
Como se dizia nos anos setenta: calma na América que Portugal ainda é nosso.
*
Aditamento: referia-me à disputa do porto de Sines por chineses e norte-americanos.

Como se dizia nos anos setenta: calma na América que Portugal ainda é nosso.
*
Aditamento: referia-me à disputa do porto de Sines por chineses e norte-americanos.
Numa situação de angústia absoluta no mundo é bom contar com o conhecimento e seriedade de quem nos pode trazer informação sobre o que se passa na heróica Ucrânia que se defende da invasão - ataque terrorista - das forças comandadas pelo Presidente russo, Vladimir Putin, facínora deslumbrado que acaba de declarar hoje que deu ordens ao Ministro da Defesa para colocar as "forças de dissuasão nuclear" em alerta máximo.
O jornalista Nuno Rogeiro, que já nos habituou no passado à idoneidade, tem sido o rosto desse conhecimento e seriedade, fornecendo aos espectadores da SIC dados e informações sobre o que se está a passar no território ucraniano em termos militares.
Notei hoje num pormenor que faz toda a diferença e caracteriza essa seriedade. Após uma descrição documentada de movimentos militares no terreno, o jornalista deixou escapar um pedido de desculpa por se ter estendido (no tempo), rematando de imediato: espero não me ter espalhado, apenas estendido. Esta humildade e admissão do medo de falhar, assim como a eterna busca pela justeza das palavras, pela sensatez e pela omissão de críticas levianas ou gratuitas é própria de gente consciente e de valor. Infelizmente, tão rara.
Impressiona observar gente cínica de falas mansas que ilude durante algum tempo com retórica pluralista e exibição de imagens solidárias. São capazes das piores calhandrices, a troco apenas de espaço vital de mediatismo e acesso aos apetecíveis lugares de poder para si e convenientes comparsas de intriga política. Gente que atropela e espezinha tudo quanto é são ou decente a troco de protagonismo e escalada material.
A imagem que os define é a do abraço e palavra terna ao mesmo tempo que cravam o punhal nas costas de quem enlaçam.
Vi há pouco a imagem de uma sala de casa de urbanização concebida por Siza Vieira colocada à venda num site imobiliário. Conheço as casas e sei que são acanhadas. Atraiu-me a solução encontrada pelos moradores para guardarem a bicicleta: simplesmente pendurada num suporte cravado na parede da sala entre a zona de estar e jantar.
Há gente que tem arte na forma como organiza e decora os espaços interiores. É uma espécie de dom com que se vêm ao mundo para saber contornar o óbvio e enfadonho e dar graça à vida. Invejo-os no bom sentido da inveja: admiro-os.
Cada posição, cada argumento por mais errados estejam estão sujeitos a ter apoio por um período de tempo. As circunstâncias são como os ventos, sopram de vários quadrantes e corroboram amiúde posições e argumentos errados na essência.
Há gente a quem o vento sopra mais vezes favorável e se convence da ciência das suas afirmações, quando estas são apenas fruto do (in)feliz acaso.
Se é verdade que devemos estar precavidos da direcção dos ventos, não é menos verdade que o caminho escolhido não deve depender deles nem assentar no interessado apoio ao mais forte. Farejar o caminho segundo as anuências não é sinal de boa andança.
O presente texto é uma tentativa de materializar uma sensação dúplice pela qual foste assaltada algumas vezes na vida. À medida que os anos passam vais como qualquer ser humano acumulando experiência e bens. Uma e outros aprisionam-te ao mesmo tempo que trazem utilidade e prazer. Em momentos de maior sensibilidade e atenção para as questões da fragilidade da humanidade dás por ti a considerar o que possuis. Toda a carga de passado e os bens materiais e imateriais que foste acumulando impregnam a expressão do teu pensamento.
Recuas sempre à primeira vez que tomaste consciência dessa sensação. Estavas na casa dos vinte e deste por ti a pensar que tudo quanto tinhas cabia em dez metros quadrados e o que te era mais precioso papéis escritos depositados numa caixa de plástico que virias a destruir poucos anos depois com enorme alívio e nenhum arrependimento até ao presente.
A cada mudança de casa percebeste como é ambíguo o sentimento de deixar para trás um espaço que assistiu e contribuiu para momentos felizes e infelizes. Cada bem material ou imaterial deixado para trás representa uma memória registada no consciente ou inconsciente. A cada relação rompida compreendeste o mesmo. Tudo quanto vivemos e projectamos fica arquivado e aflora ainda que tenuemente no nosso pensamento voluntária ou involuntariamente.
A cada um dos vários discos de computador inutilizados em definitivo há mil e um apontamentos e registos que parecem perder-se e ainda assim persistem ao menos no inconsciente.
E quando te deparas com a perda percebes que ela não é tão difícil como suporias antes de ocorrer. Um fio invisível mantém-te presa ao essencial e quando tomas consciência dele compreendes a carga pesada que carregas - assim observas tantas vezes os móveis, os pratos, os livros, os lençóis, o recheio da casa, a memória da vida. Se no grosso dos dias não dás quase por eles e nalguns outros dias alegras-te com o sentimento de propriedade e fruição - ter uma casa, ter uma vida - outros há em que dás por ti a pensar que se te tirassem tudo isso continuarias a ser tu. Seria duro. Sofrerias, é certo. Mas seguirias mais leve. Uma e outra vez.
Até que ponto és livre? O apego ao passado, aos bens materiais e imateriais permitem que o sejas? Serão as frases precedentes delírios mimados de quem tem segurança na vida? Inconsequências e banalidades de quem não sabe o que são as reais grandes perdas? Patetices sem sentido?
A que propósito vem tudo isto? Não sabes bem, começaste a escrever depois do almoço e interrompeste o texto várias vezes, com momentos impactantes pelo meio, mas recordas-te do gatilho: o ataque digital há pouco mais de uma semana com origem no ponto previsível do mundo fez com que passasses a última semana a assistir e participar no difícil recomeçar, reconstruir, levantar de novo. São momentos que fazem perceber o quão resistente pode ser a vida e como o fio invisível - o essencial - está lá sempre até ao fim.
Estás por um fio.
E lá longe há quem esteja a viver a verdadeira dor, a lidar com as reais grandes perdas e quase tudo quanto disseste nas linhas anteriores parece perder importância e direito a existir.

O que seriam boas notícias?
Assim, à primeira vista, foram as que me ocorreram. Há com certeza muitas mais.
É difícil pensar noutro assunto. A invasão da Ucrânia tomou a consciência colectiva, mesmo a dos sacanas do costume que idolatram o facínora considerando-o o único grande estadista do mundo moderno. A falta de carácter e de sensibilidade de gente que vai opinando favorável à mostra de poder absoluto de Putin revela o número assustador de agressores latentes com quem convivemos. Muitos deles tomam-se por mais informados, mais eruditos, por alinharem em narrativas anti-sistema supostamente baseadas na ciência política e dos movimentos históricos. Os ditadores sempre fascinaram as mentes permeáveis à manifestação de força, mentes agressivas. Assim vemos como é fácil a disseminação do totalitarismo. Estes potenciais eleitores do extremo, tanto votam nos partidos populistas de direita como na esquerda radical. Não são as ideias, os valores, a visão do mundo divergente que os move, mas sim a necessidade de afirmação pela força. Daí que não alinhe fácil na associação dos presentes acontecimentos ao comunismo. Essa conversa, essas dicotomias interessam ao fortalecimento dos ditadores. O acicatar da clivagem ideológica alimenta as ditaduras.
Dito isto percebo as críticas à adesão fofinha às bandeiras e à fácil solidariedade. É muito confortável proclamar-se solidário com a Ucrânia, exibir a sua bandeira ou fazer gracinhas associando o ímpeto de Putin ao legado de Trump, mas resta saber até que ponto as mesmas almas solidárias e engraçadinhas não estariam numa qualquer primeira fila de manifestação anti-guerra ou contra o envio de militares nacionais para o teatro de guerra. Ou até que ponto estariam elas próprias disponíveis para sacrificar o seu conforto económico e bem-estar físico e psicológico em prol da paz na Ucrânia. É muito fácil o pacifismo de sofá.
Ao facínora Putin e ao seu regime autocrático é fácil decidir, tomar iniciativa, mostrar força. Tem a população controlada não se podendo sequer falar de opinião pública na Rússia, onde os manifestantes anti regime são presos. Por cá, nos países ocidentais, cada decisão tem de ser tomada com conta, peso e medida na perspectiva da aceitação das populações. A título de exemplo, por cá o cerco a cidades contaminadas com Covid foi ferozmente contestado, ao passo que na China é simples regra.
Vivemos na parte mimada do mundo. A que se condói por uns dias ou semanas com as primaveras árabes, com hashtags fofinhos contra os ataques terroristas assassinos a jornais europeus, com a preocupação pela situação das mulheres na tomada do poder pelos fanáticos islâmicos no Afeganistão, e logo a seguir retoma a sua vida de conforto democrático rabujando com o aumento do preço dos cosméticos ou a ausência de vias para ciclistas nas moderninhas cidades verdes.
A palavra de ordem ouvida na comunicação social hoje é: isto vai ser rápido. Não resta outra solução à Ucrânia senão vergar.
Passo a passo as declarações e sanções balofas dos chefes de Estado e responsáveis de organismos supra-estaduais, a comunicação social, a opinião pública, o mundo ao normalizarem a situação vão caucionando as acções do facínora, a podridão do seu regime totalitário e a falta de escrúpulos dos apaniguados.
Quantos mais sofridos 'vergar rápido' serão precisos para perceber que isto é um processo longo de (re)conquista de império passo a passo perante a conivência do resto do mundo?
Não tens muito o que dizer. Quando levantas a cabeça do trabalho contente por ainda te deixarem trabalhar, levas com histórias da guerra anunciada a duras prestações há meses, há anos, com sacrifício de vidas de gente inocente às mãos de um facínora deslumbrado, seus lacaios gananciosos e das circunstâncias do momento.
Argumentos múltiplos à escolha dos peculiares ódios do freguês: o sentimento anti-americano ou anti-comunista. Como se os factos dos interesses económicos norte-americanos e da bacoquice de Biden (ou outro qualquer) justificassem uma invasão de um país soberano. Como se fosse o marxismo extemporâneo que comovesse Putin e não a avidez de poder absoluto e a insanidade bélica-imperialista. Razões várias à escolha das paixões do freguês pelas imagens de fragilidade da vítima ou pela exibição de força do agressor como se uma novela de faca e alguidar se tratasse.
Um dia de cada vez, esperas sem esperança pelo futuro próximo com a violência dos confrontos lá na Ucrânia, a intensificação do clima de ameaça no resto da Europa e do mundo - todos os pontos frágeis de tensão territorial ficarão expostos -, e os ataques digitais que colocarão em causa a liberdade e sobrevivência das instituições, das empresas e dos cidadãos.
Tentas imaginar uma solução mágica. Só te vem à cabeça a mais dramática, rápida e trágica. Percebes que não é solução e que mais uma vez a perversão de uma cabeça - que há tanto tempo é notória - com a cumplicidade de um regime podre pode não deixar ao resto do mundo outra solução senão a saída para um combate necessariamente longo e tacticista.
A História repetiu-se e repete-se passo a passo aos olhos de quem a reconhece. Resta começar a compreender as particularidades das alianças e arranjos de conveniência do momento - necessariamente diferentes das do século passado.
No China Daily:
Enquanto as análises e debates nos media ocidentais se debruçam sobre a guerra em termos convencionais, invocando história, ideologia, geopolítica, tratados internacionais e valores civilizacionais, a Leste muito prosaicamente usa-se tudo isso como mero pretexto e o terrorismo digital como braço armado. Grupos altamente organizados de criminosos combatem as instituições e empresas ocidentais, enquanto os analistas por cá continuam cuidadosos a afirmar que são assuntos distintos, à espera de provas, negando a evidência da guerra digital.
Alheada da crítica audiovisual, constatei hoje que fazer a avaliação de uma série - presumo que o mesmo se passaria com um filme - num jornal passa por rabujar com o curso do enredo pondo as mãozitas na anca furibunda com escolhas do argumentista. Nada de substancial é posto em causa. O que interessa é a desilusão ou o amuo com o rumo da intriga.
Faz parte da visão cada vez mais preponderante do que é tido por interessante e digno de relevo: alinhar factos ou acontecidos, imprimir tensão para gerar discussão sobre mil e uma questiúnculas menores (passe a redundância) e assim ter pretexto para o uso dos múltiplos preconceitos e clichés alternativos (meros contra-clichés) debitados nos jornais.
De um lado as revoadas de informação repetidas à exaustão pela comunicação social. A insanidade provocada pela voragem de ter o que palpitar ao segundo sem assentar na causa das coisas. A vacuidade da maioria dos factos relatados. Do outro os chico-espertos do costume, cheios de vontade de se mostrarem avessos à vozearia do rebanho mentalizado pelos media e usando amiúde sarcasmo indolente, invocam razões políticas e históricas para justificar acções bélicas de um facínora deslumbrado. Pelo meio os sempre-em-pé divertem-se com o folclore associado à guerra exibindo imagens catitas, enquanto outros levam com os estilhaços reais ou digitais na tromba, lá na Ucrânia ou num qualquer ponto alvo espalhado pelo mundo.
É a guerra real e digital. Estamos nisto.
Resumo do dia: trabalho, backup das Comezinhas e teste de personalidade. Deu "Mediador", o tipo mais raro. Há dias que fico fartinha de tanta abertura de espírito e sensibilidade. Cansa.
Hoje não sobra genica para dedilhar.
Boa noite.
Nunca lutes com um porco, ficas todo sujo, e ainda por cima o porco gosta.
George Bernard Shaw
O grosso dos últimos dias é indizível. De repente não há chão. No que respeita ao passível de produção de palavras registo um simpático almoço e a conversa sempre viva entre irmãos, com aparentes divergências quase todas redutíveis a teimosias e picardias mútuas. De tudo quanto se disse retive entre outras a ideia de termos herdado da mãe esta queda irremediável para ver sempre os dois lados da questão e a perspectiva do outro - a consciência da tonteria do apregoar fácil das certezas absolutas com que fomos familiarizados desde crianças. Ah, registo também a frase que não é minha e não sei se foi proferida nestes precisos termos: se eliminarmos os ódios, que será feito das paixões? Dita, contra todas as expectativas, muito ao encontro do que sinto.
Ontem acabei a incursão pela História da Filosofia. Agora vou deixá-la a marinar na ideia por uns tempos para depois dizer qualquer coisa sobre o contributo inglês para a evolução do pensamento. Adianto só que me atrai o pragmatismo (em sentido lato) britânico. Depois disso e porque é preciso distrair a mente entrará na calha a Matemática.
No entremeio ontem ainda recomecei As Rotas da Seda. Aproveitando esta fase de recolher à cama mais cedo vai ficar na mesa-de-cabeceira para uns dias de leitura antes de adormecer. Devagar, sempre devagarinho. Desta vai. Hoje ponderei fazer os postais sobre a Coreia do Norte e a Nova Zelândia, mas tal como aconteceu com a China empanquei nas leituras. É coisa para demorar ainda que resulte num postal trivial que pouco reflicta o tempo e empenho investido. O importante são as pesquisas, as leituras prévias e o gozo que me dão. Os textos serão apenas a ponta do icebergue e a forma de assinalar no blogue a memória do momento e do interesse.
Li algures que o facto de se esquecer o que se sabe ou soube não é mau sinal, mas uma espécie de "ferramenta" ou "táctica" do próprio cérebro: arquiva numa zona neural aparentemente morta o manancial de informação que vamos adquirindo para permitir que possamos deixar entrar novos e mais importantes dados. Comungo de um desejo recôndito - presumo comum a muitos - de que aquilo que fomos aprendendo, lendo, vivendo não fique irremediavelmente danificado no tal arquivo que parece morto. Há anos da minha vida que são uma nebulosa só, há viagens de que me lembro apenas de episódios soltos. Invejo (creio que já aqui revelei) as pessoas que retém tudo quando vêem, lêem ou ouvem. Conheço alguém que se gaba disso mesmo: uma vez lido ou sabido, nunca mais se esquece. Ah, caramba, se me valesse o esquecido viveria num outro mundo, uma outra vida. Resta-me o consolo de saber com alguma vaidade que na escolha livre e não premeditada do vocabulário e nas entrelinhas dos textos simples deste blogue se podem perceber os reflexos e sombras do arquivo morto.
Num ápice tudo muda. A longa mesmice confronta-se com um telefonema, uma notícia péssima e tudo muda. Os alicerces abanam, mil pensamentos vêm à cabeça, uns menos dignos do que outros e uma ideia sobrepõe-se a todas as outras: é preciso acreditar que é possível recomeçar do zero. Seremos capazes.
Será osmose? Há uns dias pensei fazer a ronda pelos amigos, mas adiei-a um pouco. O certo é que depois das mensagens da T., hoje ligou-me o M. só com a intenção de saber se estava tudo bem. Sabe muito bem poder contar com os amigos - e estar ciente também que eles podem contar comigo. Cada dia valorizo mais estas pequenas riquezas.
Depois de um mês de Dezembro em grande nas manifestações de cuidado - e em manancial de novidades de muitos, o que sempre alegra a vida -, surgiram um Janeiro e início de Fevereiro feios. Mas tudo se compõe. E às vezes é preciso tão pouco.

Nas leituras distraídas tropecei num singelo postal com uma recordação de infância envolvendo uma espécie de limusina, acenos e pregos no prato, daquelas que revelam a graça e inocência da imaginação quando somos pequenos. Achei uma memória deliciosa e pus-me a pensar se tinha qualquer coisa de equiparável. O que mais de aproximou foi o Brasa da Nestlé e a cama de dossel.
Comecei cedo a ser encarregue de fazer café no final dos almoços e jantares. Era todo um cerimonial: o pacote de café em grão da Sical 5 Estrelas - no meu tempo já não era uso escolher na Casa Cristina a mistura de robusta e arábica -, o moinho, a cafeteira de ir ao lume, o tempo de espera para que a água subisse através do filtro onde depositava o pó do café já moído no granulado certo. Mais tarde as máquinas eléctricas à americana, o bule de vidro cilíndrico no qual se fazia descer o filtro prensando o café na base, a de balão aquecida a álcool. Era um mundo.
Em criança passei uns dias a brincar com os meus irmãos às empresas. Noutra altura tivemos uma livraria na qual estava ao balcão - mais não era senão a minha tábua infantil de passar a ferro onde assentavam os livros que nos eram oferecidos sobretudo nos aniversários e Natal -, mas o principal projecto foi uma empresa no ramo automóvel: o mais velho desenhava os carros com talento - quando os fazia em plasticina até o motor era replicado -, os outros dois geriam o negócio e eu tratava da papelada. Com patente misoginia dos manos mais velhos competia-me entre outras tarefas fazer o café. Recordo-me da intrujice com que fui ter com a minha mãe a perguntar se autorizava uma vez sem exemplo que bebêssemos aquela pequena quantidade de café - mostrando-a depois de já ter vertido quase todo da cafeteira verdadeira no meu bule de plástico. O certo é que fosse como fosse para uma empresa funcionar era preciso que quem trabalhasse bebesse café e essencial que as minhas xícaras cor-de-laranja às pintas brancas servissem de adereço real ao mundo profissional.
Não estando autorizada a beber café, que eu própria fazia no final das refeições, insisti com a minha mãe que me comprasse o Brasa, o solúvel da Nestlé de cevada, chicória e centeio cujo anúncio na televisão me entusiasmava. Foi uma conquista. Lembro-me do gozo especial com que trazia a minha xícara de Brasa para a copa onde jantávamos ao mesmo tempo em que os adultos tomavam café. Trepava para o móvel encastrado que ficava no vão da janela, corria as cortinas ficando recostada na parede estendo as pernas sobre o tampo imaginando-me uma senhorita a beber café na sua cama de dossel com tule. Não matava apenas dois, mas três coelhos de uma só cajadada: bebia café, era adulta e tinha uma cama de dossel como a Emília do Sítio do Pica-pau Amarelo. Qual princesa?, era muito mais do que isso.
Curiosamente trabalho há vários anos na empresa criada por dois irmãos, com ligação ao ramo automóvel, e lá bebemos café Buondi. Em casa continuo a usar café Sical e um dos presentes que mais apreciei nos últimos tempos foi dado pela minha sogra: uma cafeteira de vidro pirex de ir ao fogão.
Uma vez escrito decidi que este postal vai para a série Tílias.
Histeria e desescalada são os dois termos do momento que põem a nu a pertinência da imagem de aldeia global. Quando no Sábado passado vi escrito num jornal russo o termo histeria para definir o estado de espírito dos meios de comunicação social e altos responsáveis políticos ocidentais no domínio da tensão na Ucrânia, não imaginei que os jornais nacionais e internacionais propagassem a mesma palavra ad nauseam. O mesmo se passou uns dias mais tarde com o termo (falsa) desescalada que enche as declarações dos políticos e jornalistas.
O mundo inteiro passou a exprimir-se de igual modo e a raciocinar no mesmo comprimento de onda ainda que em sentido inverso. Será sintonia, adaptação ao meio ou sinal de pura irracionalidade?
Como ponta milagre de elástico abstracto mas bem real que desfrutei na vida comezinha de onze anos da infância, a terra, o verde, os cheiros intensos e inimitáveis a húmus, vegetação mais ou menos rasteira, árvores e pedra molhadas atraem-me desde sempre. Sempre recolho à criação em eterno vaivém à essência, passe a redundância. Estar muito tempo longe do natural é uma doença. A natureza refaz-me o equilíbrio. Voltar a sentir os cheiros que emanam a terra e o mar e cercar-me de tal visão é regressar à alegria e nela planar ganhando forças para mais uma etapa.
Vivo, sem conseguir desmaginar os verdes e o mar.


























Esta manhã, Parque da Cidade e Castelo do Queijo, Porto.
O olhar entre o vazio e surpreendido que os homens e as mulheres de acção deitam aos melancólicos que rememoram factos da vida passados na infância, na adolescência ou há uma década, espelha a confusão que lhes faz perder tempo com coisas que foram e já não movem. Estão habituados a tomar decisões, a planear o dia de amanhã, a gerir objectivos, o tempo e o espaço, e as pessoas. As pessoas estão no rol de circunstâncias favoráveis ou desfavoráveis aos objectivos que determinam para aquele dia, aquela semana ou mês. Como uma construção de lego, as peças têm que encaixar, seja qual for a sua natureza, em prol do resultado final.
Estamos habituados a admirar os homens e mulheres de acção. Sobressaem na sociedade. São os que constroem ou dirigem empresas, os presidentes de fundações, associações e clubes, os que dirigem escolas e hospitais, os líderes de várias entidades. Em regra, são pessoas extraordinariamente ambiciosas no sentido benigno ou maligno da coisa. Benigno se consigo transportam ideia firme do que é justo, maligno no caso contrário.
São objecto de inveja pelos motivos errados. Muitos consideram que têm vidas fáceis e apontam as suas regalias e privilégios. Esquecem que, grosso modo, é gente com grande capacidade de trabalho e que se empenha e labuta com afinco. Gente organizada, disciplinada, com espírito de sacrifício.
O mal não está no não serem capazes, mas no facto de em muitos casos não serem justos. Por falta de tempo e hábito de perceberem os outros como iguais. Os homens e as mulheres de acção partem do princípio que os outros são ferramentas vulgares e, na maioria dos casos, sem grande préstimo individual, salvo se forem bem orientados. Ferramentas prontas a ser usadas para sucesso da empreitada. E dividem os outros entre os que trazem vantagens e os que prejudicam. Esquecem com frequência que a maioria dessas ferramentas também são homens e mulheres de acção, no sentido em que dia após dia, trabalham e se dedicam, com a diferença fundamental de não se alçarem à categoria de líder por falta de talento ou de oportunidade.
Desde criança reparo nos homens e mulheres de acção: vi-os no auge e na decadência. Fico com a sensação que em muitos casos à medida que envelhecem começam a criar um círculo de vazio em seu torno - de alheamento da realidade. Como se o tempo e espaço viessem pedir contas tarde demais, abandonando-os num mundo desabitado de ferramentas – de pessoas com alma e sentimento.
Noite boa a anteceder dois dias de férias. Quatro dias de descanso depois de momentos intensos com bastante trabalho, muita ansiedade e tudo a desenlaçar-se bem. A semana foi aberta a tomar nota de menos vinte quilos - ao fim de setenta e dois dias. Já só falta perder outros tantos. Hoje ao fechar o dia de trabalho vi que tinha mensagens de voz por ouvir: uma amiga a perguntar como correra o motivo da minha ansiedade profissional. Este cuidado apesar de ela estar atravessar dificuldades bem mais pesadas é um pequeno pormenor que explica uma amizade que resiste a trinta e quatro anos. O que mais posso fazer é figas e desejar sempre o melhor possível.
Há dias em que o peso nos sai dos ombros apesar de poder ser uma carga tonta, exagerada. Ganha-se em espaço para respirar e valorizar o que mais conta. As pequenas vitórias e alegrias dos próximos dão para encher a alma. O dividir a vida com quem se revelou ao longo dos últimos anos não só de boa índole rara como de compreensão notável com a meu desassossego tem sido uma dádiva surpreendente. Faz-me voltar a sorrir só de sentir.
Hoje foi um dia definitivamente sim.
Antes não tivesses vindo ao mundo com essa aptidão para intuir o que se passa do lado de lá. Aos olhos do lado de lá parecerá mania da perseguição, excesso de narcisismo e presunção bacoca. Antes não soubesses o que sabes. Quantas condicionais, quantas hesitações evitarias. Ver além do lado de cá, o de lá, detrás do de lá. Estar tantas vezes do lado de fora. Enganares-te algumas vezes para tantas outras acertares na mouche, ainda que nunca o possas provar tamanha é a militância alheia na dissimulação.
Disseram-te ontem que entre várias pessoas eras a única que não fazia diferença dentro ou fora do aconchego, salvo na reserva (e no acanhamento reconheces tu sem peias, passes a contradição). Ficaste contente, reconheces essa característica no sangue via feminina e sendo pouco dada a confundir educação, inteligência e reserva com falsidade, muito menos dada a fazer a defesa do fingimento, consideras esse traço de personalidade um bem precioso. Tudo quanto perdeste na vida por não saberes nem quereres mentir e construir imagem apelativa não vale um chavo comparado com o que ganhaste em paz – sim, apesar de todo o desassossego.
Quem fala ou escreve muito dá por si a enredar-se na argumentação e, se for honesto, questiona a veracidade do que disse ou escreveu. Estabelecem-se teses, parágrafos e parágrafos justificativos de uma ideia inicial. A páginas tantas aparecem as contradições e se há seriedade há assunção do erro. Só sendo pouca coisa não se consegue detectar erros senão nos outros.
Em matéria de escrita que valha a pena há quem faça a defesa do soltar grilhetas. O apelo à ausência de constrangimentos. O sim ao deixar fluir as ideias por mais confusas ou absurdas sejam. O apelo à nudez, por assim dizer. O comentário parecerá banal e pacóvio, porém o certo é que ideia não é genial – tudo vai depender do que há a revelar, da natureza e valor. Pondo de lado esta questão de gosto, sobra outra: a da coragem versus falta de noção. Há diferença entre franqueza e veemência. Ser veemente diz-te pouco. Há diferença entre consciência e vontade de poder – a segunda é pouca coisa se comparada com a consciência.
No Komsomlskaya Pravda (tradução google):
A guarda, a "invasão" quebra, a Rússia retira suas tropas! O que isso realmente significa?
Spetskor Alexander Kots: Retirada das tropas russas após exercícios é um sinal para o Ocidente
Alexander KOTS
- O Ministério da Defesa ordenou: "Lar!" O que isso significa?
No segundo, a Casa Branca dos EUA, cansada de estabelecer novas datas para o ataque da Rússia à Ucrânia, declarou que "chegamos ao Rubicão, além do qual uma invasão pode começar a qualquer momento", o Ministério da Defesa russo fez uma manobra inesperada. Sem aparecer para a guerra, as unidades do exército russo começaram a "recuar". De acordo com o representante do Ministério da Defesa da Federação Russa Igor Konashenkov, as unidades dos Distritos Militares do Sul e do Oeste, que completaram suas tarefas nos exercícios, são enviadas para casa.
O relatório não especifica de onde exatamente as tropas estão se retirando. Mas à luz da histeria militar das últimas semanas, "a fronteira com a Ucrânia" é claramente lida entre as linhas. E, como sabemos pelas publicações na mídia ocidental, pode ocorrer perto dos campos de tiro na Crimeia, e em bases de campo a 200 quilômetros da fronteira da Ucrânia, e até mesmo em campos de treinamento na Bielorrússia.
Nos próximos dias, é provável que as redes sociais inundam com vídeos com os movimentos de comboios militares, que podem ser repassados como uma transferência para a Ucrânia. Mas, na verdade, este é o retorno das tropas para suas casas.
Enquanto isso, o Ministério da Defesa adverte que "nas áreas operacionalmente importantes do oceano mundial e nas águas dos mares adjacentes ao território da Rússia, os exercícios continuam". As manobras "Union Resolve-2022" na Bielorrússia também não terminaram. Os planos para 19 de fevereiro incluem disparos ao vivo, aos quais todos os adidos militares e jornalistas foram convidados. Exercícios estão em andamento em outras regiões também.
- Por que fazemos isso?
Na véspera de Vladimir Putin se reuniu com os chefes do Ministério das Relações Exteriores e do Ministério da Defesa da Rússia. Sergei Shoigu falou (na parte aberta do relatório) apenas sobre os exercícios e a violação da fronteira russa por um submarino dos EUA. Não havia outros detalhes.
O ministro russo da Defesa, Sergei Shoigu, durante uma reunião com o presidente russo Vladimir Putin no Kremlin. Foto: Alexey Nikolsky/Assessoria de Imprensa do Presidente da Federação Russa/TASS
Mas a conversa com Sergey Lavrov foi mostrada em detalhes. Nele, o presidente perguntou "se ainda há uma chance de concordar com nossos parceiros em questões-chave ou se isso é uma tentativa de nos atrair para negociações intermináveis".
- Tenho que dizer que sempre há chances. Nossas capacidades estão longe de estar esgotadas, elas, é claro, não devem continuar indefinidamente, mas eu sugiro que elas sejam continuadas e aumentadas.
Aparentemente, após essas reuniões, a liderança russa decidiu dar ao Ocidente um sinal claro de que estamos prontos para continuar as negociações.
- A posição do "Oeste coletivo" mudou?
No mínimo, ele começou a discutir coisas que nem sequer tinha pensado antes. A linha diplomática dura de Moscou, apoiada por exercícios nas faixas de tanques, forçou o "Ocidente coletivo" a acordar para uma nova realidade. Eles viram uma face diferente da Rússia – quando não tinha onde recuar. E essa pessoa está determinada.
Os céticos (aos quais o autor dessas linhas se refere a si mesmo) dirão que Moscou não chegou nem um passo mais perto do objetivo principal de seu "ultimato" - ninguém ainda nos deu garantias de segurança. E os otimistas notarão que as conversas sobre a não adesão da Ucrânia à OTAN foram muito mais ativamente quando navios de três frotas russas "desenharam" no Mar Negro de uma só vez. Ainda assim, com uma palavra gentil e um par de cruzadores, você pode alcançar muito mais do que apenas uma palavra gentil. Por décadas, essa "religião" tem sido praticada pelo "Ocidente coletivo". Quando a mesma tese foi adotada pela Rússia, seus estereótipos começam a entrar em colapso. E isso é doloroso.
Já o embaixador da Ucrânia em Londres disse que Kiev pode abandonar a OTAN, se não houvesse guerra. Mais tarde, é claro, ele foi forçado a retirar essas palavras. Mas a reação já se foi. O vice-secretário de Defesa britânico declarou abertamente que Londres não se importaria se a própria Ucrânia retirasse seu pedido de adesão à OTAN. E Volodymyr Zelenskyy reclamou que alguns países lhe sugerem que vale a pena abandonar o sonho da OTAN, por uma vida bem alimentada e calma.
A situação mostrou que a OTAN não é um monólito que luta com uma frente unida pelo direito da Ucrânia de se manter em suas fileiras. Muito pelo contrário. A Ucrânia é percebida como uma mala sem alça, da qual seria melhor se livrar silenciosamente.
- O que os EUA conseguiram?
Primeiro, eles mostraram mais uma vez como "reverentemente" tratam seus aliados. Em 2022, o mundo inteiro assistiu à vergonhosa fuga de americanos do Afeganistão. Este ano, o Ocidente provou mais uma vez que seus "amigos" estão abandonados no primeiro perigo.
Segundo, eles se colocam em uma posição embaraçosa. Após uma série de ataques psíquicos, durante os quais a Ucrânia foi ameaçada de bombardeios, ataques de mísseis, pousos e cunhas de tanques, após as datas marcadas da invasão, após a evacuação das embaixadas e a proibição de voos sobre a Ucrânia, toda a "inteligência" de Washington e Londres acabou sendo uma farsa completa. A Rússia nunca apareceu para a guerra.
Como resultado, o Ocidente caiu em sua própria armadilha de informação, naturalmente sentado em uma poça. E para salvar a cara, os "parceiros" ainda lutarão entre si para se apropriar da paternidade da "vitória sobre a Rússia". Eles dizem que apenas ações decisivas, que expuseram os planos insidiosos de Putin, tornaram possível impedi-los.
Mas, na verdade, não foi Moscou, mas a "inteligência" americana que começou a apagar o fogo na imprensa, inventando uma "invasão da Ucrânia". Criar um alvoroço, construir uma imagem do inimigo da Rússia, e depois "derrotar" é uma conquista tão grande.
- O que conseguimos?
A fila de chefes de Estado e ministros estrangeiros para o Kremlin, o Ministério das Relações Exteriores e o Ministério da Defesa da Rússia se estendeu por dois meses. Sim, ninguém ainda nos deu garantias sobre os principais pontos dos "requisitos de segurança", mas eles concordaram em começar a falar.
- Medidas específicas também são fornecidas para mísseis, depois que os americanos destruíram o tratado. Há propostas específicas sobre uma série de medidas para reduzir os riscos militares, medidas de construção de confiança", relatou Lavrov a Putin.
Gostaria de acrescentar que estas são questões que a Rússia vem tentando resolver há muitos anos. E pelo menos sobre eles, finalmente delineamos os pontos de contato. Talvez valesse a pena exigir o retorno do Alasca e da Califórnia à Rússia, e chamar de "garantias de segurança" pontos secundários? Teria ido mais rápido, então?
Afinal, era um chuveiro frio e sóbrio sobre os cabeças quentes em Kiev que decidiram que a Rússia assistiria à margem enquanto a Ucrânia prepara uma operação militar no Donbass. O rosto de Zelensky foi um verdadeiro pânico.
- O que podemos esperar a seguir?
A retirada das tropas russas pode ser percebida por alguns na Ucrânia e no Ocidente como uma fraqueza, uma concessão que Moscou fez. O que, é claro, não é o caso. É apenas um convite para continuar a conversa, que pode ser restringida a qualquer momento se nós (e não eles) não gostarmos do tom dessa conversa. A rapidez com que as tropas são transferidas de um lado do país para o outro - já mostramos a todos.
Mas o retorno de regimentos que passivamente contevem os "falcões" de Kiev (e não apenas) ainda está repleto de agravamento no Donbass. Lá, na DPR e LPR, toda essa histeria militar foi vista com apreensão, e com... Esperança. Talvez a Rússia finalmente nos leve sob proteção?
O Kremlin e o Estado-Maior estão bem cientes disso. E, espero, eles calcularam todos os cenários, deixando a possibilidade de uma resposta instantânea. Ela, essa possibilidade, deve ser óbvia para o adversário, que não se distingue pela firmeza da palavra e pela obrigatoriedade.
Portanto, a retirada das tropas é, naturalmente, um passo para a desescalada. Ainda assim, o poder que emana da Rússia, Kiev e o Ocidente deve continuar a sentir. Pelo tom.

(Oh, heresia. O bem-amado, o génio literário, o génio maldito - o intocável Bukowski. Que atrevimento desmerecer os versos no título. Só mesmo puritanas asfixiantes podem ser tão obtusas - cabala de hasteadoras das bandeirinhas da ditadura feminista, ignorantes.)

Suma: vidas reles, versos reles. Espelho sórdido de egos por resolver. Eterno fragmento do mundo que convém conhecer e saber passar à tangente, regressando aos grandes começos de noite. O jantar estava óptimo e a Lua linda. Assim se mantenham.
Deitei-me cedo ontem, novamente. A ansiedade com a pressão da próxima semana fez com quisesse esquecer. Dormir é o melhor remédio. Nem é a tensão que vai a Leste que me agita. Com essa posso melhor por não depender de mim apesar de ser bem mais relevante e preocupante. A minha é a pressãozita egoísta de ser posta à prova profissionalmente. Desejosa que seja dia 17 para tudo já ter passado. Nesse dia também já teremos sabido se as estimativas norte-americanas sobre o eclodir do conflito (como se para a população ucraniana não se desenrolasse já desde 2014) estarão certas. Adiante.
Hoje acordei cedo e depois de alguns trabalhos domésticos pus-me a caminho da clínica de depilação a laser (credo, cada dia um degrau abaixo na exposição, pensam os puros que recente e ardilosamente descobriram as virtudes da reserva e decoro). Ao fim de duas décadas a protelar lá me decidi e ando desde o último Verão em penosas e dispendiosas sessões de laser Alexandrite. A par do bypass gástrico, dos alinhadores de dentes invisíveis e da cirurgia de lente intra-ocular faz parte da recauchutagem antes dos 50. Nada como os tempos espinhosos em que vivemos - e se advinha compliquem e intensifiquem - para me entreter com estas preocupações prementes. Depois fui a Matosinhos buscar os óculos que estavam prontos desde segunda-feira - o tempo não dá para tudo.
Ao almoço a minha mãe emprestou-me para leitura as memórias da viagem ao Japão em 1984 de muito estimada prima e amiga de 89 anos. Fiquei deliciada com as 21 páginas escritas pela professora de piano cuja inteligência e sensibilidade em momento algum insufla em maçada ou pretensiosismo - pelo contrário, é pura sensibilidade. Com apurado sentido de observação e sentimento escreve sobre o desconforto de calçar chinelos sem direito nem esquerdo ao entrar em casa dos anfitriões nipónicos para quem por educação jamais o tinha feito e o modo como os passinhos curtos impostos pelos ditos, tal como as muitas arrecuas e as reverências determinam uma lentidão que faz preservar a tradição na era da pressa e da tecnologia. Fala das estudantes universitárias que deambulam nas ruas e transportes com as suas mochilas dirigindo-se às escolas onde aprendem a ikebana das flores ou a cerimónia do chá. Com as fases de purificação, respeito, harmonia e tranquilidade. Ao descrever o Teatro Noh, drama lírico japonês que combina música, dança e poesia, conta pormenores como o tratamento dado ao palco, com ânforas e campainhas debaixo das tábuas para fazer ressoar os passos dos actores e relata aquilo a que chama desexpressividade facial dos actores. Quando comparados, o ocidental "fala" expressão, o oriental coa os sentimentos através da introspecção. Em contraposição as máscaras usadas de início ininteligíveis revelam ao olhar mais atento informação e emoções. É melhor não me aventurar mais que posso estar a desvirtuar as memórias que li e tanto gostei. Foram 21 páginas lidas com deleite, sendo o que referi apenas dois ou três pormenores despidos da beleza, e admiração pelos japoneses, impressa pela autora.
Ao fim da tarde o meu pai veio tomar café e como de costume uma vez sentados os dois, sogro e Nuno, comecei no meu vaivém a pé. Cedo ganhei o tique de enquanto converso estar a andar para a frente e atrás - nas paragens de autocarro já me contenho para não me catalogarem de tolinha completa. Quando comentei que assim me habituei a ver dois tios nas eternas conversas com a avó (mãe deles), o meu pai recordou os momentos passados no Contencioso do Banco de Angola, na Baixa Pombalina, quando visitava o irmão mais velho da sogra - minha avó. Pelo visto já havia esse hábito - a mania vem de trás. Conta o meu pai que se sentava numa das poltronas do antigo e frugal gabinete rectangular com janelas de madeira carcomidas e tábuas do chão irregulares e ruidosas, enquanto o meu tio-avô ia conversando e passando à frente como bola de pingue-pongue até olhar para o relógio e detectar as seis da tarde. Momento em que desciam para apanhar o eléctrico 28 para a Graça.
Foi um Sábado tranquilo, a contrastar com a ansiedade que trago alojada na alma.






Komsomlskaya Pravda; tradução google.
*

RussiaToday; tradução google.
*

Moskovsky Komsomolets, tradução google.
Se a segurança e convicção depositada pelo autor ao produzir uma qualquer afirmação fosse garantia de veracidade já teríamos respostas para as mais intrincadas questões da humanidade.
'Só é que' (como dizia um antigo professor alemão) falha cada vez mais tal correspondência neste tempo em que prevalece a imagem encenada e a aparência.
O mundo às portas de uma guerra e por cá os paspalhos do costume continuam entretidos a medir pilinhas e egos para apascentar clientelas ávidas de futriquice.
Daqui a uma semana estão a citar Eça cheios de propriedade para ilustrar a mediocridade portuguesa. Haja paciência.
E são estes os educadores do povo. Os vendilhões da prosa fácil.
Depois do ciberataque de segunda-feira à Vodafone, hoje é o primeiro dia em que vou trabalhar sem constrangimentos decorrentes da quebra de serviços da operadora.
A realidade nunca acontece exactamente como antecipamos em conversas íntimas, sempre um pouco ao lado.
Que é feito das vidas normais? Monótonas ou mexidas na paz dos bastidores.
Que é feito das vidas serenas ou turbulentas mas vulgares, habitadas por corpos e mentes anónimos?
Ah, esta necessidade de marcar e assinar presença e trazer novidade - de ter o que dizer, o que contar, o que mostrar. Esta vertigem de acontecidos.
Onde foram parar as vidas que se desenrolam em vez de impactarem? As vidas que se vivem. Onde?
Milhões de pretensas vedetas da ilusão sempre apostadas em mostrar o palpite seguinte, o próximo passo - e tu uma delas.
Balanço 2021/início de 2022: essencialmente desilusões.
Leio distraída as bruxarias: os astros indicam decepções entre Outubro de 2022 e Julho 2023. Só me pergunto: mais? Onde raio ainda irei buscar capacidade para acreditar?
Resta ter juízo, trocar as voltas aos astros, aguardar por melhores dias e fazer por eles.
Mortinha pela chegada da leveza dos dias alegres, de riso fácil, da cumplicidade com amigos e família. Desejosa de voltar a estar empolgada com a escrita borrifando-me para as parvoíces próprias e alheias.
É sempre irritante* a reacção dos cínicos a uma manifestação de desagrado face a algum erro ou injustiça grave e patente no que nos rodeia. Expressões como ‘sempre foi assim’, ‘qual a novidade?’, ‘é assim desde que o mundo é mundo’ (sei, também uso esta) servem apenas para quem as debita sentir-se mais contente consigo próprio e, em regra, cómoda e estrategicamente confortável nas suas certezas. A cumplicidade com a podridão deixa de ser pecha passando a sinal de inteligência para a vida.
A ideia é dar sempre preferência à esperteza presumida dos actores públicos e rodear-se de quem também o faz ainda que em sentido aparentemente divergente, dando respaldo e eco a esse fingido debate por saber que assim se garante o quinhão de conforto intelectual e material – a permanente mó de cima (expressão arcaica que tanto gosto).
Outra face é a crítica gratuita e a eito. Hoje a condenação sumária, amanhã o rasgado elogio, ambos desprovidos de qualquer sentimento de verdade, antes ancorados em rancores pessoais e clubismos que se apontam aos outros nunca reconhecendo os próprios. Tudo disfarçado na imagem de troca isenta de ideias - interessa dar o ar de pluralismo ou de respeito pela coexistência de diferentes pontos de vista.
Nada de válido e digno pode vingar neste caldo de intriga e feira de vaidades convertida na voz dominante no país, onde se confunde cinismo com sabedoria.
* A irritação é uma menoridade para os cínicos.
Hoje não tive muito tempo para pensar, ainda assim a meio do dia ocorreu-me que vivemos numa época em que a verdade passou a ser aferida pela popularidade da preposição afirmação. No reino da moda dos fact check jornalísticos, eles próprios altamente manipuladores, não resta nada à busca de verdade senão o tempo de antena e a notoriedade. As afirmações não valem por si enquanto verdadeiras ou justas, mas apenas como foco de atracção do maior número de adeptos e a forma mais organizada como se juntam em claque e ecoam a sua tese.
A realidade é, ela própria, construída em cima de vagas de disfarces e denomina-se inteligência a habilidade de adequação ao mundo de ficção ilusão assim criado. Um logro só, o alheamento na 'era da informação'.
Vocábulos como ‘facto’, ‘verdade’ ou ‘justiça’ perderam completamente o significado, passando a meros joguetes para atrair likes ou seguidores. E ai de quem disser o contrário - proscrito da modernidade. Vale a forma e a aparência.