Hesitante entre escrever e deixar passar o tempo nesta véspera de viagem. Tudo organizado com antecedência. É o que dão os tiques de velhice precoce. O que vale é que não batem certo com os vaipes aleatórios que sempre me assolam. Sempre aparecerão notas soltas.
Ontem comentei com a minha mãe e um colega de trabalho que me sentia vestida de lésbica. Cada um tem os preconceitos e as pancas que tem. Em regra, nascidas da educação e do percurso de vida. A maluqueira de ontem nasceu da vivência. Nos anos em que frequentava bares gays na companhia dos meus amigos homossexuais – já lá vão quase 30 anos -, deparei-me algumas vezes com lésbicas vestidas de jeans, sapatilhas ou sapatos largos e camisa branca ampla e solta. Assim dei por mim vestida ontem e ri-me quando me olhei ao espelho e fiz a associação. Daí o comentário que fez rir a minha mãe e o Z. Comuniquei-lhes formalmente: hoje vesti-me à lésbica. Recordei também em conversa na empresa que em miúda não gostava de botins de tacão por ter enfiado na cabeça que eram sapatos de puta. É assim que todos nós criámos minhoquices. E há alguns tontos como a autora desde blogue que os admite e gosta de se divertir à custa deles. É engraçado como hoje me rio destas palermices. Creio que se me fizessem algum comentário há 20 ou 30 anos ficaria um pouco incomodada. Não há nada com a idade e o bom senso por ela acumulado.
A propósito destas coisas voltei a lembrar-me do dia de casamento no mês passado. Protelei o relato, mas quando voltar da Turquia hei-de contar as horas bem-dispostas que passei nessa ocasião seja no almoço, seja no acto oficial, que foi uma pantominice só ou não estivéssemos lá os que estávamos – sim, sei, é uma grunhisse ir para as Conservatórias do Registo Civil fazer figuras tontas, mas foi isso mesmo que fiz, parcialmente sem qualquer intenção, mas alinhando na boa-disposição. E já agora contarei também as confusões no hotel de Esposende. Fica o post prometido – a ninguém, já que o blogue está privado. Rindo. Mas quando reabrir pode ser que leiam o histórico das Comezinhas ou o recapitule – seria aliás uma forma de descansar. Quando reabrisse, limitar-me-ia a ir colocando as entradas por ordem cronológica desde o dia (23 de Setembro) em fechei a porta a visitas.
E agora qualquer coisa muito diferente. Há anos consulto as penhoras das Finanças. E por vezes ponho a hipótese de tentar fazer negócio. Há gente e empresas especialistas nas compras em leilões e o risco destes negócios é real. Além de se pôr a questão moral de aproveitamento das dificuldades alheias. Sucede que devo ser mais pragmática e realista: espera-me uma reforma de baixos rendimentos e terei de fazer qualquer coisa pela vida antes de chegar a essa idade. Quem sabe se fizer uma oferta por um apartamento mais pequeno aqui no Porto, após investigação através das certidões permanentes e cadernetas prediais, mais uma conversa com o fiel depositário e vizinhos, não posso fazer uma boa compra. E com umas obras posteriores não posso colocar o imóvel a arrendar a preços não especulativos ou mesmo vendê-lo com algum lucro? Tudo a ver depois de regressar da Turquia. Se não conseguir inspeccionar o apartamento ou averiguar se foi dado em garantia, claro que ficará tudo sem efeito, o que é o mais provável. Mas quem sabe? Penso nisto há anos e nunca me atirei a nenhuma compra destas, quem sabe não será a altura?
Além disto, não esqueci da carta de condução. Nunca esqueço. Martelo a cabeça com isso de modo recorrente há 30 anos como já contei há dias.
Profissionalmente terei de esperar pelo desenrolar dos acontecimentos. Tudo quanto podia fazer para tentar definir a minha posição e ambição já fiz. Agora é esperar pela configuração das circunstâncias.
A vida pessoal e afectiva segue terna e tranquila. Passo a passo recomeço a acreditar que tudo pode voltar a ser mais bonito e empolgante – já que é da minha natureza procurar (ou tropeçar?) sempre o arrebatamento nas relações, como foi no caso do Nuno há 8 e 9 anos, há 12 e 13 anos, há 22 e 23 anos. A parte negativa destas ondas é o esvair do entusiasmo e as distracções. Só preciso continuar a perder menos tempo e ânimo com devaneios tontos a que sempre fui achacada e valorizar o real e efectivo, a lealdade e o carinho. No fundo é muito simples: ser menos volúvel, valorizar o que admiro e apostar em espicaçá-lo para voltar a ser apaixonante.
De resto, deixo as fotografias da preparação das malas – tão diferente do improviso e descomplicação do passado. Tudo organizado na véspera a denunciar a tal velhice precoce. A roseira cujas flores quando regressar já deverão estar murchas ou caídas. E o jantar de hoje: lulas recheadas na fritadeira de ar quente, arroz de ervilhas e tomate.
E isto me tem ocupado os dias, além de telefonemas ou parcas trocas de mensagens com família a amigos, ouvir a smooth ou o Nuno ao piano, brincadeiras e festinhas no gato e conversa a dois entremeadas com vários cafés. Ler pouco e andarilhar um bocadinho. Tudo muito singelo. Intervalando alguns momentos de melancolia e irritação com mais momentos de alegria.
Ah, sim. A escrita. Para lá de tudo: o tempo para escrever. Devia ser a prioridade. É a prioridade. O espelho do prazer e da dor na escrita. As primazias relegadas para o tempo que sobra dos afazeres e da cera.




