Antes não tivesses vindo ao mundo com essa aptidão para intuir o que se passa do lado de lá. Aos olhos do lado de lá parecerá mania da perseguição, excesso de narcisismo e presunção bacoca. Antes não soubesses o que sabes. Quantas condicionais, quantas hesitações evitarias. Ver além do lado de cá, o de lá, detrás do de lá. Estar tantas vezes do lado de fora. Enganares-te algumas vezes para tantas outras acertares na mouche, ainda que nunca o possas provar tamanha é a militância alheia na dissimulação.
Disseram-te ontem que entre várias pessoas eras a única que não fazia diferença dentro ou fora do aconchego, salvo na reserva (e no acanhamento reconheces tu sem peias, passes a contradição). Ficaste contente, reconheces essa característica no sangue via feminina e sendo pouco dada a confundir educação, inteligência e reserva com falsidade, muito menos dada a fazer a defesa do fingimento, consideras esse traço de personalidade um bem precioso. Tudo quanto perdeste na vida por não saberes nem quereres mentir e construir imagem apelativa não vale um chavo comparado com o que ganhaste em paz – sim, apesar de todo o desassossego.
Quem fala ou escreve muito dá por si a enredar-se na argumentação e, se for honesto, questiona a veracidade do que disse ou escreveu. Estabelecem-se teses, parágrafos e parágrafos justificativos de uma ideia inicial. A páginas tantas aparecem as contradições e se há seriedade há assunção do erro. Só sendo pouca coisa não se consegue detectar erros senão nos outros.
Em matéria de escrita que valha a pena há quem faça a defesa do soltar grilhetas. O apelo à ausência de constrangimentos. O sim ao deixar fluir as ideias por mais confusas ou absurdas sejam. O apelo à nudez, por assim dizer. O comentário parecerá banal e pacóvio, porém o certo é que ideia não é genial – tudo vai depender do que há a revelar, da natureza e valor. Pondo de lado esta questão de gosto, sobra outra: a da coragem versus falta de noção. Há diferença entre franqueza e veemência. Ser veemente diz-te pouco. Há diferença entre consciência e vontade de poder – a segunda é pouca coisa se comparada com a consciência.