
Ao final da tarde caiu uma neblina cerrada no meu cérebro, ou talvez fosse no peito. E a humidade fria fez arrefecer os ossos e os devaneios. Espreitei na janela da cozinha para ver se as tíbias e os rádios do Porto tinham sofrido abalo, mas percebi que a cidade apenas pressentiu ao de leve o que me ia na alma. Fez-se incerta e coada a luz, nem branca nem rosa. Nem amarela. Podia colher a claridade com os dedos e fazê-la escorrer, qual seda de ilusão, pela palma aberta da mão. Os lampejos de contentamento quanto mais belos e vigorosos mais cedo nos deixam caídos, assim prostrados no chão no meio do nada, nesta cidade em que a neblina cai no rio mais com o peso do granito, do betão e do ferro fundido do que como ar húmido rarefeito. É pedregulho pesado, denso, com história até aos primórdios dos tempos. Não brinca em serviço. Dói. E faz doer.
E nem posso dizer que é minha, a cidade. Pedi-a emprestada aos meus pais, o Porto à mãe, Gaia ao pai. Nem sei qual é a minha cidade. Suponho que não tenho senão esta por usucapião. Talvez por isso lhe seja tão agarrada. Dá-se o caso de ter ficado tão pouco tempo no bafo quente do forno de barro de Angola, depois de lá nascer, que seria ridículo chamar com propriedade a minha terra a Salazar ou N'Dalatando - nem no nome a vida é certa. Se assim fosse, e por maioria de razão, Felgueiras também seria a minha terra. E como impressiona o hiato de mundo que pode haver em sessenta quilómetros: o paraíso das árvores que ficou para trás e me faz lembrar o quanto o Porto era o centro do mundo e dos desejos. Tanto quanto é hoje o regresso às árvores. Nunca estamos contentes. Mais tarde seria Gaia a minha terra. Não fui longe. Mas esta tem aquele especial cunho do vinho a ter feito siamesa de fígado do Porto. Se um dia morrerem, morrerão unidas de cirrose à bolina de um rabelo.
Em Janeiro último, no meio dos mil e um planos que sempre esboço e conto, achei que iria passar alguns fins-de-semana da Primavera a fotografar a cidade, projecto sempre adiado. A estação das flores ficou-se pela corona e as fotografias foram para o brejo. Mas a Primavera fez jus ao uso e fez-se começo. E tudo o que desponta é belo. Promissor e ilusório.
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No próximo dia 15 – depois de uma semana de férias -, acaba o teletrabalho. Por agora e até ver. Foram três meses bons. De doce enlevo. Depois do choque inicial com o confinamento e do estrebuchar de velharias da memória - zangas que caem no esquecimento e regressam sabe-se lá porquê, se é certo que o sentimento não perdura -, o abrandar de vida permitiu que nascesse o empolgamento e boa disposição adiccional. Alegria. Mais escrita a metro, impensada, irreflectida. Publicada sem ficar em vinha d' alhos. Como quase sempre, talvez felizmente. Não tenho que ter remorsos sérios do que expressei sem medir nem calcular. Tal como não será mau se a vida se refizer e voltar ao rame-rame de sempre. É sabido que todos os doces enlevos têm um fim. E este não fugirá à regra.
Talvez no próximo ano se coloque a questão do teletrabalho de novo. E nessa altura aproveite finalmente – que talento a procrastinar -, para escrever a Quinta que de tão parada e há tanto tempo mais parece o Ponto Morto. Ou talvez não. Não sei. Raramente sei. Devaneio e projecto mais do que sei. Sempre. Agora compete-me focar no que existe e nas pequenas-grandes alterações do quotidiano, que permitam nova vida mais saudável. E não baixar os braços, aí sim. Não desistir do que tem pernas para andar. Em jeito de laivo melancólico percebo que esta foi época de gatilho. Saiba eu aproveitar e estar grata pelo balanço. E deixar este negrume feito névoa passageira para trás.
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P.S.1 - 19:00h O Nuno toca piano lá dentro. Em dia muito inspirado. Toca Yann Tiersen.
P.S.2 - 19:00h Não esqueci de ter agendado uma cronologia do coronavírus. Ela aparecerá. Não sei quando, mas virá.
P.S.3 - 23:00h Estou chateada comigo por ter escrito 'imaginas-te' em vez de 'imaginaste' no post 'Corridinho'. E este é o tipo de coisas miúdas que pode mudar fortemente a minha disposição.