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03/03/2025

O nicho

Capturar


Imagem do Google


Como desaparecer da actualidade? Não escrever acerca da geopolítica que ferve na antena planetária e continuar a ignorar a questão de política interna que há duas semanas aquece em lume brando na comunicação social nacional. Sem cair na fuga fácil da opinião sobre livros e programas culturais ou de entretenimento, sem relatar com minúcia a confecção de um prato apetitoso, sem recorrer a citações, sem contar viagens sugerindo formas em voga de o fazer, isto é, supostamente modos anti-cliché, sem juntar palavras e ideias arrevesadas para tentar dar ar literário ao texto? Mas também sem recorrer à opinião acerca de histórias escritas por outros no domínio da pintura, política e filosofia, nem limitar-me ao relato do dia-a-dia. E ainda sem esmiuçar as conjecturas que faço do comportamento alheio. Ou recorrendo a remoques reactivos. Em suma, como escrever sem recorrer ao que é costumeiro noutras bandas, mas também nas Comezinhas?


E fazê-lo em tempo real, com a antena ligada e disponível à leitura alheia. Não seguindo o iluminado conselho de manter o silêncio, a sábia advertência para desistir de expressar-me de modo a poupar o mundo da minha estupidez - deixar de incomodar as certezas dos cheios de si para me defender do bullying dissimulado. A solução é agarrar-me às pipocas que tanto saltam nalguns momentos. Agarrar uma ideia e deambular por instantes, ainda que assim que começo a escrever acabe por cair numa tentação reactiva ou crítica. É impossível fugir do que se é ainda que se saiba que se está quase só e assim será até ao fim dos dias.


Como ideia tomo a frase: viver não é isto. Ou: amor não é isto. É curiosa a soberba de se considerar que quem cai nas rotinas de trabalho ou quem faz escolhas amorosas difíceis desconhece a verdade do sentimento. São de temer os sábios que irrompem a perorar e apontar o caminho certo: a luz da vida com sentido e do amor verdadeiro. Normalmente confundem entusiasmo passageiro, excitação e paixão com vocação e amor.


Ainda assim é verdade que quando reduzimos muito o espaço de liberdade e ela se abre por um período temporal limitado, por exemplo, de quatro dias, ficámos tolhidos pelos hábitos. O extenso mundo lá fora para o qual se espreita por uma fresta de portada de janela usualmente quase cerrada parece encadear. Surge um misto de curiosidade e atracção que se reconhece da juventude e confusão e medo que nos confinam à penumbra.


Mas restará sempre a dúvida: as janelas sempre escancaradas, o galope desenfreado experimentado ou imaginado, os entusiasmos sucessivos vividos e esquecidos logo em seguida darão maior sentido à vida?