Já dei o arrumo costumeiro à casa e já passarinhei ao sol. Salvo cozinhar, tratar das roupas e nadar não tenho mais nenhuma obrigação destinada até o início de segunda-feira — nadar também será imposição já que a preguiça deu o ar da sua graça. Corrijo: faltam duas. Escrever este diário, mas peneirá-lo de modo a que fique na rede da peneira o que é íntimo e na amassadeira a política ou lá como se chamam esses assuntos que dizem respeito a todos. Sem palermices confusas: este fim-de-semana tenciono escrever dois postais. Mas não prometo o segundo.
Sentei-me agora no intuito de começar, baixei o estore do +1 para não me bater o sol nos olhos e a penumbra está a pedir cama ou sofá. A ver vamos se ao menos defino o que abordar no diário já que quanto ao potencial segundo post continuo barata tonta. Da política nacional não me apetece falar, se bem que comece a fazer sentido tentar esboçar uma opinião neste intervalo antes de penáltis. Da política internacional caí na peregrina vontade de escrever um texto intencionalmente dirigido a norte-americanos, por coerência com a nacionalidade do portal Medium. Há postais das Comezinhas que não trago para o Medium por me parecerem questiúnculas pessoais que só fazem sentido para espicaçar o bafio acomodado da SapoBlogs, tal como há postais antigos das Comezinhas que reproduzo apenas no Medium, onde ainda há alguma curiosidade por tópicos como as memórias das Tílias.
E interrompo aqui para fazer um enxerto como se estivesse a precaver a doença numa videira. Explico (ai que susto de verbo, mas aqui é inofensivo): já escrevi mais dois parágrafos mas são as diatribes habituais e quero deixá-las para o fim do texto e introduzir o tema pintura com que costumo abrir estes diários de fim-de-semana, não maçando já com o desagradável. O texto fica confuso levando à tentação de desistir da leitura? É para o lado que durmo melhor.
Vamos então à pintura. Esta semana não trouxe nenhuma história lida acerca de uma tela, antes uma entrada com sugestão de vários canais do YouTube que ensinam a pintar. Vídeos nos quais se pode aprender passo a passo a pintar aguarelas, óleos, acrílicos e guaches. A sugestão vai ficar na Reading List. Não é que vá voltar a aprender a pintar como no liceu em Arte e Design, mas creio que não fará sentido falar de pintura e interpretar quadros como arma de arremesso de argumentos, sem sequer saber como se pega num pincel ou conhecer os materiais e técnicas usadas. Seria escrever em vão. O mesmo vale para a literatura; mais adiante justificarei o que quero dizer. Escrevi “justificarei” e não “explicarei” por não raro achar este último verbo francamente ofensivo. Por falar nisso há dias fui à farmácia e uma cliente espernéfica estava a aborrecer a farmacêutica que a atendia paciente por querer explicar sentenciosa o que era uma bactéria e a diferença do vírus, acabando a dizer com enfado “esqueça” como se a interlocutora fosse atrasada mental e incapaz de compreender — este episódio define bem o estado de situação do mundo. Qualquer um pode apanhar uma explicadora agressiva pela frente. Ou explicador. Dos que não põem hipóteses, não crêem, não acham, nem autorizam que os outros o façam sem apelidá-los de imbecis. Dos afirmativos que nasceram sábios e estão certos de tudo, até do acerto do erro e virtude do defeito que nunca admitem.
Esta semana só li mais uma história no Medium (na próxima redimo-me e procurarei ler mais). Trata-se de uma entrada na newsletter da plataforma que remete para um post e um livro de uma psicóloga britânica. Já sabem: tenho péssimo hábito de não gostar de referências e nomes. Mas também podem estar descansados: podem consultar tudo quanto aqui sugiro na Reading List. Só prefiro frases com conteúdo em vez de aparência. Manias. A psicóloga em causa reflecte sobre o acentuar nos últimos trinta anos da divisão norte-americana entre conservadores e liberais segundo aquilo que considera a diferença entre círculos de confiança: os primeiros tendem a valorizar mais a família e próximos e os liberais a humanidade como um todo. O que se espelha na confiança nas instituições vistas com cepticismo pelos conservadores já que não cuidam directamente do seu pequeno círculo. Confiança nas instituições, como governos, escolas ou bancos, que em termos gerais expande ou encolhe conforme funcionam bem ou falham. O livro que escreveu, cuja capa tem pássaros exóticos bonitos (ai mil e um perdões aos iluminados; que falta de respeito esta forma simplória e estapafúrdia de referir uma obra; não sei se core de vergonha e dê três vergastadas no brio de jerica, sentindo-me diminuída face aos génios das mil leituras e referências, dos que se mostram em pose de pedestal e não saem do quadrado por medo e insegurança, e dos que os mimetizam e bajulam para aceder a igual pose pateta; devem estar convencidos que o resto de humanidade ignorante tem obrigação de resolver os seus problemas de afirmação), o livro com pássaros na capa, dizia, é um testemunho de quem sendo bióloga de formação estudou e concluiu que o sucesso da espécie humana resulta dos comportamentos de colaboração e que estes são semelhantes aos dos pássaros, insectos e peixes. Mas que estou para aqui a dizer se sou uma asna que nem sequer leu o dito livro? Devia estar calada para satisfazer os egos de bem-instalados e eruditos da treta e das cheerleaders pseudo-intelectuais.
Vamos agora ao dia-a-dia. Na quinta-feira tive de ficar a almoçar na Boavista por ter consulta de dentista e fui à Bertrand. Na semana passada parti um dente a comer um gelado do McDonalds; mania de inventar, devia ter-me mantido no Sundae, mas resolvi inovar ao fim de trinta anos e pedir um McFlurry Snickers; coisa de velha tonta; resultado: ando a antibiótico. A ideia era descobrir qualquer coisa cujo cenário fosse a Serra da Estrela para me ir ambientando à paisagem do passeio do próximo mês à Beira Interior. Depressa desisti por me lembrar que está por ler na estante de casa Para Sempre, de Vergílio Ferreira. Na calha. Mas ainda assim havia tempo para passar os olhos pelas mesas e estantes. Espiolhei, espiolhei, esconjurei as democraticidades de juntar no mesmo espaço balelas e obras de arte. Encolhi os ombros, afinal é assim desde que o mundo é mundo. Fugi da prateleira que anunciava “literatura no feminino” atenta a profusão de mau gosto das capas; é que nem consigo aproximar-me. Defeito meu; é como a roupa da feira, dizem que entre aquilo há peças de qualidade, mas e ultrapassar o impacto inicial? Fui desafogar os olhos na poesia, sempre com capas sóbrias, mas qual quê? Vim também corrida. Cheia de boa vontade resolvi dar sossego aos nomes maiores e folheei e li versos de nomes femininos novos. Portuguesas. Primeiro, segundo. E não é que o vejo organizado por um daqueles canastrões autores do regime? Nada sai do circuito, sempre a mesma marmita da matilha, sempre mais do mesmo. Será defeito meu. Será preconceito. Terei perdido versos de inegável mestria. Quem sabe. Todavia, é mais forte do que eu. Se quem organiza não tem qualidade, apenas boas relações e proa, o que fazer? Agora terei de abrir outro parágrafo para não baralhar a publicação no Medium (tem limite de caracteres por parágrafo).
Fui então em busca de um livro fininho, um que me contentasse. Como já havia passado pela portuguesa, dirigi-me à literatura estrangeira. E lá estavam destacados os que vão enchendo os “conteúdos” da comunicação social e plataformas online, blogues e redes sociais, semana a semana, dia-a-dia. Desviei os olhos dos destaques e comecei a busca da finura, o que é difícil. Quem escreve dá-se imensa importância e acha sempre que tem imenso a dizer, não encurtando razões. Este post que o diga (ai, a presunção). Ao fim de tropeçar em inúmeros calhamaços — li um o ano passado bom e bastante indigesto, agora tenho de fazer o interregno de um ano até ler outro para dar vazão; até lá vou preferir dietas mais delgadas e saudáveis -, encontrei um punhado de Cortázares. Peguei no primeiro. Envolvia bicharada e cobicei outro, mas estava todo desconjuntado, já havia sido lido umas boas vezes, o que percebo perfeitamente; há pecados perdoados à nascença. Pousei-o e fui ao terceiro: Histórias de Cronópios e de Famas; satisfiz-me nesse ponto. Estava encontrado o tão querido e delgado livro. Trouxe-o para casa e foi recíproco: começámos a namorar. Espero nunca cair na piroseira de usar as suas palavras com oportunismo para dar biqueiradas de facção ou rechaçar ressabiamentos. Ou seja, espero não cair no mau hábito de retalhar trechos de autores maiores para floretes argumentativos menores, que só ofendem a dignidade das obras.
Esta madrugada o Nuno acordou-me a dizer que queria trazer para o Porto o acordeão que está em Almada. Um dia terá de ser; teremos de arranjar transportadora. De manhã o M. apareceu bem-disposto para a lição de piano e a casa encheu-se de alegria a três: o miúdo, a voluntária que acompanha e já começa também a aprender piano e o Nuno. O M. contou entusiasmado as notas a ciências e matemática e que estudou os números primos e compostos, a soma e subtracção nas fracções e a forma de cálculo das áreas das diferentes figuras geométricas. Muita conversa e risos até que o pequeno perguntou se o Nuno podia tocar guitarra e comecei a ouvir (fiquei no +1, como costume; desta vez a rir-me no enterro do bairro Pacífico de Cortázar) o Nuno tocar e cantar Everybody Hurts, dos REM. Possivelmente a música com mais covers de uma geração. Há muito não tocava guitarra; foi uma sensação de conforto e regresso a dias passados. Ouvir o riso do Nuno é voltar a uma casa meiga. Logo a seguir o miúdo perguntou por aquela coisa que se põe na boca. A harmónica. O Nuno lá encontrou a gaita-de-beiços e tocou uma música do folclore português. Depois voltaram às repetições insistentes da lição para exercitar o uso das duas mãos.

Ao fim da manhã saímos para apanhar o sol de inverno e como pretexto fomos a pé até ao Mercadona comprar as minhas vitaminas (conselho da endocrinologista). Aproveitei e trouxe para o Nuno um complexo para a memória. No regresso passámos na ourivesaria para pôr pilhas nos relógios. Depois do almoço (salada russa com maionese que sobrou do jantar de ontem; esta semana cozinhei todos os dias) a minha mãe veio ler ao Nuno. Terminaram as últimas da Física e já que a minha mãe pediu qualquer coisa divertida sugeri que a partir da próxima semana desenjoem da ciência e se deliciem com Machado de Assis, ainda que em modo de releitura. Agora interrompi a escrita por ter começado a chover; fui apanhar as toalhas de banho lavadas. Continuando. O Nuno surpreendeu a minha mãe (e a mim), foi buscar a guitarra e tocou como havia feito de manhã. À segunda pedi a Pedra Filosofal e a minha mãe pôde voltar a perceber porque fico tão contente quando o Nuno toca e canta. Também lhe viu a alegria no olhar enquanto cantava, o que não deixa de ser curioso em quem é cego. Não é só a voz que é doce e feliz. Costumo dizer: trazes luz aí dentro e iluminas à volta. E traz, e ilumina. O homem que chora ao ler poesia de Gedeão associando a simplicidade dos versos à história de amor dos pais.
Agora sobram-me os dois parágrafos que tinha escrito acima e nem sei se os publique estragando a boa onda. Mas ficam, afinal a vida é um todo.
Continuo sem perder tempo a planear vitrinas em leque, isto é, sem ter em vista a edição tradicional de livros fosse de diários, romance, novela ou crónica. Sem fazer finca-pé nas tais vitrinas de obra que juntamente com as boas e oportunas relações ou exibição sem pudor do crachá académico conferem aparente crédito ou pedigree e suposto valor ou mérito. Morrerei sem visível riscar. O mais natural é que morra sem uma única obra publicada em papel e isso não me comove nem um pouco. Não moverei uma palha para me fazer valer. Se estivesse à espera, morreria entristecida a aguardar reconhecimento. Ora folgo muito na minha alegria e consideração por mim própria. Em termos de feitio tenho-me em péssima conta e vergonha na cara. Insuportável, quero e procuro o melhor, não favores nem fretes — viver à custa deles, sim, faria com que morresse de humilhação. Produzir em série por facilidade de circunstância e bons contactos não diz nada do merecimento e qualidade de cada um. Diz sim muito sobre a natureza desonesta e promíscua dos guetos de produção, publicidade e edição. Muito menos gozo de pachorra para condescender com redes de referências, isto é, de elogios e incentivos fajutos, todos da maior justiça e sinceridade, todos trocados entre gente muito querida e empática, qualificada e cheia de talento capaz de corresponder aos elevados critérios da inteligência emocional e perita nas competências sociais. Um mundo que, felizmente, não é o meu, nem nunca será. É uma das raras certezas que levo da vida.
Se assim não fosse contentar-me-ia com palmadinhas nas costas explícitas ou tácitas quando escrevo palavras amorfas e cordatas ou quando me comprometo com alguma crítica que beneficia outrem, conhecendo o perigo e falsidade por detrás do incentivo. O elogio à resignação, o interesse egoísta na peleja, o incentivo ao desrespeito da consciência. Palmadinhas nas costas dos mesmos que enaltecem crápulas, a dissimulação e o estardalhaço destemperado de aberrações humanas desrespeitadoras dos princípios mínimos da sã convivência humana. Isto quando não eles próprios os(as) crápulas. Leviandade pura. Chamam-lhe inteligência, tolerância e sofisticação. Creio até que confundem com ter mundo. Com a maior desfaçatez resguardam-se na verdade conveniente de não haver puros, no facto da imperfeição caracterizar o ser humano. E vá de promover a selvajaria e a imbecilidade ordinária traduzida na falsa educação, na prática generalizada de retórica vã e obra em vitrina para conferir credibilidade.
Isto hoje foi comprido. Paciência.
Obrigada por terem lido. Bom fim-de-semana.