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21/10/2023

Estado de Alma

Está difícil afastar o desânimo. Acabo de desligar a smooth fm. Deve ter havido excesso de smooth nos últimos anos. Preciso desintoxicar. Depois de desligar duas ou três propostas anglófonas, descobri no YouTube um vídeo de música popular brasileira. Preferia sem letra, apenas instrumental, mas safa-se. Daqui a meia-hora já se deve notar o efeito. Quero fazer esta noite a última entrada da viagem à Turquia. Quando terminar, terei a alegria de ver mais uma "tarefa" feita - agora é assim: encaro tudo como pequena empreitada. Linha de montagem. Em série. Sai tudo, haja ânimo ou não. Há quem chame a isto viver. Qual será a empreitada seguinte? Será finalmente ficção? Seria bom. Mas continuo a temer estar sempre a anunciar e não ser capaz de concretizar.


Maldita falta de ânimo. Xô. Será da chuva? Mas sempre gostei de chuva, caramba. Xô, andor. Fora tristeza, fora mágoa. Fora dor. Desanda. Andor mimo e derrotismo passageiro. Vai chatear a puta que te pariu. Tudo quanto me mina a felicidade, tudo quanto me irrita. Andor gente quezilenta, de mau-espírito, de má-onda  Sei que não tarda nada estarei bem-disposta de novo. E quero que se prolongue. Sei. Xô perda de tempo com gente gananciosa. Xô gente que corrompe a tranquilidade alheia com a ansiedade da busca do lucro pelo lucro. Xô gente que na ambição pisa e usa tudo e todos - sejam afastados ou próximos; sejam relações pessoais ou profissionais. Xô perda de tempo com gente que despreza e desconsidera os outros. Xô gente que não se enxerga (como dizem os brasileiros), insultando e ofendendo sem pudor ou sequer consciência, tal é a imbecilidade e ridícula soberba. Xô gente parva que recorre a frases feitas e referências mimetizadas para tentar exibir humanismo que não sente. Xô gente que só enaltece ou considera quem traz lucro e não pode furtar. Xô estúpidas e estúpidos presumidos que se armam em inteligentes e sumidades com ascendente para ferir os outros, o bom senso e a compaixão - por pura burrice. Xô gente que aprecia o conflito gratuito e a violência usando-os para obter lucro e audiência. Xô gente que rouba o talento alheio. Xô escroques arrogantes que desprezam gente de bem só para se sentirem alguém. Tudo gente desprezível a viver da maldade e da mentira a troco de vidas fingidas. Artifício, falsidade, miséria de carácter, miséria humana. Asco.


Sim, daqui a nada estarei bem-disposta. Só preciso vomitar outra vez esta gente. Bem sei que é recorrente. Mas o mundo é igual a si próprio desde que é mundo.


Sim, há também o mea culpa: quão burra e inconsequente. Pago-o caros. Muito caro. Ah, caramba, mas voltarei sempre a pé, sempre em pé. Não me doerá mais do que se vivesse sem sentir. Os engodos não me desviarão do caminho nem de quem sou. Nunca. 


Sim, sei que daqui a nada estarei de novo bem comigo própria. E verei a vida bonita como me trouxe a bondade do Nuno. Deus sabia que só um coração quase puro (ele diz que tem muitos vícios) me podia curar desta doença que é ver o mundo sujo como ele é - um processo, a vida a curar mágoas e fúrias mansas, que nascem todos os dias como ervas daninhas e, não havendo modo definitivo de as arrancar, são aparadas no dia-a-dia pela decência - pelo amor?