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01/02/2022

Unhas de gel

Lembrei-me da burlona de Nova Iorque a propósito de uma conversa de ontem em que trocava impressões sobre a cada vez menor paciência para gente presumida. De lá diziam-me “são as unhas de gel mais evoluídas”. É isso mesmo, nada poderia definir melhor intervenções ou textos pejados de intenção de impressionar os interlocutores ou leitores com tamanha erudição. Intrigam-me particularmente artigos nos jornais de quinze linhas em que se fazem dez referências a títulos de músicas, compositores e interpretes por gente que sei não perceber rigorosamente nada de música. O mesmo vale para a literatura, o acumular de referências a autores e obras que mais não servem senão para envaidecer a intervenção ou o texto e descredibilizarem quem os profere aos olhos de gente lúcida.


Podemos acertar nas opiniões ou errar. Podemos estar enganados na avaliação que fazemos da realidade, mas querer à fina força aparentar uma erudição balofa seja através de referências, citações seja através do levantar de intrincadas questões filosóficas por dá cá aquela palha é tão só ridículo.


Acresce a este vício o de aderir por marés aos temas, autores, referências. E assim vamos na onda, de revoada em revoada de tema in. Pára o mundo por uma semana para discutir o tamanho da bico da águia-real e eis senão quando surgem das catacumbas dezenas de expertos (sim, existe a palavra) em aves de rapina, verdadeiros ornitólogos. Se saltarmos de conversa em conversa, de texto em texto, reparamos que pouco acrescentam uns aos outros senão em vaidade e em nuances de copy/paste. Na semana seguinte os mesmos estarão a discutir com a mesma convicção e sapiência os índices e cotações no Nasdaq-100 como se a ele tivessem sido introduzidos aos seis meses de idade. Nunca têm dúvidas.


O que aborrece mais neste género de unhas de gel, gente aparentemente bem articulada, é que jamais reconhecem as fragilidades do seu putativo conhecimento. Estão absolutamente certos de tudo quando afirmam, dir-se-ia que vieram ao mundo com esse conhecimento inato. Abominam locuções que exprimam dúvida ou reserva sobre o que é dito ou escrito. Vivem num mundo feito de certezas absolutas, nem que a última tenha nascido há cinco segundos através de uma pesquisa online, que negam a pés juntos precisar de fazer. Nem que nos instantes seguintes a tenham que desdizer com igual convicção.


Como vivemos num mundo cada vez mais de aparências e sem memória, estas unhas de gel multiplicam-se a um ritmo assustador sendo muito populares. E o mais caricato é que muitas são recomendadas como sumidades fazendo escola - a desgraçada elite portuguesa.