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19/11/2021

O gosto não se discute

A imperfeição é marca d´água da humanidade.


Peço desculpa  pelo uso de termos em inglês, mas hoje apesar de ser uma nulidade na língua inglesa (ou em qualquer outra, diga-se), vou lançar mão de termos anglófonos para traduzir o que quero dizer.


É uma possibilidade considerar que determinado espaço, objecto ou pessoa tem bom look - não gosto de traduzir por bom ar por dar a esta expressão um sentido mais específico: ar educado ou civilizado. O que não é manifestamente a mesma coisa. É muito comum a sedução e a adesão em massa ao ambiente clean e friendly. Até aos espaços assépticos. Pergunto-me se a noção de gosto cavalgará estes padrões no futuro e se a ideia de minimalismo funcional-chique prevalecerá.


A mim, apesar de precisar de espaço, repugna-me o luxo e a ostentação seja pela profusão de objectos caros seja pela ausência artificial deles. i. é, pelo recurso minimalista a materiais alegadamente de melhor qualidade mas em menor quantidade e mais discretos. O despreendimento fabricado não me convence. Fico sempre a magicar o que está por detrás de tanta perfeição, de tanta pureza, de tanto despojamento fictício.


Que defeitos graves se escondem nestes primores de aparência?


Prefiro gente, objectos e espaços com imperfeições à vista. Gente egoísta que cai em si e é capaz de gestos de enorme nobreza, pratos esbotenados, salas não harmonizadas nos mesmos tons e cujos móveis têm marcas de uso. Coisas assim: rafeiras. Isto já para não falar de fruta com bicho - prova provada de que é boa.


Soa a provocação?


Enquanto a terra for habitada por homens e mulheres e não por replicantes haverá espaço para a imperfeição - para a humanidade.