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27/11/2021

Diário

Nada disto é novidade. É o que dá andar desfasada do tempo, seja com atraso seja com adianto. Ontem comprei um eBook pela primeira vez na Bertrand e fiquei bastante contente ao ver que em poucos minutos a ele tive acesso. Bastou-me instalar o Adobe Digital Editions e voilá, um livro à disposição. Para quem como eu o culto do livro não impede de gostar de ler noutros formatos, foi uma conquista. Ressessa, sei. É coisa já com divulgação e uso de anos. Estava habituada a ler em simples pdf obras disponibilizadas em páginas de entidades públicas, ou tão só por pesquisa no Google. É vulgar nos últimos 20 anos apanhar obras completas disponíveis online. É fácil colocá-los no telemóvel e ir lendo à medida dos apetites e disponibilidades de tempo, se bem que prefiro sempre (e a minha miopia também) a leitura no monitor do computador. Mas ainda não tinha comprado eBooks. Aproveitei a Black Friday de ontem para os livros que vou oferecer no Natal aos meus pais e ao Nuno. Nenhum é surpresa para os ditos, preferi que me dissessem o que querem para saborearem o que lhes dá prazer. A minha mãe que diz sempre que cada vez lê menos, cada vez lê mais e é a mais fácil de presentear, por ter sempre um a correr e vários na calha. Vai voltar à China do século XX no feminino. O meu pai que diz sempre que cada vez tem menos vontade de ler coisas grandes e que o aborreçam, animou-se quando lhe disse que não iria ter mais de 200 páginas e que ia até à Hungria sem que ninguém o agredisse (somos parecidos pai e filha). O Nuno vai desanuviar da física que já me cansa a mim ver a minha mãe fartinha de coisas demasiado complexas. Ao fim de 5 ou 6 livros sobre física a coisa começa a ficar densa demais e é bom saber parar, por isso vão descansar com a astronomia. O meu primeiro ebook é de astrologia, cada macaco no seu galho.


Há uns dias vi no Olx para venda muitos dos livros que me faltam da colecção Mil Folhas (são muitos, nem tinha noção até há poucos anos que a colecção era composta de 100 volumes, ora tenho apenas os primeiros 57 e alguns outros soltos), mas optei por não mandar vir. Enquanto não desbastar parte substancial do que cá está, vou tentar não me embrulhar em mais compras. Digo isto mas ainda no mês passado trouxe mais uma pazada deles. Ai, as intenções. Recorda-me uma conversa de há poucos dias em que alguém me dizia que tinha dois avós (bisavós, em rigor): um que gostava de ler e outro que gostava de livros e que verificava isso pelo estado de conservação dos ditos. Quando compro livros fico sempre a pensar, mas afinal em que ficamos? Gostas de ler ou de ter livros? Sei, é compatível. Mas há-de haver uma tendência preponderante. Sobretudo, há fases na vida em que se lê muito ou pouco. No meu caso, alguma coisa ou pouco. Hoje noutra conversa, digital desta feita, uma partilha de excertos de uma obra e a referência a ser um dos autores de formação da pessoa com quem conversava. Fiquei a pensar quem seriam os meus autores de formação. Além dos poetas que já por diversas vezes referi nas Comezinhas que me acompanharam na adolescência, dos cronistas que lia então e das investidas na filosofia, creio que o existencialismo terá sido a base. Era uma visão muito descrente, muito condicente com a adolescência. Valeu-me ter entremeado essas leituras com a inteligência aguda e bem lusa de uma escritora portuguesa maior e as leves histórias chilenas também no feminino.


Tirando isto dormi até tarde, coisa rara nos últimos anos. Dei uma arrumação à casa. Tratei das plantas da varanda. Ao passar a cozinha com a esfregona (coisa raríssima) o Ritz ficou encantado com a possibilidade de atacá-la. Colocou-se em posição de ataque e vai de corrida, mas azareco: com o chão molhado derrapou como se fizesse patinagem artística e espatifou-se. Adoro vê-lo nestas situações. É a minha vingança por me ter dado cabo das luzes azuis e verdes do pinheiro de Natal. Estragou-me a série. Sobraram apenas as vermelhas e laranjas. O Nuno mete-se comigo e diz que é um sinal: são as cores dos partidos que tu gostas, diz-me. Refere-se naturalmente ao PSD e ao PCP e ao meu devaneio antigo desta improvável coligação. Almocei pouco por andar a tentar perder os quilos que engordei ultimamente. Estou cheia de fome. De resto apenas os preparativos normais para quem vai ser internada no dia de aniversário para ser operada no dia seguinte. Precisamente 6 anos após a cirurgia de extracção da tiróide. Céus, quanta exposição, pensaria noutras alturas cheia de medo de ridículo e muito em consonância com a educação que tive e de que me vou afastando paulatinamente por têmpera, apesar de me sentir cada vez mais próxima por coração.


Os assuntos mais relevantes do dia com o recuo de 45 anos foram espraiados ao final da tarde em conversa bem familiar. Relatos paternos que fui ouvindo ao longo da vida sem prestar a atenção devida e começo a ter consciência de ter a responsabilidade de preservar para memória futura.


A última novidade é que reabriu mais um supermercado na zona: o Froiz. Agora além do Continente e do Pingo Doce, fico com mais este a menos duzentos metros de casa. Isto já para não falar nas mercearias. Muita escolha. Enfim, privilégios de quem vive na cidade.


Nada disto move a humanidade, mas move este grãozinho de poeira que por cá anda. Nada disto é relevante, mas é uma vida que por cá anda.


Para terminar, dizer apenas que felizmente o Nuno não ligou a televisão à hora de almoço, o que me permite estar longe das excitações covídicas e dos acontecidos no PSD por umas horas. À noite inteiro-me dos notícias, que espero sejam favoráveis a Rui Rio, pelas razões que me escuso continuar a esmiuçar. De qualquer forma, digo apenas que o país não merecia ser entregue às mesmas mãos politiqueiras de sempre. Já nos chega um Governo habilidoso, não precisamos de mais ardil e ambição desprovida de respeito pelo interesse comum.