O grosso dos últimos dias é indizível. De repente não há chão. No que respeita ao passível de produção de palavras registo um simpático almoço e a conversa sempre viva entre irmãos, com aparentes divergências quase todas redutíveis a teimosias e picardias mútuas. De tudo quanto se disse retive entre outras a ideia de termos herdado da mãe esta queda irremediável para ver sempre os dois lados da questão e a perspectiva do outro - a consciência da tonteria do apregoar fácil das certezas absolutas com que fomos familiarizados desde crianças. Ah, registo também a frase que não é minha e não sei se foi proferida nestes precisos termos: se eliminarmos os ódios, que será feito das paixões? Dita, contra todas as expectativas, muito ao encontro do que sinto.
Ontem acabei a incursão pela História da Filosofia. Agora vou deixá-la a marinar na ideia por uns tempos para depois dizer qualquer coisa sobre o contributo inglês para a evolução do pensamento. Adianto só que me atrai o pragmatismo (em sentido lato) britânico. Depois disso e porque é preciso distrair a mente entrará na calha a Matemática.
No entremeio ontem ainda recomecei As Rotas da Seda. Aproveitando esta fase de recolher à cama mais cedo vai ficar na mesa-de-cabeceira para uns dias de leitura antes de adormecer. Devagar, sempre devagarinho. Desta vai. Hoje ponderei fazer os postais sobre a Coreia do Norte e a Nova Zelândia, mas tal como aconteceu com a China empanquei nas leituras. É coisa para demorar ainda que resulte num postal trivial que pouco reflicta o tempo e empenho investido. O importante são as pesquisas, as leituras prévias e o gozo que me dão. Os textos serão apenas a ponta do icebergue e a forma de assinalar no blogue a memória do momento e do interesse.
Li algures que o facto de se esquecer o que se sabe ou soube não é mau sinal, mas uma espécie de "ferramenta" ou "táctica" do próprio cérebro: arquiva numa zona neural aparentemente morta o manancial de informação que vamos adquirindo para permitir que possamos deixar entrar novos e mais importantes dados. Comungo de um desejo recôndito - presumo comum a muitos - de que aquilo que fomos aprendendo, lendo, vivendo não fique irremediavelmente danificado no tal arquivo que parece morto. Há anos da minha vida que são uma nebulosa só, há viagens de que me lembro apenas de episódios soltos. Invejo (creio que já aqui revelei) as pessoas que retém tudo quando vêem, lêem ou ouvem. Conheço alguém que se gaba disso mesmo: uma vez lido ou sabido, nunca mais se esquece. Ah, caramba, se me valesse o esquecido viveria num outro mundo, uma outra vida. Resta-me o consolo de saber com alguma vaidade que na escolha livre e não premeditada do vocabulário e nas entrelinhas dos textos simples deste blogue se podem perceber os reflexos e sombras do arquivo morto.