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30/11/2021

Agnes Obel

Diário

Manhã com poucas emersões. Não há tempo. Tarefas encadeadas, quase sem parar. Agendas, relatórios, telefonemas, emails, conferências de valores. Os poucos segundos para respirar serviram para comer o iogurte e tomar café, e juntar itens à última compra do supermercado. Preciso prever para deixar tudo orientado e já sei que me vou esquecer de qualquer coisa. Na quinta-feira ainda trabalho. 
Não li notícias. Ao almoço liguei e desliguei quase de imediato a televisão.
A tarde não deverá ser mais branda.
A disposição é boa: mesmo a engolir sapos o dia está bonito e a comunicação amena. A verdade é que também faço outros engolir alguns sapos, nada que não mereçam. Respeito com respeito se paga, desconsiderações com desconsiderações se pagam.


Vale amanhã ser Dia da Restauração. Portugal vive.

29/11/2021

Estrebuchar

O tempo contado e essa vontade de te elevares acima do trivial. Despegar das notícias qual gaivota presa a estrebuchar as asas depois de apanhada na corrente de crude. Relês postais antigos e dás por laivos de beleza no passado recente. Perguntas como é possível coabitar os dois planos: o da dita realidade crua que é cada vez mais fictícia e o mundo do belo, das sensações tão frágeis, intensas e apetecíveis. Quase tido por escape, como se não fosse ele a própria vida, a própria verdade. Corrompido, cada dia mais corrompido pela torrente pseudo-informativa. Tens pouco tempo. Muito pouco tempo para esperas e floreados. Segues de enfiada em demorada escolha de palavras ao acaso. Baralhas-te e não queres nem saber. Desejas chuva bem molhada, árvores que se vão despindo, sol a romper entre o céu enublado, rios desbragados em rodopios envolventes, vento frio qual lâmina cortante, serra altiva num gemido de delícias tremulas e esse mar desvairado de maré cheia a vazar forte em êxtase.

A ler

Covid live news: WHO says ‘very high’ global risk from new strain; Portugal identifies 13 Omicron cases in Lisbon football team, notícia de destaque no The Guardian.

28/11/2021

Piruetas

Ainda vai chegar o momento de vermos os detractores de Rui Rio dizer que tudo quanto fizeram foi ajudá-lo na caminhada para o poder. Abnegadamente, em prol do superior interesse do país, andaram 4 anos a picar e criticar o líder do PSD para reforçar a sua fibra e competências. A educá-lo nas contrariedades e no maior respeito pela convivência democrática. Como se altruisticamente fosse o interesse de todos os portugueses que estivesse na base dos constantes ataques e desconsiderações. A lábia não tem medida.


E com isto ver se me abstenho novamente de mais comentários sobre este assunto por uns dias.

Tílias - Jerusalém há 2000 anos

Regressou e nunca mais trabalhou por conta de outrem, desfiando-se um rol de pequenos negócios que foi engendrando. Começou com uma fábrica de alpercatas, mais tarde vendida ao P., que a transformou na fábrica de calçado [...] Mas o negócio mais espirituoso foi o do Jerusalém há 2000 anos. Tratava-se de arrancar de carro seguido de camião, com as peças de um cenário no qual era recriada de forma meticulosa a vida há 2000 anos, em Roma e em Jerusalém, antes, no momento e após o nascimento de Jesus Cristo, contando os episódios da sua vida através de um engenho electromecânico com figuras e cenários em movimento.


Nesta espécie de caravana do tempo deambulavam ele a tia T. e algumas vezes o teu bisavô J., através de Espanha, França e Itália, que em Portugal os ventos não estavam pelos ajustes com a religião. Não te esqueças que o anticlericalismo estava no auge por esses anos. E era assim que, por temporadas, desembestavam estrada fora, por várias aldeias, vilas e cidades mediterrâneas, para exibir o Jerusalém há 2000 anos, aproveitando para lucrar com o merchandising da época, a venda dos postais alusivos ao espectáculo.


Sucede que nos anos 30 a tia T. teve saudades da irmã R. e, então, resolveram vender a caravana do tempo, o Jerusalém há 2000 anos, ao que parece em mau negócio, e partir por uma temporada de um ano para o Brasil. Foi o regresso do tio A. T. P à América do Sul, desta feita não ao Equador, onde vivera anos antes, mas ao Brasil onde vivia a cunhada. Mataram saudades e regressaram aos empreendimentos em Gaia, à rua General Torres.


*


Desta saga existem os seguintes postais:


 


Tílias - Fragmento 1


Tílias - Fragmento 2


Tílias - Fragmento 3


Tílias - Fragmento 4


Tílias - Fragmento 5


Tílias - Fragmento 6


Tílias - Fragmento 7


Tílias - Fragmento 8


 

Rui Rio e os seus detractores

Insistir em ser justo, vendo a realidade pelos diversos pontos de vista e fazendo cedências quando se considera que há críticas que fazem sentido pode ser uma tarefa esgotante quando nos deparamos com o comentário de algibeira que pulula nas televisões, nos jornais e nos blogues. Ontem assim que se souberam os resultados da eleição no PSD comecei a ver repórteres a falar na escassa diferença de votos. Hoje dei pela já expectável crítica à falta de um discurso unificador por parte de Rui Rio.


Isto depois de quatro anos de poderosa campanha anti-Rio nos jornais e debates televisivos. A permanente desconsideração. A incapacidade de perceber o que é o interesse público e o que são as mera manhas e artimanhas da politiquice com que somos brindados todos os dias pelos jornalistas, comentadores e blogueres com maior visibilidade.


Quando há quatro anos me comecei a irritar com os comentários da televisão de puro desdém e sobranceria sobre um político que tem mostrado uma correcção invulgar neste país onde estar na política costuma ser sinónimo de falta de lisura, imaginei sempre que os detractores de Rui Rio mais tarde ou mais cedo iriam ter que engolir em seco. Mas não, a desfaçatez é enorme, continuam impantes na intriga habitual, sempre a fazerem-se passar por moderados, por grandes democratas. Sempre com argumentos que têm a aparência da verdade. Mas não passam de artimanhas trabalhadas diariamente para descredibilizar a liderança de um dos poucos políticos que merece confiança - não estão habituados a gente digna, de tanto chafurdar nos amigos dos interesses. Quem querem defender? Os amiguinhos passistas? Os que tentaram minar por dentro a afirmação de Rui Rio como líder do partido? Os amiguinhos do Twitter influenciadores de opinião cujas referências mútuas e encosto permanente para singrar profissionalmente e em sociedade à custa da bazófia e das relações interessadas são o modo de vida?


Unidade, dizem agora. Caça ao tacho é o que traduz essa vontade tardia de unidade.


Ao longo dos tempos sempre fiz críticas a Rui Rio, quando considerei justas. Nunca vi – até ontem - esta gente das televisões, dos jornais, dos blogues, do Twitter reconhecer qualidades e apoiar as medidas justas que propôs. Sabotam sempre, ainda que pensem como Rui Rio numa ou outra situação, a vontade de ajudar os amiguinhos e a si próprio a ascender aos lugarzitos que almejam, não permite que reconheçam publicamente a bondade das medidas. Sonham com um distribuidor de regalias e privilégios à frente do PSD. Claro que nos discursos dissimulam, falam em falta de oposição, em fraqueza. Rebaixam Rui Rio constantemente, tratando-o como um subalterno de António Costa - que parecem idolatrar, tais são os elogios constantes à sua sagacidade política, i. é, à sua intrujice. Faz parte da mundividência desta gente: é este o pobre mundo de ardil e a preto e branco que vêem. Habituados a ser muito corajosos em gang, nada sabem sobre a solidão de ter a razão consigo.


Enchem a boca para falar de facciosismo, mas falam e agem sempre como adeptos de clubes de futebol. Têm linguagem de claque, nunca reconhecem o mérito àqueles que elegem como adversários. Sendo que o adversário neste caso é aliás um companheiro de partido, porque a maioria desta gente votaria PSD se isso lhe garantisse uma melhor saída profissional, ou aos familiares, ou aos amigos. Ou PS, a esta gente tanto faz votar PSD como PS, desde que esteja segura.


Felizmente os portugueses não pensam como estas medíocres elites de trazer por casa. O sentimento do país nada tem a ver com a voz desta gente que o tenta corromper. Quero acreditar que a 30 de Janeiro os portugueses possam mostrar a estes ilustres fazedores de opinião da treta que em Portugal mandam os portugueses e não os interesses de uma pandilha de amigos gananciosos.

Provérbios e expressões idiomáticas

 


Os cães ladram e a caravana passa.


 

Um brinde

🍷🍷


Aos que não deixaram vencer a intriga politiqueira das nossas medíocres elites, que se entretém em retórica, jogos e estratagemas egoístas e inconsequentes, em vez de defenderem os interesses de todos. E nem me refiro ao candidato derrotado, a quem reconheço qualidades, mas à zoeira venenosa das trepadeiras políticas, televisões, jornais e demais meios de comunicação.


Obrigada, Portugal agradece.


Parece pouco, mais é essencial.


Agora, faço votos que Rui Rio e a sua equipa não asneirem, e corrijam alguns dos erros que cometeram nos últimos quatro anos, como o da redução dos debates parlamentares. E que oiçam algumas das críticas legítimas que lhe foram sendo feitas, nomeadamente pelo adversário nas eleições de hoje, lado a lado com a tal zoeira que é para enterrar.


Rui Rio ganhou. Ganhou reserva ética de Portugal. No dia 30 de Janeiro é só votar nele. 


*


Texto actualizado a 28-11-2021.

Recapitulando




Sonhos


por Isabel Paulos, em 28.04.21


 


Não sei se levada pela Lua Cheia se calhou, mas ontem dei comigo a planar em brandos pensamentos: que será feito daqui a quinze ou vinte anos das pessoas, lugares, escritas, ditos e sentidos que agora me preenchem os dias? Caminharão pelos meus sonhos? Tenho a sorte de ao fazer retrospectivas - e faço-as amiúde, apesar de não viver do passado -, dar conta que guardei sobretudo o melhor. Talvez por isso diga que os meus sonhos são tão povoados de lugares e pessoas como as telas de Bruegel – bom, apesar de tudo, os cenários são um pouco mais actuais. A dormir deambulo em constância por casas onde vivi e às vezes por casas por onde apenas passei. Além de passarinhar por espaços estranhos ou que só conheço dos sonhos, reencontro pessoas que conheci desde a infância. Na maioria vivas, algumas já desaparecidas, outras nem sei se respiram. Conheço algumas apenas dos sonhos – ah céus, sei que está longe de ser ideia nova, mas dormindo hei-de agarrar com ganas os sonhos até os confessar de modo a escrever coisa que valha a pena. Em regra, são sonhos bons ou pacíficos. Às vezes, lá sinto uma ou outra aflição nestas minhas gentes do passado vivido e sonhado. Raramente são pesadelos, apesar de ao surgirem serem de truz.


Desde há muitos anos sonho ocasionalmente estar numa divisão de uma das casas onde vivi ou por onde passei e ao atravessar a porta ou parede já me ver noutro compartimento doutra casa. À medida que o tempo passa os sonhos vão incorporando mais paredes, mais janelas, portas, ruas, campos. A vista da janela pode ser de uma cidade, mas a rua para onde dá a porta ser de outra. A maioria das vezes, esses são cenários puramente oníricos, mas há ocasiões em reconheço estar numa das casas reais por pormenores mínimos: os vidros foscos martelados de início de século da despensa ou do corredor de Valinhas - casa não especialmente bela, mas geométrica, de hera a meia haste, sem qualquer pompa e fanada de tinta nas paredes. O meu paraíso. Vou pescar as cenas dos meus sonhos às memórias, das mais recentes às mais longínquas. O jogo de cubos empilhado na caixa que faz as vezes de mesinha cabeceira. Os mosquitos mortos a chinelo na paredes do apartamento em Troia. As tábuas corridas do chão. A cadeira de escritório de napa preta de costas para a janela da avenida de Gaia e a campainha que toca. Ou o tupperware laranja guardado no segundo armário cor de salmão da cozinha. Os três lanços de escadas do apartamento em Cacilhas. O chuveiro já sem água no terraço da casa de Pedras d' El Rei. A vista do quarto para o plátano e o pátio da urbanização em Gaia. O chão de cerâmica clara por onde rolam dispersas as missangas cinza do colar partido. A ampulheta em cima da camilha redonda. O pau de giz, a chaminé a o leite do gato na velha casa transformada em centro de estudos. Duas mangas verdes na cozinha de Benfica. O menino Jesus no Natal no lugar habitual do telefone junto à pequena janela que dá para o Douro e os reclamos das Caves de Vinho do Porto. As plantas penduradas por cordas ao tecto junto às escadas e a cama que sai da parede na Covilhã. Ou o esqueleto nu das tílias trespassado pelo luar no Inverno. A janela sem cortinas em Arca d’ Água, palavras por dizer no sofá e a mini televisão de dez centímetros que acabou em Angola. Nas Antas, os decalques do quarto mais pequeno lá em cima, os sustos nas escadas da cave, o cheiro na copa vindo das gavetas com roupa de cama guardada ponteadas aqui e acolá de saquinhos de alfazema. A varanda sobre o parque de campismo em Lagos. Quatro cadeiras de ferro e a mesa com tampo de pedra manchada do ambientador vertido por descuido na casa com vista para a Segunda Circular. O cheiro a estrume nos campos - sim, nem só da maravilha de cheiro a terra molhada, eucaliptos e madressilva se faz o campo, a mata e os jardins. A nespereira a crescer no parapeito da janela dos arrabaldes de Lisboa. O velho armário com portas de correr na casa das portadas ainda perpassadas com disparos centenários do lado sul do rio. O piano na janela de João Grave. O interruptor alto e solto no átrio do mínimo apartamento em Sacavém. O cheiro a lenha queimada a crepitar na salamandra e o aroma da arrecadação comprida onde se guardavam as maças nas prateleiras e as batatas do lado de lá – a esse espaço dedicarei memória escrita na Quinta. A gaiola do hamster na lavandaria em Vila do Conde e as conversas vindas da cozinha. Ou o bruaá do estádio do Bessa. Um momento único da vida em que, talvez por esta permanente andança, me insurgi contra as mudanças de casa, afirmando que queria ficar quieta. Não foi com certeza um momento que me definisse, pois que as mais das vezes sempre tive vontade de partir ou mudar. Apesar de não partir para longe nem muitas vezes nem por muito tempo. Por vezes, sonho com os lugares e as gentes das viagens. Mas não é muito comum. Acredito que quando for mais velha, essas memórias venham em força. E também em forma de sonho.


E como é que as pessoas que conheci me chegam aos sonhos? Tão só por me lembrar delas. Guardo os rostos dos meus colegas da escola primária e das irmãs professoras. Da cozinheira, cujo nome está entre o esquecido e debaixo na língua. Sentava-se na soleira da porta ou nas escadas a descascar as favas.  Era magra e vestia sempre de preto, apesar de muito nova. Enviuvou cedo. Lembro-me do sorriso do F. e das suas aflições com a asma - também o F. lá de casa as tinha -, das fúrias e das brigas com o Z.R., das cópias do caderno da I.P., com a letra muito bonita, alinhada e sem rasuras, das meias e dos chinelos da C. Lembro-me do baque e expressão na cara da F. ao ver o mar pela primeira vez na Nazaré, quando lá fomos em passeio escolar. Lembro-me dos casamentos na escadaria. Do terreiro, dos baloiços e do escorregão e da torneira da água rente à parede e do tanque. E, claro, da enfermaria e dos curativos. Da sala do jardim-de-infância e dos colchões e caminhas de grades. Das paredes da sala da quarta e segunda classe. Das prateleiras de madeira no cantinho forradas a oleado, que albergavam os livros, e que me calhavam - acho que escolhi a tarefa -, limpar o pó. Sim, heresia das heresias: na escola primária da Misericórdia de quando em vez os alunos mais velhos davam uma ajuda na limpeza. As mesas eram limpas com Vim em pó e esfregão. Tínhamos de ter cuidado de não raspar o autocolante com a imagem no canto do Papa João Paulo II, que será sempre o meu Papa - todos tempos um, suponho. Lembro-me da carinha de bebé e da bata aos quadradinhos azul e branco do B., que estava no infantário quando eu andava na quarta classe - uma das minhas batas era amarelo claro e tinha um folho no peito, e usava o estojo redondo vermelho e preto em forma de joaninha. Lembro-me de cantarmos as músicas das Doce nos recreios. Dos buxos dos jardins da frente, dos peixes, da capela, do portão e das cambalhotas dependurados nos ferros que o trancavam.


Tal como me lembro das casas que albergavam o ciclo preparatório e liceu de Felgueiras, de muitos dos meus colegas, professores – da professora Dulce Moura, uma velha senhora que sobrevivera a um cancro difícil e nos dava ciências - e funcionários - lembro-me da velha Rosinha, que parava a vassoura para me chamar e consultar de perto os pontos de tricot das camisolas que eu trazia vestidas, para tirar ideias. Recordo mais ainda dos cinco anos no liceu de Gaia. A Biblioteca Municipal e os cafés – ainda hoje não faço grande diferença entre café e biblioteca, locais onde aprendi por igual, suponho. Do Glass e as almas e as conversas que os habitavam. E depois da faculdade, que em sonhos nunca acabei: falta sempre fazer um qualquer exame ou vários. Como todos nós tenho um baú enorme de recordações. Que se estendem pela dezena de locais de trabalho por onde passei e das pessoas que os povoavam. Vivências díspares entre si. Desde a chegada no primeiro dia ao primeiro Banco, onde assim que cheguei encontrei no edifício um conhecido por piso, até à estranheza e distância total de ambiente e gente que envolvia outro qualquer emprego. E os lugares e ocasiões de convivência: as reuniões familiares alargadas, as festas, as saídas à noite, os cafés e as conversas com os amigos, os bares e discotecas, alguns concertos. As praias, sobretudo, as de Lagos e as noites nas suas ruas. Todos estes lugares e gentes, que na grande maioria não voltei a ver, visitam-me quando durmo. Em paz, gosto de os rever. Há ainda os espaços online, onde conheci gente real ou virtualmente. O facto de não haver presença física, não invalida que me entrem nos sonhos e se instalem com a maior das naturalidades. Agora, em perfeita comunhão com todo o passado e presente.


Puxando mais para ali ou acolá, tudo isto é comum a grande parte das pessoas que vivem o tempo presente. Aliás, há imensa gente com existências muito mais preenchidas e ricas, até porque na verdade sempre levei uma vida bem caseira e pacata. Nada de novo, portanto. A não ser a pretensão de achar que por ser reservada, atenta aos outros, a mim e a muito do que nos rodeia – e absolutamente distraída do tanto que me poderia conduzir a uma vida mais fácil e exemplar, mas certamente menos minha -, posso um dia vir a escrever qualquer coisa de jeito sobre aquilo que quem conheci e eu vivemos, vimos e sentimos.





27/11/2021

Hum, muito me contam

 


Muito me contam. A Concelhia do Porto do PSD estava com Rangel, diziam.


Relevante, não? Definidor, não?


 

Diário

Nada disto é novidade. É o que dá andar desfasada do tempo, seja com atraso seja com adianto. Ontem comprei um eBook pela primeira vez na Bertrand e fiquei bastante contente ao ver que em poucos minutos a ele tive acesso. Bastou-me instalar o Adobe Digital Editions e voilá, um livro à disposição. Para quem como eu o culto do livro não impede de gostar de ler noutros formatos, foi uma conquista. Ressessa, sei. É coisa já com divulgação e uso de anos. Estava habituada a ler em simples pdf obras disponibilizadas em páginas de entidades públicas, ou tão só por pesquisa no Google. É vulgar nos últimos 20 anos apanhar obras completas disponíveis online. É fácil colocá-los no telemóvel e ir lendo à medida dos apetites e disponibilidades de tempo, se bem que prefiro sempre (e a minha miopia também) a leitura no monitor do computador. Mas ainda não tinha comprado eBooks. Aproveitei a Black Friday de ontem para os livros que vou oferecer no Natal aos meus pais e ao Nuno. Nenhum é surpresa para os ditos, preferi que me dissessem o que querem para saborearem o que lhes dá prazer. A minha mãe que diz sempre que cada vez lê menos, cada vez lê mais e é a mais fácil de presentear, por ter sempre um a correr e vários na calha. Vai voltar à China do século XX no feminino. O meu pai que diz sempre que cada vez tem menos vontade de ler coisas grandes e que o aborreçam, animou-se quando lhe disse que não iria ter mais de 200 páginas e que ia até à Hungria sem que ninguém o agredisse (somos parecidos pai e filha). O Nuno vai desanuviar da física que já me cansa a mim ver a minha mãe fartinha de coisas demasiado complexas. Ao fim de 5 ou 6 livros sobre física a coisa começa a ficar densa demais e é bom saber parar, por isso vão descansar com a astronomia. O meu primeiro ebook é de astrologia, cada macaco no seu galho.


Há uns dias vi no Olx para venda muitos dos livros que me faltam da colecção Mil Folhas (são muitos, nem tinha noção até há poucos anos que a colecção era composta de 100 volumes, ora tenho apenas os primeiros 57 e alguns outros soltos), mas optei por não mandar vir. Enquanto não desbastar parte substancial do que cá está, vou tentar não me embrulhar em mais compras. Digo isto mas ainda no mês passado trouxe mais uma pazada deles. Ai, as intenções. Recorda-me uma conversa de há poucos dias em que alguém me dizia que tinha dois avós (bisavós, em rigor): um que gostava de ler e outro que gostava de livros e que verificava isso pelo estado de conservação dos ditos. Quando compro livros fico sempre a pensar, mas afinal em que ficamos? Gostas de ler ou de ter livros? Sei, é compatível. Mas há-de haver uma tendência preponderante. Sobretudo, há fases na vida em que se lê muito ou pouco. No meu caso, alguma coisa ou pouco. Hoje noutra conversa, digital desta feita, uma partilha de excertos de uma obra e a referência a ser um dos autores de formação da pessoa com quem conversava. Fiquei a pensar quem seriam os meus autores de formação. Além dos poetas que já por diversas vezes referi nas Comezinhas que me acompanharam na adolescência, dos cronistas que lia então e das investidas na filosofia, creio que o existencialismo terá sido a base. Era uma visão muito descrente, muito condicente com a adolescência. Valeu-me ter entremeado essas leituras com a inteligência aguda e bem lusa de uma escritora portuguesa maior e as leves histórias chilenas também no feminino.


Tirando isto dormi até tarde, coisa rara nos últimos anos. Dei uma arrumação à casa. Tratei das plantas da varanda. Ao passar a cozinha com a esfregona (coisa raríssima) o Ritz ficou encantado com a possibilidade de atacá-la. Colocou-se em posição de ataque e vai de corrida, mas azareco: com o chão molhado derrapou como se fizesse patinagem artística e espatifou-se. Adoro vê-lo nestas situações. É a minha vingança por me ter dado cabo das luzes azuis e verdes do pinheiro de Natal. Estragou-me a série. Sobraram apenas as vermelhas e laranjas. O Nuno mete-se comigo e diz que é um sinal: são as cores dos partidos que tu gostas, diz-me. Refere-se naturalmente ao PSD e ao PCP e ao meu devaneio antigo desta improvável coligação. Almocei pouco por andar a tentar perder os quilos que engordei ultimamente. Estou cheia de fome. De resto apenas os preparativos normais para quem vai ser internada no dia de aniversário para ser operada no dia seguinte. Precisamente 6 anos após a cirurgia de extracção da tiróide. Céus, quanta exposição, pensaria noutras alturas cheia de medo de ridículo e muito em consonância com a educação que tive e de que me vou afastando paulatinamente por têmpera, apesar de me sentir cada vez mais próxima por coração.


Os assuntos mais relevantes do dia com o recuo de 45 anos foram espraiados ao final da tarde em conversa bem familiar. Relatos paternos que fui ouvindo ao longo da vida sem prestar a atenção devida e começo a ter consciência de ter a responsabilidade de preservar para memória futura.


A última novidade é que reabriu mais um supermercado na zona: o Froiz. Agora além do Continente e do Pingo Doce, fico com mais este a menos duzentos metros de casa. Isto já para não falar nas mercearias. Muita escolha. Enfim, privilégios de quem vive na cidade.


Nada disto move a humanidade, mas move este grãozinho de poeira que por cá anda. Nada disto é relevante, mas é uma vida que por cá anda.


Para terminar, dizer apenas que felizmente o Nuno não ligou a televisão à hora de almoço, o que me permite estar longe das excitações covídicas e dos acontecidos no PSD por umas horas. À noite inteiro-me dos notícias, que espero sejam favoráveis a Rui Rio, pelas razões que me escuso continuar a esmiuçar. De qualquer forma, digo apenas que o país não merecia ser entregue às mesmas mãos politiqueiras de sempre. Já nos chega um Governo habilidoso, não precisamos de mais ardil e ambição desprovida de respeito pelo interesse comum.

Boa noite




26/11/2021

Sexta-Feira

Mortinha por que chegue o final da tarde. Ai... aiiiii (pena não poder dizê-lo em voz alta e aguda), está quase.

Bobby McFerrin

Como um tolo em cima da ponte

É assim que muitos se sentem com frequência: devo concordar ou não concordar?, digo sim ou não?, gosto ou não gosto?


É natural que se veja falha grave nesta eterna hesitação, achando a dificuldade em definir posições prova de deficiente inteligência. Há quem vá mais longe e ache que se trata de uma falha de carácter: falta de personalidade. Ou considere simples cobardia e vontade de agradar a todos, necessidade de aprovação. Os muito afirmativos e convictos colhem mais simpatia. 


É sem dúvida um handicap importante no caso de pessoas com responsabilidades profissionais a quem é pedido que decidam. Além de poder complicar as relações pessoais onde a todo o instante é preciso optar por soluções ou caminhos diferentes.


O que poucos reparam é que esses mesmos eternos indecisos são em muitos casos os que ponderam mais factores e condições envolvidas em cada situação. Os mais conscientes.


O bloqueio temporário sobre a decisão está muitas vezes ligado ao perfeccionismo, à vontade de não errar, ao receio de ser injusto. Ainda que o resultado visível pareça o mais longe possível da perfeição, dando amiúde a ideia de atabalhoamento (de atrapalhação) e a tal imagem de necessidade de aprovação.


Tentar ser correcto tem um preço elevado: pelo menos o de dar a ideia de eterno desnorte.

25/11/2021

Observador

A dar tudo por tudo na rampa final para as eleições internas no PSD, o porta voz oficial da propaganda de Paulo Rangel, o jornal Observador, segue impante. 


Jornalismo de excelência, dizem.


(e pensar que é para isto que pago a subscrição do jornal.)

Recapitulando

A única forma de conseguir algo (escrevi algo?, escrevi algo?, céus) positivo e consistente é persistindo, não desistindo do que se considera correcto e justo para o país. Nem que pareça tontinha de todo, hei-de continuar a bater nas mesmas teclas. E quanto mais obstáculos encontrar e com desdém me deparar, mais insistirei. Por saber que só não deixando cair os assuntos nos enredos habituais que servem pouco mais do que para manter o país no atraso conveniente a uma pequena minoria, se pode ser justo com a maioria. Em matérias como a dos baixos salários temos que contar sempre com a inefável tirada “ah, todos queríamos salários mais altos, mas…” esta fingida abordagem serve um propósito: enganar papalvos.


Sempre temos os peritos em enredar-se em argumentações de grande ciência (económica, social ou política) que pouco mais fazem do que abortar qualquer tentativa de mudar para melhor as condições de vida dos portugueses. Há sempre argumentos infalíveis que provam por A+B que a solução, a bem do país – sempre na aparência de ser a bem do país, quando se trata apenas de perpectuar interesses pessoais e egoístas - a solução, dizia, não é tão simples: ter-se-á que ter em linha de conta 34 outros factores de inquestionável pertinência e qualquer um que não os enumere e disserte longamente sobre eles (apesar de os já ter ponderado) e esmiúce cada um de preferência com referência ao nome de meia-dúzia de autores e obras de aturado estudo (algumas de amigos do peito, é sabido que as luminárias têm no mínimo 97 amigos de grande intimidade) é considerado pouco mais do que imbecil, e sempre descredibilizado com o rótulo de simplório, ignorante ou populista.


Este é o método infalível para fazer cair qualquer melhoria no país. Qualquer laivo de tentativa de tirar o país do lodo ancestral esbarra nestas luminárias, nestes piolhos em camisa lavada  que atravessam as décadas, os séculos sempre de bicos de pés esticados no intuito de abancar nos privilégios de onde podem finalmente desdenhar dos ignorantes – cada época tem os seus ascendidos: os de hoje opinam no Twitter, na televisão, nos jornais, lado a lado com gente respeitável, a quem tentam mimetizar os tiques e não, infelizmente, o hábito de ter consideração pelos outros.


Quando os despautérios, as incongruências, as desonestidades, as injustiças são patentes é escusado continuar a dar crédito a que não tem  senão na aparência a menor intenção de os combater. A especulação imobiliária e os salários baixos são assunto de crucial importância para a vida dos portugueses e é fácil ver o que é certo e errado, sem mais enredos.


*


O bê-á-bá


por Isabel Paulos, em 12.05.21



 


Capturar.JPG


Perguntar não ofende.


Explique-me quem puder, como é possível aceitar viver pacificamente num país onde 60% dos trabalhadores por conta de outrem têm salários iguais ou menores a 800 euros mensais, sabendo que:



  •  o preço médio das casas é de 1.942€ m2 - para que fique claro aos distraídos: 194.200 euros por imóvel de 100m2 -, sendo que um empréstimo junto da banca no valor de 174.000 euros (o máximo concedido para o valor de referência) representaria uma prestação mensal na ordem dos 485 euros mensais a 40 anos - ou de 840 euros a 20 anos.

  • no empréstimo para compra de automóvel de 18.000 euros o valor mensal a pagar seria de 370 euros mês por 5 anos.


Muito agradecida.



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Sem imaginação para títulos

- Qual o teu principal defeito?


- A burrice recorrente.


- E a principal virtude?


- A repugnância pela mentira. Ter aprendido a distinguir a verdade da falsidade num espaço, num gesto, num olhar, numa palavra.


- Isso é muita presunção.


- É.

Steffany Gretzinger

24/11/2021

Ponto de situação

Ontem à noite ia escrever um postal, mas o sono falou mais alto. Teria sido qualquer coisa como isto: esta coisa da pandemia mexeu com os pirolitos de quase todos. Com o meus certamente, mas ao que vejo é geral. E quanto mais séria e carregada de formalismos, convicção e certeza é a expressão de opinião alheia, mais reserva tenho quanto ao acerto dos juízos feitos. Andam por aí várias panelas de pressão ambulantes.


Nos jornais nem é preciso abrir as notícias para dar com o desnorte: os títulos deixaram de ser apelativos para serem tão só excitados. Nalguns a redacção é tão má que perdem o sentido.


Nas conversas pessoais e profissionais nota-se acumulação de ansiedade a níveis raramente vistos, ou naqueles que já deram a volta: relaxe total e inconsequente.


Face à evidência de que vamos enfrentar uma nova vaga de Covid com as consequências inerentes, andamos como no último Inverno a fazer se conta que está tudo bem. À espera de um milagre.


Na política a argumentação resume-se assumidamente a sound bites – e já estou por tudo, nem sei que será mau, desde que expressem alguma verdade.


E nas Comezinhas dei eco da extrema-direita espanhola. André Ventura é um menino perto disto.

Quem é Cristina Seguí?

Visão | Cristina Seguí. Quem é a "influencer" da ultradireita espanhola que virou a mira das teorias conspirativas para Portugal?

Boa Quarta-Feira



23/11/2021

João Rendeiro & o Costume

É de mim ou os jornais, as televisões e os comentadores estão excitadíssimos com a oportunidade de darem voz a um bandido descarado, como se de ficção – de alguma banda desenhada ou coisa do género – se tratasse?


Parecem deliciados.


Como se há-de combater a corrupção num país em que se idolatra trapaceiros?


Talvez com uma "agência anti-corrupção". Um upgrade das comissãozitas dos anos 80 e 90. Era tudo quanto nos faltava. Da mesma forma que é sabido que a fórmula infalível para se combater a pobreza dos trabalhadores portugueses é essa vetusta instituição da concertação social, que tão bons resultados tem trazido ao país. Tudo a condizer.


E já se sabe quem disser o contrário ou questionar essas verdades insofismáveis está a fazer acusações gratuitas, a usar desonestidade intelectual, a ser ignorante. Qualquer coisa que sirva de areia aos olhos dos incautos.

Fumo branco

Já há data. Já conversei com o mecânico. ;)


Yupi.

Diário

Vou tentar arranjar meia-hora depois do almoço para ler as notícias os cabeçalhos das notícias e uma ou outra que prenda a atenção. Ver se ainda existe mundo e se passa esta sensação de estar a navegar na maionese quando levanto a cabeça das tarefas.

22/11/2021

Azareco

Um azareco é estar numa lista de espera do sns e ao fim de dois anos e dois meses -  desde 9 de Setembro de 2019, data da primeira consulta; em termos oficiais só entrei na lista em Março último, porque há todo um compasso de espera anterior para exames, consultas e o diabo a quatro -, o telemóvel tocar no local de trabalho quando estava no meio de mudanças em razão de avaria do monitor. O telefone longe, com o volume baixo. Não atendi. Ao fim de três conversas para três serviços diferentes do Santo António através de telefone e email não consegui perceber quem me ligou: não sabem, não fica registado. Tenho que aguardar que me voltem a ligar, dizem. Sendo que no último contacto me tinha sido dito que poderia ser chamada a qualquer momento em substituição de algum paciente que faltasse, fico com aquela sensação: como as coisas funcionam é bem possível que tenham ligado ao seguinte da lista e tenha perdido a oportunidade. Ou talvez não, vou tentar acreditar que amanhã terei notícias. Ou quem sabe, a chamada nem fosse para comunicar que finalmente iria ser submetida à cirurgia. Uma aventura.

Recapitulando

 





Do lado de fora


por Isabel Paulos, em 04.03.20


 


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Ricardo Reis


por Isabel Paulos, em 20.03.20


 


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*


Não só quem nos odeia ou nos inveja


Nos limita e oprime; quem nos ama 


Não menos nos limita.


Que os deuses me concedam que, despido


De afectos, tenha a fria liberdade


Dos píncaros sem nada.


Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada


É livre; quem não tem, e não deseja,


  Homem, é igual aos deuses.


 


*


 


Nunca a alheia vontade, inda que grata,


Cumpras por própria. Manda no que fazes,


Nem de ti mesmo servo.


Ninguém te dá quem és. Nada te mude.


Teu íntimo destino involuntário


      Cumpre alto. Sê teu filho.


 


*


 


Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge.


Mas finge sem fingimento.


Nada esperes que em ti já não exista,


Cada um consigo é triste.


Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,


Sorte se a sorte é dada.


 


Ricardo Reis


 





21/11/2021

Os moderados e os radicais

O drama de dividir o mundo entre moderados e radicais está num factor simples: a ausência de verdade das declarações que se vão produzindo. A auto-proclamação e a etiqueta postiça de moderação só convencem quem se quer deixar enganar, os distraídos e os ingénuos. Moderado é aquele que esvazia o pasto dos radicalismos fazendo concessões às legítimas reivindicações das populações - admitindo que existem lado a lado com exigências excessivas ou sem cabimento - não aquele que se escuda dos perigos fazendo tábua rasa de tudo quanto é dito pelas populações e fazendo de conta que enfrenta os radicais com retórica e chavões de democrata de algibeira, em discursos atraentes e de aparente tolerância, no intuito de se alçar ao poder pelo poder lado a lado do grupelho dos habituais compinchas de interesses.


Os radicais já se sabe, são fáceis de detectar: são calhaus, usam o discurso linear e os insultos que utilizei no postal anterior. É a fúria face a tanto despautério.

José Gomes Ferreira

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A falsa direita a direito

Hoje ao conversar amenamente dizia que certas opiniões já não me irritavam, apenas sentia um enorme cansaço. Era essa a sensação dos últimos dias: a de não valer a pena face à completa distorção da realidade política que vou vendo ser feita por aí.


Mas hoje fui ao Twitter. Houve alturas em que ia diariamente ver dois ou três desses insignes líderes de opinião. Nos últimos meses, talvez ano, tenho andado mais afastada, ido lá menos vezes. Ainda bem. Acabei de espreitar um desses eternos encostados aos amigos dos tachinhos - públicos e privados -, um desses escroques da praça portuguesa, e quase vomitei.


O nojo, a falsidade desses fulanos, o riso boçal e a forma como se parecem roçar pelos amigos e paredes das tabernas politiqueiras da direita podre que frequentam enojam, enojam quem sabe o quão cobardes e velhacos são. Dissimulados, sempre com o dedinho no ar a fazerem-se passar por grandes democratas, que se demarcam dos ignorantes e do populismo, condenariam à forca o país inteiro para sustentar a sua ganância e vaidade se preciso fosse - sempre fazendo-se passar por notáveis personalidades de impoluto carácter e enganando uns tantos tontos que neles ou nos seus amigos votam, alimentando a corja.

Toque final

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Sim, se seguisse as regras do ano litúrgico só fazia o Presépio no próximo Domingo. Mas há muito mundo para lá das regras. Para começar um dos presépios fica na caixa, não vá o Ritz estragá-lo mais do que já está. Por outro lado, nunca segui o calendário, mas sim a vontade de no início de Dezembro ter a casa com o aconchego que sinto no Natal, a razão pela qual faço usualmente o Presépio nessa altura - em criança fazíamos com musgo das pedras dos muros, rios de pratas de chocolates e maços de tabaco, pontes de pedras ou paus, e a árvore de ramo de pinheiro verdadeiro. Como era muito costume. Nas casas dos meus avós de ambos os lados a manjedoura ficava vazia até à noite de 24 de Dezembro.


Este ano antecipei-me. O próximo fim-de-semana deverá ser atribulado.


Percebo que um católico praticante não goste de ver perder o sentido nas regras e história ou razão da celebração do nascimento de Jesus Cristo e por isso não goste de certo desleixo, vulgarização ou comercialização das datas religiosas. Já lido bastante pior com críticas feitas por puro exibicionismo de erudição: todos anos aparecem os intelectuais do Presépio e da Árvore da Natal que peroram sobre o desrespeito dos ignorantes pela história, comportando-se com uma arrogância e petulância muito pouco cristã. Um dedo que advinha revela-me que alguns desses sábios entediados com a burrice dos outros não têm o menor respeito pelo verdadeiro significado do Natal, vivendo-o da forma mais hipócrita que pode ser vivido: provocando intencionalmente mal e dor ao próximo.


Para a maioria das pessoas que conheço Natal significa aconchego e estar em família. Coisas simples e tão difíceis de viver para tantos.

20/11/2021

Verdes – Alho-porro

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Lembro do alho-porro no canteiro da horta e de ser servido à mesa apenas cozido e pincelado com manteiga – lembro da textura e do sabor das camadas soltas uma a uma no prato. Delícia. Era um dos acompanhamentos dilectos da minha avó e é das histórias à hora de almoço ou jantar que me recordo quando vejo esse vegetal.


As histórias da avó tinham uma particularidade importante: tendo ficado órfã de mãe aos dois anos - vítima da pneumónica em 1918 - e visto o pai partir primeiro para Angola, depois para o Brasil, foi educada na mais tenra infância pelos avós maternos, em colégios internos em Espanha e um pouco mais tarde, na Suíça, passeando-se por várias casas familiares. A ligação aos avós maternos – a quem se referiu toda a vida com a maior ternura como avozinhos –, muito tradicionais e em casa de quem a componente religiosa era fortíssima fez com que tivesse uma educação muito conservadora que não jogava bem com a abertura de espírito e inteligência que possuía por natureza. Foi na casa desses trisavós, no Paraíso, na Foz – casa onde nasceu a avó -, que fiz a faculdade. Resumo a coisa de forma simplista e não sei sequer se corresponde à verdade: o medo dos meus antepassados (descendentes de cristãos-novos) ao inferno fez com que a casa e a quinta fossem parar por doação às mãos da igreja – sendo para fins de ensino não me parece ter sido uma má decisão. Como nota refiro apenas que nos seis anos que por lá andei, não mencionei o facto a ninguém (pensando melhor: se o fiz, terá sido apenas a uma amiga, mas não estou certa disso) pelo pudor que tinha em nova de falar destes assuntos.


À mesa de Valinhas, quinta herdada por via paterna, a avó passava os dias a contar-nos histórias passadas em tempos remotos, conseguindo cativar os netos pela forte admiração que em nós infundia. Nunca vi a avó complicar a vida ou dramatizar tristezas. Sempre tinha respostas de enorme abertura para as nossas questões. E simples, como o alho-porro. A religião que respeitava acima de tudo nunca toldou a sua inteligência. Não tinha tempo para rodriguinhos, apenas para os seus e para os seus interesses. Teve oito filhos, vinte netos, uma vida riquíssima. Perdeu um filho com vinte sete anos. Tinha uma relação de extraordinária cumplicidade com os três irmãos, era muito querida dos sobrinhos, primos e amigos. Tinha defeitos patentes: lesta a ralhar, duríssima com quem por qualquer razão lhe desagrava e capaz de sem piedade desferir palavras que feriam muito. Ainda assim colhia admiração de tantos.


Nasci no dia do seu quinquagésimo sétimo aniversário, a nona depois de oito netos rapazes. Tive por isso direito a doses extras de mimo e atenção redobrada enquanto foi viva. Quando era criança apanhei os meus pais a conversar e a minha mãe a queixar-se que eu deveria ter uma festa de aniversário própria e não conjunta. Fiquei muito espantada: achava que tinha imensa sorte por todos os anos ter festas de aniversário com quarenta pessoas e muitos presentes. Creio que não tinha percebido até então que aquilo não era também para mim, mas para a avó Isabel.


Estive lá no último dia em Valinhas junto da Susana, a amiga argentina que fazia companhia, e da minha mãe, no último suspiro. A avó desapareceu, e com a sua alma as tílias também quiseram partir.


*


Da mesma saga existem os seguintes postais:


Alegrias

Está a render o dia. Foi emprestado hoje e é por estas e por outras que seriam precisas várias encarnações para chegar a tudo quanto há para ver.


(amanhã talvez tente tirar melhores fotografias.) VM-FC.jpg


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Diário

O que me passou e passa pela cabeça hoje? Depois do pequeno-almoço, das actividades na varanda e da roupa, na boa disposição trauteei (mal, muito mal) a Pantera Cor-de-rosa à entrada para o chuveiro. Pára tudo e lá vou eu buscar o telele para colocar a obra-prima de Henry Mancini no Youtube em cima do estafermo. Alegria, provocação e displicência. Na cabeça a bater uma ideia que tem cerca de uma semana mais viva e anos adormecida, como a maioria delas: as memórias de cada um são isso mesmo. Há quem sinta necessidade de escalpelizar o que cada um recorda da sua vida ou da vida do seu país. Nada de preocupante, salvo o tal hábito de fazer psicanálise constante a quem abre a boca ou mexe. É o tiro ao alvo. Quando, por exemplo, escrevo sobre Valinhas nos Verdes tenho plena consciência que valorizo o que me é caro – e que para outros nada significa ou significa coisa muito diferente do que escrevi sentindo - e salvaguardo o que acho não dever exibir, seja por falta de interesse ou mesmo esquecimento seja por uma questão de (bom?) gosto. Será isso fugir à verdade? Não me interessa. Por vezes mando os textos aos meus pais e irmãos, que me vão corrigindo e dando eco das suas próprias lembranças. Isso é o que conta para mim, a memória dos vários elos: a memória familiar. Quem me dera que também escrevessem. Como não, acaba por prevalecer a minha memória tão só nas Comezinhas, que é o meu espaço.


Se tratasse do país, seria a memória nacional. É evidente que há pessoas mais capazes de serem fiéis aos factos do que outras, há pessoas mais imaginativas do que outras, e quem goste de criar uma imagem fora da realidade: sua, dos seus e do seu país. Do cruzamento das várias memórias nascerá qualquer coisa semelhante à verdade. Agora, é tacanho querer reduzir toda a tentativa e memória à acusação de uma narrativa estudada ou produto do subconsciente, ou de um exercício de egocentrismo justificativo. Havendo abertura de espírito, somos capazes de ouvir as memórias uns dos outros sem acharmos que nos estão a violentar, a mentir ou enganar, mesmo salvaguardando os casos mais criativos. Falemos da nação: existem autores consagrados que têm uma visão de episódios ou épocas da nossa história muito próprios - os tais de quem se diz terem uma relação difícil com a verdade -, que parecem insultar a memória de quem os viveu por dentro noutras condições. Deixámos de os ler ou valorizar o que escrevem por essa razão?


(e pensar que há quem reduza tudo isto à necessidade de autojustificação.)


Apesar de há uns dias ter em mente escrever os postais sobre a Coreia do Norte e da Nova Zelândia, hoje acordei com vontade de fazer mais um postal para a saga Verdes. Talvez à noite tenha tempo e genica para isso. Por agora oiço a pen com composições musicais do Nuno e preparo-me para sair e gozar de um almoço familiar. Vai ser arroz de polvo. Delícia.

Ervas

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Hoje foi dia de mimo para a Japoneira e a Nespereira. 


A próxima aquisição será um  vaso com erva para gato. Nem sabia que se vendia nos hortos - contou-me uma colega de trabalho. 

19/11/2021

O romance que me acontece

Há uns dias coloquei em hipótese publicar o que ainda não escrevi mas é fácil esboçar: croquis de hipotéticos contos, novelas ou romances, que nunca chegarei a escrever por falta de tempo, atrevimento e talento - e preguiça. Às vezes dou por mim a pensar nesses esboços. Pode ser que até façam sentido por si próprios, quanto mais não seja para espevitar as ideias a que os leia. Se conseguir dar um arranjo consequente à coisa, talvez abra uma nova saga nas Comezinhas. Não vou colocar isto em agenda por me parecer demasiado ambicioso: fica assim como uma das 386 ideias que surgem de um qualquer rastilho próprio e impulsionadas pelo visto, lido ou ouvido por aí.


Recordei-me agora que o Trigo e Joio (sei, soa a bem conhecido - não há que lhe fazer, a Ana Paula também, daí ter mudado para O Livro dos Três Princípios) é um desses croquis. Mas caio sempre nos retratos e perfis, e isso é coisa pobre - deixa-me irritada comigo mesma.


No fundo, lá bem no fundo, o grande romance que me acontece é a história de décadas de permanente insatisfação e da inconsequência na escrita - nada de novo para amadores. Assim, sim: sinto-me como peixe em água.

James Horner

Boa Sexta-Feira

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Recapitulando


Populaça


por Isabel Paulos, em 16.05.20


 


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Como se conhecessem o significado da palavra, diziam-se amigos. Uma dupla bizarra, ele e ela com um gosto sádico por pormenores macabros. Histórias de faca e alguidar. Liam todas as notícias sobre crime nos jornais. Acompanhavam os casos nos tribunais. Criavam amizade com elementos das polícias de investigação. Extasiavam com psicologias e psicanálises de algibeira. Não procuravam nenhum entendimento sobre aquelas vidas sórdidas para além dos lugares-comuns em voga no seu tempo. Talvez até invejassem o submundo, tal era a atracção pela escória da humanidade. Deliravam imaginar gente normal como personagens daqueles cenários. Assim vingavam as suas frustrações. Podiam estar entre a população que berra histérica à porta dos tribunais: assassinos! Ele escrevia entediantes e medíocres policiais, ela teses de criminologia. Sem distanciamento ou elevação de qualquer espécie chafurdavam na lama com indisfarçável prazer.


O gosto não se discute

A imperfeição é marca d´água da humanidade.


Peço desculpa  pelo uso de termos em inglês, mas hoje apesar de ser uma nulidade na língua inglesa (ou em qualquer outra, diga-se), vou lançar mão de termos anglófonos para traduzir o que quero dizer.


É uma possibilidade considerar que determinado espaço, objecto ou pessoa tem bom look - não gosto de traduzir por bom ar por dar a esta expressão um sentido mais específico: ar educado ou civilizado. O que não é manifestamente a mesma coisa. É muito comum a sedução e a adesão em massa ao ambiente clean e friendly. Até aos espaços assépticos. Pergunto-me se a noção de gosto cavalgará estes padrões no futuro e se a ideia de minimalismo funcional-chique prevalecerá.


A mim, apesar de precisar de espaço, repugna-me o luxo e a ostentação seja pela profusão de objectos caros seja pela ausência artificial deles. i. é, pelo recurso minimalista a materiais alegadamente de melhor qualidade mas em menor quantidade e mais discretos. O despreendimento fabricado não me convence. Fico sempre a magicar o que está por detrás de tanta perfeição, de tanta pureza, de tanto despojamento fictício.


Que defeitos graves se escondem nestes primores de aparência?


Prefiro gente, objectos e espaços com imperfeições à vista. Gente egoísta que cai em si e é capaz de gestos de enorme nobreza, pratos esbotenados, salas não harmonizadas nos mesmos tons e cujos móveis têm marcas de uso. Coisas assim: rafeiras. Isto já para não falar de fruta com bicho - prova provada de que é boa.


Soa a provocação?


Enquanto a terra for habitada por homens e mulheres e não por replicantes haverá espaço para a imperfeição - para a humanidade.

18/11/2021

Pausa para café

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As fotografias não são minhas, mas foram tiradas a meu pedido durante a pausa da tarde de hoje para café. 


Até hoje só consegui fotografar a lua com o mínimo de qualidade em Sesimbra - as saudades que tenho da varanda e do céu de Sesimbra.

Pormenores do dia

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A chegar ao trabalho.


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Perto de casa à hora do almoço. Este número 5 seria a chave de algum segredo importante? Por via das dúvidas, entreguei-a no estabelecimento comercial aberto mais próximo.

Nils Frahm


As Comezinhas valorizadas à custa dos amigos. 


A música com componentes electrónicas ou é bem conseguida ou é intragável. Nils Frahm consegue harmonia nas dissonâncias. É bom.

Um psicanalista em cada esquina

Acusa quem te conhece de escarafunchares tudo até à exaustão. Porque será? Não estás a ver bem. Bom, queres com isto começar por advertir que as críticas que fizeres neste postal possivelmente te sirvam também. Verdade seja dita não é coisa que te aflija: dar na tua própria tola foi coisa a que desde cedo te habituaste, além do que te diverte – é o cúmulo do egocentrismo. Estas conversas com os próprios botões tem a óptima vantagem de te manter longe da solidão – há lá coisa melhor do que conversar contigo própria: zombar, desprezar mas também admirar de quando em vez para desanuviar.


O exacerbar da avaliação psicológica é o pão nosso de cada dia. Não há opinião emitida hoje em dia que não seja precedida ou sucedida do respectivo catálogo de traços psicológicos. A maioria das pessoas que lança mão desta bengala não se apercebe que se está a deixar engolir por uma série de preconceitos, não se permitindo acreditar nos gestos ou palavras do interlocutor que passa a mero sujeito objecto de avaliação. Hoje não se conversa com o outro, primeiro tira-se a radiografia da mente (além do físico e do look, mas abstrais disso neste postal) e no tempo que sobra ouve-se ou lê-se o que resta – ora, o preconceito faz com que sobre pouco: um zumbido que parece um urro ou cântico de claque de futebol de tão distante está daquilo que de facto cada um é.


O mal está na ideia de que se sabe tudo, já se viu tudo e tudo encaixa nos padrões do visto. E no circunscrever do outro ao produto de um punhado de circunstâncias que se conhecem, sem querer saber do resto: da essência de cada um. Um exemplo que te ocorre é de alguém que sempre que se fala de relações afectivas e casamentos, diz coisas do género: ah, mas o grande amor dela foi fulano tal. Ficas sempre a pensar: que saberá essa pessoa da vida dessa ela e dos seus amores? Para uma pessoa cujo conceito de amor é um casamento para a vida toda pode ser estranho conceber que existam vários grandes amores ao longo da vida fixando-se, por exemplo, no primeiro ou no mais vistoso. Assim como para uma pessoa para quem o amor é uma eterna busca pode ser difícil entender que se ame alguém do mesmo modo para todo o sempre - salvo no momento em que está a vivê-lo em pleno. Somos todos tão diferentes e tão parecidos: por cá andamos aos tropeções.


Numa perspectiva mais abrangente e voltando à psicologia, admira-te que no preconceito se consigam estabelecer novas relações benignas sejam profissionais, de amizade ou amorosas.


Tudo encaixa num molde pré-definido, num dos modelos disponíveis no mercado: ah, a nova colega é proactiva, o novo colega não tem os skills pretendidos, a nova amiga do meu marido é fleumática, a última namorada era uma pessoa tóxica. Ah, aquele fulano é filho de pai alcoólico, daí a desajuste emocional, a sicrana é filha de mãe católica e muito severa, daí aquela obstinação, e por aí adiante. É tudo tão redutor, tão poucochinho. E para além disso: terão ouvido cada uma dessas pessoas? Ou só aquele zumbido tipo urro, que referiste lá atrás?


Há um mundo em que as pessoas acreditam umas nas outras para lá do preconceito. Há um mundo para lá dos catálogos psicológicos e quem sabe não seja por lá que se dão os grandes encontros, os encontros felizes. 

Acordar cedo

Ontem li por aí naqueles sites lifestyle que tendo deixado de fumar aos 40 (aos 42, em rigor) ganhei 9 anos de vida. Com o crédito que costumo dar a estes apurados estudos fiz logo contas à vida e associei uma pesquisa virtual feita há 15 anos nas bruxarias - coisas mais ou menos ao mesmo nível de credibilidade destes estudos sobre saúde - no qual me indicaram como idade provável de morte os 66 anos.


Ora, 66 + 9 = 75. Bolas, nem sequer chego às machadinhas (77), espécie de superstição de um ramo da família de outros tempos.


E isto já sem contar com aquelas estatísticas que têm em linha de conta outros factores como o peso, alimentação, hábitos de exercício etc.. Creio que nesse caso já serei um zombie, com os meus mais de 100 quilos - é sempre bom não definir: fica sempre aquela margem entre os 101 e os 199 - já morri e ninguém me avisou.


Nada disto joga com o meu grande objectivo desde criança, que é viver até tarde. Sempre me imaginei a saborear os 80 e tal. Daí na Ana Paula aquela referência aos 82, idade em que tenciono recomeçar a fumar contra as determinações lifestyle, seja da saúde seja de outras bruxarias. 


É nisto que dá acordar às 6 e meia da madrugada.


Mais tarde edito este post. Agora ainda estou no quentinho no vale do edredão. E sim, já me levantava para tomar o café e fumar o cigarrinho. Ai, a saudade. 

17/11/2021

Os cromos do costume

Diverte-me particularmente dar com um qualquer peru inchado - sim, é feio insultar, mais feio é atentar contra a sobrevivência dos portugueses - a perorar sobre o drama do aumento do salário mínimo e da proximidade do médio e o perigo da falta de competitividade e blá, blá, blá. Ai a economia, ai o mercado não suporta salários determinados pelo Estado. Porque será que só se lembram da "venezuelização" nestas ocasiões? Ai o bicho papão, ai drama, ai a tragédia.


Ao gosto de baralhar realidades chama-se engodo para enganar papalvos. Já conhecemos esta conversa de algum lado, não é?


Porque será que nunca os vemos preocupados com a diferença de rendimentos entre sector público e privado? Não podemos instigar a comparação, a competição, a ambição. Há-que manter essa gentinha indiferenciada calada, acham.


Ai o drama da inveja, ai a tragédia das aspirações dos trabalhadores não protegidos por sindicatos e ordens profissionais.


Estes são os cromos que saem da cartola de tempos a tempos e que deveriam indignar os portugueses, cada vez mais mansos.

Agradecimento


Agradeço uma vez mais à equipa da SapoBlogs o destaque de ontem. 


 


Aproveito para agradecer a companhia dos generosos visitantes das Comezinhas, em maior número nos últimos dias, e para admitir o seguinte: nem sempre posso falar da varanda, das flores, do dia-a-dia pacífico e de boas palavras.


 


Hoje dei por mim a pensar naquela ideia muito comum: "ah, porque nos havemos de chatear por causa da política, se no final eles são todos iguais?". Discordo totalmente desta visão: nem os políticos são todos iguais - apesar de maioria padecer dos mesmos defeitos em consequência dos circuitos de ascensão à política e aos lugares de relevância na sociedade estarem totalmente viciados pelo compadrio - nem a política é coisa de somenos importância. Foi a política que fez mergulhar o país em que eu nasci numa guerra fratricida durante 30 anos, é a política que determina o rumo da nossa vida - por mais que nos queiramos alhear e assobiar para o ar - e o que diz respeito ao meu país diz-me respeito. Traz-me contentamento ou sofrimento - às vezes fúria, admito. Mexe comigo desde sempre e por mais intempestiva e intransigente que seja, não me parece que veja tão mal a coisa que me deva coibir de manifestar o que penso e deixar-me ficar pelas flores e as boas palavras. Além de mais, o facto de não ter talento nem vocação para o comentário de estirpe e estereotipado sobre política, cujos rodriguinhos e dissimulações nada de bom trazem à vida do país, coloca-me na posição em que deveríamos estar todos: na do comum cidadão com preocupações sobre os problemas reais: nossos e dos nossos concidadãos. Tomara eu ouvir mais vozes - vou ouvindo algumas ainda tímidas - que mostrassem ao país quem são os portugueses reais - e não avatares de 'paradigmas' lifestyle ou de teorias de algibeira e das modas do 'economês' - e quais são os seus problemas, em vez de estarmos anestesiados com o futebol e as patranhas politiqueiras.

Carl Orff


Banda sonora desta manhã para elevar o espírito.


Podem saber um pouco mais sobre a composição de Carl Orff - a cantata Carmina Burana - aqui e aqui (só mais logo vou ter oportunidade de ler estas entradas integralmente). E, claro, aqui, a tal página que os que nasceram ensinados fingem não visitar não visitam, mas de uma enorme utilidade para os vulgares mortais.

16/11/2021

Agenda

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No fim-de-semana vou tentar escrever os postais em falta na saga Espanador, decidida aqui em Setembro do ano passado no seguimento de promessa feita dois meses antes. Espero não encalhar meio ano novamente.


Parece-me boa altura para olhar para o mundo, agora que estamos a mergulhar uma vez mais na modinha de culpar o próximo pelos indicadores da pandemia - hoje a alguns metros da paragem de autocarro fui advertida por mímica por um transeunte que deveria colocar a máscara. Com o caldinho de lavagem cerebral das televisões (e redes sociais?) lá entraremos nesta perseguição insane e na irresponsabilização das autoridades, como convém. Na quinta vaga repetem-se as tonterias, como se não devessemos tirar conclusões das primeiras - como interessa ao Governo e aos excitadinhos que estão convencidos que vão substituir este Governo por outro do mesmo calibre - a ideia é substituir o ilusionista Costa pelo trapezista Rangel para o Circo continuar e voltar-se a adiar Portugal para as Calendas Gregas. Estão apostados na descredibilização do actual Governo por erros e falhas laterais nas quais aqueles que o pretendem substituir incorreriam ipsis verbis. Aparência, aparência, aparência. Retórica e ambição desprovida de responsabilidade - é do que é feita a campanha de Paulo Rangel ao PSD e de quem pelo burgo a apoia. Política rasteirinha sob a capa aparente da moderação. E o rídiculo "de mim não ouvirão" isto e isto e aquilo, eu não digo tal e tal e tal, foi aquele menino ali quem disse - coisa do mais infantilóide que tenho visto. E quem faz o papel de lobo mau neste teatrinho sem qualidade? Rui Rio, que manifestamente não tem ponta de jeito para as palhaçadas do costume - para a politiquice. Bom sinal no meio de tudo isto.


Voltando ao Espanador, a ideia é não perder o pé do que vai acontecendo no mundo. Tenho intenção de escrever sobre a Coreia do Norte e Nova Zelândia para terminar a ronda, não fazendo a mais pequena ideia do que vou dizer, ou por que ponta vou começar. No próximo ano tenciono fazer nova patrulha por países diferentes.