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03/02/2022

De volta ao real

Dezenas de caras, dezenas de protagonistas, uns involuntários outros muito antes pelo contrário e mais do que isso, bem voluntariosos. Fotografias ilustram cada entrada nos jornais e páginas online. Há arrestos de bens dos trafulhas, a descoberta da pólvora em mais um palpite político instantâneo, a nota sobre quem morre às mãos da idade ou da falta de saúde e relativa aos que são eliminados em asséptica operação militar. A seca fornece imagens tão chocantes quanto a vontade de exibir comoção de quem as publica entremeadas com as estafadas seringas espetadas em braços desnudados. O ioiô dos números covid veio para ficar como o céu encoberto que abre durante temporadas para regressar logo depois, as taxas de juros são mantidas baixas artificialmente e a inflação será debelada por decreto ilustrado com gráficos que 90% dos leitores não conseguem interpretar – tal como quem os publica. Com igual inconsciência e sem qualquer critério de bondade quilómetros de texto descrevem o que existe e o que os redactores pretendem passe a existir.


E uma vida única como outra qualquer rola como outra qualquer. Uns dias alerta, noutros afogada, deixando-se apanhar e participando nesta torrente de imagens e ditos que ajudam a criar uma realidade paralela à real. Cada protagonista, cada voz, cada imagem e palavra construída comporta a semente do mundo improvável em que passamos a viver. Já vivemos um presente virtual - sem alicerces -, o futuro flutua nas cabeças incertas de quem risca com leviandade.


E uma vida única como outra qualquer rola como outra qualquer. Por ainda possuir consciência rola sem ligação ao enredo criado artificialmente por umas dezenas (centenas, talvez pouco mais de um milhar) de protagonistas caprichosos com vontade de moldar a realidade à vontade da tribo – à birra do gueto que na posse dos megafones transforma os caprichos em tendências de multidões.


E uma vida única como outra qualquer rola como outra qualquer. Despegada da realidade alternativa com que um punhado ou milhar de protagonistas se entretém a jogar poker. Um faz de conta de abstração e sofisticação em que os sujeitos activos não têm sequer mão, senão aparentemente. Diária e irresponsavelmente fazem bluff com palavras e vidas alheias. Insuflam egos e grupelhos de egos, mantendo-os à tona ficticiamente por meses ou anos em vidas fingidas.


E uma vida única como outra qualquer rola cada vez mais ciente do jogo sórdido da leviandade de viciados no poder virtual. Cada vez com mais vontade de se afastar do absurdo e regressar à construção de uma vida válida, real. Feita de vontade e afeição real, feita de labor e pensamento autêntico. Feita de carne, osso, pensamento e sentimento genuínos.