Ao volante do Citroën C Elysée um amável paquistanês a residir em Portugal há 7 anos, Kalleem de seu nome. Faz-se entender, apesar de notórias dificuldades em perceber o português para além do trivial - imagino-me no Paquistão e chego à conclusão que ele leva a melhor. Chegou à Europa via Alemanha, passou por Barcelona e decidiu ficar em Portugal. Trabalhou os primeiros anos na apanha de morango no Algarve. No entremeio qualquer coisa que não percebi e agora está na Uber. A história repete-se. Já a tenho ouvido a vários imigrantes da Ásia Meridional: o que pagava semanalmente ao dono do carro (mais de 200 euros) mal deixava rendimento para si próprio. Razão para ter comprado a meias com o irmão este carro que está a custar legalizar por ser diesel. O irmão faz as noites, ele os dias. Assim vivem.
Diz que os portugueses são simpáticos e o clima muito bom. A comida nem por isso. Ou melhor: é muito diferente e as interdições muçulmanas impedem-no de experimentar parte importante da gastronomia nacional. Nos rituais religiosos a regra é simples: faz todas as orações; estando perto da mesquita deve e vai orar no templo, caso contrário, reza no carro para ter mais recato - se o fizer na rua sente-se observado. Diz sentir que em Portugal não há discriminação como em França e Alemanha e que a comunicação social só mostra o lado mau do mundo muçulmano. Conta no próximo ano ter passaporte português.
*
Ou vivo num mundo distinto da maioria dos meus compatriotas, sobretudo, dos que mais opinam nos media e redes sociais, ou fico com a nítida sensação de que há dois "Portugais" a conviver em simultâneo: o da bazuca, dos epidemiologistas, do futebol, das guerrinhas ideológicas e o outro: o real. Resta saber se quando o primeiro mundo (para quem a maioria dos escritos das Comezinhas são um tédio pela ausência de temas palpitantes: afinal, a vida de motorista de táxi emigrado é igual em Nova Iorque, Londres ou qualquer parte do mundo ocidental e só pacóvios ainda perdem tempo a pensar no assunto) acordar da pandemia, dará conta (não sei se há disse, mas adoro estas expressões) do segundo.