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14/10/2023

Casamento

Amanhã fará um mês sobre o dia em que casámos. É o pretexto certo para escrever umas notas acerca do evento. Como aqui havia contado convidámos a T. e o C. para testemunhas pela minha parte e a F. e a minha enteada pelo Nuno. A K. não conseguiu as trocas de turnos no hospital pelo que não veio – neste fim-de-semana anda sozinha por Viena como convém a uma rapariga de 24 anos. Ao que contou ontem enfiou-se de penetra num grupo de turistas espanhóis para usufruir das explicações do guia; coisa muito portuguesa. Amanhã segue para Praga.


De modo que no dia 15 de Setembro uns minutos antes das 11h00 o Nuno e eu estávamos na Conservatória da Rua Gonçalo Cristóvão. Olhei para a sala, vi o computador e resolvi que nos sentaríamos em frente ao dito – afinal assim se faz nos serviços de atendimento ao público. Chegaram as testemunhas, conversa para aqui e acolá, apresentação da F. à T. e ao C., e logo ali o desajuste de formas de ver o mundo. A F. fortemente impregnada de religiosidade, os meus amigos muitíssimo liberais nos costumes. Entendi que tudo ia correr bem ao ver o C. desarmar a F. e ela alinhar com bom humor habitual.


Chega a conservadora, olho e percebo que a conheço. Fico a pensar: será da Católica ou das temporadas em Vila do Conde? É de algures. Não valorizo. Sentamos e começa a saga da tolice. Chama pelos nomes os noivos e olha para mim e a T. já que éramos quem se apresentava ao centro estando o Nuno por minha causa sentado no lugar de testemunha. O facto de ser extraordinariamente distraída não ajuda e menos ainda o Nuno estar cego, já que seria o único presente com juízo e capaz de pôr ordem à casa. Há risos com a confusão, aproveito para brincar e pergunto à T. se quer casar comigo enquanto o noivo vai tentando manter a compostura dizendo à conservadora que é ele o Nuno. Começa o acto formal com a explicação da lei – diz o C. cá fora: estavas com aquele ar de conheço isso de cor e salteado, estás a ensinar o Pai Nosso ao vigário. A M. – irmã do A. C., como quem estive em várias ocasiões não tira os olhos de mim com um sorriso, creio que fica a pensar que devia dizer que me conhece, mas como continuo a não lembrar de onde, não nos descosemos. Só ao final do dia liguei à minha mãe e disse o nome, que de imediato a identificou. O C. já cá fora faz reparos ao macacão comprado em loja da Foz e sapatilhas do Lidl – conheço o C. há décadas suficientes para conhecer a má-língua. Não é que reparasse mas intuo pela mancha que a M. está impecavelmente vestida e calçada para quem está a trabalhar. Chega a parte dos impedimentos e explica sorridente que precisa saber se algum de nós está casado com outra pessoa, sugerindo por exemplo um casamento em Las Vegas. O Nuno recorda que conhece bem Las Vegas. Conto-lhe que o Nuno esteve lá meia-dúzia de vezes e eu apenas uma, porém não me lembro de ter casado por lá. O C. completa: o que no caso da Isabel não quer dizer nada. Galhofamos os cinco bem-dispostos. Um pouco mais adiante a M. enquanto faz a leitura da lei tem um ataque de riso sozinha. Julgo que tudo aquilo é insólito para uma conservadora cuja educação é ultra-tradicional. Até que é dado o momento dos sins. No exacto instante em que o Nuno ensaia a resposta o despertador do telemóvel do C. toca. Disfarça o indisfarçável dizendo que se esqueceu de desligar. Obviamente não ia perder a oportunidade de marcar o casamento com as suas partidas. No fim a mestre-de-cerimónias pergunta se queremos assinar já que há gente que gosta desse momento para a fotografia. Fico a saber que agora até essa formalidade é prescindível. Radiante digo que é óptimo casar sem assinar, quanto menos frosquices melhor. Sei bem que pode parecer alarve dessacralizar estes actos formais abandalhando-os, mas aprecio a leveza e descontracção. Recordo os dois casamentos em que fui testemunha, um deles o da T., e a rigidez de um dos outros conservadores que presidiram a esses registos; fico contente por me ter calhado a espantada mas cooperante M., que fez estágio de advocacia com o tio M. C.R., amigo de infância e de uma vida da minha mãe, entretanto já desaparecido. Além de ser irmã do A. C., grande amigo dos meus primos, com quem passei alguns Verões de praia em Vila do Conde – outras vidas do passado, cada dia mais longe da minha. O Porto é uma aldeia.


Seguimos a pé para o Portucale que já foi um dos melhores restaurantes do Porto e hoje está decadente - por isso mesmo o escolhi. Era o que me faltava marcar o dia num poiso da moda. Primeiro fomos ao paupérrimo bar, cujo sofá maior tem uma coberta de pano tosco a tapar o estofo de couro roto – pormenor que me deixa deliciada. Não havia sequer café, bebemos apenas água. Entrosamos, a F. fica admirada com o que digo acerca da T., o C. explica que dizemos as últimas uns aos outros porque nos conhecemos há mais de 35 anos e somos bem capazes de nos enxovalharmos a nós próprios sem precisar de ajuda de terceiros. Adianta que somos estrambólicos – palavra minha, a dele não recordo qual foi - e define-me como excêntrica. Ideia que me fica a martelar: sempre os tive por excêntricos, mas não a mim; achava-me a enfadonha tontinha do grupo. Manias minhas. Fala-se de outros tempos, o que marca as várias gerações e as loucuras de cada uma delas. Tento introduzir a astrologia e o efeito de Úrano e Plutão na nossa geração. O C., que aprendeu a ler Tarot com a mais célebre taróloga portuguesa (será daí que lhe vem o sucesso empresarial por esse mundo fora?), ri-se e diz: é sempre engraçado, olha-se para ti, pensa-se que vais dissertar sobre astronomia e sais-te com astrologia. Justifico afirmando que sou básica e deixo os assuntos sérios para o Nuno, ele é que tenta compreender a ciência.


Subimos ao último piso para a fabulosa vista panorâmica da cidade. O C. começa com as recordações perante o olhar surpreso da F.. Lembra um jantar memorável com a M. e quatro drag queens. A M. já morreu e nos meus 19 anos era uma referência da vida que idealizava; já explico a seguir. A propósito das amigas do C. recordámos também a sócia C. e da Figueira da Foz e de Luanda; a C. também já morreu. Ainda somos novos e alguns já desapareceram. Penso sempre na minha sorte em ter vindo a ser poupada a grandes desgostos com os mais próximos, ao contrário do C. e da T.. Mas voltando às loucuras, recordaram-se tempos de saídas nocturnas da nossa juventude e bem conheço o impacto que as drag queens podem provocar em gente mais alinhada. O C. recorda as expressões e trocas de olhares dos empregados e dos comensais de outras mesas nesses velhos tempos em que não estava na moda nem era recomendável ser homossexual. Como prometido a explicação sobre a M., prima de um meu namorado de então: pouco convivi com ela, mas recordo que tinha 30 e poucos anos e era já uma arqueóloga divorciada quando eu andaria nos 19 e 20 anos e invejava a sua vida solitária num apartamento onde se destacavam aos meus olhos o sofá e estante de livros. Em miúda era aquela vida que desejava para mim: não casar, mas viver assim, sozinha, por minha conta e risco - demorei uma eternidade a conquistar essa meta. Diz o C.: pois, o teu sonho até ao momento em que substituíste a estante pelo Nuno. Exacto, penso. As minhas duas principais fontes de alento, alegria e conhecimento.


De entrada vieiras recheadas de camarão e gratinadas, de resto já nem me lembro, sei que para mim escolhi peixe, mas não sei qual e não recordo do cardápio dos restantes quatro, sei que de sobremesa voltei a insistir no semi-frio de frutos vermelhos  – devia ter escrito nos dias seguintes este relato e saber os nomes sofisticados que sempre esqueço. Mas recordo que ia escolher um vinho banal, tendo o C. intervindo com autorização do Nuno e mandado vir o champanhe à sua conta, disse. É evidente que tive o cuidado de me levantar oportunamente e pagar a conta integral, encarecida com as manias da grandeza do C..


Falou-se da vida em Angola, terra que diz muito à F. que lá viveu uns bons anos com o segundo marido e filhos, assim com ao C. que lá nasceu, viveu a infância e regressou em adulto para trabalhar e empreender, e a mim pelos motivos que se conhecem. A T. e a F. nasceram em Moçambique, o C. e eu em Angola, o Nuno foi o único a nascer na metrópole (diverte-me escrever isto), nem mais nem menos do que em Ourique, o que faz a minha mãe nutrir orgulho patriótico pelo genro. Ainda tem outra bênção sob o ponto de vista da minha mãe e meu: teve em Angola o seu paraíso na Terra, a sua grande experiência profissional e encontro consigo mesmo. Falou-se dos portugueses de segunda e de preconceitos. E das vidas dos portugueses por cá e pelo mundo.


A F. esteve atenta em permanência ao N., a defendê-lo com um sentido maternal a toda a prova. Gosto imenso desta amizade do Nuno com mais de mais de 20 anos e reconheço a dedicação e lealdade que a F. sempre demonstrou em relação ao amigo. Torço para que ela e o filho mais velho (filho de muçulmano) com quem vive possam vir a ter uma vida tranquila cá em Gaia, face às muitas dificuldades que foram tendo.


Bem sei que não é chique, mas contaram-se anedotas. Civilizadas são as histórias e os subentendidos. Mas o C. e a T. puseram a F. a par das duas anedotas mais cruas que marcaram a nossa adolescência. Aquela em que Deus se nega a voltar a fazer-se representar no planeta Terra face à constatação de há 2000 anos cá ter vindo, feito um filho a uma terráquea e ainda hoje se falar nisso e aquela de alguém perguntar a outrem se prefere festas ou sexo e esta última responder: naturalmente sexo, afinal sempre se conhece mais gente. A F. pôde ficar ciente de quem eram os dois grandes amigos e a mulher do Nuno.


Quero ver se nos reunimos os cinco mais vezes por ter sido um dia à minha medida e creio não estar a mentir se disser que o Nuno estava feliz com a leveza e alegria dos nossos amigos. Estávamos os que devíamos estar nem mais nem menos. Não terá sido um casamento convencional, como se imaginaria quando nasci - novinha, numa quinta e casa antiga, talvez Valinhas, com muita gente e burburinho - todavia correu tudo de um modo feliz e à minha imagem. Adorei. Suponho que seja o mais importante. Agora posso ganhar balanço para daqui a uns tempos reunir amigos (mais alguns) e família sem os constrangimentos que sempre coloquei por ter vivido em mundos de gente tão díspar entre si. Na reunião da diferença é que está a conquista, a grande felicidade.


Ao fim da tarde seguimos para Esposende, um dos nossos poisos de férias. Lá passámos o fim-de-semana. Não estivesse certa de não ter contado para onde iríamos e diria que tivemos direito a antigas partidas aos noivos próprias dos casamentos tradicionais. Porta do quarto aberta à chegada, trocas de menus, lençóis traçados, essas coisas. O que me deu para fazer perrice deitada no chão à moda das crianças. Nada que o Nuno não resolvesse com sabedoria e calma olímpicas.


Regressada a casa na tarde de Domingo pus a roupa usada nesses dias na máquina de lavar. Sucede que no Sábado de manhã tinha envergado um vestido verde garrafa (um dos três comprado em Maio na Natura). Vesti-o apenas ao pequeno-almoço e num passeio pela marginal de Esposende até porque se abateu sobre nós uma tromba de água que nos fez encharcados e lestos a reentrar no hotel - dia seguinte a boda molhado, boda abençoada. Não li a etiqueta e tingiu a roupa quase toda, salvando-se apenas as fibras sintécticas. No dia seguinte ao almoço a dona L. tirava as peças do estendal e ia dizendo: até ficou bem bonito. Não comungando do mesmo optimismo em relação ao geral, tive de concordar com a sua opinião acerca da lingerie. É verdade: o conjunto cor-de-rosa clarinho passou a um verde cueca irrepreensível. Muito do género do azul claro de que gosto muito. Não há nada como ver o lado luminoso da vida e ter perto gente que dá bom tempo.


Bem sei que podia embelezar. Mais, ficcionar. Afinal havia declarado esse caminho. Mas não há o que fazer: foge-me sempre o pé para a realidade nua e crua por mais que em algumas ocasiões possa parecer mentira. Não preciso inventar. Só de alguma lata.