O terceiro dia.
Abandonámos a moderna decoração do quarto do hotel de Ancara com o propósito de visitar o mausoléu erguido em honra de Mustafa Kemal Atatürk, líder do movimento nacional de resistência contra a ocupação das forças Aliadas – resultante da participação e derrota do Império Otomano na Primeira Guerra Mundial ao lado dos alemães. Fundador da República Turca - a celebrar agora cem anos -, promoveu durante a presidência reformas no sentido de ocidentalizar, democratizar e secularizar o país. Pelo que se conta como figura militar destacada dada bravura na Batalha de Galípoli e pela revolução que ajudou levar a cabo merece que lhe dedique algum tempo em leituras, mas na reforma - o que vou aprender e gozar durante a reforma que tanto anseio e idealizo não se imagina (livra-te de morrer cedo, rapariga; "ouvistes?", livra-te). Assistimos ao ruidoso render da guarda e seguimos com a I. em busca do café expresso acompanhado de um pratinho de bolachas que me souberam pela vida. Oferta da nossa companheira de viagem.
De lá continuámos caminho para sudeste rumo à região turística da Capadócia – não existe actualmente nenhuma região administrativa com este nome. No rigor dos termos estivemos, seja em Ancara, seja na Capadócia, na Anatólia Central da Turquia. Aproveitei para ir lendo O Romancista Ingénuo e o Sentimental, de Orhan Pamuk. Não pude deixar de engraçar com a coincidência de pontos de vista com o autor sobre a pretensão dos leitores supostamente “sabidos” e “sofisticados” acerca da distinção de planos entre personagem e autor, mas também à discordância - um dia hei-de fazer um postal sobre o assunto - quanto ao conselho de evitar juízos morais na literatura. A ver vamos se nos próximos dias acabo de ler o livro, que ficou em pousio. A paisagem que avistávamos do autocarro era belíssima, em particular os vários quilómetros de Tuz Gölü - o Lago Salgado -, onde parámos para as costumeiras fotografias.
E sabendo-nos a aproximar do Alentejo a boa-disposição com o Nuno continuava. O almoço foi em estabelecimento hoteleiro bonito e o cardápio bem adaptado ao gosto de turista português: além da salada de entrada, foi servido arroz, batata assada e uma púcara de barro com estufado de carne de vaca em vegetais vários – no jantar da noite anterior o bicho eleito foi cordeiro. A mesa, a conversa e a descontracção divididas com a S. e a A.M, e o F. e a M.
Atravessámos os Vales de Avcilar e Uçihsar. À passagem muitas graças se disseram a pretexto de adivinhar formas e figuras nas estranhas formações rochosas. Parámos no Vale da Imaginação – Vale Devrent – que é de facto belo e bizarro, óptimo cenário para as fotografias da praxe com o “camelo de pedra” a fazer de fundo. De lá trouxe duas xícaras de café: uma preta, outra vermelha, profusamente decoradas a genuíno e típico desenho turístico (sim, não perceberam mal: é piada). Fazem parte dos pares de xícaras que fui trazendo de algumas viagens como as de Barcelona e Veneza. Lá me ia esquecer de trazer o Galo de Barcelos dos lugares por onde passo. Prezo-me de ser uma turista bem parola.
Antes da chegada ao hotel ainda houve tempo para visita comercial a joelharia. Ao que diz o programa para descobrir as pedras típicas da Turquia. Ouvi atenta a explicação sobre a turquesa: as diferentes tonalidades e origens. Entre outras: chinesa, iraniana, turca, brasileira, e russa (ou será do Cazaquistão?). Pude reparar que o entusiasmo nas jóias naquele grupo de 40 elementos decaía à medida que a idade avançava. Vi algumas raparigas novas excitadas com as compras - especialmente com a zultanita, a pedra que muda de cor -, e as mais velhas mais moderadas ou mesmo indiferentes face às preciosidades.
E daí seguimos no encalço do hotel que tinha para nossa alegria uma bela banheira. Pena o colchão fofo – gosto de colchões duros. A vida não é perfeita e enquanto as queixas se resumirem à "fofura" do leito não é mau sinal. Ao contrário dos dias anteriores não aderimos aos passeios opcionais da agência de viagens, não ficámos a dormir nas cavernas - preferimos mesmo o conforto do Hilton -, nem adormecemos a pensar que teríamos de nos levantar às quatro da manhã para às cinco rumar ao vôo de balão de ar quente. Esse passeio está caríssimo, pelo que não houve pachorra. Aproveitámos para dormir o sono dos justos e na manhã seguinte tive uma boa surpresa.
(continua)