Na semana que passou trouxe para a Reading List poucas histórias e vou referir-me apenas a duas relativas à pintura A Liberdade Guiando o Povo, de Eugène Delacroix. Na primeira o autor limita-se a afirmar que se trata de um retrato da revolução social, da luta dos franceses pela liberdade. Faz referência às cores e luminosidade que enfatizam a liderança e desejo de mudança representada numa mulher armada e determinada, líder da revolução. Na segunda história o autor contextualiza a pintura nas sucessivas convulsões ao tempo de Delacroix, possível filho ilegítimo do reputado e ardiloso diplomata Talleyrand, que conviveu com a queda da monarquia, a ascensão e queda de Napoleão, a queda de Carlos X e também de Luís Filipe. O quadro não se refere à Revolução Francesa como erroneamente tido por muitos, mas resume o pensamento céptico do pintor sobre as massas e a revolução de 1830, o fim de Carlos X. Representa vários grupos da sociedade: estudantes, jornalistas e camponeses a lutar pela liberdade, guiados pela deusa Marianne, a personificação da França pós-revolucionária, ignorando os corpos sem vida espalhados pelo chão. Segundo o autor do post, o pintor tendo presenciado tantas convulsões pretendia alertar para o horror e miséria que a revolução comporta. A figura da Liberdade é inspirada na desnudada Vénus de Milo, símbolo da ideia grega de Democracia, e à época a reacção da crítica e da comunidade artística à imagem provocadora da pintura foi a pior possível: considerada imunda, o pior tipo de prostituta. É uma interpretação.
No que diz respeito ao umbigo estou bem-disposta como sempre que tenho uns dias de descanso. Tirei o dia de amanhã de férias e na terça de Carnaval há tolerância de ponto. Escolhi segunda e não sexta-feira para vir para o parque de campismo, já de agora aos sábados de manhã temos que ficar em casa para receber o M. Ao chegarmos aqui ontem a funcionária que nos recebeu animou-nos a assistir ao cortejo de Carnaval hoje após almoço. Modesta, mas orgulhosa da sua terra, disse-nos: é pequenino, assim coisa de vila, mas sempre é diferente do dia-a-dia e há barraquinhas com bolos na marginal. Pelo que hoje depois de comermos a sopa de espargos com croutons vamos tomar café entre o mar e as crianças do cortejo. Ontem para jantar já aqui no parque fiz risotto de trufas e cogumelos, um preparado já pronto a cozinhar apenas com azeite e sal (prescindi o vinho, seria mais um item a encher a mochila).




Vir para os bungalows, árvores, pássaros, gatos e mar permite dar um pouco de sossego à revolta que sinto no peito ao ler e ouvir gente sem escrúpulos. Foi com indignação que vi na televisão anteontem e ontem uma paspalha de cabeleira farta e massa encefálica reduzida e um militar traidor defender Putin e Trump. Admito: ao afirmar muitas vezes nas Comezinhas que me irritam os fãs de ditadores fico na dúvida e até receosa de exagerar na linguagem dura, mas estes dois últimos dias foram bastante elucidativos. Não estou enganada, nem exagero. Há traidores repugnantes a comentar na televisão e a escrever nas plataformas online. Gente cheia de si e das suas teorias venenosas, sempre disfarçando a repulsa da luta pela soberania de um povo mártir, afirmando-se cinicamente preocupada com a paz e distorcendo as lições da história a bel-prazer. Gente que não respeita as vidas humanas perdidas na Ucrânia, nem a soberania dos Estados, nem a Democracia, nem Direito Internacional, nem os Direitos Humanos. Gente que lidaria bem com regimes tirânicos em Portugal e na Europa e cerraria fileiras na defesa das maiores atrocidades. Escroques puros com que convivemos todos os dias.
Ontem, como todos os sábados de manhã desde Novembro último, o M. esteve em nossa casa para a aula de piano com o Nuno. Piano não, tem sido de sintetizador, já que o M. usa mais o teclado do que o piano por uma questão das teclas pesarem menos e possuir outros recursos. Nas últimas lições o Nuno tem insistido com ele, activando os ritmos e fazendo-o acompanhar com as notas certas no compasso certo. O pequeno começou por achar difícil, mas gostei muito de o ver ontem descontraído bambolear-se ao som da música que ele próprio tocava. Começa a tirar partido de tocar, começa a sentir a música e tirar prazer disso. Foi um gosto vê-lo. É excelente.
O meu sobrinho tinha combinado ir ontem lá a casa a seguir ao almoço entregar o íman que trouxe do Japão. Telefonei antes e convidei-o para almoçar. É como quem diz: comer ovos mexidos com tomate cereja, azeitonas e pão. O à vontade com o meu afilhado permite que não faça cerimónia e o convide para tão básico repasto. Somos completamente diferentes. Eu básica na confecção o mais minimal possível, ele a gostar de cozinhar à séria, estando habituado a listas imensas de ingredientes para cada prato e a todos os requebros do lume, dos tempos e dos apetrechos. Como é fã de cozinha oriental conhece os mercados de cozinha asiática no Porto e vai abastecer-se a essas lojas. A viagem ao Japão ainda aumentou mais a paixão. Durante o almoço mostrou os vários vídeos da viagem e claro a fotografia dele no ponto em que se vê a paisagem do Monte Fuji, ilustrada no íman que me deu, num local perto de Hakone cujo nome esqueci. O que mais me agradou foi o gosto com que foi mostrando vários porta-chaves, pisa-papéis, bonecos e ímanes que trouxe para os amigos, cada um indo ao encontro do desejo do amigo a presentear (este é para a X que gosta desta animação, este é para o Y porque segue a série). A Eca, cuja fotografia na moldura na sala ele reparou ontem dizendo que já nem se lembrava bem da cara (morreu quando ele tinha 11 anos) teria orgulho imenso neste menino que está atento ao que traz felicidade aos outros, como ela nos ensinou a observar. No relato a cidade que mais me agradou pela beleza foi Quioto e fiquei encantada com o facto de ele ter experimentado um banho público, ficando assim a conhecer um uso japonês. Contou-me que entre o grupo de amigos viajantes fizeram uma lista excel com tudo planeado, não tendo seguido programa pré-estabelecido de agência de viagens, mas sim obedecido às preferências de cada elemento do grupo, marcando previamente os destinos, as deslocações entre lugares, as actividades, os templos a visitar e o que experimentar em termos gastronómicos em cada local. Não pude deixar de achar graça quando vi as fotografias do jardim botânico do centro de Tóquio. Por mais que se fuja aos roteiros habituais há coisas que são intemporais. Por quase todos os países visitados procurei os jardins botânicos.
Hoje acordei cedo e um sol esplendoroso cerca o bungalow, tomei apenas café e água. O Nuno acordou mais tarde uma vez que ontem li pela noite dentro A História do Mundo para Pessoas com Pressa, de Emma Marriot, da colecção sucinta e básica (para infortúnio dos presumidos) que já várias vezes referi nas Comezinhas e também no Medium. À noite ficámos nas civilizações antigas, hoje continuaremos e congemino: quantas vezes já passeei pelas primeiras civilizações e impérios e por toda a história subsequente e quantas vezes a elas regressarei sem a pretensão de sábia reta-pronúncias.
Há umas horas abri as cortinas de todas as janelas e o sol rompe inundando o espaço interior. Sentei-me a escrever este diário. Sinto-me bem com a serenidade do dia e o burburinho vindo da vida que anima os outros bungalows e o parque. Passa das onze da manhã, ainda estou de pijama, vou tomar um banho quente e longo, vestir-me e desafiar o Nuno para passearmos e cumprimentarmos o mar de mais perto.