Quase a fechar o estaminé. Se não inventar mais inadiáveis para tratar - como continuar nas arrumações de ontem -, à noite escrevo uma página de diário.
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31/10/2023
Conversas matinais simples
Rapidamente a meio das tarefas na empresa passo por aqui para contar uma conversa matinal. Já se sabe que sou língua de pescada: não reservo tudo quanto era suposto e antigamente tanto prezava perservar.
Então vamos lá a um daqueles relatos: e depois ele disse, e depois eu disse.
Ainda sobre o Kokoroko. Esta manhã dei a ouvir ao Nuno, que me disse logo: mas isso é mesmo afrobeat. Comentei: soa a jazz. O sopro é todo jazz. Respondeu-me: o improviso é jazz, mas a estrutura, o ritmo é africano. Batida africana. Ao que ripostei: também o jazz negro norte-americano. E diz ele: esse é mais choro, mais queixume. A batida africana é mais alegria.
Como direi?, 2 a 1, ganha o Nuno, que por acaso desde ontem anda em dia não, por andar esquecido do valor que tem. Vai daí, vou ligar-lhe dentro de instantes para ele vir ler este post.
Nota: uma das músicas dos Kokoroko fez-me lembrar a Take Five, nisso concordámos à primeira.
30/10/2023
Kokoroko
Bastante cansada. Podia recorrer a Álvaro de Campos para dizer que o que existe em mim é sobretudo cansaço, mas seria elaborar muito.
Podia dizer que Canso, mas também não é isso que define o momento. Seria apenas uma justificação desnecessária e hoje pouco fiel. Aliás, agora que li o que escrevi em 2017 constato que não posso estar mais longe daquela sensação.
É sim: fadiga. Cansaço. Possivelmente falta de vitaminas. Cansaço físico, mental e emocional. Palpável. Tão só, cansaço, sem poesia nem prosa, explicações, culpas ou justificações.
Para superação a falta de força anímica vale esta banda de jazz londrina que acaba de me ser apresentada. Ao que parece os próprios dizem que não são um grupo de jazz mas sim de afrobeat - como não compreendo nada disto, simplifico: a percussão, os instrumentos de sopro, tudo me soa a jazz. O resto deixo para entendidos - li que a banda é de fusão de jazz e afrobeat. Seja o que for, agrada-me.
Vai ser a banda sonora de hoje e provavelmente dos próximos dias.
Boa semana.
28/10/2023
Viagem à Turquia V
O quarto dia.
Na terça-feira acordei às sete e ao abrir a janela vi a paisagem feita de colinas arenosas castanho mel mescladas por pincel divino a manchas de verde e pedra. Cobertas pelo céu a espreguiçar cinzas azul-rosados e a segurar por fios imaginários dezenas de balões de ar quente. Imagem espectacular de surpresa nessa bela manhã.
Após o pequeno-almoço fomos para o ex-líbris do circuito da Turquia: o Museu ao Ar Livre de Göreme, património da Unesco. Conjunto de igrejas que se crê terem sido criadas por sacerdotes que começaram a chegar à região no século III, aproveitando as cavernas para fazer o centro de actividade cristã - terá sido refúgio dos primeiros cristãos e atingido o apogeu de vida monástica entre os séculos IV e XIII. O guia debruçou-se demoradamente sobre a icnografia do local. Nas capelas e igrejas há pinturas feitas directamente nas paredes e tectos ou no gesso que os reveste. Atentas as filas visitámos apenas duas, incluindo a Tokali Kilise. Como somos estranhos, rezámos em vez de aprender o que era suposto sobre a representação visual das passagens bíblicas, a forma de fazer chegar a mensagem religiosa às populações - um pouco de história religiosa através da leitura e interpretação, as quais se aprende a cada viagem, a cada destino, possuírem importantes nuances, atentas as diferentes perspectivas culturais de cada local, de cada tempo. Para dentro e à cautela disse as únicas três orações universais que sei dirigidas ao Criador, sua famelga e acólitos. Convenhamos, se hoje aquele clã fosse apanhado por uma assistente social zelosa, seria considerado família disfuncional. Por sorte ou azar as assistentes sociais não pontuavam à época. Se me esforçasse muito poderia rezar o Credo e a oração da confissão, cujo nome esqueci. Afinal também são preces universais. E para dizer a verdade no Sábado anterior havia rezado as mesmas três orações nas mesquitas em Istambul. Não sei se despertei sem querer alguma guerra no céu. Já sabem que sou desastrada: a culpa é sempre minha. Depois de comprados três ímanes de lembrança - não podia deixar de ser -, à saída do museu num bar de boa música – jazz e blues - ocorreu o momento apropriado para pagarmos os passeios opcionais enquanto tomávamos o café oferecido pelo guia, como tive oportunidade de mencionar: um pequeno turco-italiano professor de história bizantina de look gótico-metálico, ateu, educado por jesuítas e grato por isso, opositor convicto e aguerrido de Erdoğan, e amante de boa música. Pena não acreditar que o Nuno está cego – há turcos muito desconfiados. Uma figura com 25 anos de experiência nestes circuitos e ricas histórias para partilhar. Tivemos sorte.
Pouco depois era hora de almoço. Desta feita em restaurante com serviço buffet, no qual faço sempre a figura de ventoinha comilona já que tenho de cirandar na sala para servir o Nuno e só depois a mim. Dessa refeição registo apenas a sopa de vegetais e ervas várias - discutidas à mesa mas entretanto esquecidas -, aconselhada pelo casal de Coimbra que nesse dia ficou junto a nós. E o café turco. Óptimo. Felizmente mantive-me indiferente à sugestão ouvida de não o tomar ou pelo menos escolher sem açúcar visto que os turcos o adoçariam demais. Qual quê?, não sou de muito doce e estava muitíssimo bom, foi só questão de deixar assentar o pó e não beber as borras. Pude confirmar que os medos do café turco são infundados. De todo, gostei bastante.
Seguimos caminho fazendo uma paragem no miradouro do Vale Vermelho. Em local altaneiro com vista para a magnífica paisagem, propícia a tentadoras fotografias. No lugar uma cadeira baloiço pendurada em árvore decorada a balões e pedras de olho turco – a pedra em espiral de diferentes azuis muito usada nos meios esotéricos que só agora soube chamar-se assim -, e uma série de mesas, todas estrategicamente colocadas junto à escarpa para criar o efeito de boas imagens. Já no vale pudemos estar próximos das estranhas formações rochosas com efeito “chaminés de fadas”. À saída da zona visitada, junto aos pobres camelos sujeitos às alegrias dos turistas, um gato amistoso como tantos outros que vi ao longo da viagem (e também cães dóceis), aproximou-se do grupo, acabando aos pés do Nuno a receber a devida atenção e mimo.
Despedimo-nos do gato amarelo riscado e fomos pouco mais adiante conhecer uma histórica cidade subterrânea, com casas e túneis secretos no subsolo. Um lugar onde os povos ao longo dos séculos escavaram as rochas e encostas para fazerem casas e verdadeiras cidades com vários andares abaixo da superfície. Era suposto descermos três pisos, mas fomos apenas aos dois primeiros. Para mim foi um regresso à sensação de criança de entrar numa mina de água. Os exíguos e muito baixos vãos que dão acesso às “galerias” obrigavam a que o Nuno, com o seu 1.85m, se debruçasse ao nível da minha cintura. Não descemos ao terceiro piso dada a irregularidade da rampa. Detesto descer e para ele seria complicado. Saímos dos subterrâneos, viemos tomar uma Coca-Cola e uma Fanta Laranja num boteco e poucos minutos depois vimo-nos cercados de mais convivas divertidos com a música popular turca que a dona do estabelecimento havia posto mais alto. Filmei a S. e a T. a dançar – a T., uma bem-disposta com quem engracei logo no primeiro dia, ainda em Istambul, quando a vi a arrumar pinos rodoviários abalroados por um autocarro e resguardar garrafas de vidro que podiam ferir transeuntes. Uma vez sentado à mesa o grupo alargado, e não faço ideia a que propósito, falou-se da particular ligação de cada um com Deus e de experiências espirituais pessoais - da forma particular como cada um de nós vê sentido na existência.
De lá seguimos para a última visita comercial: manufactura de tapetes. Não resisti e trouxemos um dos últimos a ser exibido – dos mais modestos -, um Kilim que há muito cobiçava. O negócio foi feito à moda antiga, com o forte bater no chão de mais de duas dezenas de tapetes perante a plateia de 40 turistas a beber o ofertado chá de maçã, seguido de regateio, chamada do gerente para aceitação dos termos propostos, contrato escrito e certificado de autenticidade. Como já contei aqui nas Comezinhas senti-me a cair no engodo em sessão do Hotel Ipanema no Porto a negociar tapetes ou time-sharing. Bem sei que tudo isto faz parte dos roteiros óbvios de turismo. Não quero saber. Trouxe para a nossa sala o tapete que quero e gosto. Além de tudo, do aroma a novo: cheira a corda.
À hora da Cinderela vieram buscar-nos ao hotel e numa hora e picos alcançámos o pequeno aeroporto de Kayseri conduzidos por um turco que quase não falava inglês. Entre as poucas palavras disse: sorry, Cristiano Ronaldo e Quaresma. Repetiu diversas vezes o nome do último. Obviamente, meteu-me no coração. Bem tentei falar da passagem do jogador pela Turquia, mas ele não entendia nada. O Nuno chamou-me a atenção para o facto de o sentir envergonhado por isso. Ficámos em silêncio depois de lhe ter demonstrado que estava tudo bem se não falássemos. Passou uns largos minutos agarrado ao telemóvel que me entregou na mão aberto no tradutor do Google. Havia escrito um longo texto em turco que traduzido para português resultava numa bonita e delicada mensagem a demonstrar admiração pela nossa família, pelo meu cuidado com o Nuno, a agradecer a visita à Turquia, a sugerir gorjeta – os turcos são mais parecidos com os angolanos do que com os portugueses, não dissimulam estas coisas -, despedindo-se com beijos e mais palavras bonitas. Respondi com um elogio à delicadeza dos turcos e à forma como fomos bem recebidos, desejei do coração as maiores felicidades para si, a família e amigos. Passei a gasosa ao Nuno, que a entregou. Na mensagem despedi-me também com um beijo e fiquei a matutar se seria habitual na Turquia. Vi que sim entre homens, não cheguei a perceber se o era entre homens e mulheres. Mais tarde investigarei – não há nada como ser ignorante, temos sempre o mundo à nossa espera. Extra troca de mensagens as despedidas foram dentro do aeroporto com o franco aperto de mão depois do nosso amigo se ter certificado que as malas estavam na primeira passadeira de revista e os funcionários do aeroporto instruídos a tratarem-nos bem - não é preciso saber turco para compreender.
Um apontamento curioso passado no aeroporto consistiu na decisão de uma vez chegada a hora de embarcar e nada indiciar que a “gate” abriria - a zona das partidas é uma sala ampla de dois pisos dividida apenas pelas portas da revista e a equipa de funcionários é a mesma nas diversas funções -, foi a decisão, dizia, de me aproximar com o Nuno da porta de revista destinada à classe business, a única a funcionar, para questionar quando seria o embarque do comum mortal. Percorremos a sala até lá, fizeram-me duas vezes sinal para esperar – havia duas pessoas a revistar nessa área – e indicaram-me que a nossa abriria logo a seguir. Quando me viro vejo que tenho 50 ou 60 pessoas atrás de nós - o vôo seguinte só seria três horas depois. Estavam à espera que alguém tomasse a iniciativa. Comentário do Nuno no momento: tens mais seguidores na Turquia do que no blogue, tens de vir para cá viver. Chegados ao mui movimentado aeroporto Istambul, onde os funcionários da Turkish Airlines foram pouco simpáticos, trocámos de avião para o Porto. Já no Porto, aliás, na Maia, o sorriso do afável cinquentão do controlo de passaportes fez-me sentir em casa: um sorriso portuense, português. Nosso.
27/10/2023
Viagem à Turquia IV
O terceiro dia.
Abandonámos a moderna decoração do quarto do hotel de Ancara com o propósito de visitar o mausoléu erguido em honra de Mustafa Kemal Atatürk, líder do movimento nacional de resistência contra a ocupação das forças Aliadas – resultante da participação e derrota do Império Otomano na Primeira Guerra Mundial ao lado dos alemães. Fundador da República Turca - a celebrar agora cem anos -, promoveu durante a presidência reformas no sentido de ocidentalizar, democratizar e secularizar o país. Pelo que se conta como figura militar destacada dada bravura na Batalha de Galípoli e pela revolução que ajudou levar a cabo merece que lhe dedique algum tempo em leituras, mas na reforma - o que vou aprender e gozar durante a reforma que tanto anseio e idealizo não se imagina (livra-te de morrer cedo, rapariga; "ouvistes?", livra-te). Assistimos ao ruidoso render da guarda e seguimos com a I. em busca do café expresso acompanhado de um pratinho de bolachas que me souberam pela vida. Oferta da nossa companheira de viagem.
De lá continuámos caminho para sudeste rumo à região turística da Capadócia – não existe actualmente nenhuma região administrativa com este nome. No rigor dos termos estivemos, seja em Ancara, seja na Capadócia, na Anatólia Central da Turquia. Aproveitei para ir lendo O Romancista Ingénuo e o Sentimental, de Orhan Pamuk. Não pude deixar de engraçar com a coincidência de pontos de vista com o autor sobre a pretensão dos leitores supostamente “sabidos” e “sofisticados” acerca da distinção de planos entre personagem e autor, mas também à discordância - um dia hei-de fazer um postal sobre o assunto - quanto ao conselho de evitar juízos morais na literatura. A ver vamos se nos próximos dias acabo de ler o livro, que ficou em pousio. A paisagem que avistávamos do autocarro era belíssima, em particular os vários quilómetros de Tuz Gölü - o Lago Salgado -, onde parámos para as costumeiras fotografias.
E sabendo-nos a aproximar do Alentejo a boa-disposição com o Nuno continuava. O almoço foi em estabelecimento hoteleiro bonito e o cardápio bem adaptado ao gosto de turista português: além da salada de entrada, foi servido arroz, batata assada e uma púcara de barro com estufado de carne de vaca em vegetais vários – no jantar da noite anterior o bicho eleito foi cordeiro. A mesa, a conversa e a descontracção divididas com a S. e a A.M, e o F. e a M.
Atravessámos os Vales de Avcilar e Uçihsar. À passagem muitas graças se disseram a pretexto de adivinhar formas e figuras nas estranhas formações rochosas. Parámos no Vale da Imaginação – Vale Devrent – que é de facto belo e bizarro, óptimo cenário para as fotografias da praxe com o “camelo de pedra” a fazer de fundo. De lá trouxe duas xícaras de café: uma preta, outra vermelha, profusamente decoradas a genuíno e típico desenho turístico (sim, não perceberam mal: é piada). Fazem parte dos pares de xícaras que fui trazendo de algumas viagens como as de Barcelona e Veneza. Lá me ia esquecer de trazer o Galo de Barcelos dos lugares por onde passo. Prezo-me de ser uma turista bem parola.
Antes da chegada ao hotel ainda houve tempo para visita comercial a joelharia. Ao que diz o programa para descobrir as pedras típicas da Turquia. Ouvi atenta a explicação sobre a turquesa: as diferentes tonalidades e origens. Entre outras: chinesa, iraniana, turca, brasileira, e russa (ou será do Cazaquistão?). Pude reparar que o entusiasmo nas jóias naquele grupo de 40 elementos decaía à medida que a idade avançava. Vi algumas raparigas novas excitadas com as compras - especialmente com a zultanita, a pedra que muda de cor -, e as mais velhas mais moderadas ou mesmo indiferentes face às preciosidades.
E daí seguimos no encalço do hotel que tinha para nossa alegria uma bela banheira. Pena o colchão fofo – gosto de colchões duros. A vida não é perfeita e enquanto as queixas se resumirem à "fofura" do leito não é mau sinal. Ao contrário dos dias anteriores não aderimos aos passeios opcionais da agência de viagens, não ficámos a dormir nas cavernas - preferimos mesmo o conforto do Hilton -, nem adormecemos a pensar que teríamos de nos levantar às quatro da manhã para às cinco rumar ao vôo de balão de ar quente. Esse passeio está caríssimo, pelo que não houve pachorra. Aproveitámos para dormir o sono dos justos e na manhã seguinte tive uma boa surpresa.
(continua)










