. É assustador. É impossível ficar indiferente.

Como aqui preconizava o cenário nacional (e nalgumas outras paragens do mundo) em matéria de recrudescimento do contágio por covid-19 está a piorar. Adelante, que a vida não pára por, infelizmente, ser provável que pare para muitos.
Sem inspiração suficiente para pegar na Odisseia, esta tarde resolvi atirar-me à resenha menos heróica e nada lírica (pensando bem, talvez seja) dos acontecidos no País e no BES (e satélites) feita por Ricardo Salgado em Março de 2015 na Comissão Parlamentar de Inquérito. Para além da exposição minuciosa e técnica das operações bancárias e comerciais com vista a salvar o banco da bancarrota, interessam-me sobretudo alguns apontamentos – às vezes laterais – que o autor fez para justificar o rumo dos acontecimentos. I. é, e como agora se usa dizer, a narrativa.
Começa por versar sobre as consequências da crise de 2008 e o efeito dominó da Lehman Brothers. A primeira nota a registar é a crítica velada à falta de intervenção pelos governantes norte-americanos. Depreendo do que leio que o banqueiro responsabiliza a omissão política pela falência. Ao ler o resto da declaração, e recordando o facto de ter havido um apelo ao Governo português de então para intervir no caso BES, confirmo que é essa a opinião de Ricardo Salgado. Na narrativa sobressai a ideia de que apesar do sobre-endividamento (pelo menos isso assume, comparando-o ao problema do País), o Banco era viável não fosse a recusa do Governo e da Troika em criar um «veículo comum ao sistema para alavancar as disponibilidades previstas no Memorando da Troika». Leia-se um centro de reciclagem de lixo bancário dentro do sistema bancário. Não confessado, porque para o autor «Este veículo não era um banco mau, já que os activos bancários seriam transferidos, devidamente provisionados. E cada banco participaria no capital do veículo na proporção dos activos transferidos.» Sendo públicas as práticas contabilísticas do BES, ficamos logo cientes de como seriam fabricados os números oficiais desse tal ‘aprovisionamento’.
A narrativa continua na mesma linha no que diz respeito à espoleta da falência. Sem o dizer directamente – a arte da subtileza – o autor atira a responsabilidade para o BdP por, em Dezembro de 2013, descobertas e reportadas imparidades no âmbito da ESI, colocar condições impraticáveis ao seu projecto de recuperação. Leia-se: o BdP impor a devolução do papel comercial num curto espaço de tempo.
A segunda nota é bem previsível e prende-se com a intervenção das consultoras financeiras internacionais. Por diversas vezes, o autor justifica – sem o dizer directamente - a lisura e boa-fé da sua actuação com referências ou mesmo excertos dos relatórios das consultoras. Foi com o apoio da Mckinsey que a Associação Portuguesa de Bancos apresentou a tal proposta (recusada) de criação de um veículo para emissão de obrigações a colocar no mercado ou directamente no BCE. E se foi na sequência de uma auditoria da PWC que foi reportado um passivo não registado na ESI (que obrigou o BdP a ordenar a devolução do papel comercial), também foi a PWC que se pronunciou, em Março de 2014, apesar deste desvio, pela viabilidade economia e financeira do GES e pela inexistência de imparidades na RIOFORTE. Por fim, foi a KPMG que atestou que as emissões de obrigações EUROFIN serviram para pagar dívida do GES detida por clientes, ou seja, para protegê-los.
Tudo entidades muito recomendáveis, que continuarão a auditar como se nada fosse. Senão vejamos. A Mckinsey a braços com um inquérito criminal nos Estados Unidos pela acusação de desviar para si fundos destinados aos credores das empresas auditadas. A PWC é perita em cortar relações com clientes quando a coisa azeda. Aconteceu com o BES e com Isabel dos Santos; continua com a marca de água do final dos anos 90. Com relação à KPMG, o BdP concluiu que violaram o dever de comunicação de factos e que prestaram informações incompletas e falsas quanto à filial em Angola – a BESA. Neste contexto, importa lembrar que Ricardo Salgado afirmou que o Governador do BdP declarou que situação do BESA estava assegurada por uma garantia do Estado Angolano, tendo-se esquecido de mencionar que havia créditos incobráveis por declarar do seu conhecimento e do conhecimento da KPMG, segundo descoberta posterior do BdP.
Entretanto, ficamos a saber que a ajuda das autoridades norte-americanas e espanholas tem sido crucial – ao identificar os nomes dos beneficiários venezuelanos das transferência através do saco azul do GES - para permitir que seja imputado o crime de associação criminosa, com o fundamento da suspeição de pagamento luvas a políticos e gestores de empresas públicas venezuelanas com vista à compra de dívida da ESI. E, mais recentemente, que o fundamento para a imputação do crime de associação criminosa parece sólido, uma vez que o MP está convencido haver fortes indícios de prática continuada e duradoura de alegados crimes de corrupção, branqueamento de capitais, falsificação de documento, etc. E, a ser verdade, não deixa de ser extraordinário que um Banco emita dívida, vendendo-a aos balcões para remunerar administradores e altos funcionários. É o que se chama fazer a coisa à descarada. Alegadamente, claro.
Enfim, bem espremidas foram estas as leituras significativas de Domingo. Às tantas, devia ter ido com Telémaco à procura de notícias de Ulisses, sempre abstraía das desgraças.

Imagem daqui, onde podem aprender um nadinha sobre tílias.
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A disciplina não é o meu forte. Além do que raramente cumpro uma das 382 promessas que faço por ano. Vivo cheia de intenções e hoje ao lembrar árvores e plantas que conheci, ocorreu-me começar a fazer posts sobre verdes. Mostrar árvores, plantas e flores, dar nome e associar as palavras que apeteçam, no momento. Sem cientificidade. Não tenho conhecimento para tal e para isso há espaços especializados em botânica. Naturalmente, a haver periodicidade será a do quando calha e pode até nem voltar a calhar; é assim para quem vive ao sabor do vento e das luas e não sabe respirar doutro modo.
Como não podia deixar de ser, começo pelas tílias. Cresci rodeada de oito tílias à volta de casa, mais três na rampa de acesso. Umas chegaram a celebrar os cem anos, outras não. Soltando a sombra da memória, foram tombando como só o passado sabe tombar. Para mim simbolizam o tempo, a família, a robustez e a paciência. E, porque não há bela sem senão, o empestado aroma adocicado no início do Verão. Mais do que tudo, sinto alegria e aconchego ao olhar para uma tília. Sinto-me regressar a casa.

Este Sábado foi dia de recebermos a minha sobrinha Pipa. E eu não queria, mesmo. Mas teve que ser, tenho que tratar bem as visitas, por isso preparei qualquer coisinha para ela comer.

Depois de se alambazar com o melão, foi-se recostar e bateu uma soneca.

Uma paz-de-alma, nem sombra do mau-feitio do pai Nico. ![]()

Fisherman's Walk Beach - Bournemouth, Julho de 1990.
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(uma vez mais: fotografias de fotografias.)

O medo paralisa e, sabendo disso, a magnífica máquina que o pescoço sustenta desdramatiza. Banaliza o perigo para que possa com ele conviver e sobreviver. Levanto-me todos os dias preparada para rir com patetices ou irritar-me com pequenos nadas, como se a vida fosse eterna. Se só me pesasse a consciência da finitude, que sentido faria escovar o cabelo se logo em seguida ele se desgrenha? Dar um beijo ao Nuno sabendo que um dia não nos teremos? Convencer clientes que mais adiante se eclipsem? Regar as plantas que acabarão por murchar? Falar ao telefone com os meus pais, sabendo que de cada vez que estou com eles os posso contaminar? Sorrir cúmplice com meus irmãos, sobrinhos e amigos in loco, no whatsapp ou email, julgando que os posso perder? Partilhar e ler opiniões e desabafos na internet, acreditando que tudo terá um fim?
A carapaça de juízo que nos impede de sentir a realidade com crueza integral faz-nos melhores. Dedico-me às tarefas diárias com afã, para ter tempo para os pequenos prazeres diários. Nem dou pelo coronavírus quando ao entrar no autocarro puxo a máscara um pouco para cima para tapar o nariz, por trazê-la tanta vez descaída na rua. Ou se a volto a pôr ao sair do gabinete para cirandar pela empresa. Ao tirar os sapatos ou lavar as mãos quando entro em casa, ou ao esfregá-las com gel desinfectante à entrada no escritório. Todas estas rotinas são feitas por mim – e pela maioria das pessoas, creio – sem a presença constante do gume da navalha encostada ao peito. Seria o inferno se vivêssemos em permanente estado de alerta.
Esta magnífica máquina que o pescoço sustenta – que às vezes desconfia da magnitude da tragédia -, permite que vejamos os sinais do recrudescimento da pandemia e que tenhamos cuidados reforçados sem nos deixarmos amedrontar. É a vida. Tenhamos o jogo de cintura necessário para enfrentar este cobarde coronavírus, que leva sobretudo os nossos mais velhos e indefesos. Saibamos protegê-los, vivendo com sensatez e coragem o agora.

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Não é má vontade, mas talvez fosse preferível que o líder do PAN, em vez da biodança, em vez das práticas estimuladoras da emoção, criatividade e prazer de viver, investisse naquelas que despertam o respeito pela opinião dos outros, pela coerência entre discurso e acção e pelos princípios democráticos. Digo eu, que sendo uma ditadora não teria lábia de me aventurar a criar um partido.
Estas psicologias baratas, estas biodanças, fazem lembrar a moda das acusações contra as pessoas tóxicas. Quem mais se queixa são pequenos tiranetes, que não sabendo o que querem da vida, procuram resolver-se ao infernizar e culpar os outros por todas as suas frustrações. Esta é a grande matriz do PAN: a frustração.
E todos sabemos o mal que vem ao mundo quando quem ressabia ganha poder demais.

Há um equívoco muito comum: confundir bom português, razão e comunicação inteligente com eloquência. Ora a arte de bem falar ou escrever e saber convencer os outros - a técnica - pode estar a milhas de distância da verdade e da bondade.
É desejável que quem foi fadado com o talento de se expressar com facilidade não se convença - enredado que fique no floreado da argumentação -, que é um oráculo da sabedoria. Essa terá de ir buscar ao carácter e ao coração, mais do que à técnica.
É muito bom encontrar gente que congrega as duas: técnica e sabedoria. É o ideal. Mas na hipótese de se ter que prescindir de alguma delas, o elo mais fraco é a técnica. Esta ao serviço do erro causa maior dano do que a sabedoria amadora.

*
Sem artifício,
nem intriga
piso o mundo
em pontas,
sem herança
nem vindouros.
Cansa-me
o enredo.
Dos dias
guardo
tão só
labor relaxado
e do ócio
o vigor
imaginado.
Brotam anos
de mesmice.
E memória
de antigas rotinas,
à distância sentidas
grandes façanhas.
Para lá dos laços
apertados
que me atam
aos amados,
natureza, casas
e bichos,
resistem, ora teimosas
ora volúveis,
as ideias.
E sempre
incerta crença
de falhar o rumo,
essa tal
fonte de alerta.
É isso.
Resta só, sólida,
a eterna vontade
de desenlaçar,
guinar,
e partir.
(actualizado a 24/6/20)


Ainda que virtualmente, do terraço do Hotel Continental ou da janela do Hotel Presidente, desejamos a maior das sortes
aos nossos amigos angolanos. Estamos felizes.
Vinha pelo caminho no autocarro a ver os sites de meteorologia e a cismar: então está sol no São João? Onde está a morrinha? Os sábios das previsões só indicam céu aberto. Mas como? São João que é São João é com morrinha.
Cheguei ao escritório, procurei o mar e percebi que se escondeu. Sosseguei.

Sei que isto vai levantar durante o dia, mas tenho esperança que à noite virá de novo para me dar a certeza que tudo é como sempre foi. Bom dia.

Nenhuma simpatia me anima na figura de André Ventura e no Chega, mas não posso deixar de ver a sua existência e quiçá o crescimento como uma espécie de desforra da agenda dominante da elite política nacional e da comunicação social. Dos quarenta e seis anos de discurso benevolente com o marxismo-leninismo do Partido Comunista e vinte anos de apoio descarado ao ideário marxista-trotskista do Bloco de Esquerda.
Nas últimas décadas raramente o discurso preponderante nos jornais e na intelectualidade pôs em causa o extremismo ou radicalismo destes partidos. O facto do PCP recusar sistematicamente a demarcar-se dos regimes opressivos da Coreia do Norte, de Cuba ou da Venezuela foi visto como faits divers para preencher espaços humorísticos ou de curiosidades dos jornais. Nem o acesso privilegiado - o lobby - de militantes e simpatizantes do PCP a lugares e cargos na função pública alguma vez foi escrutinado. Pelo contrário, era promovido e amiúde elogiado, sobretudo nos meios culturais. Vícios que o Bloco de Esquerda também aprendeu a enfermar ou a matriz não estivesse tão próxima, apesar das pirraças e derivações ideológicas. Realidades nunca expostas na prosa dominante da comunicação social. A mesma que também não consegue perceber e denunciar a leviandade com que o Bloco de Esquerda aborda a economia, desprezando os seus principais agentes – trabalhadores, empresários e empresas – reduzindo-a à figura paternal do Estado Providência que amealha e distribui rendimento - dinheiro, essa massa abstracta e etérea que ora nasce na árvore das patacas ora tem origem na malvadez de medonhos capitalistas – e dos cidadãos beneficiários de protecção.
Ainda bem que esta afinidade - da comunicação social e dos meios intelectuais e académicos com voz no País -, aos partidos mais à esquerda tornou a coabitação em democracia possível. Distanciou-os da imagem original de radicais esquerdistas, elevando-os à categoria de partidos do sistema, até ao ponto de, em 2015, passarem a fazer parte da solução governativa – com um pé dentro e outro fora, no melhor dos mundos.
Agora não estrebuchem quando da outra ponta do arco político aparece um partido radical de direita. É a vida. Para uma acção há sempre uma reacção. E o Chega, mais do que uma manifestação tardia da onda das novas direitas radicais europeias, é uma reacção ao desequilíbrio existente no País há quarenta e seis anos, que (apenas) se tornou evidente em 2015.
Os últimos cinco anos impuseram uma mudança. A partir do momento em que a esquerda radical deixou de apenas pesar na sociedade civil, passando a ter peso na acção legislativa e nas decisões governativas, impondo uma agenda identitária e de maior centralização dos poderes do estado, deixou de ser possível à direita fazer de conta que não via, como fez nas últimas décadas.
Mesmo os jornais conotados com a direita – e não me venham com a treta que não existe esquerda ou direita ou que é esta é uma visão redutora, porque se há coisa que os últimos meses têm mostrado à saciedade é que a dicotomia não é uma abstracção e que o excesso de preciosismo terminológico e semântico tem como efeito útil único não se dizer o essencial e o inteligível para a maioria das pessoas – como, no passado, n' O Independente entretiveram-se sempre mais a destruir a direita do que a denunciar os vícios da esquerda. Uma espécie de temor reverencial às conquistas de Abril e o medo de ser rotulado de salazarista ou fascista fez com que muitos seres pensantes do burgo fechassem os olhos ao laxismo, à incompetência e a amiguismo socialista, ao mesmo tempo que não perdoavam qualquer demonstração de falta de estofo intelectual e ou de etiqueta a Cavaco Silva. Nem, claro, de qualquer erro na acção governativa. Tivéssemos nós uma imprensa com o mesmo vigor e rigor ao questionar a acção dos governos socialistas e das iniciativas dos partidos mais à esquerda e estaria bastante mais sossegada.
Não questiono a necessidade de investigação de todo o acto governativo, das suas razões e das suas consequências. Este escrutínio faz parte dos alicerces da nossa democracia. É sempre saudável ver uma comunicação social atenta à corrupção, aos erros e incongruências na governação. O que não posso aceitar nem justificar é que essa especial atenção seja muito mais branda e cúmplice quando vai na direcção dos partidos mais à esquerda, que haja maior pudor quando os visados são socialistas, comunistas e bloquistas (e queridos animalistas, claro).
Por tudo isto não deixa de ser com ironia que leio a doce entrevista sobre o Chega a Riccardo Marchi, publicada no Observador. Uma entrevista na qual o autor demarca o partido da velha direita radical ideológica – dos fantasmas do fascismo e do nacionalismo - e na qual refuta quase todas as críticas pesadas que são feitas ao Chega. Mas, sobretudo, em que define o novo partido como um partido reformista e perfeitamente enquadrável no regime democrático. Nem por encomenda André Ventura podia pedir mais. Os ventos, por agora, sopram favoráveis. Imagino quanto espuma a esquerda ao ler uma entrevista assim.
Seria bom que no PSD lessem a dita entrevista e começassem a dar corda aos sapatos, que se faz tarde. Digo isto com a maior das franquezas, até porque gostaria muito de ter razões para votar no PSD nas próximas eleições legislativas.

A reler por estes dias. No primeiro alguma dificuldade a entrar na linguagem, mais do que nas ideias (sempre nobres e clarividentes). No segundo a curiosidade de constatar o apagão geral na memória, depois de há treze anos ler lido (creio que não terminei) e anotado esta mesma edição de letra miúda da Europa-América. A pouca recordação que sobrou da narrativa é pobre e mais antiga, das versões juvenis.
Fica agendada a compra em Setembro, na próxima Feira do Livro, de edições mais cuidadas da Ilíada e da Odisseia. Até porque a idade já não ajuda e, depois de uma vida de forte miopia, começam os primeiros sinais da popular vista cansada.


E como o peixe em casa da mãe não puxa caroça, há que convidar o pai para lanchar cá em casa.


A prevenir a hipótese de na próxima terça-feira ao jantar faltarem sardinhas, mimo de Sábado em casa da mãe, que até o cheiro odeia.

Gostei de ler Não tem uma estátua, mas quem sabe se não terá!, da /i., no Perspectivas & Olhares na planície.

Já passou mês e meio sobre o anúncio de Rui Pinto ter saído da prisão (para prisão domiciliária) por aceitar revelar as passwords dos discos encriptados e já passaram vinte dias sobre o anúncio pela Polícia Judiciária de Rui Pinto já ter ajudado a desencriptar. E nada de zum-zuns? Nem um escândalo daqueles que põe o País inteiro a dizer: é uma vergonha. Como se tratasse de uma novidade. Como se fosse facto desconhecido. E todo o amigo do peito do visado a manifestar o maior dos espantos antes de se pôr a milhas? Nada? Só indecorosas celebrações pela final da Champions ser em Portugal e o escamotear do recrudescimento da Covid-19?

Tem interesse perceber a história recente do Banco de Fomento, no Observador. Posso estar a tresler nas entrelinhas, mas contra a aparência das intenções o que retiro deste artigo, até que se demonstre que a garantia de crédito é operacional e directa, é que tudo continua inquinado e que o apoio imediato e eficaz às pequenas e médias empresas não é a prioridade desta entidade. Daqui concluo apenas pelo propósito de persecução de políticas públicas - cuja praticidade fica sempre por demonstrar - à custa do generoso financiamento europeu.
«"No início, quando esta questão começou a ser abordada, Finanças e Economia partiram de modelos quase antagónicos. As Finanças tinham por principal objetivo que os fundos estruturais tivessem uma única porta de entrada que fosse controlada e, de preferência tutelada, pelo próprio Terreiro do Paço. (…) Por outras palavras, o Ministério da Economia queria um Banco de Fomento para as PME e o Ministério das Finanças queria mais fundos para o Orçamento de Estado. Modelos obviamente antagónicos. Por isso, após meses e meses de discussão, estava tudo a postos para o caso de os Ministérios não conseguirem chegar a um acordo sobre esta matéria”.»
[...]
«O modelo inicial previsto não passou na Comissão Europeia, que só autorizou a primeira fase da IFD em outubro de 2014. O grande problema para a DGCom (direção-geral da concorrência europeia) em 2013 e 2014 eram as ajudas de Estado e a preocupação de que Portugal pudesse usar este banco para financiar empresas zombies, sem viabilidade económica. Também havia o receio de que o Banco de Fomento fosse usado para comprar dívida pública, como aconteceu com os bancos privados, numa altura em que Portugal tinha um acesso condicionado ao financiamento em mercado.
A DGCom limitou o Banco de Fomento a usar empréstimos de instituições como o BEI (Banco Europeu de Investimentos) para repassar esse crédito para as empresas, e tudo tinha de ser tudo autorizado pela Comissão Europeia. Estes entraves limitaram quase à nascença a ambição do projeto, o que se percebe no próprio nome. De Banco de Fomento passou a Instituição Financeira de Desenvolvimento (IFD), uma entidade que não se podia financiar nos mercados nem emitir dívida. Portanto, não era um banco.»
[...]
»Governo garante agora que a missão “não é a de substituição dos mecanismos de mercado, os quais são a base da intervenção dos bancos comerciais, mas de suporte às empresas e projetos de forte conteúdo inovador e com vocação para os mercados globais, através de uma capacidade acrescida de garantir crédito, de conferir maturidade ao crédito bancário e de participar em operações sindicadas”.
O banco de Siza Vieira pretende ser muito mais do que o banco preconizado por Álvaro Santos Pereira, já que se propõe “apoiar operações de consolidação e crescimento empresarial, projetos mobilizadores de transformação estrutural da base produtiva, setores económicos e empresas fortemente expostos à concorrência internacional de conteúdo estratégico para o desenvolvimento económico nacional. É claro que agora também vão disponíveis muito mais recursos financeiros europeus para executar as missões previstas.»

Diz a superstição que cocó de pássaro traz sorte. Gostava que os pássaros não me presenteassem com tanta sorte. Ontem, pela sexta vez na vida, fui atingida por caca de pequenas aves. É certo que sempre andei muito a pé e quem anda à chuva molha-se, mas caramba, já paravam. Começou na década de oitenta à porta da Loja dos TLP, no tempo em que se podia fazer uma chamada em lojas cheias de cabinas telefónicas. Foi na Praça da Liberdade. Na Praça, como tão só se diz no Porto, junto às árvores que desde sempre conheço naquele passeio onde ainda fervilhavam as rivais confeitarias Arcádia e a Ateneia. Essa foi a primeira vez e acertaram na cabeça. Seguiu-se outra no Verão de 1990, quando me sentava no Green Park, em Londres junto a Buckingham, e me preparava para almoçar. Castigada na manga da blusa branca, e face ao nojo que demonstrei, logo as inglesas divertidas zombaram e sugeriram que usasse a casa de banho da rainha. A terceira vez, que aconteceu nos primeiros anos do novo milénio, teve a original particularidade de ir contra as probabilidades. Na Rua Guerra Junqueiro, ia a fumar dentro de um carro no lugar do morto. Coloquei a mão de fora para dar aquele toque com o indicador para a cinza cair no chão (sim, cometia esses crimes) e tau, naquela fracção de segundo levo com a porcaria de pássaro nas costas da mão direita. Um par de anos depois, na Avenida da Boavista, voltaram a acertar na cabeça, com a agravante de quando já estava a sonhar com o chuveiro, que é tudo quanto se deseja quando estas coisas acontecem, enfio a chave na porta do prédio e vejo o Sr. Abreu, do Círculo de Leitores, à minha espera para entregar mais um livro da História Militar de Portugal. Pensando bem, era escusado, porque até hoje pouco os consultei. A quinta vez foi também na cabeça, em Agosto de 2016, na Rotunda da Boavista. Tal como ontem perto de casa e com a vantagem de terem acertado nos velhos óculos de sol que recuperei depois de nos últimos anos ter deixado cair e espatifado dois pares bem mais bonitos. Valeu-me o velho e preterido par de óculos reaproveitado, pousado no cimo da cabeça.
Para que fique registado e claro que tenho razões válidas para me dedicar a pensar nestas coisas conto ainda que não só já fui atacada por um crow traiçoeiro em Laidlay na Austrália (lá vi chamar crows a uma infinidade de passarada), como fui seguida por um pardal no Porto. No primeiro caso, tinham-me avisado que não deixasse de usar chapéu no percurso rural que fazia a pé entre a casa onde estava e o centro da cidade, por causa dos conhecidos ataques a pretexto de protegerem os ninhos. Mas mesmo com chapéu levei com o vôo nas costas a pique e rente à orelha esquerda. Deu para o susto. O do Porto, já aqui contei, acompanhou-me por largos metros. E refiro ainda que na relva do Observatório Griffith, em Los Angeles (onde se costuma ir para a infalível fotografia com as letras de Hollywood em fundo), recordo outro banal pardal me fazer sentir perfeitamente em casa. Gostava de lá voltar e ver tudo quanto não vi.
Tudo isto poderia ser mentira, mas é verdade e são coisas de quem repara na bicharada por ter crescido no meio rural, habituada à passarada, aos ninhos, aos ovos, aos pássaros feridos, ao piar, às formas geométricas dançadas no céu pelos bandos. E de quem se lembra da alegria do avô materno, velho e doente, quando na Primavera seguinte via regressar ao terreiro da casa a boeirinha perneta do ano anterior. Sim, eles voltam, mesmo os pernetas.
Além de tudo, e correndo o risco de provocar estranheza e desconfiança em mentes esclarecidas e desconsideração pela falta de bom senso e inteligência de quem escreve estas linhas, já me aconteceu duas vezes ter sonhos com pássaros, que serviram de aviso para maus momentos vividos por pessoas próximas. Sei, soa a bruxaria. Mas que querem, isto deve andar tudo ligado. Não sei como, nem porquê. Soa estranho, mas o mundo caminha todo ligado.

O futebol e o turismo são grandes negócios da Nação. Não quero ser desmancha-prazeres e bem sei que nada mexe tanto com o coração dos portugueses como o futebol, mas isto e isto com o uso da 'marca Portugal', além de material da mais pura propaganda política, é manifestação de um provincianismo a toda prova. Do Presidente da República e do Primeiro-ministro esperar-se-ia mais distanciamento e sobriedade. A verve vertida soa a feirante que promove a venda de pares de meias: não é um, não são dois, perdi a cabeça, são três, três pares de meias (perdão, estádios) por dez euros.
Se as mais altas figuras do País revelam esta elegância, não admira que vejamos (arrepiados) repórteres à espera dos turistas de cruzeiros para os fustigarem com perguntas sobre quantos euros vão gastar a comer, a dormir e sabe-se lá o que mais.