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28/10/2023

Viagem à Turquia V

O quarto dia.


Na terça-feira acordei às sete e ao abrir a janela vi a paisagem feita de colinas arenosas castanho mel mescladas por pincel divino a manchas de verde e pedra. Cobertas pelo céu a espreguiçar cinzas azul-rosados e a segurar por fios imaginários dezenas de balões de ar quente. Imagem espectacular de surpresa nessa bela manhã.


Após o pequeno-almoço fomos para o ex-líbris do circuito da Turquia: o Museu ao Ar Livre de Göreme, património da Unesco. Conjunto de igrejas que se crê terem sido criadas por sacerdotes que começaram a chegar à região no século III, aproveitando as cavernas para fazer o centro de actividade cristã - terá sido refúgio dos primeiros cristãos e atingido o apogeu de vida monástica entre os séculos IV e XIII. O guia debruçou-se demoradamente sobre a icnografia do local. Nas capelas e igrejas há pinturas feitas directamente nas paredes e tectos ou no gesso que os reveste. Atentas as filas visitámos apenas duas, incluindo a Tokali Kilise. Como somos estranhos, rezámos em vez de aprender o que era suposto sobre a representação visual das passagens bíblicas, a forma de fazer chegar a mensagem religiosa às populações - um pouco de história religiosa através da leitura e interpretação, as quais se aprende a cada viagem, a cada destino, possuírem importantes nuances, atentas as diferentes perspectivas culturais de cada local, de cada tempo. Para dentro e à cautela disse as únicas três orações universais que sei dirigidas ao Criador, sua famelga e acólitos. Convenhamos, se hoje aquele clã fosse apanhado por uma assistente social zelosa, seria considerado família disfuncional. Por sorte ou azar as assistentes sociais não pontuavam à época. Se me esforçasse muito poderia rezar o Credo e a oração da confissão, cujo nome esqueci. Afinal também são preces universais. E para dizer a verdade no Sábado anterior havia rezado as mesmas três orações nas mesquitas em Istambul. Não sei se despertei sem querer alguma guerra no céu. Já sabem que sou desastrada: a culpa é sempre minha. Depois de comprados três ímanes de lembrança - não podia deixar de ser -, à saída do museu num bar de boa música – jazz e blues - ocorreu o momento apropriado para pagarmos os passeios opcionais enquanto tomávamos o café oferecido pelo guia, como tive oportunidade de mencionar: um pequeno turco-italiano professor de história bizantina de look gótico-metálico, ateu, educado por jesuítas e grato por isso, opositor convicto e aguerrido de Erdoğan, e amante de boa música. Pena não acreditar que o Nuno está cego – há turcos muito desconfiados. Uma figura com 25 anos de experiência nestes circuitos e ricas histórias para partilhar. Tivemos sorte.


Pouco depois era hora de almoço. Desta feita em restaurante com serviço buffet, no qual faço sempre a figura de ventoinha comilona já que tenho de cirandar na sala para servir o Nuno e só depois a mim. Dessa refeição registo apenas a sopa de vegetais e ervas várias - discutidas à mesa mas entretanto esquecidas -, aconselhada pelo casal de Coimbra que nesse dia ficou junto a nós. E o café turco. Óptimo. Felizmente mantive-me indiferente à sugestão ouvida de não o tomar ou pelo menos escolher sem açúcar visto que os turcos o adoçariam demais. Qual quê?, não sou de muito doce e estava muitíssimo bom, foi só questão de deixar assentar o pó e não beber as borras. Pude confirmar que os medos do café turco são infundados. De todo, gostei bastante.


Seguimos caminho fazendo uma paragem no miradouro do Vale Vermelho. Em local altaneiro com vista para a magnífica paisagem, propícia a tentadoras fotografias. No lugar uma cadeira baloiço pendurada em árvore decorada a balões e pedras de olho turco – a pedra em espiral de diferentes azuis muito usada nos meios esotéricos que só agora soube chamar-se assim -, e uma série de mesas, todas estrategicamente colocadas junto à escarpa para criar o efeito de boas imagens. Já no vale pudemos estar próximos das estranhas formações rochosas com efeito “chaminés de fadas”. À saída da zona visitada, junto aos pobres camelos sujeitos às alegrias dos turistas, um gato amistoso como tantos outros que vi ao longo da viagem (e também cães dóceis), aproximou-se do grupo, acabando aos pés do Nuno a receber a devida atenção e mimo.


Despedimo-nos do gato amarelo riscado e fomos pouco mais adiante conhecer uma histórica cidade subterrânea, com casas e túneis secretos no subsolo. Um lugar onde os povos ao longo dos séculos escavaram as rochas e encostas para fazerem casas e verdadeiras cidades com vários andares abaixo da superfície. Era suposto descermos três pisos, mas fomos apenas aos dois primeiros. Para mim foi um regresso à sensação de criança de entrar numa mina de água. Os exíguos e muito baixos vãos que dão acesso às “galerias” obrigavam a que o Nuno, com o seu 1.85m, se debruçasse ao nível da minha cintura. Não descemos ao terceiro piso dada a irregularidade da rampa. Detesto descer e para ele seria complicado. Saímos dos subterrâneos, viemos tomar uma Coca-Cola e uma Fanta Laranja num boteco e poucos minutos depois vimo-nos cercados de mais convivas divertidos com a música popular turca que a dona do estabelecimento havia posto mais alto. Filmei a S. e a T. a dançar – a T., uma bem-disposta com quem engracei logo no primeiro dia, ainda em Istambul, quando a vi a arrumar pinos rodoviários abalroados por um autocarro e resguardar garrafas de vidro que podiam ferir transeuntes. Uma vez sentado à mesa o grupo alargado, e não faço ideia a que propósito, falou-se da particular ligação de cada um com Deus e de experiências espirituais pessoais - da forma particular como cada um de nós vê sentido na existência.


De lá seguimos para a última visita comercial: manufactura de tapetes. Não resisti e trouxemos um dos últimos a ser exibido – dos mais modestos -, um Kilim que há muito cobiçava. O negócio foi feito à moda antiga, com o forte bater no chão de mais de duas dezenas de tapetes perante a plateia de 40 turistas a beber o ofertado chá de maçã, seguido de regateio, chamada do gerente para aceitação dos termos propostos, contrato escrito e certificado de autenticidade. Como já contei aqui nas Comezinhas senti-me a cair no engodo em sessão do Hotel Ipanema no Porto a negociar tapetes ou time-sharing. Bem sei que tudo isto faz parte dos roteiros óbvios de turismo. Não quero saber. Trouxe para a nossa sala o tapete que quero e gosto. Além de tudo, do aroma a novo: cheira a corda.


À hora da Cinderela vieram buscar-nos ao hotel e numa hora e picos alcançámos o pequeno aeroporto de Kayseri conduzidos por um turco que quase não falava inglês. Entre as poucas palavras disse: sorry, Cristiano Ronaldo e Quaresma. Repetiu diversas vezes o nome do último. Obviamente, meteu-me no coração. Bem tentei falar da passagem do jogador pela Turquia, mas ele não entendia nada. O Nuno chamou-me a atenção para o facto de o sentir envergonhado por isso. Ficámos em silêncio depois de lhe ter demonstrado que estava tudo bem se não falássemos. Passou uns largos minutos agarrado ao telemóvel que me entregou na mão aberto no tradutor do Google. Havia escrito um longo texto em turco que traduzido para português resultava numa bonita e delicada mensagem a demonstrar admiração pela nossa família, pelo meu cuidado com o Nuno, a agradecer a visita à Turquia, a sugerir gorjeta – os turcos são mais parecidos com os angolanos do que com os portugueses, não dissimulam estas coisas -, despedindo-se com beijos e mais palavras bonitas. Respondi com um elogio à delicadeza dos turcos e à forma como fomos bem recebidos, desejei do coração as maiores felicidades para si, a família e amigos. Passei a gasosa ao Nuno, que a entregou. Na mensagem despedi-me também com um beijo e fiquei a matutar se seria habitual na Turquia. Vi que sim entre homens, não cheguei a perceber se o era entre homens e mulheres. Mais tarde investigarei – não há nada como ser ignorante, temos sempre o mundo à nossa espera. Extra troca de mensagens as despedidas foram dentro do aeroporto com o franco aperto de mão depois do nosso amigo se ter certificado que as malas estavam na primeira passadeira de revista e os funcionários do aeroporto instruídos a tratarem-nos bem - não é preciso saber turco para compreender.


Um apontamento curioso passado no aeroporto consistiu na decisão de uma vez chegada a hora de embarcar e nada indiciar que a “gate” abriria - a zona das partidas é uma sala ampla de dois pisos dividida apenas pelas portas da revista e a equipa de funcionários é a mesma nas diversas funções -, foi a decisão, dizia, de me aproximar com o Nuno da porta de revista destinada à classe business, a única a funcionar, para questionar quando seria o embarque do comum mortal. Percorremos a sala até lá, fizeram-me duas vezes sinal para esperar – havia duas pessoas a revistar nessa área – e indicaram-me que a nossa abriria logo a seguir. Quando me viro vejo que tenho 50 ou 60 pessoas atrás de nós - o vôo seguinte só seria três horas depois. Estavam à espera que alguém tomasse a iniciativa. Comentário do Nuno no momento: tens mais seguidores na Turquia do que no blogue, tens de vir para cá viver. Chegados ao mui movimentado aeroporto Istambul, onde os funcionários da Turkish Airlines foram pouco simpáticos, trocámos de avião para o Porto. Já no Porto, aliás, na Maia, o sorriso do afável cinquentão do controlo de passaportes fez-me sentir em casa: um sorriso portuense, português. Nosso.