O que me passou e passa pela cabeça hoje? Depois do pequeno-almoço, das actividades na varanda e da roupa, na boa disposição trauteei (mal, muito mal) a Pantera Cor-de-rosa à entrada para o chuveiro. Pára tudo e lá vou eu buscar o telele para colocar a obra-prima de Henry Mancini no Youtube em cima do estafermo. Alegria, provocação e displicência. Na cabeça a bater uma ideia que tem cerca de uma semana mais viva e anos adormecida, como a maioria delas: as memórias de cada um são isso mesmo. Há quem sinta necessidade de escalpelizar o que cada um recorda da sua vida ou da vida do seu país. Nada de preocupante, salvo o tal hábito de fazer psicanálise constante a quem abre a boca ou mexe. É o tiro ao alvo. Quando, por exemplo, escrevo sobre Valinhas nos Verdes tenho plena consciência que valorizo o que me é caro – e que para outros nada significa ou significa coisa muito diferente do que escrevi sentindo - e salvaguardo o que acho não dever exibir, seja por falta de interesse ou mesmo esquecimento seja por uma questão de (bom?) gosto. Será isso fugir à verdade? Não me interessa. Por vezes mando os textos aos meus pais e irmãos, que me vão corrigindo e dando eco das suas próprias lembranças. Isso é o que conta para mim, a memória dos vários elos: a memória familiar. Quem me dera que também escrevessem. Como não, acaba por prevalecer a minha memória tão só nas Comezinhas, que é o meu espaço.
Se tratasse do país, seria a memória nacional. É evidente que há pessoas mais capazes de serem fiéis aos factos do que outras, há pessoas mais imaginativas do que outras, e quem goste de criar uma imagem fora da realidade: sua, dos seus e do seu país. Do cruzamento das várias memórias nascerá qualquer coisa semelhante à verdade. Agora, é tacanho querer reduzir toda a tentativa e memória à acusação de uma narrativa estudada ou produto do subconsciente, ou de um exercício de egocentrismo justificativo. Havendo abertura de espírito, somos capazes de ouvir as memórias uns dos outros sem acharmos que nos estão a violentar, a mentir ou enganar, mesmo salvaguardando os casos mais criativos. Falemos da nação: existem autores consagrados que têm uma visão de episódios ou épocas da nossa história muito próprios - os tais de quem se diz terem uma relação difícil com a verdade -, que parecem insultar a memória de quem os viveu por dentro noutras condições. Deixámos de os ler ou valorizar o que escrevem por essa razão?
(e pensar que há quem reduza tudo isto à necessidade de autojustificação.)
Apesar de há uns dias ter em mente escrever os postais sobre a Coreia do Norte e da Nova Zelândia, hoje acordei com vontade de fazer mais um postal para a saga Verdes. Talvez à noite tenha tempo e genica para isso. Por agora oiço a pen com composições musicais do Nuno e preparo-me para sair e gozar de um almoço familiar. Vai ser arroz de polvo. Delícia.