Pesquisar neste blogue

06/03/2025

Mudando de assunto, continuando o tom chato

Ontem li parte de uma entrevista a Gonçalo M. Tavares, autor de que gosto e cujos livros são estimulantes. Voltei a uma sensação antiga. Em novita quando via cinema não gostava nem procurava saber da vida dos actores e actrizes nem lia entrevistas. Preferia cingir-me ao “trabalho” em si, aos filmes, sem perdas de tempo. O mesmo se passa com os livros. Continuarei a ler este escritor apesar da entrevista com o drama das rotinas (e vidas atafulhadas de obrigações) como suposta justificação para não vivermos paixões, um cliché literário dos dias correntes. Continuarei a lê-lo apesar de defender o chavão da valorização do interesse estético da literatura e a inteligência em abstrair da ética dos autores. E, claro, o dever de cultivar a ironia, esse selo de superioridade intelectual e moral, que neste autor é, admito, um magnífico traço distintivo. É facto que temos de abstrair de muito para continuar a ler, incluindo dos egos inchados, mesmo de autores de quem gostamos.


Um dia quem sabe, à falta de uma vitrine de livros editados que me dê crédito, um dia quem sabe, dizia, o tempo e as rotinas permitirão que escreva um postal sobre o trabalho desaustinado que não nos deixa respirar nem viver nem apaixonar, apesar de nunca na história ter havido um tempo em que tantos pudessem perder tantas horas diárias a opinar com os megafones ligados para que tantos outros oiçam. É de facto sufocante viver sem tempo para amar quando a urgência manda opinar. Prioridades. Mea culpa.