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04/02/2022

Ponto de situação

Os círculos viciosos levam-nos - vá, levam-me que sei pouco da vida dos outros - por temporadas aos mesmos lugares com recorrência quase doentia. Quase todos os dias passo pelos mesmos jornais, mas aí nem é tão grave uma vez que a ideia é ler notícias e não há como fugir de levar com opinião e julgamento travestidos de informação - esta foi à animal feroz. Agora há fases em que fico fartinha de blogues a replicarem os mesmos temas - sei, também repiso bastante, mais uma razão para arejar -, os mesmos tiques de linguagem, os mesmos maneirismos e critérios de gosto. Para quebrar este enguiço de mimetização generalizada utilizei no passado uma táctica que vou voltar a usar: perguntar a desconhecidos que páginas visitam. Falar com gente que muito provavelmente considera os blogues uma realidade estranha do passado e está habituada ao Instagram, ao Twitter, ao Tik-Tok (tenho a noção de que não se trata de realidades equiparáveis) etc. Não pretendo saber que redes sociais usam, mas sim as páginas online por onde passam – sem ser sites sobre sexo, culinária e livros que são assuntos indigestos quando remexidos em excesso. Tal qual, sem as habituais recomendações viciadas de ilustres conselheiros que vão sempre dar a mais do mesmo. Nem sequer pretendo conselhos de conhecidos. Saber do mundo ainda que desta forma enviesada implica estar aberta às opiniões e gostos de estranhos, ao risco. Não fazer de conta que há pluralismo, mas vivê-lo. Se conhecermos real ou virtualmente o interlocutor já lhe advínhamos as tendências, ficando minado o factor surpresa que é a chave da verdadeira busca.


Deste modo conheci algumas páginas com interesse, além de música. Nas próximas noites vou, como no passado, conversar com desconhecidas e desconhecidos e pedir que me indiquem locais que achem ter interesse para visita - vou para as minhas forasteirices. Vai ser a saída de uma espécie de hibernação das últimas semanas em que me deitei quase sempre antes das dez da noite, acordando às seis da manhã para não fazer nada de útil senão matutar. Deve ter sido do frio.


De resto, há para aí pendências. Alguém ontem abriu aqui nas Comezinhas uma agenda antiga que referia a intenção de acabar a primeira série do Espanador com a Nova Zelândia e a Coreia do Norte. Na altura ficou em águas de bacalhau e não sei se este fim-de-semana terei vontade para tal – viria a propósito do último lançamento de míssil há dois dias. A Filosofia não está encalhada, mas continua em leitura a lume-brando. E claro, falta a cronologia do coronavírus. Ainda hoje na rádio ouvi alguém referir-se uma vez mais ao presente momento como se estivéssemos na viragem para a despedida definitiva da pandemia. Pareceu-me crença ou habitual ladainha de político disseminada pela população. Terei muito tempo para escrever essa cronologia. Assim-como-assim (adoro a expressão) o singelo textinho que escreverei não vai competir com as oportuníssimas sagas de crónicas, documentários, séries, músicas e peças de teatro alusivos aos tempos pandémicos, impregnados de grande moral. Ena, um superlativo antecedido na mesma frase por um diminutivo, crime de lesa-majestade no mundinho erudito-plástico. Não percebendo nada de oportunidade e sucesso, parece-me que não se pode prestar melhor tributo a qualquer realidade senão seguindo caminho registando o dia-a-dia comezinho sem vontade de tirar lições moralizadoras.


Mais do que os tópicos do blogue adiados preocupa-me o que protelo (usei este verbo, credo, seria pior se tivesse escrito procrastino) na vida palpável e real. Ando implicada com uma resolução de fim de ano. Bom, em rigor não foi uma resolução - já não tenho lata -, mas um pedido de ânimo para quebrar um enguiço de trinta anos – não é coisa pouca.


Resumindo, há-que arrebitar.