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12/02/2022

Diário

Deitei-me cedo ontem, novamente. A ansiedade com a pressão da próxima semana fez com quisesse esquecer. Dormir é o melhor remédio. Nem é a tensão que vai a Leste que me agita. Com essa posso melhor por não depender de mim apesar de ser bem mais relevante e preocupante. A minha é a pressãozita egoísta de ser posta à prova profissionalmente. Desejosa que seja dia 17 para tudo já ter passado. Nesse dia também já teremos sabido se as estimativas norte-americanas sobre o eclodir do conflito (como se para a população ucraniana não se desenrolasse já desde 2014) estarão certas. Adiante.


Hoje acordei cedo e depois de alguns trabalhos domésticos pus-me a caminho da clínica de depilação a laser (credo, cada dia um degrau abaixo na exposição, pensam os puros que recente e ardilosamente descobriram as virtudes da reserva e decoro). Ao fim de duas décadas a protelar lá me decidi e ando desde o último Verão em penosas e dispendiosas sessões de laser Alexandrite. A par do bypass gástrico, dos alinhadores de dentes invisíveis e da cirurgia de lente intra-ocular faz parte da recauchutagem antes dos 50. Nada como os tempos espinhosos em que vivemos - e se advinha compliquem e intensifiquem - para me entreter com estas preocupações prementes. Depois fui a Matosinhos buscar os óculos que estavam prontos desde segunda-feira - o tempo não dá para tudo.


Ao almoço a minha mãe emprestou-me para leitura as memórias da viagem ao Japão em 1984 de muito estimada prima e amiga de 89 anos. Fiquei deliciada com as 21 páginas escritas pela professora de piano cuja inteligência e sensibilidade em momento algum insufla em maçada ou pretensiosismo - pelo contrário, é pura sensibilidade. Com apurado sentido de observação e sentimento escreve sobre o desconforto de calçar chinelos sem direito nem esquerdo ao entrar em casa dos anfitriões nipónicos para quem por educação jamais o tinha feito e o modo como os passinhos curtos impostos pelos ditos, tal como as muitas arrecuas e as reverências determinam uma lentidão que faz preservar a tradição na era da pressa e da tecnologia. Fala das estudantes universitárias que deambulam nas ruas e transportes com as suas mochilas dirigindo-se às escolas onde aprendem a ikebana das flores ou a cerimónia do chá. Com as fases de purificação, respeito, harmonia e tranquilidade.  Ao descrever o Teatro Noh, drama lírico japonês que combina música, dança e poesia, conta pormenores como o tratamento dado ao palco, com ânforas e campainhas debaixo das tábuas para fazer ressoar os passos dos actores e relata aquilo a que chama desexpressividade facial dos actores. Quando comparados, o ocidental "fala" expressão, o oriental coa os sentimentos através da introspecção. Em contraposição as máscaras usadas de início ininteligíveis revelam ao olhar mais atento informação e emoções. É melhor não me aventurar mais que posso estar a desvirtuar as memórias que li e tanto gostei. Foram 21 páginas lidas com deleite, sendo o que referi apenas dois ou três pormenores despidos da beleza, e admiração pelos japoneses, impressa pela autora.


Ao fim da tarde o meu pai veio tomar café e como de costume uma vez sentados os dois, sogro e Nuno, comecei no meu vaivém a pé. Cedo ganhei o tique de enquanto converso estar a andar para a frente e atrás - nas paragens de autocarro já me contenho para não me catalogarem de tolinha completa. Quando comentei que assim me habituei a ver dois tios nas eternas conversas com a avó (mãe deles), o meu pai recordou os momentos passados no Contencioso do Banco de Angola, na Baixa Pombalina, quando visitava o irmão mais velho da sogra - minha avó. Pelo visto já havia esse hábito - a mania vem de trás. Conta o meu pai que se sentava numa das poltronas do antigo e frugal gabinete rectangular com janelas de madeira carcomidas e tábuas do chão irregulares e ruidosas, enquanto o meu tio-avô ia conversando e passando à frente como bola de pingue-pongue até olhar para o relógio e detectar as seis da tarde. Momento em que desciam para apanhar o eléctrico 28 para a Graça.


Foi um Sábado tranquilo, a contrastar com a ansiedade que trago alojada na alma.