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03/10/2023

A culpa morre solteira

Vou tentar escrever qualquer coisa para não passar um dia em branco no blogue. Isto de continuar as Comezinhas em privado confere uma liberdade enorme. É saudável dizer o que apetece – como se não fosse sempre assim, ainda que em público, enfim, há-de ser maior a autonomia, pelo menos sinto maior desenvoltura, menos engasgos. Chego a pensar se não seria boa ideia reabrir daqui a meses – quem sabe em Janeiro – para dar um arejo às palavras, cumprimentar as visitas, dar-lhes tempo para lerem o que quiserem e voltar a fechar as portas pouco tempo depois para descanso e ficar à minha vontade, descalça de ideias danosas e castradoras, além de evitar a minha nociva reactividade. O Nuno notou. Quase tudo melhora não estando sujeita por tempo excessivo ao bitaite e diz-que-disse volátil alheio – bastam as minhas próprias parvoíces.


E seguem-se apontamentos soltos e sem ligação entre si.


Estamos nas mãos dos aparelhos. O telemóvel faz-me álbuns de fotografias do Nuno com banda sonora e dá-lhe o título de “pessoas que gosta de fotografar”. Conta-me os passos também sem lhe ter pedido opinião e o pior é que tal como há 10 ou 20 anos nunca sofri muito com essa devassa. Sabia-me bastante transparente apesar de reservada.


Dizem que dou ar de nariz empinado, um tanto arrogante. Para alguns, parvalhona mesmo. Ao longo da vida granjeei alguns ódios, poucos, mas figadais. Apesar de sempre ter tido (poucos) bons amigos, nunca fui popular. No entanto, e sabendo-me a julgar em causa própria, não estarei mais longe de ser presumida com quem trata bem os outros em geral e a mim em particular. Mas também sei que sou intratável com paspalhos/as, pavões/oas e aldrabões/onas. Lamento. Nunca mudarei. Darei sempre o benefício da dúvida até dar pela grunhisse. Posso ser enganada e desiludida 20 vezes, não mudarei. Talvez a única alteração seja a de conseguir um mínimo de falsidade, fazendo de conta que tolero ou mesmo simpatizo por mais tempo do que seria suposto, mas basta ao virar da esquina dar de caras com a cretinice ou recordar canalhices recorrentes para toda a dissimulação ir por água a baixo – não levo muito jeito para mentirosa. Nem me atrai a encenação, mentira e deslealdade. Muito menos o uso premeditado abusivo e furto de imagem, ideias e memórias alheias. Nada disto possui um pingo de glamour ou apelativo, pelo contrário: enoja-me. Acho porco, infantil e debilóide. A vida já nos coloca em situações bastante difíceis de gerir com dignidade, e apesar de em regra reinar a boa-disposição, esgota-se-me a paciência com o engraçadismo, jogos pueris e desonestos de paspalhos/as.  A miúda sólida e chata como a Arte Nova não sairá de mim, nem quero que saia, até ao último suspiro.


Já comprei o livro de Orhan Pamuk. Comecei a ler e mais uma vez acertei. Revejo-me logo nas primeiras páginas. Vou levá-lo comigo. Assim tenho leitura para o vôo de ida.


Agora vem de novo a arrogante, nariz empinado. Há momentos em que dou por mim a ler argumentações políticas ou laivos opinativos de meninas e meninos ressessos sobre o mundano, ou desabafos sentimentais e dou por mim a pensar (creio que já contei aqui uma vez): como é possível que homens e mulheres de 40, 50 e 60 anos pensem como eu pensava aos 14 ou 15, a preto e branco? Verem o mundo como adolescentes obsoletos? Além do mundo ter evoluído – caramba, passaram 35 anos -, que raio de vida terão tido para nada os amadurecer? Processar o raciocínio com maior entendimento e sensibilidade? Ficaram a tropeçar diariamente nas descobertas e excitações pueris da discussão politiqueira, a brincar aos cromos (cinema, música, gastronomia, vinhos, pintura, história, economia, religião, intriga de sociedade, literatura etc.), a espumar com futebol ou algum tema da actualidade ou questão fracturante dividindo-se entre trogloditas agressores e palermas das modas, uns e outros cheios de doutos argumentos e abundantes referências. Tudo isto com grande entusiasmo, mestria e vaidade como se nascessem ensinados ou acabassem de descobrir a pólvora a cada instante. Todavia pensar e sentir como gente madura nem por isso. Dá um bocadinho mais trabalho, requer simplicidade, entendimento e consciência, reconhecimento fiel e esclarecido de ideias e sentimentos. Verdade no lugar da aparência. Bem sei que cada um sabe de si e detesto meter-me na vida pessoal alheia. Mas admito que fico a pensar que vidinha algumas personagens tiveram para produzirem testemunhos tão pobres e levianos, apesar de tantas vezes bem floreados com ilusão de sabedoria ou erudição. Daqui a uns dias farei mais um postal onde aflorarei exemplos em abstracto desta pobreza de densidade intelectual e emocional para lá da aparência de estofo de pessoa informada, vivida, lida e culta.


Por fim, uma questão que me ocorre de quando em vez e queria esclarecer. O facto de não exemplificar com nomes e situações concretas tem uma razão. Bem mais legítima do que pensa quem está habituado ao arengue de nomes e factos e distorção dos mesmos. A minha intenção não é fazer intriga ou maledicência. Não tenho o menor prazer em formar ou fazer parte de facções ou gerar animosidades gratuitas. Aliás, isso envergonhar-me-ia. Sentir-me-ia diminuída. As minhas diatribes são as que são e têm os motivos que têm - cada um carrega em si fúrias e mágoas lado a lado com paixões e agrados. Uns disfarçam-nas mais do que outros, tentam embelezar, adoçar, deturpá-las em descrições supostamente objectivas e relatos pseudo-isentos ou satirizá-las ao romancear, ironizar ou intelectualizar e, infelizmente, confundem inteligência, lucidez e bom senso com dissimulação. Poderei ser acusada de intransigência, exagero, mau génio, ressabiamento, excesso de moralismo, o que seja. Mas odeio e odiarei sempre mexericos. Na minha “má-língua” só enfia a carapuça quem quer. E só os próprios a sentirão dirigida, sem que outros possam usá-la como arma de arremesso. Limito-me a dizer o que detesto, irrita e ofende os outros ou a mim. Sem nomes nem factos concretos. Isso seria um maná precisamente para quem não presta e não teria serventia alguma. Sei que há muito comprador e audiência para a intriga e maledicência melhor ou pior dissimulada, mas nessa não caio. Até porque aprendi muito cedo que quem costuma acusar outros de mexerico e inveja é quem deles mais tira proveito, quem os pratica todos os dias pela calada ou em público sob o pretexto de defesa da liberdade de expressão e do pluralismo de opinião com um sorriso simpático e riso inocente na face e elogio ou sátira fácil e sempre, claro, de costas bem quentes - enfim, os corajosos de garganta muito bem instalados. Ora, como sou bem cobarde, preguiçosa, ignorante, desprovida de talento e quem sabe invejosa, não preciso fazer essa prova de força - já repararam que se diz amiúde e com prazer desmesurado que o português é invejoso, mas o cobiçoso é sempre  vizinho? Sou um caso perdido, dizem que são assim os frustrados: gostam de chafurdar na derrota por comodismo - já repararam que se adora acusar de frustrados os críticos dos vícios do país, mas o ressabiado é sempre o vizinho? Deixo o brilhantismo para os corajosos que com inteligência e superior humor enfrentam os poderes instituídos e com garbo se defendem das atoardas, inveja e injustiças imerecidas, muito trabalhadores, sérios e competentes, eruditos e pejados de genialidade, amigos e felicidade, de mérito irrefutável e muito correctos no trato, a quem a sorte, facilidade, mediocridade e o oportunismo nunca tocaram, mas apenas esforço e dedicação - gente vitoriosa, magnânime e sem mácula. Prostro-me de costas bem curvadas quase a dobrar a coluna. Só não parto a espinha em reverência para não criar comoção e perturbar ou beliscar tamanha honestidade e génio do triunfo português.


Haja alguém que carregue a culpa e a lambe-botice portuguesa - essas encalhadas que morrem sempre solteiras. Haja alguém que viva na sarjeta da desconsideração por responsabilidade própria - por ser desprezível. A tal miúda sólida e chata como a Arte Nova não me larga a peúga. Sem pinta de glamour, nem admiradores. Uma maçada.


 


Adenda. Este post foi actualizado a 04-10-2023.