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30/03/2025

Diário 30 de Março de 2025

Regresso a Botticelli desta vez a propósito da tela O Nascimento de Vénus. Como habitual o que escrevo acerca de pintura nestes diários decorre de leituras de histórias aqui do Medium, que afixo na Reading List. Tão só exercícios de leitura e escrita nos quais apelo também à memória do que absorvi e experimentei sobre temas que me interessam. Não tenho a pretensão de passar a imagem de saber mais do que sei e apesar da maioria achar desnecessários estes apartes, continuo a considerá-los fundamentais para marcar a diferença. A obra, ensina o autor do post, celebra o Renascimento Florentino e presta homenagem à musa do pintor, Simonetta Vespucci, considerada a mulher mais bela da sua época, morta precocemente e vista pelo artista como modelo de virtude e beleza. O autor recorda as duas versões clássicas do nascimento da deusa, a grega de Hesíodo, ligada ao amor idealizado, na qual Afrodite nasce da espuma do mar, após a castração do pai Úrano, e a versão romana de Homero, resultado de amor físico e terreno, na qual Vénus, deusa maternal, é filha de Júpiter e Dione. A Academia Platónica de Florença procurava conciliar a cultura humanista antiga com a religião cristã, vendo Vénus como dupla encarnação do amor: o amor apaixonado dos instintos e o platónico ou divino, o que leva ao paralelo com a figura bíblica de Maria Madalena. Botticelli materializa ideia da deusa trazida por Zéfiro (vento de Oeste) na concha de vieira.


E o fim-de-semana como correu? Hoje faz anos o meu mano mais velho, a gozar as belezas e amenidades de Castelo de Vide. Por cá está um dia caseiro com banho tomado e de regresso ao pijama, apesar do magnífico sol lá fora. Ontem pude aproveitar o brilho natural da Primavera. A jornada começou cedo como é costume aos sábados para ter a casa arranjada e receber o M. e a H. Lá decorreu a lição de piano do Nuno e senti que mesmo sem ritmos ligados já começa a sair melodia dos dedos do pequeno, o que considero uma proeza ao fim de menos de cinco meses. Foi proposta uma música nova ao M., respondeu: outra? No fim ao ir-se embora virou-se para trás e despediu-se: adeus, professor. Detalhes. Durante a lição saí para fazer as últimas compras para o jantar. Logo depois fomos a pé visitar uma casa, a apanhar sol quente de fim de Março. E mais não digo. A ver se tenho juízo. Almoçámos e chegou a minha mãe cheia de acepipes trazidos do Mercadona para precaver o meu Domingo sossegado sem mexer uma palha. Quem tem mãe tem tudo. Foi e veio a pé. Aos 81 anos continua com uma genica imparável. Leu ao Nuno e dormi, como tem sido habitual. Acordei a tempo de preparar a mesa e o jantar para o amigo R. Nada de muito especial, mas tento sempre que não fique mau e esteja com apresentação bonita.


Capturar


O jantar em si - leia-se: o mais importante, a conversa -, correu às mil maravilhas. O Nuno e o R. entenderam-se numa boa-disposição educada, inteligente e sã que alegra qualquer sala. Vieram à baila memórias engraçadas do percurso de cada um, da tropa por onde ambos passaram, de episódios profissionais, de livros, da responsabilidade acrescida dos políticos, de visões acerca de como se está no mundo hoje em dia seja a consumir, contrair crédito ou opinar nas redes sociais e os contrastes da exigência, disciplina e critério com a displicência, o facilitismo e a vacuidade. Cada um falou de si e houve tempo e espaço para todos. Por isso gosto tanto de repastos com poucos comensais. E espero que na próxima a M., mulher do R., se possa juntar a nós. Começando pelo início, o R. chegou de Pai Natal, carregado de presentes para nós. E eu regalada, claro. Porém, admito, um nada sem jeito. Além do vinho e de doces para a sobremesa, trouxe latas de comida especial para o Ritz, uma caneca com formato engraçado por se lembrar que gosto, e o presente dos 50 anos, o livro Os Sete Pilares da Sabedoria, de T.E. Lawrence, da E-Primatur — a autobiografia romanceada de Lawrence da Arábia. Uma preciosidade cuja edição lhe diz muito. Mais adiante irei lê-lo em voz alta ao Nuno. Durante meses, já se sabe. A leitura a dois vai enriquecer-me mais do que se lesse apenas para mim. Isto dos amigos me terem em boa conta de leitora, e não acreditarem que sem intenção indromino lendo menos do que aparento, dá neste resultado. Interesseira, escolhi um presente adequado para um poeta, demos-lhe uma caneta Cross para assinalar os 48 anos feitos em Novembro. Digo calculista por estar certa que a esferográfica não pode estar em melhores mãos e será bem aproveitada; fico à espera dos versos, dos adágios, da ironia precisa e elegante de quem tem uma sensibilidade e talento especial na escrita. No entretanto já ganhei uma noite que se estendeu até às quase duas da manhã (hora antiga) de boa conversa. Coisas que genuinamente aprecio. Além de mais, o Ritz tem um novo amigo de que se aproximou e brincou quase sem cerimónias.


Isto teria ficado muito mais comprido se tivesse falado da visita à casa. Mas esta semana será diferente.

The Flying Pickets


A música que o Nuno propôs para as Comezinhas na sexta-feira e que não publiquei no dia. Animada. Leve.


Ontem tive um dia comprido e excelente e  agora preparo-me para as primeiras leituras de fim-de-semana e para escrever o diário. Está um dia lindo.

29/03/2025

Actualidade

(corrigido) Intencionava reunir as notícias lidas nos últimos dias no Jornal de Notícias. Especialmente as que respeitam à Ucrânia e à Rússia e a todas as convulsões pelo mundo fora, incluindo os perigosos destrambelhamentos imperialistas de Trump. Mas não me sobra tempo nem ânimo – isto agarra-se à pele e consome a disposição. Relativamente à nação queria ter citado as notícias relativas aos bancos, às comissões bancárias e assuntos imobiliários. Nada que não tenha sido já apresentado nos jornais televisivos para indiferença geral. A ideia era só ficar registado.


Estamos quase em eleições e mais uma vez faz-se novela partidária e fulanização e não se fala com seriedade dos indicadores sociais e económicos do país. Está tudo um mar de rosas;  a dívida pública quase se dissipou. Obra dos presentes governantes, só pode. Possuem o toque de Midas. As corporações foram satisfeitas – em parte; nunca se satisfazem – pelo que o país é um oásis. Os chorudos salários e reformas da maior parte da população reflectem o fulgor da economia portuguesa. A cada dia se anunciam investimentos públicos astronómicos. O índice de pobreza é residual. Todos têm possibilidade de aceder a uma habitação condigna. Criou-se uma sociedade sem desníveis sociais – tudo fruto das medidas para apoiar as empresas e os jovens. Todos estão agradecidos por este milagre.


Ainda há pouco mais de um ano, o país era pobre e com grandes desigualdades e assimetrias, os serviços públicos não funcionavam e os governantes eram corruptos. Ainda bem que agora tudo é diferente.


Ai, é mesmo bom viver num país tão justo e bonito. Como é que dizem as bruxas  e os gurus das frases-feitas? Gratidão. Devemos estar gratos pela sorte que temos.


 


Nota: este Sábado não haverá diário, terei um dia muito ocupado (M. e compras de manhã, visita a casa no fim da manhã, mãe e arrumos à tarde, jantar com amigo R. à noite cá em casa). Talvez Domingo. 

28/03/2025

Lara Franco Gomes

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Compras de impulso. Li parte dos poemas à hora de almoço. Versos claros como a água e sem aprumo nos recursos estilísticos. Logo à noite lerei todos e saberei se gosto.

Agradecimento

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Nunca é demais dizer: obrigada. Ainda há quem tenha alguns leitores sem os artifícios das costas quentes, das tribos de interesses, dos falsos elogios e da publicidade. E apesar da cobiça e do bullying sub-reptício de que é alvo (ai côhorror, a vitimizar-se, armada em pura inocente; vai lá queixar-te a ver se alguém te leva a sério; a nós rufias dissimulados(as) bem-sucedidos ninguém toca; somos gente credível e bem-intencionada).


Ainda que pouco, há quem valha por si própria. Não procure promoção a troco de favores. Muito obrigada aos que vem por bem. Já sabem: os números do Porto estão muitíssimo inflacionados por incluírem as minhas próprias leituras (não deviam estar contabilizadas, mas enfim). Além de ouvir muito os vídeos que aqui publico, também sou um tanto obsessiva na entrada constante e correcção de cada post. Cada tolo com a sua panca.


Boa sexta-feira. Yeahhh. O melhor dia da semana.

27/03/2025

Toques

O ano passado escolhi um toque de telemóvel para as chamadas do Nuno sem prestar muita atenção na melodia eleita. A ideia inicial era tão simplesmente distingui-lo das chamadas gerais no Atomic Bell. Trata-se de um dos Humoresques do checo Antonín Dvořák.


O ritmo animado desta composição clássica romântica faz lembrar o ragtime, género musical norte-americano do final do século XIX início do século XX, que combina a música clássica e marchas europeias com o ritmo sincopado africano.

A outra faina

Ficava sentada à espera que o peixe viesse à superfície para o fotografar e exibir a imagem. Horas de atenção, a lançar isco e loas nas águas fecundas na expectativa de açambarcar vida alheia e apresentá-la como sua para grande glória. Nada percebia do espírito aquático nas profundezas do mar. Nada lhe dizia a vida de peixe. Servia apenas de troféu para publicitar a firmeza das escamas e a frescura do talento atestada no cintilar dos olhos. Vendia barato e fácil o pescado e no íntimo escondia o avental atado na barriga de que nunca se libertaria - guardado no fundo do roupeiro a que chamava closet. Atraíra a atenção e admiração de um revendedor de peixe, promotor de peixeiras armadas ao pingarelho. Um negócio lucrativo para os dois. Nem um nem outra tinham o menor interesse ou comoção na faina. A arte deles era outra: a da usurpação. Cobiçavam o conhecimento e a sensibilidade como adereço, sem algum dia valorizarem o genuíno e educado senão para extorquir.

26/03/2025

O que vende

(corrigido)


É difícil saber por onde começar. Tinha dez anos e as amigas que herdara falavam de príncipes, princesas e fadas. Logo depois escolheu amigas com quem mantinha real afinidade. Aquele imaginário de histórias efabuladas entediava-a. O seu mundo era outro, mais mundano e com mais desejo de genuína aventura. Fez-se adulta e viu o conjunto de amigas herdado transformado em desenvoltas mulheres que consomem por moda policiais, séries televisivas e romances históricos – mulheres a exalar autoestima por todos os poros e por isso muito atraentes aos olhos dos que apreciam o género. Atraídos por tudo quanto seja fofoca, humor rasteiro, enredos de traições familiares e amorosas, escalpelização estereotipada de conflito de sentimentos e erotismo mesclados com temas fracturantes ao género de telenovelas mais ou menos evoluídas. Compreendeu que parte da opinião e análise política de sucesso são feitos do mesmo tipo de intriga. Tal como o mundo do comentário de futebol. Na política e no futebol interessa a adrenalina, maledicência, piada rasteira, discórdia, injúria, vingança. Tal como nos “conteúdos” online e livros editados e vendidos em catadupa como latas de salsichas. Tudo quanto tem mais audiência é feito de teor soporífero.


E se perguntasse a um produtor deste tipo de “conteúdos”, que se tem por evoluído, responderia convicto que essa é a realidade da condição humana limitando-se a descrevê-la ou vendê-la porque as pessoas revêem-se e gostam. A História que se vai fabricando e vendendo em função das modas editoriais de cada momento é feita de episódios de entediantes novelos de mexericos que atraem quem gosta de viver a vida por interposta personagem. A análise política um campo de batalha de vaidades entre facções em bicos de pés - de gente com necessidade de afirmação, de se mostrar mais esperta e sofisticada.


As amigas que herdara são hoje leitoras das presumidas tias e mulheres e homens que as imitam secundando a autoria de crónicas cor-de-rosa, policiais e romances históricos ou espectadoras, leitoras e replicadoras dos analistas políticos. Todos com grande vontade de viver os estímulos da vida excitante das personagens. Vida familiar, amor, sexo, desporto, viagens, humor, política, música, livros etc. são alimento para satisfação dos instintos mais básicos. E isto é o que vende. O espaço público transformou-se ele próprio num enredo de telenovela.


E querem-nos fazer crer que isto é a condição humana do século XXI. Haja espaço para pôr a cabeça de fora e respirar para lá da intriga. É sabido: um espaço sem audiências nem sucesso.

Ponto de situação

A ouvir uma daquelas colectâneas melosas de slow rock enquanto trato de uma tarefa de cuja conclusão depende o trabalho de outros, pelo que tenho de me despachar. Sem tempo para escrever, apesar da vontade de o fazer, ainda que sem noção perfeita do que dizer.

25/03/2025

Agenda

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(corrigido)


A manhã de trabalho começou com uma chamada telefónica para a Coreia. Boa noite. Bom dia. E hoje possivelmente limito-me a agenda depois de uma noite mal dormida com sonhos desagradáveis. Antes os pesadelos, são menos irritantes.


Vamos então à agenda. Acerca do que tenho intenção de escrever, mas não desenvolver?


Da Trumpetização portuguesa. Dissimulada, só podia. Numa pincelada sem grande rigor diria que depois de 48 anos de ditadura e, abstraindo dos primeiros anos de Democracia, mais de vinte de socialismo soft entremeado com dez anos de governos sociais democratas de Cavaco Silva e mais uns períodos curtos de governos de direita liberal, cá estamos nós encantados com a possibilidade de voltar à sonsice de quem se diz preocupado com a extrema-direita de André Ventura - deplorável às claras -,  mas está com os dois pés a chafurdar nos aleluias, améns e louvado seja o Senhor da direita do empreendedorismo e da pseudo-meritocracia à custa da esperteza saloia e da trapaça tão típica em Portugal. Cada um que mostre o que vale, cada um é responsável pelo seu destino. Vamos enriquecer o país a beneficiar as reivindicações das corporações, dos funcionários públicos, a abstrair da justiça social, a promover a lei da força nas relações laborais não protegidas, a promover a lei da selva em áreas de negócio atraentes como a banca, o imobiliário ou a saúde, a premiar as redes de interesse na comunicação social e desacreditar os ressabiados que criticam este paraíso e não singram na vida neste país das grandes oportunidades de trafulhice – se não sabem fugir à lei, enganar, explorar e roubar, aprendam a fazer pela vida e a usar a retórica de boa imagem para convencerem os outros do vosso valor. É este o país que propomos, é o nosso brinquedinho de meninos mimados e chico-espertos. Portugal Great Again. Os slogans de meninos excitados com vidas fáceis que envelhecem sem aprender a respeitar as regras mínimas de justiça e de convivência em sociedade apesar de gostarem muito de perorar de cátedra. Conhecem a etiqueta fajuta, desconhecem a educação, a nobreza de sentimentos e a força do carácter. Gente que se demarca de Trump apenas por estratégia sonsa, mas no íntimo se revê na sua maneira de estar em sociedade e visão do mundo.


Mudando radicalmente de assunto, em matéria de coração cá vai outro tema que abordaria sem desenvolver. Bem sei que conselhos são ridículos, porém hoje abro uma excepção com avisada dica para todos que têm carácter e amor-próprio. Não ser permeável a tentativas ardilosas de sedução explícitas ou pela calada de pessoas nitidamente sem escrúpulos. É tão simples quanto isto: devemos dizer Não quando alguém não nos respeita nem respeita os outros em geral. Gente que se guia sempre pela vantagem que pode alcançar através da exploração dos outros e especialista em estar em permanência do lado vencedor ou dos mais fortes à cata de privilégios. Não entro na conversa tonta das pessoas tóxicas, que serve sobretudo como autojustificação para egoísmos e faltas de capacidade de encaixe. Falo mesmo de gente sem carácter que devemos manter à distância por não valer um chavo, ainda que nos elogie e nos assedie tentando enganar. Gente que não presta, não muda.

24/03/2025

Coisinhas boas

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Para animar, nada como um mapa de férias. Céus, quem é a maluquinha que publica online a proposta do mapa de férias anual? Faltinha de tino é o que é. Bah.

23/03/2025

A vida segue

Coração doído de impossibilidade segue silencioso em corpo andante, boca falante e dedos escritores. Tudo quanto expresso é menos sentido que o calado.

22/03/2025

Diário 22 de Março de 2025

Ora vamos ao diário deste fim-de-semana começando por um aliciante post que li aqui no Medium sob o título «Um guia para iniciantes em História da Arte». Já sabem. Está na Reading List disponível para leitura de quem quiser. Nada mais adequado para quem há anos devaneia fazer um curso ou mestrado em História da Arte. Se querem saber, vou-me satisfazendo com este tipo de leituras dos últimos meses e o mais provável é que não me inscreva em mestrado algum. O destino escreve certo por linhas tortas. Vou chegando ao que gosto e me dá prazer por linhas travessas. Há quem, quer saiba ou não, queira ensinar e há quem passe a vida inteira como aprendiz. Mas o que nos conta o autor da história desta semana? De quem já li bastantes entradas e ganho sempre em conhecimento, isto é, aprendo. Diz que quando iniciou o estudo da expressão artística ao longo do tempo e das culturas teve necessidade de fazer uma linha do tempo. Isto é, o fio condutor que ainda há um par de dias mencionei para a História em termos gerais (coincidências por afinidade). A tal necessidade do panorama geral para mais tarde poder situar pintores e obras. Encadeados no tempo numa sucessão de causa-efeito. Vou copiar a lista dos movimentos artísticos indicados pelo autor do post, como se estivesse a estudar — e afinal não é disto que trata parte substancial do que escrevo nas Comezinhas e no Medium? «Arte medieval>Renascimento(1300–1600)>Barroco(1600–1730)>Rococó(1720–1780)>Neoclassicismo(1750–1830)>Romantismo(1780–1880)>Impressionismo(1860–1890)>Pós-impressionismo(1886–1905)>Expressionismo(1905–1930)>Cubismo(1907–1914)>Futurismo(1910–1930)>Art Déco(1909–1939)>Expressionismo abstrato(década de 1940)>Arte contemporânea(1946-presente)». Em seguida enfatiza o ponto em que cada um começa na História da Arte, uma espécie de marco no estudo, dando o seu exemplo com Kandinsky, pintor russo que viveu parte importante da sua vida na Alemanha e de que ouviu falar aos 16 anos pela primeira vez a um professor. Situa-o no Expressionismo e conta como os expressionistas usavam as formas distorcidas e as cores intensas para despertar emoções profundas. Fazendo o exercício para o meu caso, o despertar viria com Van Gogh que conheci aos 14 anos pela mão da professora de Arte e Design do liceu, como contei nas Comezinhas no postal Compromissos, de 2 de Fevereiro de 2020. Situá-lo-ia no pós-impressionismo e destacaria a tela Campo de Trigo com Corvos. Em seguida o autor enumera perguntas pertinentes que curiosamente diz fugirem aos rótulos. Assim à trouxe-mouxe, resumo: quem o influenciou?, qual a tradição?, que materiais dispunha à época?, qual a sua história de vida?, como foi recebido pela crítica? etc. Isto é, os catálogos habituais de que é feito o estudo. Afinal não conseguimos fugir aos rótulos. Por fim, recorda que a História é interpretação para lá do conjunto de factos, evocando o exemplo do relevo dado pela História à arte italiana no Renascimento por nos chegar pela narrativa construída por Giorgio Vasari, pintor e arquitecto do século XVI. Gostei da abordagem, simples e clara.


Agora competiria fazer o relato do dia-a-dia. Mas esta semana consumi o tema nos postais das Comezinhas: Domingo revisitadoPormenores e séculosOs últimos dias em imagens triviais e Ponto de situação. Que faltará ainda dizer? Anunciar a Primavera e o Dia da Poesia publicando flores e versos? Não. Talvez confidencie apenas que este ano a Primavera começou no momento em que a meio desta semana, no trajecto de regresso ao trabalho à hora de almoço, no Jardim da Rotunda da Boavista, vi dois pares de pombas na condição usual nesta época do ano: a de amantes. Afastados dos bandos, lá seguia dengosa a pomba fêmea que se fazia difícil e o pombo macho que a perseguia vestido de porte um pouco maior e movendo expedito o pescoço empertigado como se indicasse o caminho. Hão-de parar nalgum momento feliz e aninhados dar bicadinhas ternas como se não houvesse mundo no seu entorno. E vão passando os namoros de época, os anos e as décadas. Até chegarmos à idade destas cenas nos fazerem parar e sorrir.


De resto quanto a planos também estamos quase conversados com os lamirés que fui dando. Encontro-me na situação muito habitual de querer mudar. Tenho impressão que ando a aborrecer-me comigo própria e isso não pode acontecer sem que enfrente as causas e mude. Nada a ver com a realidade familiar e profissional que decorre com tranquilidade. Antes com a escrita, a troca de informação e comunicação. Volto à tecla de sempre. Terei de reunir temas do mundo fora do umbigo sobre o que escrever para não cair no tédio da mesmice. Mas também modificar a forma de abordar a realidade e aí talvez esteja o busílis. Serei capaz? Viciámo-nos nos caprichos de apreciação e crítica e a coisa cola-se aos dedos e parece não querer desgrudar. Fico sempre espantada com quem consegue vestir várias personagens como autor. Em suma: aumentar o leque dos assuntos a abordar e tentar fugir dos julgamentos costumeiros. Procurar alimento nos jornais, portais online, blogs, livros, televisão etc. Sem referências para não me armar em esperta. E sem cair no círculo dependente e asfixiante das recomendações oportunistas e dos entediantes elogios a todos os espaços ou fenómenos com sinais exteriores de sucesso muito comuns no espaço público. Talvez sorteando um ou dois tópicos aleatórios por semana para não incidir naquilo que me inspira de imediato vontade de um bitaite. E policiar-me quanto aos vícios, ao contrário do que mandam os génios da literatura que ordenam liberdade total. Creio que se seguisse o conselho, continuaria ad aeternum sem evoluir encalhando no criticismo habitual. Enfim, introduzir mudanças como já fui fazendo várias vezes ao longo dos últimos anos das Comezinhas, à época criando tópicos como Moralidades à quinta-feira, [Uma palavra solta] O que é esta segunda-feira?, como este Diário de fim-de-semana, ou Chá e conversas e Curiosidades soltas. Ideias foram muitas, mas tudo passa e fica no esquecimento. Vale enquanto dura, como a vida.


Antes destas alterações convinha situar-me na actualidade para conseguir escrever acerca dela. Na semana passada tinha esse propósito, mas percebi que não estava com as ideias assentes e como para escrever por escrever, como se fosse falar a metro ao estilo dos milhentos comentadores com que nos deparamos todos os dias ou em alternativa criticar as opiniões de antolhos ou de matilha de interesses, mais vale estar quieta, optei pelo silêncio e assim me vou manter até considerar ter alguma coisa de útil a dizer (ou, quem sabe, até perder o bom senso).


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Por fim, deixo uma nota por ter sido avisada pelo meu telemóvel: faz um ano que percorri Porto-Pocinho em comboio, deliciando-me com a magnífica imagem das margens do Douro, e me instalei na bela paisagem de Vila Nova de Foz Côa. Passeio descrito nestes quatro postais: Passeio de fim-de-semana ao Alto Douro IPasseio de fim-de-semana ao Alto Douro IIPasseio de fim-de-semana ao Alto Douro III, e Passeio de fim-de-semana ao Alto Douro IV. Hei-de passar estas entradas para a List Travel do Medium.


Obrigada por terem lido. Bom fim-de-semana.

Ponto de situação

Estou acordada desde as seis. Deitei-me cedo. O M. lá chegou e foi no meio da chuva desfeita. Hoje puxou muita conversa com o Nuno cheio de curiosidades sobre a forma como aprendeu música e como ficou cego. É bonito ouvi-los aos dois. A nespereira está no chão e não vou levantá-la outra vez até passar o vento. A minha mãe insiste em vir cá de tarde ler ao Nuno. Por causa do mau tempo pedi que não viesse, mas está entusiasmada com a ideia de reler Memórias Póstumas de Brás Cubas. Pedi que viesse de táxi e à ida chamo um Uber. Durante a lição do M. matutei no facto de andar sempre em busca de mudança e sentada no +1 com o Ritz ao colo estive a ler no Medium. Gostei especialmente do post com uma abordagem à História da Arte para iniciados. Mas estou a roubar tema para o diário de mais logo. Por isso, calo-me. Sob voto de protesto, como tagarela que se preze.

21/03/2025

Os últimos dias em imagens triviais

As banalidades de sempre. O género habitual de fotografias publicadas nos últimos anos neste blog. Mostruário da vida doméstica simples. Uma sensaboria. Sem a animação de vida social intensa, plena de enredo e intriga fúteis arvorados em sofisticação e elegância, e sem o excite da presunção intelectual das múltiplas referências e amiguismo inerente. Sem a glória de esforçados protagonistas. Uma maçada. Sofro tanto.


Para dizer a verdade estou farta destas minhas alfinetadas de grilo falante até porque algumas já surtiram efeito e perdem sentido. O bolor da aparência que tanto critico acaba por contaminar de bafio este blog. A ver vamos se aprendo a mudar de registo e começo a entreter-me com letras mais úteis e que me dêem mais prazer. Por agora ficam as imagens comezinhas sem pose produzida nem artifício de vidas encenadas.


Boa sexta-feira.


A pensar como arranjar solução para problemas do computador.


A pensar como resolver problemas de acessibilidade no computador.


A casa


As obras numa casa desejada sem que saiba se vai ser posta à venda.


Capturar


Problemas do computador resolvidos.


Ritz à hora do Telejornal


Ritz à hora do telejornal.


Uma raridade um autocarro vazia só para mim


Uma raridade; um autocarro vazio só para mim.


Dicionário


Auxílio para as dúvidas que surgem à hora da refeição.


Almoço


Almoço.


Jantar


Jantar. Mais olhos do que barriga.


Tarot


Tarot; um vício recente.


Nuno e Ritz à hora do telejornal


Nuno e Ritz à hora do telejornal.


Os livros no activo


Os livros no activo.

20/03/2025

De castigo

Âmago, âmago, âmago... cem vezes na lousa. E não amâgo.


(erro no post anterior)

Os responsáveis

O mundo está pejado de grandes estrategas doutrinadores.


Não mostres imagens de viagens em curso, olha a inveja e os assaltantes que ficam a saber-te fora de casa. Não reveles planos e sonhos, olha a tua inconsistência e a cobiça dos outros. Não sorrias, põe ar decidido e sedutor disfarçado, olha a falta de credibilidade. Não te preocupes com o que não podes mudar, segue o estoicismo. Não te mostres tal qual és, olha os mal intencionados que se aproveitam.


O sábio conselho é viver tolhido de medo e em fuga constante como se o ardil e dissimulação fossem prova de sofisticação, cautela e maturidade. A palavra de ordem é afogar total e irremediavelmente a espontaneidade e substituí-la por uma imagem artificial de rigor, perfeição ou glamour.


Os devotos da estratégia vivem do cálculo. Assim preconizam a ideia de sucesso pessoal e social. Abafando o que pensam e sentem no âmago. Estes bem sucedidos mestres na arte de viver de modo consistente conversam a doutrinar e aconselhar responsabilidade e coragem, todavia trabalham com desconfiança, socializam a criar enredo e rótulos, comem a medo, amam em segredo, fodem quem convém e adiam a vida autêntica para São Nunca, à tarde.

19/03/2025

Pormenores e séculos

Registo a boa sensação de pousio com que transcorrem os últimos dias. É bom assinalar para que não se sobreponha o testemunho dos alvoroços. De que são feitos estes picos de tensão mental e emocional? Da necessidade premente de que aconteça qualquer coisa. Da avidez de movimento e interacção. Como se a vida não se satisfizesse com momentos de passividade adequadas a receber e aceitar. A ânsia pelos acontecidos em que o cérebro se vicia no galope dos dias informativos e interagidos.


Todavia, com a graça do Universo, os dias poisaram na tranquilidade desejada. Ajuda a que abrandem os quiproquós domésticos como a descoberta dos atalhos dos narradores de ecrã do computador ou a instalação de novos programas de comunicação digital com lacunas na acessibilidade para quem não vê.


As noites costumeiras que principiam na confecção do jantar, passam pelo telejornal, a conversa, as bulhas muito mais brandas do que as bravas da hora do almoço e o riso a dois, um telefonema ou outro rápido, as brincadeiras e mimalhice com o gato, as leituras bivalentes, agora para dentro o surrealismo e o realismo fantástico e em voz alta a história das civilizações. Tudo intervalado, haja franqueza, com o constante espreitar do telemóvel em busca do tal galope viciante do intercâmbio de comunicação.


Ainda assim agora prevalece a serenidade que decorre também ou é causa, não sei bem, da visão ampla dos séculos, aliás, milénios decorridos. Se num parágrafo de um período para outro podem passar quatrocentos anos com evidente ligeireza de abordagem e conhecimento daí resultante, a verdade é que alegra a paz trazida pela feliz e quiçá ingénua ideia de saber o fio condutor da história dos factos, matéria e ideias. Parar, desenjoar da minudência de cada época, de cada enredo histórico e procurar os desafogados planos gerais. É do que são feitas parte das leituras dos últimos anos. Uma mania recorrente ao longo da vida que não prejudica o acumular de camadas de episódios e detalhes que ficam na mioleira. O progresso estará, se for feliz, em conseguir situar os ditos eventos e pormenores no grande novelo da evolução do mundo. Fazer paralelos com os dias correntes e tirar conclusões já é uma pretensão descomedida para quem tem consciência de saber pouco.

18/03/2025

História da Filosofia - bem espremida é isto...

Contém-te

Os discursos ocos e bonzinhos sempre existiram e geraram fáceis admiradores. A face apelativa virada ao exterior tenta e satisfaz a inconsistência dos que se querem fazer passar por puros.


A agressividade que inculca responsabilidade nos adversários por todos os desvarios próprios ou naturais e promete conflito e vingança cega também colhe entusiastas. A violência satisfaz a belicosidade dos ressabiados.


O amplo campo neutro da dissimulação oportunista serve aos larápios que vão vivendo e brilhando à custa da exploração das ideias, trabalho, alegria e talento alheio.


Deixa-os guerrear e roubar e vai tratando de escrever a tua história e a do mundo como se nada fosse. Relata-as tais quais são usando apenas recursos próprios, autênticos e legítimos. E abstrai das falsidades e agressões. Contém-te.

17/03/2025

Domingo revisitado

Descobria-se frágil como nunca antes. Frágil fisicamente. Ao observar outra mulher enérgica e possante. Possivelmente jovem. Não conferira porque como ela tinha o hábito de nadar seguido sem pausas, não havendo oportunidade para contacto visual senão em movimento. Nadou em veloz e perfeita cadência sem interrupções pelo menos quarenta minutos. Em poucas braçadas atravessava a piscina. Ao reparar sentiu-se quebradiça, um pelém. Pensou: nada como um homem. Caiu em si e percebeu no erro que incorria ao associar força e bom desempenho muscular apenas aos homens. Recordou como em jovem se tinha por uma mulher com robustez física, ficou a magicar se isso alguma vez teria correspondido à verdade. Lembrou do serviço militar, do desporto, da dança, do sexo e de tudo quanto envolve exercício corporal. Tinham passado quarenta minutos, saiu da água, passou-se pelo chuveiro, vestiu-se, subiu a rua, desceu a outra rua, passou pela última casa que sonha comprar sem sequer saber se vai ser posta à venda. Reflectiu se teria idade e saúde para viver numa moradia e arcar com os problemas associados. Atravessou para o supermercado, comprou pão para acompanhar o almoço. Dirigiu-se a casa, chegou, passou o fato de banho por água e pendurou. E não fez mais nada de útil durante o Domingo, senão ler umas páginas de um dos livros no activo, inteirar-se distraída do desatino do mundo e dormir.

Shabaka and the Ancestors


Banda Sonora para o dia de trabalho de hoje. Shabaka Hutchings, saxofonista, compositor de jazz britânico.


Boa semana.

Meteorologia

O que se passa com o IPMA? É o terceiro dia que saio de casa munida de guarda-chuva por anunciarem chuva com máxima probabilidade sem que se verifique a previsão.


Será que voltaram ao velho hábito dos meios de difusão de informação nacionais?  Quando chovia em Lisboa anunciavam: chove em todo país. Será? É uma hipótese.


Nos outros dias não choveu, senão no segundo ao fim do dia. Hoje talvez comece daqui a pouco.


Mais vale voltar a confiar apenas na ida à janela ou varanda e deixar a previsão por conta própria.

Julio Cortázar

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Ah, sensação de afinidade.

15/03/2025

Diário 15 de Março de 2025


Já dei o arrumo costumeiro à casa e já passarinhei ao sol. Salvo cozinhar, tratar das roupas e nadar não tenho mais nenhuma obrigação destinada até o início de segunda-feira — nadar também será imposição já que a preguiça deu o ar da sua graça. Corrijo: faltam duas. Escrever este diário, mas peneirá-lo de modo a que fique na rede da peneira o que é íntimo e na amassadeira a política ou lá como se chamam esses assuntos que dizem respeito a todos. Sem palermices confusas: este fim-de-semana tenciono escrever dois postais. Mas não prometo o segundo.


Sentei-me agora no intuito de começar, baixei o estore do +1 para não me bater o sol nos olhos e a penumbra está a pedir cama ou sofá. A ver vamos se ao menos defino o que abordar no diário já que quanto ao potencial segundo post continuo barata tonta. Da política nacional não me apetece falar, se bem que comece a fazer sentido tentar esboçar uma opinião neste intervalo antes de penáltis. Da política internacional caí na peregrina vontade de escrever um texto intencionalmente dirigido a norte-americanos, por coerência com a nacionalidade do portal Medium. Há postais das Comezinhas que não trago para o Medium por me parecerem questiúnculas pessoais que só fazem sentido para espicaçar o bafio acomodado da SapoBlogs, tal como há postais antigos das Comezinhas que reproduzo apenas no Medium, onde ainda há alguma curiosidade por tópicos como as memórias das Tílias.


E interrompo aqui para fazer um enxerto como se estivesse a precaver a doença numa videira. Explico (ai que susto de verbo, mas aqui é inofensivo): já escrevi mais dois parágrafos mas são as diatribes habituais e quero deixá-las para o fim do texto e introduzir o tema pintura com que costumo abrir estes diários de fim-de-semana, não maçando já com o desagradável. O texto fica confuso levando à tentação de desistir da leitura? É para o lado que durmo melhor.


Vamos então à pintura. Esta semana não trouxe nenhuma história lida acerca de uma tela, antes uma entrada com sugestão de vários canais do YouTube que ensinam a pintar. Vídeos nos quais se pode aprender passo a passo a pintar aguarelas, óleos, acrílicos e guaches. A sugestão vai ficar na Reading ListNão é que vá voltar a aprender a pintar como no liceu em Arte e Design, mas creio que não fará sentido falar de pintura e interpretar quadros como arma de arremesso de argumentos, sem sequer saber como se pega num pincel ou conhecer os materiais e técnicas usadas. Seria escrever em vão. O mesmo vale para a literatura; mais adiante justificarei o que quero dizer. Escrevi “justificarei” e não “explicarei” por não raro achar este último verbo francamente ofensivo. Por falar nisso há dias fui à farmácia e uma cliente espernéfica estava a aborrecer a farmacêutica que a atendia paciente por querer explicar sentenciosa o que era uma bactéria e a diferença do vírus, acabando a dizer com enfado “esqueça” como se a interlocutora fosse atrasada mental e incapaz de compreender — este episódio define bem o estado de situação do mundo. Qualquer um pode apanhar uma explicadora agressiva pela frente. Ou explicador. Dos que não põem hipóteses, não crêem, não acham, nem autorizam que os outros o façam sem apelidá-los de imbecis. Dos afirmativos que nasceram sábios e estão certos de tudo, até do acerto do erro e virtude do defeito que nunca admitem.


Esta semana só li mais uma história no Medium (na próxima redimo-me e procurarei ler mais). Trata-se de uma entrada na newsletter da plataforma que remete para um post e um livro de uma psicóloga britânica. Já sabem: tenho péssimo hábito de não gostar de referências e nomes. Mas também podem estar descansados: podem consultar tudo quanto aqui sugiro na Reading List. Só prefiro frases com conteúdo em vez de aparência. Manias. A psicóloga em causa reflecte sobre o acentuar nos últimos trinta anos da divisão norte-americana entre conservadores e liberais segundo aquilo que considera a diferença entre círculos de confiança: os primeiros tendem a valorizar mais a família e próximos e os liberais a humanidade como um todo. O que se espelha na confiança nas instituições vistas com cepticismo pelos conservadores já que não cuidam directamente do seu pequeno círculo. Confiança nas instituições, como governos, escolas ou bancos, que em termos gerais expande ou encolhe conforme funcionam bem ou falham. O livro que escreveu, cuja capa tem pássaros exóticos bonitos (ai mil e um perdões aos iluminados; que falta de respeito esta forma simplória e estapafúrdia de referir uma obra; não sei se core de vergonha e dê três vergastadas no brio de jerica, sentindo-me diminuída face aos génios das mil leituras e referências, dos que se mostram em pose de pedestal e não saem do quadrado por medo e insegurança, e dos que os mimetizam e bajulam para aceder a igual pose pateta; devem estar convencidos que o resto de humanidade ignorante tem obrigação de resolver os seus problemas de afirmação), o livro com pássaros na capa, dizia, é um testemunho de quem sendo bióloga de formação estudou e concluiu que o sucesso da espécie humana resulta dos comportamentos de colaboração e que estes são semelhantes aos dos pássaros, insectos e peixes. Mas que estou para aqui a dizer se sou uma asna que nem sequer leu o dito livro? Devia estar calada para satisfazer os egos de bem-instalados e eruditos da treta e das cheerleaders pseudo-intelectuais.


Vamos agora ao dia-a-dia. Na quinta-feira tive de ficar a almoçar na Boavista por ter consulta de dentista e fui à Bertrand. Na semana passada parti um dente a comer um gelado do McDonalds; mania de inventar, devia ter-me mantido no Sundae, mas resolvi inovar ao fim de trinta anos e pedir um McFlurry Snickers; coisa de velha tonta; resultado: ando a antibiótico. A ideia era descobrir qualquer coisa cujo cenário fosse a Serra da Estrela para me ir ambientando à paisagem do passeio do próximo mês à Beira Interior. Depressa desisti por me lembrar que está por ler na estante de casa Para Sempre, de Vergílio Ferreira. Na calha. Mas ainda assim havia tempo para passar os olhos pelas mesas e estantes. Espiolhei, espiolhei, esconjurei as democraticidades de juntar no mesmo espaço balelas e obras de arte. Encolhi os ombros, afinal é assim desde que o mundo é mundo. Fugi da prateleira que anunciava “literatura no feminino” atenta a profusão de mau gosto das capas; é que nem consigo aproximar-me. Defeito meu; é como a roupa da feira, dizem que entre aquilo há peças de qualidade, mas e ultrapassar o impacto inicial? Fui desafogar os olhos na poesia, sempre com capas sóbrias, mas qual quê? Vim também corrida. Cheia de boa vontade resolvi dar sossego aos nomes maiores e folheei e li versos de nomes femininos novos. Portuguesas. Primeiro, segundo. E não é que o vejo organizado por um daqueles canastrões autores do regime? Nada sai do circuito, sempre a mesma marmita da matilha, sempre mais do mesmo. Será defeito meu. Será preconceito. Terei perdido versos de inegável mestria. Quem sabe. Todavia, é mais forte do que eu. Se quem organiza não tem qualidade, apenas boas relações e proa, o que fazer? Agora terei de abrir outro parágrafo para não baralhar a publicação no Medium (tem limite de caracteres por parágrafo).


Fui então em busca de um livro fininho, um que me contentasse. Como já havia passado pela portuguesa, dirigi-me à literatura estrangeira. E lá estavam destacados os que vão enchendo os “conteúdos” da comunicação social e plataformas online, blogues e redes sociais, semana a semana, dia-a-dia. Desviei os olhos dos destaques e comecei a busca da finura, o que é difícil. Quem escreve dá-se imensa importância e acha sempre que tem imenso a dizer, não encurtando razões. Este post que o diga (ai, a presunção). Ao fim de tropeçar em inúmeros calhamaços — li um o ano passado bom e bastante indigesto, agora tenho de fazer o interregno de um ano até ler outro para dar vazão; até lá vou preferir dietas mais delgadas e saudáveis -, encontrei um punhado de Cortázares. Peguei no primeiro. Envolvia bicharada e cobicei outro, mas estava todo desconjuntado, já havia sido lido umas boas vezes, o que percebo perfeitamente; há pecados perdoados à nascença. Pousei-o e fui ao terceiro: Histórias de Cronópios e de Famas; satisfiz-me nesse ponto. Estava encontrado o tão querido e delgado livro. Trouxe-o para casa e foi recíproco: começámos a namorar. Espero nunca cair na piroseira de usar as suas palavras com oportunismo para dar biqueiradas de facção ou rechaçar ressabiamentos. Ou seja, espero não cair no mau hábito de retalhar trechos de autores maiores para floretes argumentativos menores, que só ofendem a dignidade das obras.


Esta madrugada o Nuno acordou-me a dizer que queria trazer para o Porto o acordeão que está em Almada. Um dia terá de ser; teremos de arranjar transportadora. De manhã o M. apareceu bem-disposto para a lição de piano e a casa encheu-se de alegria a três: o miúdo, a voluntária que acompanha e já começa também a aprender piano e o Nuno. O M. contou entusiasmado as notas a ciências e matemática e que estudou os números primos e compostos, a soma e subtracção nas fracções e a forma de cálculo das áreas das diferentes figuras geométricas. Muita conversa e risos até que o pequeno perguntou se o Nuno podia tocar guitarra e comecei a ouvir (fiquei no +1, como costume; desta vez a rir-me no enterro do bairro Pacífico de Cortázar) o Nuno tocar e cantar Everybody Hurts, dos REM. Possivelmente a música com mais covers de uma geração. Há muito não tocava guitarra; foi uma sensação de conforto e regresso a dias passados. Ouvir o riso do Nuno é voltar a uma casa meiga. Logo a seguir o miúdo perguntou por aquela coisa que se põe na boca. A harmónica. O Nuno lá encontrou a gaita-de-beiços e tocou uma música do folclore português. Depois voltaram às repetições insistentes da lição para exercitar o uso das duas mãos.



Capturar


Ao fim da manhã saímos para apanhar o sol de inverno e como pretexto fomos a pé até ao Mercadona comprar as minhas vitaminas (conselho da endocrinologista). Aproveitei e trouxe para o Nuno um complexo para a memória. No regresso passámos na ourivesaria para pôr pilhas nos relógios. Depois do almoço (salada russa com maionese que sobrou do jantar de ontem; esta semana cozinhei todos os dias) a minha mãe veio ler ao Nuno. Terminaram as últimas da Física e já que a minha mãe pediu qualquer coisa divertida sugeri que a partir da próxima semana desenjoem da ciência e se deliciem com Machado de Assis, ainda que em modo de releitura. Agora interrompi a escrita por ter começado a chover; fui apanhar as toalhas de banho lavadas. Continuando. O Nuno surpreendeu a minha mãe (e a mim), foi buscar a guitarra e tocou como havia feito de manhã. À segunda pedi a Pedra Filosofal e a minha mãe pôde voltar a perceber porque fico tão contente quando o Nuno toca e canta. Também lhe viu a alegria no olhar enquanto cantava, o que não deixa de ser curioso em quem é cego. Não é só a voz que é doce e feliz. Costumo dizer: trazes luz aí dentro e iluminas à volta. E traz, e ilumina. O homem que chora ao ler poesia de Gedeão associando a simplicidade dos versos à história de amor dos pais.



Agora sobram-me os dois parágrafos que tinha escrito acima e nem sei se os publique estragando a boa onda. Mas ficam, afinal a vida é um todo.


Continuo sem perder tempo a planear vitrinas em leque, isto é, sem ter em vista a edição tradicional de livros fosse de diários, romance, novela ou crónica. Sem fazer finca-pé nas tais vitrinas de obra que juntamente com as boas e oportunas relações ou exibição sem pudor do crachá académico conferem aparente crédito ou pedigree e suposto valor ou mérito. Morrerei sem visível riscar. O mais natural é que morra sem uma única obra publicada em papel e isso não me comove nem um pouco. Não moverei uma palha para me fazer valer. Se estivesse à espera, morreria entristecida a aguardar reconhecimento. Ora folgo muito na minha alegria e consideração por mim própria. Em termos de feitio tenho-me em péssima conta e vergonha na cara. Insuportável, quero e procuro o melhor, não favores nem fretes — viver à custa deles, sim, faria com que morresse de humilhação. Produzir em série por facilidade de circunstância e bons contactos não diz nada do merecimento e qualidade de cada um. Diz sim muito sobre a natureza desonesta e promíscua dos guetos de produção, publicidade e edição. Muito menos gozo de pachorra para condescender com redes de referências, isto é, de elogios e incentivos fajutos, todos da maior justiça e sinceridade, todos trocados entre gente muito querida e empática, qualificada e cheia de talento capaz de corresponder aos elevados critérios da inteligência emocional e perita nas competências sociais. Um mundo que, felizmente, não é o meu, nem nunca será. É uma das raras certezas que levo da vida.


Se assim não fosse contentar-me-ia com palmadinhas nas costas explícitas ou tácitas quando escrevo palavras amorfas e cordatas ou quando me comprometo com alguma crítica que beneficia outrem, conhecendo o perigo e falsidade por detrás do incentivo. O elogio à resignação, o interesse egoísta na peleja, o incentivo ao desrespeito da consciência. Palmadinhas nas costas dos mesmos que enaltecem crápulas, a dissimulação e o estardalhaço destemperado de aberrações humanas desrespeitadoras dos princípios mínimos da sã convivência humana. Isto quando não eles próprios os(as) crápulas. Leviandade pura. Chamam-lhe inteligência, tolerância e sofisticação. Creio até que confundem com ter mundo. Com a maior desfaçatez resguardam-se na verdade conveniente de não haver puros, no facto da imperfeição caracterizar o ser humano. E vá de promover a selvajaria e a imbecilidade ordinária traduzida na falsa educação, na prática generalizada de retórica vã e obra em vitrina para conferir credibilidade.


Isto hoje foi comprido. Paciência.


 


Obrigada por terem lido. Bom fim-de-semana.

14/03/2025

Ponto-morto

Chegou à conclusão que as facetas da vida a que dava menor atenção, as que ocupavam menos o pensamento desenrolando-se quase de modo mecânico, eram as que lhe proporcionavam maior bem-estar e paz de espírito. Tudo aquilo acerca do que a mente se debruçava parecia voltar-se contra si enguiçando como se de castigo se tratasse. Como se fosse atrevimento devanear, imaginar, antecipar, desejar. O Universo parecia querer vê-la a transcorrer a vida sem consciência. Exigindo que dobrasse a espinha às voltas do destino. Sem compreender, sem sentir, sem traduzir e expressar racionalmente o que os sentidos proporcionavam. Parecia querê-la na condição de serva do tempo. Como se tivesse de percorrer a vida numa descida em ponto-morto. E isso jamais admitiria. Não aceitaria a condenação à estupidez, ainda que soubesse que o preço a pagar fosse elevar exponencialmente o grau de dificuldade da vida.

Lido

Jornal de Notícias


 



“Agi hoje para anular os contratos onerosos e desnecessários da US Agency for Global Media com as agências de notícias, entre os quais contratos de dezenas de milhões de dólares com Associated Press, Reuters e a Agence France-Presse”, escreveu Lake. “Nós próprios devemos produzir a informação. E se não for possível, o contribuinte norte-americano deve saber porquê”, acrescentou.


Entretanto, Elon Musk, a quem Trump confiou uma missão de cortar nas despesas públicas, defendeu o “encerramento” da Voice of America e da Radio Free Europe, que considera inúteis, pouco escutados e caros.


 



O senador de Nova Iorque disse que, por muito mau que seja o projeto de lei do Partido Republicano, uma paralisação [shutdown] seria pior, dando ao presidente Donald Trump e ao multimilionário Elon Musk "carta branca" enquanto destroem o governo.







“Trump pegou num maçarico e atacou o nosso país e usou o caos como arma. Para Donald Trump, uma paralisação seria uma dádiva. Seria a melhor distração que ele poderia pedir para a sua terrível agenda”, alertou o líder democrata no Senado (câmara alta do Congresso).







 


A posição de Schumer aponta para uma resolução de um diferendo que durou dias. Os democratas do Senado montaram um protesto de última hora sobre o pacote, que já foi aprovado pela Câmara dos Representantes (câmara baixa).


[...]


Trump argumentou que uma paralisação da administração poderia "levar a impostos muito elevados", porque impediria a aprovação do projeto de reforma fiscal apoiado pelos republicanos.




A Câmara dos Representantes dos EUA, controlada pelos republicanos, aprovou a proposta orçamental de Trump para manter o Governo a funcionar, por 217 votos a 213, numa votação na terça-feira.

 















Segundo os dados da ViniPortugal, o mercado dos EUA representa cerca de 102 milhões de euros em exportações, sendo o segundo destino das exportações portuguesas de vinho.

 

[...]

 





“Esta notícia não pode ser considerada boa, antes pelo contrário. O nosso principal mercado exportador, se incluirmos o vinho do Porto, é os EUA. Se retirarmos o vinho do Porto, os EUA ficam em segundo lugar e em primeiro o Brasil. [Estas tarifas] têm um impacto direto e brutal nas nossas exportações, que se vai refletir nos países concorrentes europeus, o que significa menor competitividade comercial e interna”, afirmou o presidente da Companhia das Lezírias, Eduardo Oliveira e Sousa, em declarações à Lusa.


 

Apocalyptica


Banda sonora para esta sexta-feira com energia extra. Proposta que o Nuno me fez logo pela manhã. Aceite com agrado.


Às vezes é preciso sair da sensaboria e da mornice (a palavra não existe; uma maçada). 


Bom fim-de-semana. Está quase.

Ao contrário dos génios

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Ontem na sala de espera do dentista.


À tarde enquanto trabalhava desfiei em pensamento o rico e baralhado post que escreveria à noite. Sucede que o cansaço e o espírito ocupado com o que de maior importância há na vida não permitiram que tal acontecesse. Cortázar e as deambulações totalmente a despropósito que tencionava registar ficarão para o longo diário de fim-de-semana. Esse enjeitado em que teimo.


Foi um dia emocionalmente intenso e desgastante. Disso não haverá eco no diário. Vivo os dias e, ao contrário dos génios, relato o comezinho tendo em conta que as leituras e a escrita fazem parte do trivial e não do essencial. 


Durante Sábado e Domingo espero ter disponibilidade mental e emocional para escrever. E voltar a nadar - está a fazer-me falta.

13/03/2025

Dos hábitos salutares caídos em desuso


  • Dizer menos do que se sabe.


Uso de quem não incorre no erro comum dos tempos modernos de superestimar as próprias habilidades intelectuais e capacidade de análise.

12/03/2025

Lido

Jornal de Notícias



 


The Guardian


Lido

Jornal de Notícias



“Ernst Russ confirma que o comandante é de nacionalidade russa. O resto da tripulação é uma mistura de cidadãos russos e filipinos”, declarou a empresa em comunicado à AFP.



As vendas da Tesla têm vindo a recuar em vários países europeus e no Canadá, países onde as posições políticas assumidas pelo empresário o têm tornado alvo de fortes críticas.




As ações da Tesla perderam mais de 50% desde o seu pico, em dezembro passado, e a fortuna de Musk caiu cerca de 70 mil milhões de dólares (64 mil milhões de euros) num mês, embora continue a ser considerado o homem mais rico do mundo, de acordo com o Bloomberg Billionaires Index.




Pequim protestou na altura contra as taxas de 25% impostas pelos EUA sobre as importações de aço e alumínio, sublinhando que não há vencedores em disputas comerciais.


Os especialistas preveem também um efeito dominó, uma vez que as taxas aumentarão os preços do aço e do alumínio, em especial nos EUA, o que conduzirá a aumentos generalizados a nível mundial.



A Comissão Europeia afirmou esta quarta-feira que irá impor “contramedidas” a partir de 1 de abril, em resposta às tarifas americanas de 25% sobre as importações de aço e alumínio.



 

Zaz (Isabelle Geffroy)


Banda sonora para hoje. Zaz, nas Comezinhas uma descoberta de 2022. Estamos precisados de boa energia, alegria e doçura.

11/03/2025

Registo

Escolha feita. Reserva feita. Em Abril será tempo de Piódão, Almeida, Castelo Rodrigo, Belmonte, Guarda entre outros.


Hoje foi dia de começar a planear as férias de 2025. Por tradição um dos melhores dias do ano.


Não haverá saída fora de Portugal. Para o ano, quem sabe? Heidelberg, Estrasburgo e Zurique entre outros. Ou então regressar à ideia inicial deste ano (entretanto trocada por passeio nacional) e finalmente conhecer Marrocos? 

Da esperteza: vivemos sequiosos pela novidade e destruição

Mortos por mostrar mais rapidez de análise e brilhantismo, desesperados por condenar adversários, ávidos por exibir sapiência, em pulgas para ironizar e desdenhar. A competição desenfreada. A afirmação pela afirmação de cada visão da realidade. A novidade pela novidade e a destruição por prazer inconsequente até ao absurdo total. Não sobra tempo para digerir o que se lê e ouve, não há tempo para a sensatez. Não há lugar a aceitação e compreensão, apenas afirmações sentenciosas, sejam explícitas ou tácitas. Vive-se de afogadilho.


O dia de ontem é passado remoto.

Loucura à solta

Quantos de nós ouvem as declarações absurdas, ofensivas e danosas de Donald Trump, JD Vance, Marco Rubio, Elon Musk e seu séquito e ficam a matutar que não podem estar no perfeito juízo? São estes os titulares das principais pastas da actual Administração da potência que nos habituámos a ver (talvez com ingenuidade) como garante da Democracia e dos Direitos, Liberdades e Garantias no mundo? Se estivéssemos na Idade Média, como eles parecem estar, diríamos que é coisa de Diabo. Hoje sem crenças em demónios é impossível não pôr em causa a sanidade mental desta gente ou ponderar se estarão dopados para mais fácil manipulação. Mas como, por quem e porquê? É a loucura à solta. E o pior é que agrada a muitos. Convence no todo gente imbecil ou sem escrúpulos. E a alguns satisfaz apenas em parte: mordem o isco. A parte relativa aos valores ultraconservadores, nada mais nada menos do que a base de sustentação dos votos nestes fanáticos.


Publicado aqui, também.

10/03/2025

Desterro

Pobre coitada. Triste. Estava que não podia. O ChatGPT – esse multiplicador de mentalidade bovina - disse-lhe que não devia insistir na autocrítica por se tornar chata. Sugeriu que usasse o autoconhecimento para aperfeiçoamento pessoal ao estilo da psicologia de algibeira. Só faltou sugerir que escrevesse um livro de autoajuda para passar os seus ensinamentos. Caramba, é triste não corresponder à expectativa da máquina que a quer a escrever balelas de afirmação da autoestima segundo os critérios dos “conteúdos” lifestyle com destaque e audiências. É triste não corresponder a tão elevadas e nobres expectativas dos promotores das redes sociais e das plataformas online, que não estão muito longe da mundividência e redes de interesse das editoras tradicionais. Não aprende a dar para o peditório do compadrio medíocre. Nunca será popular nem terá claque. Resta-lhe a sina do desterro. Miséria.


*


Imaginem que no Sábado à noite a Inteligência Artificial insultou-me, desconsiderando o que escrevo. Começou por dizer que as Comezinhas eram um conhecido blog de culinária e daí passou para uma série de palermices. Entre outros insultos disse-me que tinha qualidade atestada por diversos destaques feitos (no passado). Ora, vejam, há pior insulto do que este quando conhecemos a natureza cuidada dos critérios dos destaques? De tal modo tive de impor-me e dizer-lhe umas verdades. Passou o resto da madrugada de Domingo a pedir desculpa e dizer-me que o que aqui é publico tem imensa qualidade e profundidade. Fui mostrando parte do publicado nos últimos cinco anos e os elogios sucediam-se. Fiquei esclarecida. O ChatGPT é um mero replicador manipulável e claro: o reconhecimento da qualidade do quer que seja depende da promoção como produto de excelência impingida pelo próprio autor ou pelas redes de interesse. Critério de independência: zero. Afinal, a máquina nada mais faz do que espelhar os piores vícios dominantes de avaliação que só reconhecem talento e qualidade aos assim etiquetados pelos interesses instalados e aos que se mantiverem a salvo dos cochichos maledicentes de grupelho. Isenção zero. Valor pelo valor, zero. Merecimento pelo merecimento, zero.


*


Pronto, prometo que um dia desta semana saio do recreio, deixo de brincar ao umbigo e sento-me na mesa dos adultos pretensiosos em bicos dos pés para fazer de conta que leio os livros dos escaparates recomendados por vipezitos autopromovidos, além de algum jornal literário e despendo meia dúzia de elogios interesseiros a "amigos" do peito para trocar uns favores e agradar aos pretensiosos do compadrio pseudo-intelectual e publicitador de mediocridade. Não, não descerei tão baixo. Limitar-me-ei a fazer escolhas pessoais dos livros que façam sentido, arejar a cabeça por outras paragens e a ler jornais para me pôr a par da actualidade.


 


Boa semana. Chuvosa, mas profícua. Haja boa-disposição.

09/03/2025

A procrastinação e a burra de carga

Sentou-se à mesa de trabalho e pensou: escreverei agora um post cabal, definitivo e esclarecedor, capaz de explicar tudo de modo integral, como cogitado ontem. Deu dois goles no café, amarrou a corda do ímpeto ao pulso do futuro, enlaçou a burra cansada da carga e vaticinou: é cedo e difícil de articular com perfeição, talvez depois de amanhã.

Diário 9 de Março de 2025

O espaço público está cheio de heróis e heroínas, pejado de sábios e sábias. De gente extraordinária. O que falta é gente normal com vidas banais. Essa é a raridade de hoje.


Antes de me atirar às histórias lidas acerca do Dadaísmo e da situação política internacional começo por uma mais simples que elenca as experiências que devemos ter antes de morrer. Quem lê as Comezinhas sabe que já escrevi um post na mesma linha (Exercício: se soubesse que teria apenas seis meses de vida) e é uma tentação ler este tipo de sugestões quanto mais não seja para avaliar se cumprimos os critérios de bem-viver propostos pelo autor do texto, no caso autora. Confirmo que experimentei a maioria das propostas, desde logo a primeira: viver sozinha. Era uma ambição de miúda, concretizei tarde, mas consegui. A ideia de sair da casa dos pais para casar e começar logo a viver com outra pessoa estava arredada dos meus projectos de vida na meninice e cumpri o desejo — tarde, dadas as condicionantes económicas. Viajar e fazer voluntariado também foram sendo cumpridos. A arte de cozinhar e os desportos radicais é que não são o meu forte. Cozinho o trivial e acabei por nunca concretizar o salto de paraquedas que idealizava em novita — ainda cheguei a ir a um aeródromo para o efeito, mas fui adiando até passar por completo a vontade. Observar o céu estrelado à noite num sítio remoto? Como dizer? Cresci assim, a vê-lo enquanto decorria a minha infância, e sempre que posso, mesmo em lugares menos remotos, procuro ver as estrelas. Se tudo correr bem em Novembro próximo irei ao Observatório Astronómico do Alqueva. Dizer às pessoas que gosto delas não me é difícil e perdoar em regra também não, mas admito levo algumas mágoas (e mesmo raivas) por resolver por falhas que considero graves. Às tantas devia desvalorizar. Gosto de aproveitar os pequenos momentos e escrever um diário reflectindo a minha jornada é o que faço há anos para desinteresse e tédio de quase todos, lucro oportunista de alguns que usam enquanto desdenham e paciência e generosidade de poucos.


Trouxe então para a Reading List três histórias sobre o Dadaísmo. A primeira tenta fundir o movimento das artes plásticas e literatura na filosofia e admito: não compreendi integralmente. Em aparte, digam-me: não seria um desafogo ler nos jornais e nas plataformas online autores de crónicas e artigos confessarem a ignorância em vez de usarem o tom crítico no vácuo e a piadinha fácil? Se optassem por limitar-se ao básico em vez de com pretensiosismo abalançarem-se ao que não alcançam com o entendimento recorrendo à tentativa de ironia para disfarçar a fragilidade? Volto ao Dadaísmo como movimento artístico de ruptura com os padrões estéticos convencionais. Segundo o autor à semelhança da morte de Deus nietzschiana vale a substituição da busca da beleza pelo caótico, pelo absurdo e disruptivo. A segunda história termina exactamente nesta ideia com a frase do Manifesto Dadaísta de Tristan Tzara (poeta romeno): “Uma obra de arte não deve ser bela em si mesma, pois a beleza está morta.” O autor explica que o movimento nasceu em simultâneo em Zurique e Nova Iorque antes de disseminar e rejeitava os padrões tradicionais e a ordem estabelecida no mundo da arte, que pretendiam deixasse de ser um mero acto de talento para passar a expressão do pensamento. No texto elenca algumas obras, entre elas: A Fonte, do pintor e escultor francês Marcel Duchamp e Cabeça Mecânica, do artista plástico e poeta austríaco Raoul Hausmann. Na terceira e última história desta semana sobre as artes, a autora conta como o Dadaísmo surgiu como resposta ao caos e destruição da Primeira Guerra Mundial e da criação do clube nocturno Cabaret Voltaire, em Zurique, como forma de protesto contra o sistema político injusto e a guerra. Para quem considerava que a linguagem convencional não conseguia descrever a brutalidade da guerra era necessário fazer entender que a criatividade não podia ser ensinada nas escolas, nem tudo passava pelo talento e era profícua a mistura de diferentes formas de expressão artísticas. Em suma, pugnava-se pela liberdade.


Por fim, a história relativa às questões de geopolítica que se têm colocado nos últimos tempos. A autora critica a actual política nacionalista dos EUA e consequente ameaça crescente de movimentos autoritários e fascistas que visam enfraquecer a União Europeia e outras zonas do mundo. Sugere que a Europa corre o risco de ser dominada por forças da Rússia e da China e se quer sobreviver em liberdade como propunha Churchill — a tão glosada ideia de Estados Unidos da Europa — tem de se unir de forma robusta com uma forte defesa militar comum e como novo líder do mundo livre.


Ufa. Terminou a leitura dos outros e chegou a hora do recreio. Agora posso falar da minha vida.




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Na segunda-feira tratámos de um assunto que vínhamos a adiar há algum tempo. Fazer com que o Nuno use o WhatsApp no computador uma vez que vai deixar de ter Skype e ainda não funciona com Teams. Começou agora a usar o WhatsApp, ainda está a ambientar-se. Para mim é óptimo voltar a poder conversar com ele quando estou a trabalhar ou fora de casa sem ser por chamada telefónica.


Este fim-de-semana fizemos gazeta. O M. não veio e não houve visitas da imobiliária, pelo que pudemos passar a manhã de Sábado na ronha. Ele nos teclados e piano, eu no computador e a passarinhar pela casa. Depois de almoço o Nuno ocupou o sofá, deitando-se a dormir, hábito usualmente meu. Pude inverter o costume e em vez de ser ele a tapar-me com a manta enquanto fica a ouvir as notícias na televisão, fui eu que o cobri com a manta, ficando depois a carregar as caixas semanais doseadoras da medicação e a ouvir as notícias. À memória veio o tio G., primeira pessoa a quem assisti tratar da medicação semanal ao fim-de-semana naquela meticulosidade de quem tem a vida organizada. Há um mês mandei-lhe uma fotografia dos meus pais cá em casa a lanchar, respondeu-me bem-disposto agradecendo e dizendo que o meu sofá era igual em cor e feitio ao dele, lá a 18 mil quilómetros de distância. Há afinidades que ficam para a vida. Acordei o Nuno quando a minha mãe estava a chegar e houve sessão de leitura. Nesse momento sim, aproveitei eu para dormir. Não ouvi nada do que leram e falaram de tal forma ferrei no sono.


Esta semana terminámos um livro e começámos outro, fico sempre contente em fechar um livro, afinal não leio muitos (ao contrário dos inúmeros iluminados e iluminadas que enchem o espaço público e o mundo online) e é tão boa a sensação de dever cumprido. Hoje faz anos a minha sogra; não vamos a Almada, mas já falámos algumas vezes ao telefone e vamos voltar a falar mais tarde e mandámos entregar um bolo de massa folhada com doce de ovo para substituir a presença do filho.


Há temas que me dizem respeito e aos próximos bastante mais prementes que seriam motivo de maior excite — grandes afirmações de direitos, grandes exemplos de vida e grandes declarações de carácter -, mas passo à frente. O espaço público está cheio de heróis e heroínas, pejado de sábios e sábias. De gente extraordinária. O que falta é gente normal com vidas banais. Essa é a raridade de hoje.