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09/03/2025

Diário 9 de Março de 2025

O espaço público está cheio de heróis e heroínas, pejado de sábios e sábias. De gente extraordinária. O que falta é gente normal com vidas banais. Essa é a raridade de hoje.


Antes de me atirar às histórias lidas acerca do Dadaísmo e da situação política internacional começo por uma mais simples que elenca as experiências que devemos ter antes de morrer. Quem lê as Comezinhas sabe que já escrevi um post na mesma linha (Exercício: se soubesse que teria apenas seis meses de vida) e é uma tentação ler este tipo de sugestões quanto mais não seja para avaliar se cumprimos os critérios de bem-viver propostos pelo autor do texto, no caso autora. Confirmo que experimentei a maioria das propostas, desde logo a primeira: viver sozinha. Era uma ambição de miúda, concretizei tarde, mas consegui. A ideia de sair da casa dos pais para casar e começar logo a viver com outra pessoa estava arredada dos meus projectos de vida na meninice e cumpri o desejo — tarde, dadas as condicionantes económicas. Viajar e fazer voluntariado também foram sendo cumpridos. A arte de cozinhar e os desportos radicais é que não são o meu forte. Cozinho o trivial e acabei por nunca concretizar o salto de paraquedas que idealizava em novita — ainda cheguei a ir a um aeródromo para o efeito, mas fui adiando até passar por completo a vontade. Observar o céu estrelado à noite num sítio remoto? Como dizer? Cresci assim, a vê-lo enquanto decorria a minha infância, e sempre que posso, mesmo em lugares menos remotos, procuro ver as estrelas. Se tudo correr bem em Novembro próximo irei ao Observatório Astronómico do Alqueva. Dizer às pessoas que gosto delas não me é difícil e perdoar em regra também não, mas admito levo algumas mágoas (e mesmo raivas) por resolver por falhas que considero graves. Às tantas devia desvalorizar. Gosto de aproveitar os pequenos momentos e escrever um diário reflectindo a minha jornada é o que faço há anos para desinteresse e tédio de quase todos, lucro oportunista de alguns que usam enquanto desdenham e paciência e generosidade de poucos.


Trouxe então para a Reading List três histórias sobre o Dadaísmo. A primeira tenta fundir o movimento das artes plásticas e literatura na filosofia e admito: não compreendi integralmente. Em aparte, digam-me: não seria um desafogo ler nos jornais e nas plataformas online autores de crónicas e artigos confessarem a ignorância em vez de usarem o tom crítico no vácuo e a piadinha fácil? Se optassem por limitar-se ao básico em vez de com pretensiosismo abalançarem-se ao que não alcançam com o entendimento recorrendo à tentativa de ironia para disfarçar a fragilidade? Volto ao Dadaísmo como movimento artístico de ruptura com os padrões estéticos convencionais. Segundo o autor à semelhança da morte de Deus nietzschiana vale a substituição da busca da beleza pelo caótico, pelo absurdo e disruptivo. A segunda história termina exactamente nesta ideia com a frase do Manifesto Dadaísta de Tristan Tzara (poeta romeno): “Uma obra de arte não deve ser bela em si mesma, pois a beleza está morta.” O autor explica que o movimento nasceu em simultâneo em Zurique e Nova Iorque antes de disseminar e rejeitava os padrões tradicionais e a ordem estabelecida no mundo da arte, que pretendiam deixasse de ser um mero acto de talento para passar a expressão do pensamento. No texto elenca algumas obras, entre elas: A Fonte, do pintor e escultor francês Marcel Duchamp e Cabeça Mecânica, do artista plástico e poeta austríaco Raoul Hausmann. Na terceira e última história desta semana sobre as artes, a autora conta como o Dadaísmo surgiu como resposta ao caos e destruição da Primeira Guerra Mundial e da criação do clube nocturno Cabaret Voltaire, em Zurique, como forma de protesto contra o sistema político injusto e a guerra. Para quem considerava que a linguagem convencional não conseguia descrever a brutalidade da guerra era necessário fazer entender que a criatividade não podia ser ensinada nas escolas, nem tudo passava pelo talento e era profícua a mistura de diferentes formas de expressão artísticas. Em suma, pugnava-se pela liberdade.


Por fim, a história relativa às questões de geopolítica que se têm colocado nos últimos tempos. A autora critica a actual política nacionalista dos EUA e consequente ameaça crescente de movimentos autoritários e fascistas que visam enfraquecer a União Europeia e outras zonas do mundo. Sugere que a Europa corre o risco de ser dominada por forças da Rússia e da China e se quer sobreviver em liberdade como propunha Churchill — a tão glosada ideia de Estados Unidos da Europa — tem de se unir de forma robusta com uma forte defesa militar comum e como novo líder do mundo livre.


Ufa. Terminou a leitura dos outros e chegou a hora do recreio. Agora posso falar da minha vida.




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Na segunda-feira tratámos de um assunto que vínhamos a adiar há algum tempo. Fazer com que o Nuno use o WhatsApp no computador uma vez que vai deixar de ter Skype e ainda não funciona com Teams. Começou agora a usar o WhatsApp, ainda está a ambientar-se. Para mim é óptimo voltar a poder conversar com ele quando estou a trabalhar ou fora de casa sem ser por chamada telefónica.


Este fim-de-semana fizemos gazeta. O M. não veio e não houve visitas da imobiliária, pelo que pudemos passar a manhã de Sábado na ronha. Ele nos teclados e piano, eu no computador e a passarinhar pela casa. Depois de almoço o Nuno ocupou o sofá, deitando-se a dormir, hábito usualmente meu. Pude inverter o costume e em vez de ser ele a tapar-me com a manta enquanto fica a ouvir as notícias na televisão, fui eu que o cobri com a manta, ficando depois a carregar as caixas semanais doseadoras da medicação e a ouvir as notícias. À memória veio o tio G., primeira pessoa a quem assisti tratar da medicação semanal ao fim-de-semana naquela meticulosidade de quem tem a vida organizada. Há um mês mandei-lhe uma fotografia dos meus pais cá em casa a lanchar, respondeu-me bem-disposto agradecendo e dizendo que o meu sofá era igual em cor e feitio ao dele, lá a 18 mil quilómetros de distância. Há afinidades que ficam para a vida. Acordei o Nuno quando a minha mãe estava a chegar e houve sessão de leitura. Nesse momento sim, aproveitei eu para dormir. Não ouvi nada do que leram e falaram de tal forma ferrei no sono.


Esta semana terminámos um livro e começámos outro, fico sempre contente em fechar um livro, afinal não leio muitos (ao contrário dos inúmeros iluminados e iluminadas que enchem o espaço público e o mundo online) e é tão boa a sensação de dever cumprido. Hoje faz anos a minha sogra; não vamos a Almada, mas já falámos algumas vezes ao telefone e vamos voltar a falar mais tarde e mandámos entregar um bolo de massa folhada com doce de ovo para substituir a presença do filho.


Há temas que me dizem respeito e aos próximos bastante mais prementes que seriam motivo de maior excite — grandes afirmações de direitos, grandes exemplos de vida e grandes declarações de carácter -, mas passo à frente. O espaço público está cheio de heróis e heroínas, pejado de sábios e sábias. De gente extraordinária. O que falta é gente normal com vidas banais. Essa é a raridade de hoje.