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18/06/2020

Bafejada pela sorte

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Diz a superstição que cocó de pássaro traz sorte. Gostava que os pássaros não me presenteassem com tanta sorte. Ontem, pela sexta vez na vida, fui atingida por caca de pequenas aves. É certo que sempre andei muito a pé e quem anda à chuva molha-se, mas caramba, já paravam. Começou na década de oitenta à porta da Loja dos TLP, no tempo em que se podia fazer uma chamada em lojas cheias de cabinas telefónicas. Foi na Praça da Liberdade. Na Praça, como tão só se diz no Porto, junto às árvores que desde sempre conheço naquele passeio onde ainda fervilhavam as rivais confeitarias Arcádia e a Ateneia. Essa foi a primeira vez e acertaram na cabeça. Seguiu-se outra no Verão de 1990, quando me sentava no Green Park, em Londres junto a Buckingham, e me preparava para almoçar. Castigada na manga da blusa branca, e face ao nojo que demonstrei, logo as inglesas divertidas zombaram e sugeriram que usasse a casa de banho da rainha. A terceira vez, que aconteceu nos primeiros anos do novo milénio, teve a original particularidade de ir contra as probabilidades. Na Rua Guerra Junqueiro, ia a fumar dentro de um carro no lugar do morto. Coloquei a mão de fora para dar aquele toque com o indicador para a cinza cair no chão (sim, cometia esses crimes) e tau, naquela fracção de segundo levo com a porcaria de pássaro nas costas da mão direita. Um par de anos depois, na Avenida da Boavista, voltaram a acertar na cabeça, com a agravante de quando já estava a sonhar com o chuveiro, que é tudo quanto se deseja quando estas coisas acontecem, enfio a chave na porta do prédio e vejo o Sr. Abreu, do Círculo de Leitores, à minha espera para entregar mais um livro da História Militar de Portugal. Pensando bem, era escusado, porque até hoje pouco os consultei. A quinta vez foi também na cabeça, em Agosto de 2016, na Rotunda da Boavista. Tal como ontem perto de casa e com a vantagem de terem acertado nos velhos óculos de sol que recuperei depois de nos últimos anos ter deixado cair e espatifado dois pares bem mais bonitos. Valeu-me o velho e preterido par de óculos reaproveitado, pousado no cimo da cabeça.


Para que fique registado e claro que tenho razões válidas para me dedicar a pensar nestas coisas conto ainda que não só já fui atacada por um crow traiçoeiro em Laidlay na Austrália (lá vi chamar crows a uma infinidade de passarada), como fui seguida por um pardal no Porto. No primeiro caso, tinham-me avisado que não deixasse de usar chapéu no percurso rural que fazia a pé entre a casa onde estava e o centro da cidade, por causa dos conhecidos ataques a pretexto de protegerem os ninhos. Mas mesmo com chapéu levei com o vôo nas costas a pique e rente à orelha esquerda. Deu para o susto. O do Porto, já aqui contei, acompanhou-me por largos metros. E refiro ainda que na relva do Observatório Griffith, em Los Angeles (onde se costuma ir para a infalível fotografia com as letras de Hollywood em fundo), recordo outro banal pardal me fazer sentir perfeitamente em casa. Gostava de lá voltar e ver tudo quanto não vi.


Tudo isto poderia ser mentira, mas é verdade e são coisas de quem repara na bicharada por ter crescido no meio rural, habituada à passarada, aos ninhos, aos ovos, aos pássaros feridos, ao piar, às formas geométricas dançadas no céu pelos bandos. E de quem se lembra da alegria do avô materno, velho e doente, quando na Primavera seguinte via regressar ao terreiro da casa a boeirinha perneta do ano anterior. Sim, eles voltam, mesmo os pernetas.


Além de tudo, e correndo o risco de provocar estranheza e desconfiança em mentes esclarecidas e desconsideração pela falta de bom senso e inteligência de quem escreve estas linhas, já me aconteceu duas vezes ter sonhos com pássaros, que serviram de aviso para maus momentos vividos por pessoas próximas. Sei, soa a bruxaria. Mas que querem, isto deve andar tudo ligado. Não sei como, nem porquê. Soa estranho, mas o mundo caminha todo ligado.