Se quiserem perceber a razão de Portugal ser um país eternamente adiado, enredado no atraso, na falta de brio, nas dívidas. A contrario: se quiserem entender o porquê da falta de progresso, de sentido de responsabilidade e riqueza do país e dos portugueses, percam uns minutos a ler os argumentos dos defensores de Eduardo Cabrita nas caixas de comentários dos jornais e dos blogues que descrevem factos sobre o acidente que envolveu a viatura do ministro e que originou a morte de um homem que trabalhava na auto-estrada à hora errada; Nuno Santos de seu nome.
Nada me move contra Eduardo Cabrita - que considero um pateta desajeitado, incompetente e sem sorte -, mas leiam-se os ditos comentários para constatar o brilhante raciocínio de muitos portugueses: a falta de noção do que são as obrigações dos detentores de cargos públicos e a dignidade exigida pelo exercício de tais funções, a ligeireza com que se escamoteiam os deveres e se faz barulho para que não se percebam os factos embrulhando tudo no típico imbróglio atenuante. Todos nós já vimos isto antes uma e outra vez a propósito de erros patentes de detentores de cargos públicos. Muitos denunciaram como hoje denunciam. Mas a maioria – ou pelo menos a fracção mais barulhenta da sociedade – prefere o imbróglio e gosta bem da leviandade e impunidade em que vive. Nunca vêem nada do que é evidente, nunca percebem nada do que há a perceber até o visado estar no chão. Aí sim, pisam. Os cobardes.
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Aliás, se quiserem perceber como funciona Portugal, oiçam o patético comentário do Director do Público - Manuel Carvalho -, no Jornal da RTP 2 (das 21h30). Fiquei um pouco baralhada, sem saber se é proibido falar em factos sobre acidentes que envolvem ministros, sob pena de ser acusado de aproveitamento político. É esta gente que costuma dizer ter lutado contra a ditadura ou orgulhar-se de quem lutou contra a ditadura na defesa da Democracia. Em Portugal, em Ditadura ou Democracia, vale o respeitinho e o ser fraco com os fortes e forte com os fracos.