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26/03/2025

O que vende

(corrigido)


É difícil saber por onde começar. Tinha dez anos e as amigas que herdara falavam de príncipes, princesas e fadas. Logo depois escolheu amigas com quem mantinha real afinidade. Aquele imaginário de histórias efabuladas entediava-a. O seu mundo era outro, mais mundano e com mais desejo de genuína aventura. Fez-se adulta e viu o conjunto de amigas herdado transformado em desenvoltas mulheres que consomem por moda policiais, séries televisivas e romances históricos – mulheres a exalar autoestima por todos os poros e por isso muito atraentes aos olhos dos que apreciam o género. Atraídos por tudo quanto seja fofoca, humor rasteiro, enredos de traições familiares e amorosas, escalpelização estereotipada de conflito de sentimentos e erotismo mesclados com temas fracturantes ao género de telenovelas mais ou menos evoluídas. Compreendeu que parte da opinião e análise política de sucesso são feitos do mesmo tipo de intriga. Tal como o mundo do comentário de futebol. Na política e no futebol interessa a adrenalina, maledicência, piada rasteira, discórdia, injúria, vingança. Tal como nos “conteúdos” online e livros editados e vendidos em catadupa como latas de salsichas. Tudo quanto tem mais audiência é feito de teor soporífero.


E se perguntasse a um produtor deste tipo de “conteúdos”, que se tem por evoluído, responderia convicto que essa é a realidade da condição humana limitando-se a descrevê-la ou vendê-la porque as pessoas revêem-se e gostam. A História que se vai fabricando e vendendo em função das modas editoriais de cada momento é feita de episódios de entediantes novelos de mexericos que atraem quem gosta de viver a vida por interposta personagem. A análise política um campo de batalha de vaidades entre facções em bicos de pés - de gente com necessidade de afirmação, de se mostrar mais esperta e sofisticada.


As amigas que herdara são hoje leitoras das presumidas tias e mulheres e homens que as imitam secundando a autoria de crónicas cor-de-rosa, policiais e romances históricos ou espectadoras, leitoras e replicadoras dos analistas políticos. Todos com grande vontade de viver os estímulos da vida excitante das personagens. Vida familiar, amor, sexo, desporto, viagens, humor, política, música, livros etc. são alimento para satisfação dos instintos mais básicos. E isto é o que vende. O espaço público transformou-se ele próprio num enredo de telenovela.


E querem-nos fazer crer que isto é a condição humana do século XXI. Haja espaço para pôr a cabeça de fora e respirar para lá da intriga. É sabido: um espaço sem audiências nem sucesso.