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03/11/2021

Recapitulando

Vidas incontáveis


por Isabel Paulos, em 25.03.21

 


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Sempre fico contente ao ver na televisão ou internet ideia de negócio ou de carolice para reparação e troca de objectos usados e electrodomésticos. Não consigo perceber como num mundo em que as bandeirinhas da ecologia se agitam excitadíssimas seguras pela mão esquerda, ao mesmo tempo que na mão direita se exibe a última geração de Iphone ou o 5G, o mercado da segunda-mão da tecnologia não se imponha em força. Só há uma explicação: as pessoas não estão interessadas em proteger o ambiente mas em guinchar qualquer coisa que pareça tão in quanto os novos ténis de marca ou smartphones com funções de que nem sequer imaginam a utilidade, tantas vezes usando o aparelho pouco mais do que para telefonar, trocar mensagens nas múltiplas redes sociais, aceder a outras aplicações que expõem toda a sua vida e fazer jogos - nada contra, o caricato é apenas o facto de precisarem de uma máquina topo de gama para o efeito. É como comprar 'porsches' e 'ferraris' para andar em carreiros.


Durante dois ou três anos as minhas visitas ao Custo Justo ocupavam tanto tempo como hoje as andanças pelos blogues. Lá fiz - estou a contar pelos dedos, mas pode-me escapar alguma -, meia-dúzia de compras que vão da guitarra à Colecção Mil Folhas do Público. Cada compra tem uma história: de encontros à porta de Centros Comerciais a visitas às casas de origem para ir levantar os objectos a comprar. Lembro-me vagamente da figura e conversa de cada um dos vendedores e, nalguns casos, de familiares. Há quem venda quadros por ter mudado a cor predominante da decoração da sala, outros por os terem trazido das Antilhas e logo deles se cansado, há quem venda a guitarra por ter desistido de aprender ao fim de dois meses, há quem venda o serviço completo de loiça Vista Alegre por ter casa pequena para o muito acumulado pelos pais entretanto desaparecidos e há quem venda livros por falta de espaço.


E há pessoas como eu sem vergonha de dizer que fizeram estas compras em segunda-mão e as juntem ao que compraram de novo ou ao que têm transmitido de geração em geração. Assim, ao gosto da tradição – de conservar o que é legado –, junta-se o prazer da pechincha.


A palavra pechincha remete-me para a infância. Quando criança havia uma loja no Centro Comercial Brasília chamada Pechincha, dedicada à venda de objectos para casa. Neste caso, de objectos novos, frágeis e delicados, especialmente de loiça, cristal e vidro. Era um dos espaços que mais frequentava com a minha mãe antes do Natal ou por ocasião dos muitos aniversários que precisavam ser assinalados com uma lembrança. O que mais recordo era da minha mãe a fazer-me sinal ou dizer para ter cuidado, pois tudo ali era frágil e estava apoiado em mesas muito baixas sem protecção. Imagino que com a educação em voga entrar hoje na companhia de uma criança num espaço assim seria a morte do artista.


Mas voltando às compras de objectos usados, a minha melhor compra no Custo Justo foi o serviço de loiça Ema do grupo Vista Alegre, com cerca de 120 peças. Nem queria acreditar no preço quando vi o anúncio. Uma verdadeira pechincha num serviço com desenho e motivo que me agradava. Não podia escapar e não escapou. A razão de venda? Desaparecimento de uma mãe minhota com duas filhas a viver em apartamentos normais para os tempos modernos, ou seja, pequenos. Sem espaço para albergar os quatro serviços completos da antiga casa e, entre eles, a última aquisição da progenitora. O único trabalho que tive foi o de tirar as etiquetas das 120 peças.


É evidente que quem faz compras no Custo Justo corre riscos: o de ser enganado ou, pior, de estar a comprar produto fruto de roubo ou furto. Mas com as devidas reservas e cautelas podem fazer-se boas aquisições nestas páginas de venda online. E descansem os desconfiados, não dou presentes em segunda-mão. A única presenteada com estas boas compras – tantas vezes as melhores –, sou eu mesma e a minha casa. E considero este tipo de compras - tão usuais por esse mundo fora -, um indicador de sensatez num mundo de consumo frenético onde o ter mais e mais e novo e de marca e caro é a regra. Para deitar fora e logo substituir por mais e mais e novo e de marca e caro. Um sufoco. Não faço compras no Custo Justo há anos, e ainda não deitei nada fora do que lá comprei em segunda-mão.