É difícil pensar noutro assunto. A invasão da Ucrânia tomou a consciência colectiva, mesmo a dos sacanas do costume que idolatram o facínora considerando-o o único grande estadista do mundo moderno. A falta de carácter e de sensibilidade de gente que vai opinando favorável à mostra de poder absoluto de Putin revela o número assustador de agressores latentes com quem convivemos. Muitos deles tomam-se por mais informados, mais eruditos, por alinharem em narrativas anti-sistema supostamente baseadas na ciência política e dos movimentos históricos. Os ditadores sempre fascinaram as mentes permeáveis à manifestação de força, mentes agressivas. Assim vemos como é fácil a disseminação do totalitarismo. Estes potenciais eleitores do extremo, tanto votam nos partidos populistas de direita como na esquerda radical. Não são as ideias, os valores, a visão do mundo divergente que os move, mas sim a necessidade de afirmação pela força. Daí que não alinhe fácil na associação dos presentes acontecimentos ao comunismo. Essa conversa, essas dicotomias interessam ao fortalecimento dos ditadores. O acicatar da clivagem ideológica alimenta as ditaduras.
Dito isto percebo as críticas à adesão fofinha às bandeiras e à fácil solidariedade. É muito confortável proclamar-se solidário com a Ucrânia, exibir a sua bandeira ou fazer gracinhas associando o ímpeto de Putin ao legado de Trump, mas resta saber até que ponto as mesmas almas solidárias e engraçadinhas não estariam numa qualquer primeira fila de manifestação anti-guerra ou contra o envio de militares nacionais para o teatro de guerra. Ou até que ponto estariam elas próprias disponíveis para sacrificar o seu conforto económico e bem-estar físico e psicológico em prol da paz na Ucrânia. É muito fácil o pacifismo de sofá.
Ao facínora Putin e ao seu regime autocrático é fácil decidir, tomar iniciativa, mostrar força. Tem a população controlada não se podendo sequer falar de opinião pública na Rússia, onde os manifestantes anti regime são presos. Por cá, nos países ocidentais, cada decisão tem de ser tomada com conta, peso e medida na perspectiva da aceitação das populações. A título de exemplo, por cá o cerco a cidades contaminadas com Covid foi ferozmente contestado, ao passo que na China é simples regra.
Vivemos na parte mimada do mundo. A que se condói por uns dias ou semanas com as primaveras árabes, com hashtags fofinhos contra os ataques terroristas assassinos a jornais europeus, com a preocupação pela situação das mulheres na tomada do poder pelos fanáticos islâmicos no Afeganistão, e logo a seguir retoma a sua vida de conforto democrático rabujando com o aumento do preço dos cosméticos ou a ausência de vias para ciclistas nas moderninhas cidades verdes.