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24/10/2023

Viagem à Turquia I

Nos devaneios de há dois anos imaginei visitar Amesterdão, Istambul, São Petersburgo e Moscovo. Em Outubro do ano passado lá fui visitar Van Gogh calcorreando sem roteiro definido e por conta própria as ruas que ladeiam os canais do Amstel desviando-me das bicicletas entre as austeras fachadas de tijolo dos edifícios nórdicos, pontuadas de coffee shops e casas de ferragens – cada um fixa o que lhe apetece. Este Outubro além da antiga Bizâncio ou Constantinopla, actual Istambul, pude dar um pulo a Ancara e conhecer as riquezas históricas e belezas paisagísticas da região turística da Capadócia. O próximo ano seria destinado à Rússia, mas vá-se lá saber porquê a viagem ficará sem efeito. Não me posso queixar do retorno às saídas que tanto ansiava depois de alguns anos sentindo-me presa entre portas nacionais. Como contei em Maio de 2020, a minha viagem de sonho de miúda é ao Peru. Ainda não conheço a América do Sul. Aos 24 anos andei um mês e picos pelas Américas, mas mais a norte, desde miúda percorri alguns destinos europeus, aos 28 passei lépida no Extremo Oriente e fiquei dois meses na Austrália. Aos 31 voltei a Angola, onde nasci. Quando me imagino na América do Sul idealizo um período de pelo menos um mês. Para passar uma semana em Florianópolis, onde um velho amigo tem casa, e dividir o resto do tempo pela Patagónia (Argentina e Chile) e o Peru. Terei de arranjar um roteiro à minha medida, ou não. Farei um circuito como fiz em Itália e agora na Turquia. Afinal não sou esquisita, não passo de vulgar turista sem pretensões a dar ar de viajante - uma forasteira sem aspiração a alma de viajante; coisa estranha. Apesar de um texto como este já ser considerado por alguns como prosa de ignorante gabarola que despeja catadupas de destinos em poucas linhas - não nego alguma vaidade no punhado de périplos pela simples alegria que me deram. Quando idealizo a viagem de sonho, acabo por remetê-la para a reforma. A ver vamos se e quando se verificará. Há duas semanas estive a ver circuitos na China e fiquei de olho num de 12 dias (Pequim, Xian, Xangai, Cantão, Hong Kong e Macau). Claro que essa viagem é caríssima e sempre a correr como é costume, porém talvez consiga se pensar bem e poupar durante dois (ou três) anos em vez de um. O que implica não sair nos próximos anos. Sonhar ainda é de graça.


Retomar as viagens nos últimos tempos impôs-me a superação de medos e ansiedades com a logística como já aqui contei. Viver e viajar com o Nuno, estando ele cego, obriga-nos a pôr em causa determinadas hipóteses: e se me acontece qualquer coisa fora de portas? Se adoeço ou tenho um acidente? O Nuno dá sempre bom tempo e recorda-me que existem embaixadas e consulados. Mas não sossego facilmente. Aliás, é uma preocupação doméstica que se limita a agravar nas viagens. Por exemplo o ano passado quando tive a crise de vesícula ficando internada oito dias antes de ser submetida a cirurgia vi a minha vida mal parada (num dos dias fui-me mesmo abaixo) precisamente por causa desta particularidade que me obriga a ter de contar à minha falta com a ajuda de terceiros. Por outro lado, sentia-me tataranha em resultado de inseguranças que se foram acumulando nos anos de vida mais caseira, menos audaciosa em termos de movimento. Romper estes fios de misto de dificuldades reais e complicómetro de estados de alma não é fácil.


A escolha de fazer a viagem com itinerário pré-definido e guia tranquilizou-me sobretudo sabendo que iria para a Turquia, um Estado apesar de laico com a esmagadora maioria da população muçulmana, onde não são raros ataques terroristas. Bem sei que tudo isto soa a exagero securitário (ou soaria antes do sucedido na semana passada em Gaza), todavia gosto de ser prudente – nada estimulante: nem viajante nem temerária, um enfado só. A imagem da miúda sólida e chata como a Arte Nova não me larga. Ainda pedi o mapa de Istambul no hotel enfiando-o na carteira, mas o certo é que nos limitamos a seguir os passos e sugestões dos guias. Já vou começando a estar na idade em que a balança pesa para o lado do conforto e da segurança.


De modo que no dia 6 de Outubro embarcámos a meio da tarde num Boeing 737 Max da Turkish Airlines. Como continuo uma criança a encarar os aviões com o empolgação de quem goza um brinquedo grande, gostei de voltar a fotografar a asa e de rever os ecrãs com os mapas de informação de vôo à moda dos primeiros que conheci na Singapura Airlines. Já não me lembrava que o programa incluía filmes, livros e música. Foi bom o Nuno ter feito a viagem a ouvir o filme Avatar e eu a escutar jazz e música étnica - já nem me lembro qual, o que é irrelevante.


E pronto, nos próximos dias escreverei sobre a estadia na Turquia. Já se sabe: seguir-se-ão descrições de roteiros óbvios de turista vulgar de Lineu e eternos apartes a despropósito. Fotografias da empolgação com a vista da asa do avião a deixar o solo e cortar o céu. Serão prováveis imagens da praxe nos locais, paisagens e monumentos mais conhecidos como pano de fundo da fronha deste bem kitsch e sorridente casal de turistas – contentes por passearem como qualquer casal parolo -, iguais a milhões de outros que enchem os pontos de interesse marcados pelas agências de viagens e páginas lifestyle na internet sem um pingo de vergonha ou arrependimento. Se ao reabrir o blogue quem ler isto espera encontrar sabedoria enciclopédica, pretensa originalidade ou suposta sofisticação, aconselho esquecer as Comezinhas e partir para leitura de enciclopédias ou outros poisos que aprecie e considere mais.


(continua)