
Entre verdes há sempre caminhos e carreiros. Coisa distante das ruas das cidades. Na minha tenra infância as ruas eram poucas, senão as do Porto e Gaia onde pernoitava em fins-de-semana avulsos ou as de outras vilas e cidades que visitávamos de quando em quando. No dia-a-dia em Valinhas havia os caminhos desde os portões inexistentes das duas entradas a confluírem na eira para seguirem num único trilho sob a ramada, ladeados de vinha e pomar até à rampa empedrada que dava acesso à casa - na verdade a quinta tem duas casas: a original destruída e reconstuída há 30 anos e a construída de raíz na primeira década do século XX na zona mais alta e foi nesta que vivi em criança. Mesmo o caminho principal nos tempos de maiores chuvadas fazia covas. Os carros viam-se e desejavam-se para fazer o percurso sem estragar o chassis. Logo no início na entrada principal na descida para a eira só com perícia não se davam grandes estragos. Na recta o problema era a falta de cascalho que impedisse o caminho de ficar demasiado enlameado. Depois o pequeno solavanco à entrada da rampa com pedras mais salientes, o resto era pacífico. Uma vez chegados lá em cima tudo era mais liso.
Outro caminho era o da Lama, o meu local de eleição na quinta, a casa principal de caseiros habitada por uma família numerosa que lá viveu até ao início dos anos 80 - o nome do pai da prole não poderia ser mais português: Manuel Carvalho. O primeiro troço do caminho ia da rampa de acesso a casa até às cortes do gado, era a continuação do caminho da eira e fazia-se também sob ramada. Uma vez chegados ao pinheiro manso, o caminho bifurcava em dois carreiros, um para o campo da Vessada, outro para a Lama. Sendo que este último era feito entre matas e com zonas muito mal tratadas, de modo que sempre me fez confusão perceber como era possível passar o tractor. Uma vez chegada à Lama, cuja casa possuía eira incorporada, já adolescente sentava-me na beira do fosso que lá foi feito em casa anexa para funcionar como oficina, e ficava a olhar em frente para a minha escola primária – a Misericórdia de Unhão, uma casa grande em U com terreiro no meio. Fazia o mesmo, quando criança, do lado de lá. Às vezes parava um pouco para ver Valinhas dali. Davam de caras, as duas casas. Da Lama via-se ainda à esquerda a Igreja de Unhão. Era uma paisagem bonita - tudo verde até à estrada nacional. Só desfeada pela presença da fábrica das Tintas Lacca. Ao longo dos anos foram sendo construídas mais e mais casas e até uma auto-estrada no monte do lado de lá. Tudo muito diferente de quando criança: eram poucas as casas e poucos os candeeiros no estradão que dava acesso a Valinhas desde a estrada nacional, de modo que havia muito pouca claridade permitindo a visão das estrelas em noites de céu limpo e caminhadas à luz do luar.
Os caminhos e os carreiros são a realidade do mundo rural e as servidões fundamentais. Não raro há terrenos cercados por propriedades alheias. Tal como no uso da água - em que é preciso definir os dias ou horas de uso - é necessário estar tudo determinado de modo claro e documentado para não dar azo a conflitos de vizinhança. De tanto ouvir estas histórias das águas e caminhos em criança, lembro-me de muito miúda fazer o percurso dos limites da quinta com os cães, fosse mata, vinha ou campo, tentando ensinar onde terminava o dever deles de guarda. Ralhar quando rosnavam fora do perímetro da quinta, deixá-los guardar quando dentro – como se fosse possível entenderem que a mata ou o campo do lado de lá do estradão já não era da sua jurisdição; coisas de criança.
Para ir à escola primária das três uma: na maioria das vezes ia de carro - a minha mãe deixava-me a caminho de Felgueiras –, noutras descia a rampa, percorria o caminho de Valinhas, seguido do estradão e o pouquinho da estrada nacional na zona do entroncamento que dava para a escola primária, poucos metros adiante do antigo apeadeiro de comboio do ramal Novelas/Lixa - já à época há muito desactivado -, ou então descia a rampa das traseiras, fazia o caminho até ao campo da Vessada entre matas e seguia pelos carreiros dos campos até saltar o muro que dava para estrada nacional – este percurso estava-me proibido e por isso mesmo era o que mais gostava de fazer.
6 de Novembro de 2021
Da mesma saga existem os seguintes postais: