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10/11/2021

Ponto de situação

Poiso de calmaria após a tempestade. Sensação de inquietude e falta de assunto, falta de foco. Sentes-te desasada. Com a memória recente afectada e preocupação moderada com o facto de isso afectar o desempenho profissional. Tudo sereno até agora. A gozar o sossego e alguma satisfação com mais uma superação após regulação dos sonos. Ah, és medrosa, dizem os entendidos. Ah, pensas: se não fosse o teu medo, quantos abismos te teriam engolido.


Há quem se preste a consumir drogas para partir em viagem, para sair de si, para se superar. Como adolescentes imbecis à procura de novas excitações para partilhar com amigos. Como imberbes ansiosos por marcar a diferença. Serás intolerante, demasiado apegada ao teu umbigo e pouco paciente com os vícios alheios, mas nunca entendeste muito bem essa carência e cada vez percebes menos. Até porque o teu cérebro parte em viagem e põe-te fora de ti sem necessidade de químicos nem de aviso prévio. Tomara tu agarrá-lo quando queres. Desejo de montanha-russa? Será divertido? Talvez não. Tudo quanto queres é ter mão em ti e nos teus quereres. Ah, as experiências. Ah, as maravilhas. Serão precisos químicos para isso? Palermice. Medo, dizem? Tivesses tu menos arrojo e a vida ter-te-ia sido mais branda. Brincar com o fogo por tédio, por ócio? Não entendes, só por estupidez. Comentário intolerante, é certo.


Além de mais, o essencial para manteres a sanidade mental é, tal como procuras manter distância das mentiras, artimanhas e dissimulações, continuares a afastar-te rapidamente dos focos de conflito e mexerico. Manter distância de segurança dos grupelhos da chicana, dos sórdidos joguinhos de poder e perpectuação dos pequeninos interesses de tribo. Mas convém perceber-lhes os tiques, os ais e uis do não me toques, do tão honestos que eu e os meus somos, dos bons princípios que eu proclamo enquanto corroo o país desdenhando de tudo quanto o possa melhorar. É estar alerta e fazer por acreditar que um dia o juízo da nação estará a salvo desta elite de fancaria que puxa o país para o eterno degredo – este desfasamento do mundo próprio de terras sujeitas o jugo de quem não tem respeito pelos compatriotas, quanto mais pela nação.


Dos últimos dias o apontamento de excepção é de uma reunião familiar alargada, na qual tudo correu sereno e a alegre, como não poderia deixar de ser. A vida caseira segue tranquila, tal como a profissional. Tens algumas pendências a tratar, como marcar consulta no oftalmologista e informá-lo que ainda não é desta que fazes a cirurgia, mas precisas urgentemente de óculos novos – e lentes, de preferência – pois além da forte miopia e do ténue astigmatismo, no último ano e meio surgiu-te em força a vulgarmente chamada vista cansada. Entretanto, a tua mãe já reuniu uma parafernália de recipientes de 50 mililitros, a medida da tua ração líquida de duas em duas horas, quando finalmente fores submetida ao bypass gástrico – falaste no mês passado o cirurgião e confirmaste que vai ser esta a intervenção eleita e não o sleeve. Ah, acrescentaste isto mais tarde: e marcar a consulta de rotina do centro de saúde.


Ainda é cedo para voltar às Comezinhas, vais deixá-las em banho-maria mais dois dias, talvez.


Vais aproveitar o pousio para tratar da casa. Há meses que não arrumas os armários, as gavetas, as estantes, os papéis, os cantos esconderijo do desarrumo – porque será que as caixas do que entram em casa ficam semanas ou meses guardadas em suspenso face à possibilidade de virem a ser precisas e acabam sempre no lixo meses depois? Dar uma volta a casa é tudo quanto desejas e precisas. Arrumar a casa e as ideias é sempre boa ideia. No fim vais sentir-te despojada dos excessos e em paz. O lar estará pronto para o Presépio e a árvore de Natal. Não é tempo ainda, mas lá para dia 20 vais montá-la a meias com o Nuno para abrir as hostes ao pico da época mais bonita do ano. O aconchego das mantas em noites longas e frias, das luzes a piscar, das sombras nas paredes, dos tons de voz baixos e quentes.


Enfim, que é uma palavra bonita - alusão a cartas de tempos antigos escritas por terceira mão a pedido de enamorada analfabeta para enviar ao seu conversado, na cave da casa dos teus avós nas Antas - enfim, dizias, vais começar fechar o teu ano, para entrar no próximo com a casa, a vida e as ideias arrumadas.


8 de Novembro de 2021