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20/11/2021

Verdes – Alho-porro

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Lembro do alho-porro no canteiro da horta e de ser servido à mesa apenas cozido e pincelado com manteiga – lembro da textura e do sabor das camadas soltas uma a uma no prato. Delícia. Era um dos acompanhamentos dilectos da minha avó e é das histórias à hora de almoço ou jantar que me recordo quando vejo esse vegetal.


As histórias da avó tinham uma particularidade importante: tendo ficado órfã de mãe aos dois anos - vítima da pneumónica em 1918 - e visto o pai partir primeiro para Angola, depois para o Brasil, foi educada na mais tenra infância pelos avós maternos, em colégios internos em Espanha e um pouco mais tarde, na Suíça, passeando-se por várias casas familiares. A ligação aos avós maternos – a quem se referiu toda a vida com a maior ternura como avozinhos –, muito tradicionais e em casa de quem a componente religiosa era fortíssima fez com que tivesse uma educação muito conservadora que não jogava bem com a abertura de espírito e inteligência que possuía por natureza. Foi na casa desses trisavós, no Paraíso, na Foz – casa onde nasceu a avó -, que fiz a faculdade. Resumo a coisa de forma simplista e não sei sequer se corresponde à verdade: o medo dos meus antepassados (descendentes de cristãos-novos) ao inferno fez com que a casa e a quinta fossem parar por doação às mãos da igreja – sendo para fins de ensino não me parece ter sido uma má decisão. Como nota refiro apenas que nos seis anos que por lá andei, não mencionei o facto a ninguém (pensando melhor: se o fiz, terá sido apenas a uma amiga, mas não estou certa disso) pelo pudor que tinha em nova de falar destes assuntos.


À mesa de Valinhas, quinta herdada por via paterna, a avó passava os dias a contar-nos histórias passadas em tempos remotos, conseguindo cativar os netos pela forte admiração que em nós infundia. Nunca vi a avó complicar a vida ou dramatizar tristezas. Sempre tinha respostas de enorme abertura para as nossas questões. E simples, como o alho-porro. A religião que respeitava acima de tudo nunca toldou a sua inteligência. Não tinha tempo para rodriguinhos, apenas para os seus e para os seus interesses. Teve oito filhos, vinte netos, uma vida riquíssima. Perdeu um filho com vinte sete anos. Tinha uma relação de extraordinária cumplicidade com os três irmãos, era muito querida dos sobrinhos, primos e amigos. Tinha defeitos patentes: lesta a ralhar, duríssima com quem por qualquer razão lhe desagrava e capaz de sem piedade desferir palavras que feriam muito. Ainda assim colhia admiração de tantos.


Nasci no dia do seu quinquagésimo sétimo aniversário, a nona depois de oito netos rapazes. Tive por isso direito a doses extras de mimo e atenção redobrada enquanto foi viva. Quando era criança apanhei os meus pais a conversar e a minha mãe a queixar-se que eu deveria ter uma festa de aniversário própria e não conjunta. Fiquei muito espantada: achava que tinha imensa sorte por todos os anos ter festas de aniversário com quarenta pessoas e muitos presentes. Creio que não tinha percebido até então que aquilo não era também para mim, mas para a avó Isabel.


Estive lá no último dia em Valinhas junto da Susana, a amiga argentina que fazia companhia, e da minha mãe, no último suspiro. A avó desapareceu, e com a sua alma as tílias também quiseram partir.


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Da mesma saga existem os seguintes postais: