Ficava sentada à espera que o peixe viesse à superfície para o fotografar e exibir a imagem. Horas de atenção, a lançar isco e loas nas águas fecundas na expectativa de açambarcar vida alheia e apresentá-la como sua para grande glória. Nada percebia do espírito aquático nas profundezas do mar. Nada lhe dizia a vida de peixe. Servia apenas de troféu para publicitar a firmeza das escamas e a frescura do talento atestada no cintilar dos olhos. Vendia barato e fácil o pescado e no íntimo escondia o avental atado na barriga de que nunca se libertaria - guardado no fundo do roupeiro a que chamava closet. Atraíra a atenção e admiração de um revendedor de peixe, promotor de peixeiras armadas ao pingarelho. Um negócio lucrativo para os dois. Nem um nem outra tinham o menor interesse ou comoção na faina. A arte deles era outra: a da usurpação. Cobiçavam o conhecimento e a sensibilidade como adereço, sem algum dia valorizarem o genuíno e educado senão para extorquir.