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31/07/2021

Estratégia masculina

Há um certo tipo de homens que achincalha algumas mulheres com luvas de pelica, de modo dissimulado ou hipócrita. Fazem insinuações quase sempre a questionar a honestidade e valor intrínseco das visadas. Vistas como ignorantes, interesseiras, atrevidas, calculistas. De modo fingido ou hipócrita e achando que de forma frontal perderão a clientela da imagem que vendem, no afã de denegrir as tais mulheres procuram sempre o apoio de um clã de gente supostamente polida, educada e intelectualmente superior, cujos tiques aprenderam a mimetizar. E têm-no na maioria das vezes, por raramente haver coragem de cortar com as coutadas do socialmente aceite – quanto mais obtusos ou mais perto do avental e da enxada estão e destes se querem demarcar - quanto mais mesquinhos ou menos tempo passa da ascensão social da sua família - mais desprezam os que consideram frágeis ou desfavorecidos. A forma vil de se sentirem gente.


No momento em as mulheres reagem discorrendo à flor da pele, impulsivamente, dão a estocada final dissertando sobre a necessidade de ser condescendente com a emotividade patente e falta de juízo delas. Com a incapacidade de agirem racionalmente, de se comportarem em sociedade e de respeitarem as regras de etiqueta. E com isto se sentem alguém, os pobres diabos.


Felizmente a maioria das mulheres sensatas e capazes tem asco deste tipo de homens, deste tipo de gente.

30/07/2021

Tosse

Não sei se repararam, mas Portugal voltou a tossir e a ter constipações.

Mais um negócio dúbio EDP/Governo


Sublinho as declarações da deputada Mariana Mortágua:


O Estado não quis saber dos seus interesses. [...] Achou que as contas de Manuel Pinho e António Mexia eram boas para este negócio. [...] Tendo um parecer da APA que dizia que isto não devia ser aceite. [...] A APA põe em causa é o processo judicial que põe em causa o valor das barragens e foi esse valor que o Governo caucionou ao ter aprovado este negócio, ao mesmo tempo que caucionava também uma operação em que a EDP fazia passar alhos por bugalhos, fazia passar por reestruturação o que era na verdade uma venda de concessão.[...] A suspeita não é sobre a AT. [...] A suspeita é sobre o Governo quando autorizou este negócio. [...] Se a legítima suspeita de alteração à lei se confirmar estaríamos a falar de um crime.


Além disso, façam o favor de ouvir a explicação de José Gomes Ferreira.  A forma de corrupção em Portugal é infalível - alterar a lei, neste caso via proposta de Orçamento de Estado. Basta mudar parcialmente o texto de algumas alíneas. Por exemplo, acrescentar uma palavrinha como 'industriais' para dar a ganhar milhões. Será isto? Não tenho muito tempo. 


Bem, Rui Rio ao falar em ministros advogados da EDP. Bem, José Gomes Ferreira ao referir-se aos maiores escritórios de advogados do país como os legisladores de Portugal.


Legisladores interessados ao representarem interesses dos seus clientes, quando não os próprios, digo eu.

29/07/2021

Quem Quer Ser Milionário?

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Estratégia masculina

Alguns homens tentam convencer as companheiras, namoradas e amigas que são extraordinárias por contraposição às lambisgóias que dizem detestar. Com um pouco de atenção percebemos que as mulheres objecto desse putativo ódio e desdém são inteligentes, capazes e vão fazendo a sua vida sem se sujeitar aos ardilosos julgamentos de homens que tudo quanto demonstram é medo de perder o controlo do mundo. Tantas vezes com a complacência de outras mulheres seduzidas pela ideia de serem mais perfeitas, mais cúmplices, mais femininas. Normalmente, acaba por sair-lhes o tiro pela culatra. O mundo é mais perfeito do que se pensa.

Bom dia

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Bom dia, com Mokambo. 

28/07/2021

Alexia Vassiliou


Também na voz de Betty Carter, aqui.


*


Hoje não tento gracinha alguma, nem um laivo de pensamento. Só sobra sono e cansaço. Amanhã com certeza haverá tempo e genica renovada. Boa noite.

27/07/2021

Hum, sim. Talvez tenha momentos de extremo mau feitio e intransigência, mas no resto do tempo sou um doce. Hum, talvez ninguém confirme a segunda preposição. Hum, com tamanha queda para os exames de consciência, talvez me tenha a habituado a driblá-los.


Vem isto a propósito de sempre reparar nos defeitos próprios e alheios. E ainda assim sucumbir quando me apontam falhas.


No caso, vem isto a propósito de notar em outrem a inveja pelo talento alheio - sendo que invejoso e invejado são terceiros. Talvez seja apenas juízo apressado, ou mesmo precipitado. Mas fica registado.


É preciso ter coração na inteligência (coragem) para perceber aquilo que é doado e acreditar que se trata de doação e não de venda a troco do quer que seja. Reduzir as formas de dádiva às conhecidas, anunciadas ou rotuladas de benignas, pode excluir as mais preciosas: as que não se esperam, não tocam à campainha nem têm o selo e os privilégios das favoráveis.


É de ter comiseração por aqueles que vêem na maioria dos outros simples mercenários. Deve ser triste e solitário viver nesse mundo feio e sujo.

Sopitar

Cada vez que tenho uma ideia para escrever – fora daqui do blogue -, qualquer passagem com pequeno travo a criatividade, alguém me diz: isso já foi usado no filme tal, na série tal, no livro tal. É um cansaço: se me tivesse debruçado mais sobre a ficção científica e as distopias - serão sempre disruptivas, as distopias? (texto deste nosso terceiro milénio, deverá conter sempre estes dois termos) – não passaria por esta frustração nem vergonha.


Fico à espera que me digam que nalguma série, filme ou livro um país ou entidade – sei lá, ao calhas: a China ou qualquer laboratório internacional financiado por um conjunto de países – crie ou potencie uma doença para a qual a cura passe por adormecer as populações.


Imagine-se meio mundo, dois terços, três quartos ou quatro quintos do mundo a dormir - por aí adiante. Numa americanada a coisa seria bem gráfica com a imagens de controladores do tráfego aéreo sonolentos a deixar cair a tromba nos comandos, tal como pilotos, caixas dos supermercados, professores, cirurgiões - por aí fora. A maioria prostrada em suas casas, enquanto os mais despertos - com acesso a antídotos raros e comercializados em circuito fechado - se vão apoderando das vidas dos primeiros.


Uma elite de manipuladores tomaria conta a seu bel-prazer do mundo assim soporizado .


Com certeza já existe filme, série e livro. Tenho demasiado sono para confirmar: ler, ver e ouvir.


Vai um cochilo?

26/07/2021

Descontrair

Para descontrair há quem veja séries ou filmes, leia livros. Há quem faça joguinhos no computador ou telemóvel, zurza em chamadas telefónicas os demónios do mundo, pesquise e faça compras online, resolva o sudoku ou palavras-cruzadas, moa o juízo de quem está à volta, converse amenamente, veja cusquices na internet, troque mensagens instantâneas nas redes sociais, siga os Jogos Olímpicos, veja as notícias com atenção, tolere debates televisivos à volta do sexo dos anjos. 


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E há quem limpe o filtro do aspirador fazendo uso de um busca-pólos - a chave de fendas mais à mão de semear - sentada numa cadeirinha que esteve presente em todas as casas onde viveu - sim, esta pequena cadeira faz parte das memórias de todas as casas onde vivi dos meus pais e também de todas as minhas; já teve três cores.


 


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E pronto, há uma hora não fazia a mais pálida ideia (não é esta expressão que tinha em mente, mas é a publicável; já esgotei o stock de vernáculo para este ano nas Comezinhas; vou guardar uma para o Outono, se o Governo não continuar a dar motivos, claro) sobre o que escrever hoje. Não há nada como dias cheios, de muito que fazer, para ao fim do dia só sobrar vontade de esvaziar o cérebro com este tipo de tarefas. Servem de grande reset. Espero que o reboot seja sereno.

Norah Jones


Banda sonora desta tarde.


Pode ser que à noite arranje um tempinho para aqui vir.


Duplicidade neste colocar-me à prova: o gosto de voltar ao frenesim e ao esforço versus a ansiedade. 

25/07/2021

A ver

China vs. Organização Mundial da Saúde,  por Nuno Rogeiro, no Leste/Oeste da SIC Notícias.


Recordo entradas anteriores nas Comezinhas:


Bullying

 


Bullying é a arma dos fracos.


Bullying dissimulado, arma dos vermes.


 

24/07/2021

A acompanhar

Apagão. Fornecimento de energia elétrica já foi reposto em Portugal.


Eh. Provocado por quê? Hum, sei lá, qualquer coisa. Deve ter sido coisa pouca: um fusível ou assim. Interessa é dizer que a REN resolveu a questão e evitou o pior.


*


Un incidente con un hidroavión en Francia causa un apagón de una hora con más de un millón de afectados en España.


Près de 90.000 foyers coupés d'électricité pendant environ 1h dans les Pyrénées-Orientales.


Ah, espera. Parece que foi um hidroavião.

A petulância

Há dois dias procurei durante bastante tempo por testemunho de carácter no qual me revisse. Não encontrei. Lancei mão de um que se assemelhasse. Na busca descobri que o mundo está cheio de artistas que se autoproclamam vítimas dos outros e das circunstâncias. Quase nunca de si próprios.


O que o artista se chora por esse mundo fora de dor infligida por outros e pelas circunstâncias é mato. É assombroso que raramente conceba ser o principal responsável por erros, enganos e sofrimentos de uma vida.


Passando ao nível seguinte, enreda-se em discursos dúbios de pulverização de consciência, para que nada se distinga e entre as sombras vingue.


É-me difícil viver num mundo assim. A quantidade de burricadas que fiz ao longo da vida impressiona. E não o escondo. Conto sempre com igual franqueza, mesmo sabendo que nunca a terei.

Diário

Segunda dose da Pfizer tomada. Avizinha-se uma tarde a dormir.


*


Leio por aí uma patética teoria auto-justificativa de pessoa que por acaso até gostava de ler há uns anos. As palermices que se dizem em nome da defesa dos interesses das raparigas e das mulheres são de uma imaginação a toda a prova. As voltas de cobra que se dão para justificar decisões que tanto podem ser fiéis ao que se pensa e sente como de pura cobardia ou canalhice. Não conheço outra forma certa de resolver a vida que não seja pela verdade. Como de costume misturar alhos com bugalhos resulta sempre quando se quer atirar areia aos olhos dos outros.


*


Nos jornais continuam as tricas e laricas e o alheamento da realidade.


*


De resto, maldisposta deste ontem. Ou hoje, tanto faz. Já não tenho pachorra nem idade para brincar aos cowboys. E quando quero brincar aos cowboys faço-o com gente que sabe o exacto valor das palavras. Gente que respeito e me respeita. Há coisas que me soam a déjà vu fora da realidade. Assim fiquem. Sem a menor vontade de reprises descabidos.


* 


O importante: dormir bastante para me refazer e segunda-feira regressar ao trabalho em força.

23/07/2021

Robbie Williams

Sexta-feira

Sono. Muito sono. Apesar de ter dormido 6 horas. Cansaço. 


Ainda bem que é Sexta-feira.

22/07/2021

Noah Kahan

Pés no chão

Nunca aprendo. Não foi boa ideia gabar-me de fixar uma password difícil. Hoje só fiz vergonhas: além de mais de 10 tentivas falhadas, consegui bloquear um acesso. Um sucesso, só que não. Vergonha.

21/07/2021

Ainda a Justiça

O número de vezes que se invoca o Estado de Direito para continuar a provocar-lhe danos é assombroso. Há momentos em que a lucidez impõe que a defesa dos direitos e liberdades dos portugueses - tão lesadas nos últimos tempos - não seja usada como pretexto para manter a ineficiência do Sistema de Justiça e interesses corporativos e instalados.


A ideia que dá é que quando se inclina a argumentação para um lado - o da defesa dos direitos e garantias - bem, por fazer sentido nos casos em que o faz, logo todo o barco tomba para esse lado sem querer saber da lógica, da eficiência e da justiça do resultado. 


Parece incrível que ainda se tenha de lembrar a balança como símbolo.


Isto tudo é muito cansativo. Não admira que haja quem cedo arrume as botas na área da Justiça.

Pendurar as botas

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Pendurar as botas com ousadia. 

Os elos de uma vida

Se o primeiro elo para o arranque das novas lides passou por Felgueiras, a segunda ligação por incrível que pareça vai passar por Gaia. Temo que amanhã me digam que terei de dar um pulinho a N'Dalatando para fazer o pleno. Não é que não gostasse.

Outros tempos

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Comprei-os há uma dúzia de anos e desde a última mudança de casa não sabia deles. Depois de uma hora a revirar a casa à procura dos adaptadores do carregador de portátil - imprescindíveis nesta altura – faço uma chamada telefónica a pedir para rezar o Responso ao Santo António (neste momento perco os últimos 4 ou 5 leitores que sobram). Trata-se de uma oração que em criança ouvia e diz a tradição ajudar a encontrar objectos perdidos. Oh céus, criatura estúpida e dada ao irracional. Falar de Responso equivale a ter uma argola para pôr o guardanapo ou um saco de água quente onde se enrola o pijama no Inverno. São coisas de outro tempo que já não se usam e talvez por isso, mais do que nunca, aconchegam.


Pouso o telefone e olho para o topo do alçado da escrivaninha de miúda. É ali que está, penso. Peço ajuda para lá chegar. E lá está a caixa. Abro-a e para meu espanto sai de dentro a minúscula caixinha de música da Pantera Cor-de-Rosa a que tenho tanto amor, e já havia procurado várias vezes nos últimos três anos, depois da última mudança. Duas alegrias numa. Pego de imediato no telefone e digo que já não é preciso o Responso. Oiço: andava à procura na internet. Respondo que o Santo António é um santo muito expedido: assim que sente ser procurado resolve logo o problema, sem mais demoras.


Há quem tenha como músicas favoritas composições dificílimas, arranjos muito sofisticados, melodias pouco divulgadas. Não sei se haverá alguma música que me desperte tanto bem-estar e alegria como a Pantera Cor-de-Rosa, de Henry Mancini, reconhecível por todos. Só não digo que é uma das músicas da minha vida, por não gostar de usar a formulação de catálogo.

20/07/2021

Justiça perra

Em dias de começo as palavras emperram. Muitos compassos de espera antes do que suponho vir a ser uma avalancha de trabalho. Gostava de ter paciência para ler as notícias, mas nem isso. Passo pelo Observador, e vejo o nome Vera Lagoa subir às gordas. Recordo este postal de Maio. Do conjunto de notícias de hoje no Observador nada me detém.


Felizmente, recuo ao dia 18/07/21, leio a entrevista ao Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Henrique Araújo. É curioso como a razão coincide tantas vezes com a exposição clara e concisa. Não é preciso muito para dizer a verdade, só coragem para afirmar que há excesso de garantias de defesa e conhecimento da poda para perceber onde encalham os processos Ai os expediente dilatórios, os vícios formais, a arguição de nulidades, ai os prazos das cartas rogatórias, ai os prazos de recurso, ai o caldinho propício à prescrição e o desejo inconfessado de o manter a pretexto de proteger o Estado de Direito, que um dia cai de podre de vergonha pelas contradições e hipocrisia. Tudo isto se sabia há 30 anos e nada se fez. 


Nota: usei os termos "perra" e "emperram" como título e abertura deste postal, ainda antes de ler a entrevista, que disso mesmo trata. É um sinal (risos). Por essa razão, substituo o título original “Perra” por “Justiça perra”. Também os jornalistas entrevistadores conhecem bem dos encalhanços da Justiça, aliás, como há anos o país inteiro e, ainda assim, nada desata. 

19/07/2021

O nó

Aqui a pensar em nós.


Nós, não a segunda pessoa do plural, mas os laços.


Há nós que demoram a vida inteira a desfazer-se,


a fazer-se. Há nós desenleados.


E o nó apertado. Difícil.


Talvez seja enleio nunca libertado.


Fará diferença? Será nó, o novelo enrodilhado?


*


Gosto da palavra rodilho, faz lembrar Felgueiras. E quão significativo o acaso ter feito com que o primeiro passo do rumo profissional se faça através de um elo a Felgueiras. No campo das probabilidade qual a chance disso acontecer? Céus, parece dedo de Deus. Mãozinha enviesada de sonhos.


Por falar em nós e laços, um dia hei-de ler Os Nós e os Laços, de Alçada Baptista. Já o tive na mão tantas vezes. Já o espreitei algumas, mas nunca li.


Um dia hei-de fazer tanto, que tanto não caberá no dia.

Bom dia

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Medidas profilácticas no dia de regresso ao trabalho.


Bom dia. Boa semana.

18/07/2021

Humores electromagnéticos

Era Verão no início dos anos 80 e tu criança entre várias a habitar a casa nas férias grandes. De mão em mão surge o cartão magnético que nunca mais viste com uma barra vertical de cores em degradê. Os dedos das outras crianças na fita anunciaram cores bonitas e alegres, como o azul, verde e amarelo. Colocaste o teu dedo e a zona entre o negro e o roxo fez-se dominante. Entre uma piada e outra para disfarçar, retiraste o dedo rápido para que não vissem. Quando conseguiste uns minutos a sós com o cartão, foste até a refúgio dos primeiros degraus da escada interior e voltaste a colocar o dedo duas ou três vezes: o resultado sempre roxo logo ali junto do preto. Não gostaste nem um pouco da sensação. Eras a única com aquele resultado triste e, além de tudo, roxo era considerado em família cor de mau gosto.


Já estavas habituada aos descontrolos dos ponteiros dos relógios de corda quando os usavas no pulso. Sabias que não eras a única a provocar o fenómeno, que te intrigava e cujas razões até hoje nunca estudaste. Continuas a rir quando, como muitos outros, dás choques com faísca visível e ruidosa ao cumprimentar alguém em dias de demasiada electricidade estática. Mas nestas matérias nada mexeu tanto como o breu daquele cartão.


Ao escrever isto resolves pela primeira vez na vida fazer uma pesquisa no Google sobre o assunto. Digitas “electromagnetic mood card”. E assim a saltar do ecrã duas informações: «When it comes to visible light, the highest frequency color, which is violet, also has the most energy. The lowest frequency of visible light, which is red, has the least energy 


Quanto aos estados de espírito, o Google também dá a resposta rápida: «Red: Passion, Love, Anger. Orange: Energy, Happiness, Vitality. Yellow: Happiness, Hope, Deceit. Green: New Beginnings, Abundance, Nature. Blue: Calm, Responsible, Sadness. Purple: Creativity, Royalty, Wealth.» 


Quando entristeces de modo intenso – estado de dor em que naturalmente não te permites ficar muito tempo – recordas aquele cartão e ficas com a nítida sensação de predestinação.


Se tiverem interesse pelo assunto, há páginas na internet dedicadas ao estudo das cores sob o ponto vista psicológico que vêm beber à Física. Sobre isso não te vais atrever, por nada saberes.

Chet Baker

17/07/2021

Love is in small things


De regresso às animações. 


Se gostarem, existem várias animações da Puuung. Podem sempre escolher histórias mais curtinhas, se tolerarem mal a dose de mel associada.


Bom fim-de-semana.

16/07/2021

Brando contentamento

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Ontem, ao anoitecer. Temperatura cálida e leve brisa como em poucas noites no Verão do litoral Norte. No jardim do hotel as mesas e cadeiras todas ocupadas: uns jogavam cartas, outros bebericavam, a maioria tão só cavaqueava. Na piscina davam-se mergulhos entre gargalhadas. Na marginal o burburinho de famílias com crianças, as piadas dos grupos de amigos, as palavras entremeadas de silêncios dos casais de meia-idade, o passo vagaroso dos nossos mais velhos. Todos a desfrutar de uma noite de sonho. O mar quase calado, ao contrário dos dias anteriores em que o arrulhar chegava forte até ao quarto. Uma bela despedida das férias, sem precisão de ter viajado para longe.


Brando contentamento.


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Hoje à chegada, a cerimónia do anfitrião durante dois punhados de minutos. Depois dos farejos de investigação a eventuais infidelidades e perdoada a ausência, seguiu-se a sessão de beijinhos de gato. De volta a casa e aos dias triviais.

Sem ais nem uis

Li algures a alguém – não estou a fazer de propósito para não identificar, mas não sei mesmo onde e quem terá sido – a dizer qualquer coisa como isto: não percebo as pessoas que conseguem acreditar e não acreditar em Deus durante a vida. Como se tratasse de uma leviandade passar de um estado a outro.


Quando li isto, obtive a confirmação de que há vidas muito diferentes e há pessoas que consideram ter mão no mundo. Não fiz esforço nenhum para crer, nem deixar de crer, tão pouco para voltar a crer. A vida dobrou-me sem piedade e mostrou-me o que tinha a mostrar sem ais nem uis.

Socorro, o mundo é gigante

Se há o hábito de pensar na vida, fatalmente se chega à conclusão que o mundo e o conhecimento sempre estarão além. Com maior ou menor felicidade todos os dias se argumenta, todos os dias alguém se debruça sobre fracção ínfima do Universo e tira conclusões. Ainda que tenha o cuidado e a seriedade de questionar o que é preconcebido no raciocínio e aquilo que passa ou não o teste de validação de veracidade, esta será sempre parcial. No dia seguinte, talvez no próprio dia, quando não no exacto momento em que se acaba de proferir a afirmação original, se a postura for honesta, outros raciocínios irão contradizer o pensamento inicial. A procura da verdade é um processo difícil e doloroso, em que a todo o momento se é confrontado com as próprias contradições.


E se há mais de dois milénios no Ocidente – no momento em que surgem os primeiros questionamentos e arranjos filosóficos - parecia possível chegar-se a uma concepção do mundo satisfatória, hoje a tarefa é monumental. Não só o conhecimento do mundo físico aumentou exponencialmente, como os processos de intelectualização do pensamento se foram complexificando de modo absurdo.


E nem é preciso recuar tanto. Se retrocedermos aos séculos imediatamente anteriores - ao tempo das enciclopédias -, percebemos como havia genuína intenção de conseguir reunir em obras mais ou menos extensas todo o saber do Universo.


Onde parará este optimismo e ingenuidade quando comparados com a estupefacção face ao fluxo massivo de dados, informação, conhecimento e sabedoria actualmente à disposição da população mundial? Será que a maioria apenas conseguirá ter a percepção dos dados e da informação – forçando muito a barra, como diriam os brasileiros: o seu julgamento viverá nas sombras da caverna de Platão – e só uma minoria alcançará o conhecimento e sabedoria – ousando mais uma vez: acederá à realidade fundamental das formas ou ideias.


Porém, a questão é: face ao gigantismo da realidade a conhecer, será possível chegar à Verdade, dada a dificuldade de obter uma concepção que explique de forma satisfatória o Universo, o seu funcionamento e o sem-número de ideias que sobre ele versam?


A atitude de alguns é a de se alçar ao patamar do conhecimento e da sabedoria, pisando os que pressupõem a eles não conseguirem aceder, não tomando consciência da fragilidade do próprio conhecimento. Raramente vejo os bem-pensantes admitir erros e contradições. Salvo em falso discurso para dar o ar da tolerância – quando não de condescendência sobre os pobres néscios. Raramente confessam as suas fragilidades e não parecem perceber que sem o fazer não têm ossatura nem o direito de apontar erros a terceiros. Ora, a prosápia é a forma mais infame de desconhecimento – os que têm a possibilidade de aceder ao conhecimento, têm obrigação de perceber os mecanismos de construção do pensamento; têm maior responsabilidade. Sucede que não raro, ao menos em Portugal que é a realidade que conheço, foge-lhes o pezito para a pura maledicência e presunção sem fundamento – se é que alguma vez a presunção pode ter razões de base atendíveis. Perdem-se em injúrias contra a ignorância atrevida, a ignorância voluntária; em suma, contra a estupidez. Odeiam o mundo da discussão das massas, ficam de pêlo eriçado quando observam uma mulher ou um homem fora do mundo académico, fora do gueto de amigos intelectuais, fora da tribo daqueles que preconcebem como pessoas que se podem ouvir ou ler. Nuns casos, a arrogância é de tal modo doentia que são incapazes de escutar ou decifrar o que dizem os anónimos por falta de pedigree (e por contraposição aos peões dos palcos formais e institucionais do conhecimento), noutros a falta de seriedade é de tal ordem que ouvem e lêem estes homens e mulheres desconhecidos e aproveitam abusivamente os seus contributos, sem jamais os considerarem como iguais ou reconhecerem a validade do seu pensamento.


A título de exemplo, esta arrogância face ao presente texto ditaria qualquer coisa do género: olha, uma atrevida ignorante a tentar numa passagem dar o ar de inteligente, com paralelo infundado e desajustado a Platão sem perceber nem aprofundar, por ignorância voluntária, o estudo da obra. A presunção exigiria três citações, quatro referências bibliográficas e uma menção a amigo interessado rotulado de eminente pensador, para que o texto pudesse ter validade. Quando a simples abertura de espírito e humildade ditaria que antes de etiquetar o presente texto como lixo, se pudesse talvez vislumbrar numa simples linha ou par de palavras, um pequeno e modesto rastilho para pensar.


Mas não, o julgamento será: é muito atrevimento, muita ignorância, muita estupidez.


O mesmo acontece aos incalculáveis milhões de observações de desconhecidos encontradas no espaço online. A mais pungente manifestação da Democracia – as redes sociais -, não é necessariamente um esgoto a céu aberto como tantos querem fazer crer. As redes sociais têm muitas fragilidades, mas estão expostas e as suas falhas são na maioria das vezes assumidas pelo pensamento dominante. Ao contrário das debilidades de quem só conhece livre pensamento (esclarecido) nos canais recomendados, tantas vezes por critérios pouco claros e pouco honestos. Na melhor das hipóteses, por medo de ser engolido por essa onda gigante de opinião.

15/07/2021

14/07/2021

Da apologia da moderação

Se a humanidade vivesse apenas de moderação, ainda não teríamos levantado as patas da frente.


Num país de passivos e de complacência com a corrupção, a endogamia e o atraso sistémico, combater as vozes críticas e os radicais, sob pretexto recorrente e ardiloso de estarem mal informados e serem permeáveis às falsidades das redes sociais, é areia atirada aos olhos dos incautos. E a cereja em cima do bolo é a moda de citar autores clássicos, não percebendo que a ironia dos trechos escolhidos satiriza não raro quem o cita e não, como julga, os que procura condenar.


A demarcação enfadada da combatividade por parte das elites intelectuais, na maioria das vezes, não é mais do que a defesa do status quo e dos interesses instalados. Os mesmos que à primeira vista defendem candidamente a moderação e o conhecimento exclusivo de selecto grupo de clarividentes estão a criar nos diversos quadrantes económicos, políticos e culturais as redes informativas e malhas de opinião interessada para assegurar a sobrevivência do privilégio, recorrendo dissimuladamente à táctica de guerrilha, que tanto criticam nos declarados radicais. 


No fundo, os bem pensantes consideram um perigo colocar a Democracia nas mãos da população ignorante. É uma maçada: gente sem capacidades cognitivas, muito menos juízo crítico. Talvez fosse melhor voltar a reduzir o voto a um colégio eleitoral de iluminados e rever essa perniciosa mania da liberdade de expressão.


A Democracia não vai morrer pelo radicalismo, será suspensa por uns tempos por vontade dos moderados, com o nobre objectivo de civilizar a população.


Não sei onde já vi isto.

Vulcão Fagradalsfjall - Março 2021


Ter a televisão ligada como pano de fundo no concurso Joker tem vantagens. Vasco Palmeirim chamou a atenção para estas imagens captadas por drone, que me tinham passado ao lado em Março último. Um espanto.

Verão

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Póvoa do Varzim, 14 de Julho 2021.

Os marcianos

Estar isolado ou quase isolado na opinião não é comum e não é posição confortável. Os mais despertos têm o hábito de ver a realidade como ela é e não como convém que seja. Na melhor das hipóteses dizem ou escrevem o que mais ninguém se atreve a dizer em determinado momento perante a indiferença total de quem circunda. Noutros casos, são considerados alienados, pessoas malquistas de quem é preciso guardar distância física e psicológica. Às vezes apontados, ridicularizados, espezinhados. Não poucas vezes vistos como presunçosos. Em abono da verdade, é preciso dizer que por perto dos extraterrestres existe sempre curto punhado de outros marcianos que sobrevive a lutar pelo verdadeiro.


O tempo costuma destapar a pertinência e razão destes extraterrestres, mas como tudo na vida só revela a evidência a quem de boa-fé está disposto a vê-la. Os marcianos vivem sós e morrem sós.


No momento em que a verdade é revelada muitos se põem em bicos de pés a declarar efusivamente: eu bem disse, eu vi logo, eu bem escrevi. Peneirando um pouco estes festejos e recuando no tempo damos com sujeitos que esperaram o momento certo surgir, desviaram-se dos incómodos, calcularam e pesaram bem as palavras a usar não em função da justeza das coisas, mas de puro oportunismo. Procuraram apoio da tribo, do grupo de amigos, do gueto de interesses. Comemoram ter razão com figuradas ou literais pancadinhas nas costas. Às vezes, com cargos e empregos. E esperam a próxima vaga de denúncias a debitar com o mesmo esmero com que fecham os olhos aos vícios de corrupção da sua própria casa e tribo.


Isolados, os extraterrestres já perderam a conta ao que disseram e escreveram de exacto debaixo das pedradas alheias. Nem fazem muito esforço para recordar aos outros o que disseram. Não há espaço para tamanho brilhantismo nas celebrações. Têm a mente ocupada com o funesto do momento, que os foliões não sentem nem reconhecem até ao momento exacto de começar a render likes.

Heather Heying & Bret Weinstein: The Lab Hypothesis


Obrigada, Pedro.

A outra face

Depois há o outro lado. Basta passar os olhos e nem sequer é preciso o cuidado de ler alguns textos de outra bloguer na diagonal: só tirar a pinta a duas ou três expressões para topar a total insignificância. Votados ao sucesso, pois com certeza.

13/07/2021

Banho de modéstia, precisa-se

Vou escrevendo coisas banais sobre coisas banais, usando amiúde a palavra coisa. Como se não chegasse emitindo opiniões corriqueiras que não exigem o uso de mais de dois neurónios aos leitores. Dou por mim a reflectir nas razões: bom, escrita rica pressupõe vidas férteis, ao menos vida rica interior. Nesse momento, pego mentalmente na mochila e avanço pelo mundo fora até encontrar terras onde sinta espanto ou desconforto e desato a conversar com criaturas que desafiem as minhas verdadezitas imbecis. Submeto-me ao auto-polígrafo e constato que não fosse em pensamentos e ao fim de semanas ou meses já teria voltado à mesmice. Afinal, o amor ou bairrismo ao porto de abrigo, a insegurança e os medos funcionam como espécie de cordão umbilical que em esforço pode esticar 30 ou, muito excepcionalmente, 17 mil quilómetros, mas depressa recolhe à posição inicial. Invisto então na alma: revolvo as minhas entranhas dos pensamentos e das emoções. Remexo e também aqui funciona o elástico, mas agora da preguiça e do pudor. Dois lanços em frente, três passos para trás. Não há vida rica interior em cobardolas. Ou sim, ou sopas. A menos que queira dar o ar em vez de ser, e isso: nunca. Além de tudo, as gavetas da memória não albergam as leituras, as audições, as visões que compõem a riqueza do conhecimento.


Posto isto, parto de peito aberto para a leitura. Folheio dois livros, vou lendo vagarosamente um deles e pouso-o nem uma hora depois sem dar continuidade que a disponibilidade das férias imporia. Leio alguns postais de duas blogueres. A primeira escreve rica prosa poética - cria imagens belas de encher a alma. A segunda, lógica e racional, discorre ao longo de uma vintena de linhas muito reflectidas e certeiras, obrigando-me a reler várias vezes o texto até perceber.


Daqui não tiro outras conclusões que não sejam a do gosto pelo que li.


Talvez por isso quando me falam em degraus, progresso e sucesso, respondo que é preciso conhecer as próprias limitações e o nosso lugar. Regozijar com pequenos passos na melhoria da escrita, na esperança de ampliar o mundo. Há gente a pensar e a escrever muito bem. Tropeço nelas de vez em quando e, na maioria dos casos, não lhes vejo degraus nem sucessos, apenas beleza, graça e conhecimento.

Ainda os comes

Quatro ou cinco mesas de hóspedes de idade avançada. Levantam-se em simultâneo e em bando atravessam a sala. Hum, acabaram de jantar cedo, penso. Reparo nas mesas deixadas para trás: as garrafas e os copos meio-cheios denunciam o regresso. Volto-me para a direita e vejo que fazem mui lenta fila indiana no buffet. São mais de 20. Por que carga de água resolvem fazê-lo em bando é um mistério, tanto para nós como para o afável empregado que nos vem levantar o prato da entrada – rimos e relaxamos, afinal aqui vale sempre a pena esperar pelo banquete seja em buffet ou à carta. É estranho mas fazem sempre isto, diz-nos ele.


Imagino o Covid bicho a esfregar as mãos com o maná.

Michel Camilo - Caribe


É do outro mundo. 

O lado B

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Às duas e meia sentamo-nos numa mesa da Casa Costa. Cinco minutos depois, feitos os breves cumprimentos, ao questionarmos o menu somos brindados com um insolente: ai, querem comer? E o jovem empregado retira-se para perguntar na cozinha se ainda servem. Cinco minutos mais tarde aparece de novo a dizer que os almoços estão encerrados. A esplanada ainda com mesas ocupadas por gente a almoçar.


Um cego acompanhado de uma gorda não devem ser clientela apelativa na perspectiva do malcriado funcionário, a quem não ocorreu em momento algum um pedido de desculpa pela alegada impossibilidade. Não reconhecemos a atitude de anos anteriores em que fomos bem recebidos.


Um restaurante a riscar da lista.

Apontamento de Verão

Abranda o ritmo e há tempo para os detalhes: o contraste entre o cafezito à entrada da praia, num daqueles passadiços pejados de guarda-sóis e mesas simples e coloridas com publicidade à Olá, apoiadas pela barraquita de madeira de quádruplo-chapéu inclinado e o almoço na esplanada numa cabana bastante mais ampla e envidraçada, cem metros adiante.


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Na parede lateral da primeira barraquita uma fotografia composta de gosto duvidoso anuncia o nome do bar: Isabel Monteiro. Ao longo da frente mar outras iguais vão denunciando os proprietários pelo nome. A dona da máquina de café - além desta só tem duas arcas verticais, vidradas de modo que se vêem as bebidas, e a horizontal dos gelados – de t-shirt branca de motivos incógnitos e saia redonda castanha, avental de pano aos quadrados miúdos de cor parda e debruado a folho, bem atado à barriga. Rosto rústico e cabelo esbranquiçado preso por um gancho estreito de metal dourado. Quase tudo na figura podia ser encontrado há 40 anos numa qualquer aldeia portuguesa. Só a alva t-shirt de algodão dá um toque de modernidade. E quiçá a vista leste para os prédios torre que preenchem a marginal de A Ver-o-Mar e ensombram o areal pela manhã cedo. Imagino afastarem veraneantes mais ciosos do castiço e da preservação da orla marítima portuguesa – a mim parece haver espaço para tudo: para o tradicional e o contemporâneo. Além de mais, o gozo das varandas viradas para o Atlântico não abunda entre nós.


Os ventos da sofisticação logo se perdem no linguajar bem poveiro, bem directo, bem nortenho. Nada a ver com o tagarelar chique da vizinha Vila do Conde, onde passei parte das férias de Verão em miúda. De regresso à jovial e popular Póvoa do Varzim e à penúltima vez que cá passei uns dias: assisti à visita da vereadora do pelouro para tratar do cumprimento das regras da exploração e funcionamento da barraquita, mas também para ouvir as queixas da proprietária. Aí o choque entre a confortável e bem lançada idade já pousada na casa dos sessenta da dona do quádruplo telhado de madeira e a desenvoltura esmerada da enérgica doutora dos saltos finos enfiados nas ranhuras das estreitas tábuas do passadiço. Nada que a demovesse da convicção no exercício das funções: ouvia paciente, mas condescendente as reclamações apresentadas com deferência pela detentora da licença de exploração da pequena esplanada no areal e talvez do conjunto das barracas de pano listadas de azul e branco.


Hoje, poucos clientes. Mesmo poucos. Além de nós, duas senhoras que imagino de Braga. A Póvoa ainda é muito a praia de Braga e das redondezas. Concorrem com os franceses que, salvo estes tempos pandémicos, acorrem em grupo a estas bandas e a Esposende. Em 2016 fomos parabenizados em plena rua, face aos gritos de golo vindos das varandas, por um simpático e calculista casal de franceses, que connosco se cruzou nas meias-finais. Nós ganhámos ao País-de-Gales, eles viriam a ganhar à Alemanha. Julgo que o cumprimento feliz se traduzia na ideia de que afastando os alemães connosco seriam favas contadas. Correu-lhes mal a vida. Bom, mas o facto é que os turistas franceses são, em regra, mais afáveis e respeitadores dos autóctones do que os ingleses, sempre mais presunçosos. Digo eu que,  apesar de tudo e nestas matérias, sempre tive mais inclinação para bifes do que para baguetes.


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Na segunda cabana envidraçada – o Booggie, que já vou conhecendo, um pequeno bando de raparigas novas de calções e t-shirts brancas e turquesa onde está inscrito o nome da casa. Lestas, mais ou menos amáveis conforme a natureza e o correr do dia.  Uma brasileira mais solícita, de sorriso exuberante ajudou-nos a decidir a ementa falada à boa moda portuguesa e no final fez-nos a conta. Já poucos resquícios do passado nesta esplanada mais aprumada onde sempre vi gente a estudar – creio que é timbre da Póvoa. Talvez a nota divergente seja o cliente de trunfa e barba cor de algodão que lê o jornal aberto sobre a mesa – se os outros os liam, seria nas versões online, atentos os pescoços curvados sobre o gingarelho (o dicionário discorda, mas levo a minha avante). Não chego a perceber se é o dono, tal a familiaridade da conversa com as funcionárias. Creio que sim, dado o diálogo versar a falta de stocks na casa. E também ao constante vaivém de companhias de treta que à vez se vão sentando à sua mesa.


O elemento mais inovador é a ementa por código QR. Lá vem a menina com o cartãozito ao qual os clientes apontam os gingarelhos antes de se voltarem a debruçar sobre eles, agora não para disparar a quadragésima mensagem instantânea numa rede social, mas para escolher o prego no pão, o cachorro ou a salada de salmão.


 


A mim, que já levo vasta experiência no uso do código QR, continua a parecer coisa futurista. Sinais dos tempos. Faz sentido: afinal Richard Branson – empresário e milionário aventureiro britânico com quem sempre simpatizei, mais ainda depois de experimentar a já extinta Virgin Atlantic no outro lado do mundo – fez ontem a primeira viagem ao espaço – uns minutos no avião-foguete VSS Unity, da sua Virgin Galactic e declarou: «Sonhei com este momento desde criança mas, honestamente, não há nada que nos prepare para a visão da Terra a partir do espaço.»


Ah, eu também ia. Oh, se ia.

11/07/2021

Paz

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Serenando.


Daqui em diante, paz e amor. Um dia destes ainda tento a meditação. 

Troca de mensagens

- Pronta a explodir. Acabei de comprar um teste Covid antes de me dirigir a um hotel. Imagino o que será o check-in a enfiar uma cotonete nas narinas. Nunca na vida me senti tão vergada e cobarde.


- Mas se já estás vacinada por que raio exigem o teste?


- Só tenho uma dose. Podem exigir. Estes anormais que impõem estas anormalidades, amanhã devem estar a rever a situação. Discricionariedade absoluta. Tive de cancelar a ida a Almada e Sesimbra ao fim-de-semana por causa da porra da restrição da área metropolitana. Fui durante a semana. Voltaram atrás quando já tinha cancelado.


- E é isto... ando à mercê destes filhos da puta. Desculpa o vernáculo. 

 

- Antigamente, fazia-se um teste de gravidez depois de um fim-de-semana num hotel. Agora, faz-se um teste Covid antes do check-in. Como os tempos mudam. 

 

- O vernáculo está adequado à situação. Os eleitores deviam exigir um teste de QI aos membros do Governo.

 

Eh eh eh. Só tu.

 

 

(diálogo verídico com amigo.)

Michel Camilo - Take Five


Take Five é das músicas que mais me embala. Ouvi-a vezes sem conta por Dave Brubeck. Esta versão do talentoso Michel Camilo é uma delícia.


Noutra encarnação gostaria de ter um cérebro que conseguisse comandar as duas mãos com tamanha autonomia e arte. E pensar que enquanto toca, Michel Camilo pode ainda estar a pensar na vida. 


O nosso corpo e em especial o recheio do crânio é dos mistérios mais engenhosos à face do universo. 

10/07/2021

Livre-trânsito

Ainda quanto ao Certificado Digital Covid e à obrigatoriedade de apresentação do mesmo ou a realização de teste para entrar em hotéis e restaurantes, mais assustador do que ter governantes crápulas, autoritários e discricionários, é fazer parte de uma população que aceita tudo sem tugir nem mugir.


Os que passaram décadas a chamar fascistas a tudo e todos e que nos últimos tempos andam excitadíssimos a perorar sobre os perigos do populismo são os mesmos que se calam e encolhem os ombros face a estas alarvidades.


Pergunto-me se quando os conflitos com cidadãos corajosos chegarem aos tribunais a este propósito, ao menos os nossos juízes ditarão o bom senso e a justiça. Mas até lá o mal estará feito aos olhos dos portugueses cobardemente calados.


Soará ridículo e será até motivo de chacota, mas ontem apeteceu-me chorar à conta destes absurdos. Dei por mim a presenciar o início do tempo da barbaridade. Dói constatar o regresso ao tempo do livre-trânsito.

09/07/2021

À paranóia responder com paranóia e meia

Não desconheço os perigos das falsidades nas redes sociais, mas esta medida dos testes à Covid para entrar em hotéis (todos os dias) e restaurantes aos fins-de-semana é de tal forma patética, abusiva e discricionária que não me admirava descobrir daqui a um par de meses que estas determinações visam ajudar o negócio de produção e comercialização de testes dalguns amiguinhos do costume.


Às vezes, à paranóia deve responder-se com paranóia e meia. Fico banza como é possível aceitar-se estes absurdos de bico calado. Fico na expectativa de amanhã quando acordar já haver decisão a reverter esta alarvidade. Para isso é preciso que os portugueses não se calem, como vem sendo uso.

Aos ladrões da luz

Se fizesse paralelo entre a arte e a mulher volúvel diria que as une a forma como se dão – e como vão sendo espoliadas do fulgor original. Desprovidas de cálculo rendem-se ao momento, à natureza e aos homens sem tratar de saber do troco. Crêem mais no efeito dos raios solares no enrolar ondas do mar ou na inclinação oscilante dos pinheiros curvados pelo vento na ravina, do que no papel que é suposto representarem em sociedade.


Não se explicam.


Não se dizem amantes do belo e dos homens: são. Não enunciam paisagens, obras de arte e da literatura ou peças musicais: vêem, lêem e ouvem. Não elencam criadores: admiram, amam, saboreiam, gozam, odeiam, zangam-se.


Se não sentem, não sabem e se sabem: pintam, escrevem, compõem ou o diabo a quatro. Não é o preço e o prémio da obra ou do amor que as move. Não representam imagem de que de si querem dar ou de tudo o que crêem ser desejado pelos outros. Têm a alma a nu: limitam-se a transparecer o que vêem, ouvem, cheiram, tocam, saboreiam, sentem e pensam. Mostram-se, dão-se e abandonam-se no instante em que o fazem.

08/07/2021

Boléro de Ravel


A mais masculina das composições.

07/07/2021

Mais uma voltinha

Ao volante do Citroën C Elysée um amável paquistanês a residir em Portugal há 7 anos, Kalleem de seu nome. Faz-se entender, apesar de notórias dificuldades em perceber o português para além do trivial - imagino-me no Paquistão e chego à conclusão que ele leva a melhor. Chegou à Europa via Alemanha, passou por Barcelona e decidiu ficar em Portugal. Trabalhou os primeiros anos na apanha de morango no Algarve. No entremeio qualquer coisa que não percebi e agora está na Uber. A história repete-se. Já a tenho ouvido a vários imigrantes da Ásia Meridional: o que pagava semanalmente ao dono do carro (mais de 200 euros) mal deixava rendimento para si próprio. Razão para ter comprado a meias com o irmão este carro que está a custar legalizar por ser diesel. O irmão faz as noites, ele os dias. Assim vivem.

Diz que os portugueses são simpáticos e o clima muito bom. A comida nem por isso. Ou melhor: é muito diferente e as interdições muçulmanas impedem-no de experimentar parte importante da gastronomia nacional. Nos rituais religiosos a regra é simples: faz todas as orações; estando perto da mesquita deve e vai orar no templo, caso contrário, reza no carro para ter mais recato - se o fizer na rua sente-se observado. Diz sentir que em Portugal não há discriminação como em França e Alemanha e que a comunicação social só mostra o lado mau do mundo muçulmano. Conta no próximo ano ter passaporte português. 


 


*



Ou vivo num mundo distinto da maioria dos meus compatriotas, sobretudo, dos que mais opinam nos media e redes sociais, ou fico com a nítida sensação de que há dois "Portugais" a conviver em simultâneo: o da bazuca, dos epidemiologistas, do futebol, das guerrinhas ideológicas e o outro: o real. Resta saber se quando o primeiro mundo (para quem a maioria dos escritos das Comezinhas são um tédio pela ausência de temas palpitantes: afinal, a vida de motorista de táxi emigrado é igual em Nova Iorque, Londres ou qualquer parte do mundo ocidental e só pacóvios ainda perdem tempo a pensar no assunto) acordar da pandemia, dará conta (não sei se há disse, mas adoro estas expressões) do segundo.

Aluna destapada

Ainda sou do tempo em que estar mais destapada era garantia de melhor nota.


*


Bem estranhei ontem na exposição do Museu Nacional de Arte Contemporânea o facto da única tela de retrato de nu figurativo estar no canto mais recôndito da sala. Isto anda tudo ligado. 

Rabugice pela manhã

Bom. Como é que é? Desço ao eixo do mundo português em volta do que tudo gira (como diziam os noticiários: chove em todo o país) e sou recebida nesta espraiada e alva cidade mediterrânica por uma noite bem frescota provocadora de constipação? Há muito tempo não sabia o que era estar constipada. Foi preciso descer outra vez à mouraria.
Lá vou ter que regressar ao granítico e atlântico Porto e esperar pelos 30 graus dos próximos dias - como se o desejasse.


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Além disso os motoristas de Uber são artolas: pedi percurso até ao número 4 da Rua de Serpa Pinto e fui parar perto, porém à Academia de Belas Artes. Será um sinal? A mim pareceu. Apeteceu-me logo fazer inscrição para o próximo ano lectivo.


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06/07/2021

Grandes alegrias

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Um par de horas no Museu Nacional de Arte Contemporânea. A repetir (ao Berardo apanhei-o já perto da hora de fecho quando lá fui no ano passado, voltarei a insistir).


Sei, não deveria atirar com as imagens sem compor e associar informação sobre as telas. Façam um favor: se quiserem, procurem na internet. Facilmente obterão detalhes sobre a vida e obra de qualquer um dos artistas representados - como Vieira da Silva, Júlio Pomar e Francis Smith. Por mim, calo-me. Perante estas alegrias, emudeço.


(amanhã tentarei dar um arranjo nas imagens; sou naba no telemóvel.)