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30/11/2020

Restauração

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Por hoje nada mais a dizer, senão obrigada e que estou feliz na véspera do aniversário da Restauração da Independência e antevéspera do primeiro de três dias de férias. Dois factos praticamente ao mesmo nível de importância para a nossa Pátria. Talvez aproveite para referir que este é o postal 1000 e que amanhã trarei – se cumprir o que agora me proponho -, uma selecção de (?) 20 entradas das Comezinhas do último ano, incluindo algumas a pés juntos.

Obrigada


à SapoBlogs e a quem visita e as Comezinhas.

Bom feriado, amanhã.

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Senti-me de tal modo inspirada pelo exemplo deste camarada ao longo do dia de trabalho de hoje – ponte para muitos –, que ao jantar vou encomendar pela ubereats um double cheeseburger e loucura das loucuras, uma caixa de chicken nuggets. Só estou indecisa entre a água suja do imperialismo e a Fanta laranja. 


*


Sim, sim, sei. Típico post de rede social. Oiçam, é o que apetece hoje. Não quero saber.

29/11/2020

Automóveis

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E por falar em automóveis, fio da meada e novelas que ficam a meio, retomando agora os postais bem-dispostos sobre patetices que me foram acontecendo ao longo da vida e dão alegria, lembrei-me de uma maldade que fiz quando adolescente. Uma retaliação, ou talvez fosse mesmo uma atitude em legítima defesa.


Cresci numa família na qual predominavam os homens em número. E mais do que sobre futebol, entre tios, primos e irmãos o tema carros dava azo a intermináveis conversas, das que me faziam sentir do lado de fora. Nas reuniões familiares havia sempre longos e chatos colóquios sobre o desempenho e a mecânica dos bólides. E para ser rigorosa, havia também carros desmontados em peças e muita ferramenta associada.  Um mundo à parte do meu e das coisas que me interessavam.


Ora, no Liceu pensei estar a salvo destas manias familiares, eu que nem marcas distinguia, quanto mais modelos de carros. E tudo quanto me teria interessado em criança era que não me fizessem passar vergonhas junto da escola e pegassem de manhã, coisa que em Valinhas raramente acontecia com os do meu pai, sobretudo no Inverno por causa do gelo. E lá seguiam os meus irmãos estremunhados para a grande saga do ‘empurranço’  - saga que se prolongou por vários anos. Valiam-nos os primores, os carros a funcionar - apesar de também velhos -, e a boa condução da minha mãe. Ao longo da vida, por mais do que uma vez passei a vergonha de não distinguir o automóvel onde já tinha andado. Sim, sou daquelas pessoas a quem é trágico dizer: vai indo ter ao carro, que eu demoro mais um pouco. O que me vai salvando às vezes é fixar a matrícula. Consegui aliás a proeza de, trabalhando há vários anos para conhecida marca automóvel, desconhecer por completo a famosa designação de um dos modelos, chegando ao insólito de conversar meses a fio com um amigo na internet que usava essa designação como pseudónimo, nunca me ocorrendo perguntar o que significava.


Pelo que, e voltando ao Liceu e à parte que teria graça, quando o P., amigo do Liceu, aliás, do Glass, o café lá perto, me vinha chatear com a conversa sobre o Honda Civic que tinha comprado ou guiava ou o diabo a quatro, eu desesperava. Um belo dia, sentada à mesa com a E., grande amiga de então, vejo-o desaustinado pela esplanada fora em direcção à porta do Glass, e pensei: pronto, estou desgraçada. Dito e feito, entrou. Vem direito à nossa mesa e ainda meio a pé meio sentado, atira qualquer coisa como: é que não estás a ver, Isabel. Aquele menino tem 16 válvulas. Dei um pequeno pontapé por baixo da mesa à E., pus o ar mais espantado que consegui e disse: a sério? Julguei que os carros só podiam ter 4 válvulas. Ele: 4? E eu com o ar mais estúpido à face da terra: sim, uma em cada pneu. Ah, 5 com o suplente.


Escusado será dizer que morreu ali mesmo uma linda e promissora amizade; o amor do P. aos automóveis e a necessidade de conversão das raparigas aos encantos da condução não era compatível com tamanha burrice feminina.


Sobre automóveis tenho pano para mangas para mais postais. E isto apesar de ser uma desencartada. Sim, nunca tirei carta de condução; apesar de me ter inscrito três vezes nunca passei da terceira ou quarta aula de código, quase tantas quantas as que assisti em todo o curso de Direito - pronto, este é franco exagero, mas achei que dava um efeito giro à frase final.


Apesar deste historial gosto imenso de ver carros antigos, sim. 

Citroën 2CV

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Tirada Sexta-feira à hora do almoço, no mesmo sítio onde já apanhei a 4L que aqui também postei. O bom de me ter mudado para uma zona mais popular da cidade, é que quase todos os dias dou com coisinhas destas. Além de mais, tenho o Clube Português De Automóveis Antigos muito perto.

Provérbios e expressões idiomáticas

 


Bem prega Frei Tomás, olha para o que ele diz, não olhes para o que ele faz.


 

Fio de meada

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Ao que parece deixei uma 'fotonovela' - com primeiro e segundo episódio -, em aberto e convém dar seguimento com mais um episódio. Curtinho, como se houvesse futebol a seguir. Sim, no Verão optei por mandar estofar o cadeirão do escritório que tive entre 2001 e 2003. É banalíssimo, mas simpatizo com ele. Nova espuma e o forro pele de pêssego verde passou a azul rugoso. Já não se sente a trave frontal do assento que incomodava bastante quem lá se sentasse. Era tão inconfortável como estar permanentemente a ver os dois lados de uma qualquer questão. Li algures - creio que ontem -, qualquer coisa semelhante a isto: ser moderado não é valorizar de igual modo dois lados opostos, mas escolher e defender o lado que nos parece mais razoável. É-me quase sempre impossível. Habituei-me a ver sempre os dois ângulos de uma questão e, apesar de consciente dos dissabores que isso me traz, designadamente o de parecer inconsistente e inconsequente, não creio que algum dia vá mudar.


Quanto ao orelhas ontem comprámos um, mas vai para a casa onde é mais preciso. 

28/11/2020

O literal e a metáfora

Clarinho como a água, o artigo de opinião de João Miguel Tavares no Público. Quem não percebe o que é dito, das duas uma: ou é adepto da extrema esquerda, professando declarada ou encapotadamente o seu ideário, ou tolera em democracia a sobrevivência de partidos que não condenam desvarios totalitários e ofensas grosseiras à liberdade individual, ao mesmo tempo que não tolera radicalismos de outra estirpe. Esta é a fina flor da intelectualidade portuguesa, que nos tem mantido neste atraso de vida. Neste anacronismo de fundo numa sociedade aparentemente moderna e tecnológica, mas de facto funcionando como clube tradicional da bolinha preta de esquerda. 


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Recapitulando, aqui estão três textos do Comezinhas sobre o mesmo assunto. Afinal descobri mais este. E há por aí outros, mas garanto que me daria muita alegria deixar de escrever sobre este tema, seria sinal que já tínhamos passado a fase dos joguinhos infantis.

Aproveitem

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Que não vos falte nada. Mas...


bem vistas as coisas, estão um pouco ressessas estas batatas em ‘istranjeiro’.

O Jogo de Deus - Vergílio Ferreira

Ontem ao fim da tarde fui à Bertrand. Entre outros trouxe Contos, de Vergílio Ferreira. Chegada a casa e enquanto os bifes frigiam na sertã e o arroz aquecia no microondas, li dois contos. Ao final da manhã de hoje este que agora fotografei. Deliciada com a riqueza e felicidade do arranjo das frases e rendida à severidade das palavras e ideias. Bafos da Serra, com certeza. Não seduz pela facilidade, prende antes pela seriedade e contraste das ironias subtis em toda a sua crueza.


Nota: para conseguir ler o conto aqui preciso do zoom a 125%. A opção por colocar duas a duas páginas, para que não fique tão pesado, impede-me de aproximar mais a imagem na origem, como fiz no passado com outros livros.


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27/11/2020

Porto

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Jardins do Palácio, 4 de Novembro 2020.


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Confesso os momentos em que deixei correr as lágrimas só por me aproximar do Porto. Foram muitos. Chegada a casa de carro, autocarro, comboio ou avião, ao sentir o aconchego da cidade comovo-me. Creio que que metade da minha vontade de viajar – e céus, é muita apesar de pouco o fazer nos últimos anos –, é desejo de regressar. Sinto-me afortunada por viver neste chão que não é meu de nascença. Sou filha de pai gaiense e mãe portuense, e creio ter tomado posse do Porto, não só por herança como por usucapião. Chamam-lhe bairrismo. Orgulho tonto. Será. Mas é absolutamente sentido. Nestes dias difíceis em que tropeço nos que choram de preocupação e medo de perder os seus, vale-me o exemplo desta terra de fibra. Bonita, digna e de valentes corações.

Provérbios e expressões idiomáticas

 


Quem ri por último ri melhor.


 

Boa Sexta-feira, gente. 


Não sei

Não tive oportunidade de ver o que se passou na Assembleia da República ontem. Chegaram-me apenas ecos. Assim, não adianta dizer nada de especial. Verifico que muitos lestos já tomaram posição sobre os votos na questão das injecções de capital no Novo Banco. Apesar de acompanhar esta matéria com alguma atenção – e ter uma vaga noção do que são bancos e obrigações contratuais -, ainda não percebi o alcance das posições tomadas, designadamente pelo PSD. No fim-de-semana talvez me dedique a leituras sobre o assunto para ver se entendo.


Uma coisa é certa: estranho muito a rapidez com que se toma posição nesta matéria. Ou talvez não me admire. Escrever e falar a eito é facílimo, sobretudo quando o que interessa é tomar partido por facções e marcar pontos na folha de serviços a apresentar na dança das cadeiras do poder.


Não me refiro a quem legitimamente mostrou perplexidade, atitude que por si só revela não só inteligência como bondade. Coisas em desuso.


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O melhor deste pequeno postal é que escrevi ‘a eito’. Não imaginam o gozo que me dá usar estas expressões. Já agora um dia terei que tomar posição sobre a conjugação verbal na segunda pessoa do plural: deveria ter escrito ‘não imaginais’, mas será que quero?

25/11/2020

Escrita

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Como muitos em miúda tentei versejar. Tudo quanto saía era de tal modo medíocre que à época não insisti. Tive mais juízo do que vinte ou trinta anos depois, ao tentar de novo juntar palavras em forma de verso. Dizem os músicos que há a música boa…e a outra. É o que sinto na poesia. Tenho a presunção de saber o que é, e sei que não chego lá. Mas é uma tentação. Tenho saudade do ímpeto de compôr uns versos. Quando se tem a perfeita noção que se é muito fraco nalguma área e se têm este apelo deve ser porque ao menos há amor à arte, o tal que que nos impele a fazer figuras ridículas. Mas há momentos em que percebo que é o amor à arte que me faz abster de produzir lixo. Hoje é para aqui que estou inclinada: se sei que é mau o resultado e quero ser coerente (às vezes lá acontece) devo estar quieta, por respeito à poesia.


São inquietações como outras quaisquer. Sem dramas, até por me sobrar o vasto campo da prosa. E aqui há tanto a fazer, céus. Palavras a aprender a grafar, acentos e vírgulas a saber colocar, tempos verbais a saber conjugar e, com propósito, desconjugar – como é bom fugir às convenções e brincar às variações de tonalidade e às dissonâncias não combinando tempos verbais. Vergonha das vergonhas: aprender a distinguir instintivamente a forma pronominal dos verbos do pretérito perfeito, evitando usar hífens indevidamente. Alegria das alegrias: ver a coisa fluir sem consciência, correr atrás do teclado, como antigamente corria atrás da esferográfica. O frenesim de dizer tudo quanto ocorre no pensamento, sem medo do impacto. A ânsia de não perder aquela ideia que espreitou atrás do neurónio preguiçoso e nele se escondeu de novo, envergonhada. Ir buscá-la, trazê-la à luz, desenhando as palavras adequadas, para que não se sinta nem desrespeitada nem agressora. Pode ser magia. É magia.


Apesar de saber que não trago nada de novo, estando esta sensação descrita um sem-número de vezes por outras pessoas que escrevem com regularidade, apetece-me contar que, há meia-dúzia de anos  enquanto escrevia a Ana Paula, tive consciência de qualquer coisa excepcional. Nunca me queixei especialmente de solidão. Quase sempre a minha vida se desenrolou no meio de muita gente, e quando assim não foi – houve anos de muito isolamento -, os meus sonhos (dos verdadeiros, a dormir mesmo) eram tão povoados como as telas de Bruegel. A solidão física não foi, senão muito pontualmente, um peso na minha vida. Já a outra solidão, a da incompreensão, a de não ser capaz de chegar a mim e ao outro, foi severa. Há meia-dúzia de anos senti – apesar de estar a compôr essencialmente para mim própria - que recomeçando a escrever e ao fazê-lo de forma mais regular, não mais me sentiria sozinha. E isso é uma maravilha.


Hoje sonhei com uma vinha que conheci bem de olhos abertos e um tesouro nela contido meu conhecido de antigos sonhos a dormir. Conjugação perfeita feita metáfora e o melhor dos augúrios.

Stefano Bollani & Zé Nogueira - Outra Coisa


Parabéns. Um ano feliz. 


Cheio de alegrias e mudanças de tonalidade.

24/11/2020

Comezinhas

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Eis a explicação para o nome deste blogue. Lado a lado com a Mafalda de Quino e as Redacções da Guidinha de Sttau Monteiro, a poesia de Fernando Pessoa, José Gomes Ferreira, Jorge de Sena, Miguel Torga, Sofia Mello Breyner Andresen e Eugénio de Andrade. Com o existencialismo e crueza de Simone de Beauvoir e Sartre, as crónicas de Miguel Esteves Cardoso e Vasco Pulido Valente, os romances de Agustina Bessa-Luís, o esoterismo de Isabel Allende, as narrativas de Collen McCullough e outras páginas que não me ocorreram agora. Com as Histórias da Filosofia de Abbagnano e de Marías, textos de Agostinho da Silva, o Paradigma Perdido de Edgar Morin, o Papalagui de um senhor cujo nome nunca soube pronunciar. Com os dicionários da Porto Editora e Larousse, com os indispensáveis da Reader’s Digest, como o Atlas e Enciclopédia Geográfica e a Enciclopédia Médica, e todas a bulas dos medicamento das casas onde vivi, frascos de detergentes, produtos de higiene, grafitos e autocolantes, papéis caídos nos passeios da rua e o diabo a quatro, na meninice devorei o livro que faz a diferença: Como Fazer Quase Tudo.


Fui educada a considerar importante não só as tarefas comuns e rotineiras, como os trabalhos manuais. Ainda que sem qualquer jeito para muitos deles (como para quase tudo o resto, diga-se), aprendi a dar valor ao que é desprezado por quem tem voz. A valorizar o trabalho considerado menor. E faço disso uma vaidade num tempo em que se considera estupidificante todo o tipo de acção que não passa por grandes doutrinas e intelectualizações. Num tempo em que a rotina de trabalho é ultrajada, salvo ao tratar-se de qualquer tendência moderninha como a cozinha ou o exercício físico. Numa época em que todo o gato-pingado se acha apto a desenvolver complexo trabalho mental. E mais, apto a orientar e comandar os outros. Convencido da sua competência, apesar da inaptidão para as múltiplas tarefas. Certo do seu valor, mesmo quando este se traduz apenas na aptidão para levantar a voz mais alto ou mover melhor influências. Num tempo em que ter perfil para determinada função significa tantas vezes e tão só dar ar de. Dar imagem de qualquer coisa, sem necessidade de correspondência com o real. O real passa a irrelevante. O mundo deixou de ter trabalhadores para ter perfis de líder em cada ser humano. Está cheio de pretensos sábios prontos a ensinar, converter e comandar. Pena que haja cada vez menos gente a querer e saber desempenhar tarefas comuns. As tais que nos permitem sobreviver e ter a sã sensação de dever cumprido.

Duas pequenas questões

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  • A família. 


 


Quantos de nós, apesar de não o dizer em voz alta, pensam que esta treta da génese dos contágios ser a família é apenas uma decorrência lógica da estrutura da sociedade. Não vivemos em comunas ou seitas. Vivemos em família pelo que, independentemente do local onde tenhamos sido contagiados, vamos muito provavelmente infectar um familiar com quem coabitamos ou estamos regularmente. Estranho seria se 80% das contaminações se dessem entre monges ascetas. Parece uma banalidade. Mas talvez falte dizer o evidente.


Será que a solução para debelar a pandemia passa por desfazer a estrutura da sociedade?


 



  • A tolerância de ponto


 


Quantos de nós, apesar de não o dizer em voz alta, pensam que o Governo poderia ter decidido pelo teletrabalho nos dias 30 de Novembro e 7 de Dezembro, em vez de cavar ainda mais o fosso entre trabalhadores do sector público e privado? Será que a objecção é a de nem todos poderem fazer o trabalho a partir de casa? Muito bem. Seria injusto, de facto. Mas não é injusto premiar - como é tradição -, o sector público? É mais fácil sugerir a tolerância de ponto no privado: as empresas pagam a factura. Já a tolerância de ponto no público pagam os contribuintes. Perfeita noção de economia do nosso Governo: empresários e trabalhadores do privado contribuem para o todo. Trabalhadores do público são a base eleitoral dos sucessivos governos.


Não vos parece a receita mágica para perpectuar a injustiça?


(peço encarecidamente: não me recordem que os trabalhadores do público também pagam impostos; só para não ficar muito condoída.)

23/11/2020

Desandando

20200925124853_resize.pngNão. Esse não é o teu mundo. Nunca te reconhecerias nele. Toca a desandar. Trata da tua vida. Do que é. Do que existe. Do que és. Deixa as vitrines de virtudes para os modelos que nele gostam de pousar (sim, pousar; além de posar). O teu espelho é narciso quanto baste, mas tosco. E real.

Oblivion · Michel Camilo · Tomatito

Provérbios e expressões idiomáticas

 


A boca do bajulador é um sepulcro aberto.


 

22/11/2020

As Velhas Paredes

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E volto à carga. Já cansada, exausta.


Oiço e leio a ladainha e os pregões da falsa moralidade em muito do que é dito e publicado. Como previsível os aduladores fazem o trabalhinho de espalhar a palavra dos situacionistas cabecilhas: é preciso desacreditar quem tem um discurso divergente e tem possibilidade de mudar para um pouco melhor o nosso País – apesar de todos os defeitos e perigos que cada visão comporta. Sabem que vivem e comem da mediocridade dos interesses instalados e esforçam-se na retórica, arte em que são quase imbatíveis. Querem inculcar na ideia da opinião pública que são valores civilizacionais que estão a ser postos em causa e armam-se em seus grandes defensores. São fáceis de identificar: foi observá-los ao longo das últimas décadas a trepar como hera a pirâmide social agarrados aos lugares, aos amigos que interessam. Foi vê-los calcar todos quanto serviram de degrau e desprezar todos quantos não contribuíam para o seu sucesso. Foi vê-los desdenhar ao longo dos anos dos grandes senhores do País, ao mesmo tempo que se aproximavam, imitando-lhes os hábitos e trejeitos. Tentando mimetizar o gosto e as ideias. Fazendo com que os seus filhos se cruzassem com os filhos desses mesmos a que antes chamavam grandes senhores e hoje chamam amigos de sempre. É o ciclo da vida em democracia. A expansão do pedigree.


Mais difícil é expandir a decência: a inteligência e sensibilidade. A verdadeira, não aquela que se aprende a dissertar – ou passar a imagem de possuir -, por se ter lido uns livros ou observado em pessoas nas quais se pressente valor, mas nunca o suficiente para as colocar ao nível de uma discussão intelectual válida. Consideram que lhes falta a lucidez. Pobres de espírito que traduzem lucidez por ambição e ganância. A decência é parente pobre da retórica e, como advém do carácter e não do interesse, pode ser encontrada tanto no amo como no servo, mas nunca em pulhas calculistas.

Recapitulando

 


Volto a publicar o postal de Abril último.


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O calhau


por Isabel Paulos, em 28.04.20



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Naquela pequena aldeia perdida do universo todos acreditavam que a pedra caída do céu era amaldiçoada. Desde que irrompera da abóbada celeste, rasgando a atmosfera e enterrando-se a meia altura no solo com estrondo ensurdecedor, era tomada por todos como causa única dos problemas dos aldeões. Todos, desde os grandes dramas aos mais pequenos dissabores. A rocha não fizera mais do que existir, como todas as outras pedras ao longo dos milhões de anos do universo: existir e despegar-se do resto da matéria, o que aligeirando as coisas é criar vida. Calhou ser ali e calhou ser um calhau. Só que os aldeões não viram ali vida, mas morte. A morte das batatas. O início de toda a tragédia. O facto é que os reais estragos foram pouco além da mata fanada de pinheiros e eucaliptos, da leira de batatas e da horta do tio Venceslau. O pedregulho, a que ele chamava casa da música, por ser a coisa mais parecida que viu numa ida ao Porto com o absurdo que caíra na horta, tinha a dimensão da dita e o mais que criara, além de todo o alvoroço, fora a impossibilidade de acesso às batatas. E ao cebolinho, e à alface, ao feijão-verde, às cenouras. Enfim, uma infinidade de coisas que o mundo para lá da tabuleta que diz Lama não vê senão no supermercado, na despensa ou no frigorífico.


Mas se o problema não era de grande monta senão para o tio Venceslau que ficou sem rendimento, o caso agravou-se quando a Julinha, que distribuía o pão pelas aldeias em redor, espalhou a notícia da maldição da Lama. Dada às bruxarias, a Julinha asseverava que numa noite de nevoeiro foram avistadas almas penadas em redor da pedra e que na manhã seguinte a terra que a rodeava começou a amarelar, transformando-se em areia, como aquela que o tio Venceslau tinha visto na Foz do Douro. E que a Julinha em nova também vira nessa coisa das praias. Nas quais, apesar de não viver assim tão longe mar, há anos não botava os pés. Ainda assim estranhava que ali, logo naquela terra tão farta em água que todos queriam drenar e afastada do mar salgado secasse de forma tão repentina. De tal forma que, algumas noites depois, vira peles das cobras largadas na superfície da pedra. Elas conhecem o seu senhor, dizia a Julinha. As serpentes rendem-se sempre ao diabo.


Começando a correr o boato que a terra da Lama era seca e fora amaldiçoada desde que lá caíra o pedregulho, as aldeias vizinhas começaram a cavar um fosso nos seus limites. Um sem-número de questiúnculas sobre a propriedade dos terrenos e as marcações do território da freguesia foram levantadas, ao ponto do Casimiro abrir a cabeça com a sachola à tia Jacinta, por lhe roubar três metros de terra para fazer o fosso. E foram elevadas a grandes questões de discussão outro sem-fim de bagatelas sobre os melhores métodos de construção e financiamento da vala. Assim ficou cercada a Lama apenas unida ao resto do universo por uma ponte dissimulada por uma benemérita da aldeia contígua para que levassem gasóleo até à Lama ou de lá saísse algum aldeão doente para o hospital. Sucede que a artimanha da benemérita Ana, uma espécie de ponte levadiça feita de um reboque de tractor que se estendia até à outra margem, foi denunciada por zelosos vizinhos e logo incinerada em sinal de total repulsa pelo crime lesa-majestade de pôr em risco o resto do universo.


De imediato alguém propôs levar a questão ao tribunal da cidade. Decorria o julgamento e já a acusação contra a Ana era a de ter trazido para o lado de cá do universo a secura amarela da terra. Fotografias fizeram prova. Imagens de areia nos campos da Ana, junto ao local onde estacionara o tractor com o reboque. Vejam, ainda há marcas dos rodados. Vejam, vejam, aqui estão as marcas do ultrajante tractor, perorava o advogado das vítimas, que se tinham constituído como assistentes depois de formarem a associação dos lesados da Ana. Do outro lado, o estagiário defensor oficioso da benemérita trouxe dezenas de fotografias que provavam cabalmente que toda a terra do concelho se tinha amarelado e feito areia em data muito anterior ao engendrar da ponte encoberta e até do próprio fosso. Mas a prova foi considerada nula por não haver registo de autorização das imagens por parte dos proprietários das terras fotografadas. Ora é sabido que isto das leis é assunto muito sério e há valores intransponíveis como o direito à imagem das terras.


A dactilografar os testemunhos das longas sessões de julgamento estava a Joana que era prima da cunhada de um repórter da televisão. Ao contar-lhe a história, logo o dito achou que tinha encontrado o filão da sua vida. E tinha. No dia seguinte, o jornal do canal de televisão para que trabalhava abriu com a fronha ainda espantada da Ana acompanhada pela leitura sibilada do pivot: mulher de cinquenta e quatro anos acusada de propagar a desertificação do concelho de Ribeira da Fraga aguarda sentença. E lá estava o repórter a entrevistar toda a vizinhança da famigerada benemérita malfeitora, incluindo o primo da Julinha, que era nascido e criado na Lama, mas para aqui tinha vindo viver por casamento. O ambicioso repórter quis saber mais sobre a pedra amaldiçoada. Pediu ao primo que ligasse à Julinha e lhe passasse o telefone. E assim foi.


Sucede que a Julinha, tal como parte substancial dos aldeões da Lama, tinha ensandecido com o correr dos meses, farta do estafermo do fosso e de ninguém se dignar sequer a telefonar mesmo quando nasciam ou morriam na Lama familiares e amigos de gentes de outras aldeias. E começou então alucinada a contar ao repórter que se abrira um buraco na terra duas vezes o tamanho da casa da música do tio Venceslau e que o diabo espichava serpentes e lama de fogo como um vulcão daqueles que a gente vê na televisão. A lava principiou a alastrar poucos metros à volta da pedra, mas dia após dia ia um pouco mais além. O jornalista, que tinha deixado de tomar os antidepressivos por não assumir a doença, começou a ver fumo branco a surgir do lado das terras da Lama e com a excitação caiu redondo num sono de vários dias. Não sem antes enviar uma mensagem à namorada por whatsapp: avisa o chefe que vem aí o fim do mundo: depois de amarelar e se tornar areia, a terra vai arder. No dia seguinte o jornal da noite abria com a imagem da divertida fronha benemérita, que já estava por tudo, e o pivot a anunciar que o estado iria exigir em tribunal uma indeminização à causadora de tão grave crise ambiental.



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O real

É sempre difícil fazer perceber que cada um de nós não é barro moldável nas mãos das verdades universais. E que a dor não é democrática. Como explicar que a injustiça é cruel e real. E fazer entender que muita da conversa da superação, do domínio total sobre as nossas acções é uma ilusão própria de vidas mais fáceis. E que a facilidade às vezes dá ares de grandes trabalhos e feitos, tratando-se afinal de mera decorrência de impulsos de natureza e circunstância que pouco têm a ver com a vontade, o carácter e a acção de cada um. Sei, já disse isto trinta vezes. Mas há sempre um dia em que volta a fazer sentido bater na mesma tecla. E sorrir com a nossa própria anterior ingenuidade, quando assim também pensávamos.


Como mostrar a quem na realidade nunca se perdeu, que a vida nos dobra e subjuga de modo aleatório. Sem racionalidade ou justeza de espécie alguma. Como pedir que não nos queiram fazer à imagem de outrem. E exijam que ofereçamos o céu quando foi no inferno que nos moldámos.

The Magic Flute – Queen of the Night Aria


A Flauta Mágica, na Wikipédia. 

19/11/2020

Lembrete


Não quero atrapalhar, sei que estão muito ocupados a esbracejar contra o PSD por ponderar aceitar que o Chega viabilize uma solução de governo à direita, mas façam um rewind de quando em vez. Dá sempre jeito.

O fogo do dia

Não sei se errei o prognóstico e se é já nesta segunda fase que se começa não só a culpar os portugueses pela transmissão do vírus, como a denunciá-los e castigá-los. Na minha ingenuidade pensei que não haveria tão cedo lata para tanto. Mas a realidade ultrapassa sempre o imaginável.


A mensagem geral saiu da reunião diária entre Governo e Especialistas e foi ver o berreiro espalhar: uns desordeiros estes portugueses incumpridores.


Haja ao menos uma franja de gente sensata e coerente, que sabe reunir em congresso cumprindo a devida distância. Não fossem os comunistas a manter os dois metros de distância e a viabilizar o Orçamento de Estado, e onde estaríamos. Onde? Mais uma pândega.


Escrevi os parágrafos acima por ler lido notícias com títulos denunciadores dos maus hábitos portugueses em tempo de pandemia, mas a corrente do tempo já as engoliu. Agora é a vez do Presidente da República vir dizer que os portugueses têm sido exemplares. Sem sombra de dúvida. Não só têm sido exemplares como têm tido enorme poder de encaixe para aturar especialistas e histéricos.

A normalidade

Leio um texto com o qual não concordo. Não seria nada de mais. Há tantos. Será só mais um. Mas qualquer coisa me diz que é mesmo mauzinho. Vou investigar. Leio na diagonal cerca de dez trechos do mesmo autor. Confirmo. Escrita pobre e feita de excitações, sem reflexão e cheia de lugares comuns. Certifico-me: tem imensa saída. Tudo normalíssimo, portanto.

18/11/2020

Dia 5

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As próximas restrições

Leia-se esta notícia sobre o escalonamento em três patamares das medidas restritivas da liberdade. E verifique-se que Loures, no segundo degrau, está a salvo. Aqui o mapa com o número de infectados por concelho.

Ainda o PSD e o Chega

Ontem resolvi usar o sistema de gravação da NOS e ver a entrevista a André Ventura de segunda-feira. O que vi? Um vendedor da banha da cobra com meia-dúzia de afirmações, entre elas várias verdades, envolvidas no engodo ou isco para gente descontente. Gente descontente com razões para o estar, que é coisa que em regra quem faz análise sobre o assunto, esquece. Pormenores que fazem toda a diferença.


É trapaceiro? É. Mas muito do que propala faz parte do indizível neste ambiente farsolas e delirante em que vivemos.


Mais uma vez do que vejo confirmo que não fará mal algum trazer o indízivel à tona. Responsabilizá-lo pelas afirmações, confrontá-las com os limites de decência, ao invés de o enxovalhar para manter uma falsa imagem de grande defensor dos direitos, liberdades e garantias.


Quem sai bem na fotografia? O PSD ao colocar a cláusula no acordo para salvaguardar o respeito por esses mesmos direitos. Os fundamentais.


Ao contrário do que tenho lido,  o PSD não perde com a decisão, antes pelo contrário. Não só não ultrapassou qualquer linha vermelha, a não ser a da intolerância da esquerda bacôca, como se afirma como partido de charneira, marca que tinha perdido.


O PSD vai ser engolido pelo Chega? Não, não vai. Apesar desse parecer ser o desejo de muitos que votam indiferentente no PSD e no PS, como se fossem partidos semelhantes. Ainda bem que a demarcação foi feita. Já não era sem tempo.


Tudo quanto acabei de dizer traduz o pensamento de muitos portugueses - apelidados de estúpidos por iluminados -, nem todos com vontade de o expressar.

Degradação da Democracia?

 


Ainda a propósito do Chega. Deixo a ligação para um postal de Janeiro último, aqui.

Georgia on My Mind


17/11/2020

Pelintrice

Fico radiante. Não caibo em mim de contente quando vejo gente a considerar política social  (em rigor, caridade) o aumento de salários miseráveis. Coisa chata esta dos trabalhadores não renderem mais do que o suficiente para comerem sopa e rissóis. Além do mais, gente de mau gosto, a comprar roupa rasca e mal cheirosa nas lojas dos chineses. Aliás, falta de patriotismo. Traidores. Mania das reivindicações estapafúrdias, ainda levam o País à falência outra vez, esses trabalhadores preguiçosos e pelintras. O que nos vale é que temos grandes gestores e ilustres intelectuais, capazes de nos mostrarem a luz. E políticos eleitos por devotos funcionários públicos. Ah, se não fossem eles, onde estaríamos. Onde?

Dia 4

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16/11/2020

Cansaço

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Já não chegavam as 352 vozes de intrépidos defensores dos princípios pós-democráticos e denunciadores dos fantasmas fascizantes, e eis que entre eles surge previsível, qual D. Sebastião, o menino em bicos de pés - versão Medina em pêéssedê. Não tardarão a aparecer os aduladores do comentariado a elogiar a coragem e postura. Homem de valores, homem de princípios, dirão. E é assim que a realidade alternativa e sonsa quanto baste subsiste. É assim que se permite não mudar o quer que seja que coloque em causa os perpétuos arranjinhos de interesse. Ah, o bicho papão. Ah, a tragédia da cedência ao populismo. Ah, o morte anunciada do partido. Ah, o fim da civilização. Ah, gente extremista e ingrata que não percebe quão perfeito é o mundo em que vivemos e quão necessário é preservá-lo. Um congresso, já.


Cansativo. Muito cansativo.

Verdes - Milho

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Podem aprender qualquer coisa sobre o cultivo do milho aqui.


 


Há vidas que só sente quem morou no campo ou lá passou tempo suficiente para conhecer o sabor das manhas e das manhãs, das massas e das maçãs, como cantam os brasileiros. O campo maior de Valinhas era no sopé da mata da casa - assim chamada por começar a poucos metros do terreiro da casa, logo rente ao muro do primeiro patamar. Não estou certa do momento exacto, mas sei que era no final da Primavera que se semeava o milho na Vessada. Antes disso, ainda nos dias de chuva, o campo era lavrado – como muitos outros mais pequenos à sua volta - com uma espécie de charrua agregada ao tractor. Era lindo ver o arado abrir a terra e mostrar as entranhas em torrões e pequenos ou grandes grumos castanho-escuros e húmidos. Era uma terra rica, e depois de lavrada e fresada ficava fofa. Em criança adorava sentar-me no tractor enquanto o trabalho decorria. Às vezes, o ferro lá enganchava nas pedras e era preciso levantar o arado ou a fresa.  


Durante o Verão a terra começava a secar, ficando mais lisa e empoeirada. Para voltar a ter um tom semelhante, o campo era regado diariamente através de fileiras de regos junto aos pés da planta. Um dia escreverei sobre o sistema de rega. São engenhos magníficos, os tradicionais métodos de irrigação das quintas. A terra ficava escurecida, mas em vez de granulada e fofa como a lavrada e fresada, assemelhava-se a uma membrana fina tipo pano de peneira absorvente. O milho lá ia crescendo e quando já tinha talvez dois palmos, plantava-se o feijão. Assim sombreado crescia junto ao milho, que servia de estaca.


No fim do Verão já o milho estava bem mais alto do que eu, a rondar os dois metros ou um pouco mais, e as espigas dentro do conjunto de folhas em forma de tulipa já amarelas e quase prontas a ser colhidas. Era a melhor época para desaparecer umas horas e estar escondida do mundo a deambular pelo campo fora, apesar das folhas cortantes. Na ponta da espiga a barba do milho, pronta a ser enrolada em papel para ser fumada. Foi a primeira erva que fumei, antes do tabaco. E por estas duas me fiquei.


No início do Outono dava-se a colheita, o caule e folhagem iam para alimento do gado e as espigas para a ruidosa debulhadora. Escrevi inicialmente ‘para a ruidosa debulhadora antes de acabarem na máquina de moer o grão, uma espécie de bacia afunilada.’ mas tive receio (perguntava-me se seria verdadeira a memória ainda muito viva de a ver funcionar) e comecei a telefonar a vários elementos da família para me confirmarem a existência desta última geringonça. Ninguém se lembrava e temi ser fruto da minha imaginação. Quando pensava com os meus botões que só as pessoas que de facto trabalharam a quinta e as máquinas me podiam salvar, tocou o telefone e era um dos meus tios a responder à chamada que não atendera uns minutos antes. Sim, a máquina não só existia como existe, foi comprada talvez e 1976 pelos meus tios e tinha mais do que uma função: pelo menos duas já que moía farelo e farinha.


*


Estes apontamentos e outros já aqui publicados sobre o tópico Verdes são memórias de quem viveu entre o primeiro ano de idade e os doze numa quinta.


Da mesma saga existem os seguintes postais:



 

Dia 3

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15/11/2020

A ler

 


Em modo de leitura. É coisa para se estender por umas horas. Com direito a intervalos para descanso, pelas muitas portas de reflexão que abre. De Montesquieu a Scruton: 25 livros fundamentais para a direita e De Marx a Rosa Luxemburg: 25 livros fundamentais para a esquerda, no Observador. Por momentos como este já valeu a pena tê-lo subscrito há uns meses, apesar dos pesares. 


 

Longa-metragem

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A vida é feita de contradições. Não me imaginaria passar três horas a ver um filme de Mel Gibson, figura com quem antipatizo bastante. Mas fui convencida e lá passei uma madrugada a assistir a esta americanada sobre a vida de William Wallace. Valeu pela paisagem e pelas grandes cenas de preparação dos campos de batalha, que sempre impressionam, sobretudo quem como eu se nega a ver a sequência, ou seja, a batalha propriamente dita. Vale também a pena para quem pouco estudou a história de Inglaterra e da Escócia. Pode servir de aperitivo para a busca de informação mais criteriosa. E quem sabe despertar o interesse por melhores leituras.


Apesar deste tipo de filmes ou séries com base histórica, que envolvem campos de batalha e intriga palaciana, me deixarem sempre com a sensação de quem viu um viu todos, gostei de assistir ao Braveheart integralmente depois de todos estes anos em que tinha visto apenas pedaços dispersos. O maior senão é mesmo não conseguir dar crédito a Mel Gilbson, Imagino-o mais sentado à mesa do McDonald’s a dizer umas piadolas, do que a comandar os escoceses na luta pela soberania. 


*


Adenda. Obrigada a quem me chamou a atenção para a banda sonora do filme, de James Horner. Mais informação aqui.

Dia 2

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14/11/2020

Que tal?

Resolvi colocar a fotografia do mar em Vieria de Leiria no cimo e já que estava com a mão na massa, acabei por mudar o aspecto da casa. As comezinhas ficaram com um ar aceitável? Hum, parecem publicidade à abertura da época balnear ou das piscinas municipais? Aceitam-se críticas na caixa de mensagens ali na coluna da direita. Recordo que as mensagens não exigem registo e são anónimas, a menos que assinadas no corpo do texto (e mais uma vez, não é indirecta, apenas a explicação de como funciona).

Dia 1

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O Mercador de Veneza - Monólogo de Shylock


Na Wikipédia aqui e aqui.

Sábado

Antes das 13:00h - ida ao supermercado para abastecer a casa de mantimentos para o fim-semana. Fila à chuva de 5 minutos. Loja medianamente preenchida. Sem fila na caixa. Menina de sorriso radiante com a ideia de ir para casa mais cedo.


Depois das 13:00h – ida ao ecoponto. Chuva sem gabardina ou anoraque. Rua deserta.  A vista da esquina para a rua principal permite vislumbrar meia-dúzia de gatos-pingados resistentes, seja de carro, seja a pé.


Após as 14:00h - almoço. E intenção de voltar a pegar no espanador.espanador.jpgA ver se é desta.

13/11/2020

Baralhar o Calendário

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Chiu. Não contem a ninguém mas hoje nesta casa foi semi-Sábado. De modo que posso actualizar a informação sobre o Quanta. Ao que parece, à medida que vamos para um plano mais minúsculo, as verdades que fomos aprendendo sobre a existência e mensurabilidade do tempo e do espaço deixam de fazer sentido. Neste momento, estamos no ponto em que o tempo e o espaço não existem, senão em relação. O que existe é apenas a interdependência.


Peço mais uma vez que não liguem muito. Não valorizem. Sou uma fala-barato e estas tiradas ou conclusões são precipitadas – admoestam-me os que tentam perceber estas coisas com um mínimo de seriedade.

Boa sexta-feira.

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11/11/2020

11 de Novembro de 2021

O que há em mim é sobretudo cansaço


 



O que há em mim é sobretudo cansaço —


Não disto nem daquilo,


Nem sequer de tudo ou de nada:


Cansaço assim mesmo, ele mesmo,


Cansaço.


 


A subtileza das sensações inúteis,


As paixões violentas por coisa nenhuma,


Os amores intensos por o suposto em alguém,


Essas coisas todas —


Essas e o que falta nelas eternamente —;


Tudo isso faz um cansaço,


Este cansaço,


Cansaço.


 


Há sem dúvida quem ame o infinito,


Há sem dúvida quem deseje o impossível,


Há sem dúvida quem não queira nada —


Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:


Porque eu amo infinitamente o finito,


Porque eu desejo impossivelmente o possível,


Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,


Ou até se não puder ser...


 


E o resultado?


Para eles a vida vivida ou sonhada,


Para eles o sonho sonhado ou vivido,


Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...


Para mim só um grande, um profundo,


E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,


Um supremíssimo cansaço,


Íssimo, íssimo, íssimo,


Cansaço...


 


Álvaro de Campos


*


Por mim, e sob o aspecto das discussões estéreis, adiantaríamos o calendário um ano, para nos pouparmos todos à infantilidade.


À atenção dos desesperados

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Obrigada

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Obrigada, Kanes. Muito obrigada, mesmo. E uma vênia: é bom ver gente que tem mudado a face do País com bondade, empenho e desinteresse. Não percam: Manifesto do Movimento 7.9.1.a) ao Manifesto Coiso..., por Robinson Kanes.


*


É assim mesmo. Às vezes tem que ser a doer. É preciso expôr as luminárias o bafio, para que se perceba a razão do País estar no estado que está. Fartinha de gente que está convencida de ter que educar o povo estúpido, esquecendo-se de se educar a si própria e à sua sobranceria. E, já agora, esquecendo-se de dosear a ambição pessoal: o móbil único de muitos.

Simplismos

Tentando resumir o que penso sobre a questão do Chega: a melhor forma de salvaguardar e reformar a democracia  - quando a reforma se impõe para que sobreviva - é trazer a ela as reivindicações legítimas dos extremos, normalizando a situação. É assim mesmo que se esvazia os partidos que representam esse espectro de queixa – sejam de esquerda ou de direita -, dos radicalismos que comportam. Claro que a estridência evangelizadora dominante na comunicação social e redes sociais não percebe isto e continua a demonizar quem vem das alas mais à direita, insuflando-as. Como se algumas das suas queixas não fossem atendíveis. Como se não houvesse direito a existir além do extremismo de esquerda, muito bem recebido no pensamento político corrente.


Não desconheço os perigos da condescendência com o populismo e o fascismo e as lições da história. Sei bem que houve um tempo em que as próprias vítimas – como muitos judeus -, se entregaram crédulas aos carrascos. Mas do que se vê actualmente – como então, aliás -, percebo que há dois carrascos e, infelizmente, as televisões e os jornais só vêem e denunciam um deles. A forma mais imbecil de fazer deflagrar uma guerra é tomar partido cego por um dos lados, tomando-o como puro.


Outra das vantagens da normalização das alas mais à esquerda e à direita é a retirada de peso relativo ao centro, essa massa mole e esclerosada de pensamento político, causadora de muitos dos danos que hoje originam legítimas reivindicações - dos ressentidos mais à esquerda e à direita. Essa massa velha e degenerada perdeu a memória - tão embrenhada está nos jogos de interesse, burocracias e pequenas e grandes corrupções -, da função mais nobre da política: a busca pelo bem comum.  


Entretanto sobre este assunto, já havia dito qualquer coisa aqui e aqui.

A Remark You Made · Weather Report

10/11/2020

Eternos planos

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Há dias em que acordo a matutar: não há paciência para as modas da cozinha saudável, doses milimétricas de frutos secos, perdão, proteína, e exercício físico regular, mas isto assim também não pode continuar. Lá venho eu com a ladainha habitual, já nem a mim me aturo. Agora, ao saber que a cirurgia na melhor das hipóteses vai ser no início de 2022, a coisa volta a ser premente. O à vontadinha tem que acabar sob pena de não chegar aos 82 anos, nem ter o prazer de voltar a fumar um cigarrinho - o grande objectivo de vida. Nos últimos dois anos acabei com vários maus vícios como o chocolate diário e batata frita e snacks. Mas não tenho o menor cuidado com os hidratos de carbono nem com os queijos e lacticínios em geral. As grandes pechas da minha alimentação. 

 

Talvez voltar a cozinhar sempre. Fazê-lo diariamente, prescindindo da ubereats e do take away. Seria um bom princípio. Mas dá trabalho e rouba-me tempo para outros passatempos que me dão mais gozo. Hum. Talvez se voltasse a fazer um plano semanal de ementas a coisa resultasse. E se pegasse num dos planos das empenhadas nutricionistas que conheci. E assim deambulo nos projectos sem os concretizar. Bom, mas se pensar bem, já tive outras conquistas. Conseguimentos, como dizia a outra. Na batalha entre a obstinação e a inconsequência às vezes lá ganha a teimosia (a tentar convencer-me que é possível mudar de rumo). Bem, jantar. Vou investir nos jantares e relaxar nas sopas compradas para o almoço. Talvez não seja má opção. 


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08/11/2020

A boa educação

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...não me permite fazer o gesto que me apetecia fazer agora ao ouvir (não há cá primeiro-ministro ou ausência de artigo definido) o Costa. Por isso, tiro-lhe a fotografia que merece. Até agora achava que éramos governados por incompetentes, percebi finalmente que são absolutamente chanfrados.


*


Resposta ao não têm o direito a estar cansados:


sejamos adeptos do BRUNCH!

07/11/2020

Xícaras & Canecas

Em novita tive a mania das mugs. Ao contrário de muitos, nunca aderi à repulsa pelas americanices, nem ao velho ódio cultivado pela intelectualidade e aristocracia europeia. Para além dos filmes, adorava histórias de índios e cowboys, tinha à minha disposição árvores e hectares suficientes para espraiar o gosto pelos jeans, chapéus de abas, espingardas, correrias e brincadeiras.


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Na casa dos vinte (isto assim soou a Luanda) quando tudo isso já parecia longínquo, sobravam os jeans e o gosto pelas grandes canecas de café. Não renego a América, sobretudo a da minha imaginação. Estou em paz com ela, mesmo quando me lembro da minha avó a referir-se, com todo o desapreço que uma senhora conservadora é capaz, à terra de vendedores de pentes de plástico (uma alusão enviesada à derrota dos franceses na Indochina). Talvez o mesmo desapreço que a minha trisavó, em viagem pela Europa, demonstrava pelas óperas (de Rossini?) a que assistia. A religiosidade não devia permitir que gostasse, presume a minha mãe ao almoço, quando nos vai relatando – ao longo das últimas semanas – a viagem que a minha trisavó fez com a irmã e os pais pela Europa fora. Hoje o relato incidiu sobre a visita ao The Crystal Palace em Londres e a ida a Ascot, em 1865. Por alguma coisa me perco no tempo, habituei-me desde criança a almoçar com a minha avó que contava histórias de família passadas há duzentos anos com a mesma naturalidade e graça com que narrava as passadas há dois dias. Agora é a vez da minha mãe me encantar. Uma delícia de diário relatado. Preciosidades. O objecto em si e a narrativa da bisneta, com muito traquejo em cortar caligrafias difíceis, pelos anos que se dedicou a fazer o levantamento demográfico da Póvoa do Varzim. Passei anos a ver a minha mãe casar pescadores fenecidos desde há quinhentos anos (e não, não é exagero). Nessa altura, limitava-me a dizer: a minha mãe lá anda, a casar mortos. E agora, ao ler o que escrevo, percebo o quão felizarda sou e o privilégio imenso que sinto ao entrar ali ao lado, no escritório do Nuno, e vê-lo conversar com minha mãe, que segura um livro sobre física quântica. Hoje entraram em perplexidade absoluta: dizem que não conseguiram perceber nada. Talvez seja verdade, porque notei no tom de voz de ambos a apreensão. O tempo e o espaço são descontínuos. Parece que o Quanta não se quer mostrar fácil. Descobriram hoje e partilharam comigo que o universo é uma espécie de granulado. Digamos que há partes de nada. Ocas de existência. Eles esforçam-se e preocupam-se em perceber e eu limito-me a ficar com pena de que metade do meu peso não seja feita desse nada que se aprende na física. À parte disso, a mim cumpre-me apenas a tarefa de ao longo do tempo ir comprando os livros que fazem parte do programa pós almoço de Sábado. Que me lembre as leituras passaram por contos de Huxley, astrofísica, contos portugueses reunidos em antologia, e agora física quântica. A última parada é alta. Acontece que os tenho por perto e, há dois anos, deu-me um gosto danado ver a minha mãe começar a interessar-se por física aos setenta e cinco. Estou tão consciente da minha ignorância, quanto certa de estar cercada e me cercar de pessoas absolutamente extraordinárias. Julgo que será a minha principal qualidade. Eles vão lendo, vão estudando, discutindo e rindo (é tão bom ouvi-los) e a mim compete apenas qual formiga ir à Bertrand ou à Feira do Livro trazer alimento para casa e qual formiga viver abrigada no Inverno.


Mais tarde comecei a emparelhar xícaras de café. Gostava de pares. Talvez tenha sido a fase casamenteira. Só se manifestou nas xícaras, graças a Deus. Tive juízo suficiente para não oficializar parelhas, para as quais sabia desde a adolescência não ter talento suficiente. O grande senão é ter estragado a longa tradição via feminina de casamentos muito tradicionais. Tresmalhei a longa tradição e ainda por cima pus fim à linhagem de Isabéis. Às vezes, sinto um pouco como se tivesse tirado uma lata de atum da base da pirâmide, e ela tivesse desabado toda em grande estrondo. Desculpem qualquer coisinha, foi sem querer. Tremenda falta de jeito, admito.


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E depois há ideias que me preocupam mais do que as americanices e as eleições na terra de vendedores de pentes de plástico, ou o universo feito de grãos. Por que carga de água as canecas de café desemparelham? A mania dos últimos dez anos são as canecas um pouco mais pequenas de café. Ora, compro sempre duas diferentes. Talvez em memória da minha avó, que ralhava quando a serviam em xícaras mal casadas, ou seja, com pires que não pertencessem àquela mesma xícara. Gosto delas de cores diferentes: um nadinha mal casadas. Mas elas teimam em piorar as coisas, e partem-se sempre que estão em par, deixando a outra viúva. O que me preocupa hoje é: por que carga de água quando compro duas canecas, ao fim de um ano ou dois, uma parte-se e a que fica viúva mantém-se eternamente? Esta sim parece uma lei da física que gostava que me explicassem. E notei isto sempre nas muitas casas que conheci desde criança: há sempre xícaras e canecas eternamente desemparelhadas.


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Entretanto é fim de tarde de Sábado, toca a campainha e o meu pai sobe com um saquinho de fotogénicas malaguetas – colhidas do vaso da varanda - e a boa disposição habitual. Piri-piri, o pique que faltava ao postal de hoje.


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06/11/2020

Johnny Marr - There is a light that never goes out (The Smiths)

Futuro

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As elites e as populações pedem fanáticos ao mesmo tempo que, hipocritamente, os esconjuram. Está o caldinho pronto a servir a tirania, seja de que natureza ideológica for. Nada de novo nestas linhas: a ingenuidade do costume, que o sarcasmo dos intelectuais não tolera pelo perigo que comportam os simplismos e a ignorância alçada a opinião. Chamam-lhe estupidez. Sigo, ainda assim.


Como fazer perceber que não é na normalidade, mas nos tempos difíceis que mais se impõe o estofo da lucidez. A questão colocou-se várias vezes a propósito da actuação dos nossos governantes e autoridades nos últimos meses. Creio que no espírito de muitos perpassa este pensamento: não é possível fazer diferente. Ideia com que contam os detentores do poder. O mundo não estava preparado para a pandemia, estamos a adaptar-nos e a fazer o melhor possível. Nada como responsabilizar todos por igual pelo mal que aconteça (quando o poder de decisão está nas mãos de alguns, apenas) e desvalorizar a restrição das liberdades individuais (como se fosse uma inevitabilidade). Como fazer perceber que as instituições democráticas e os seus representantes não foram eleitos para dar um passeio no parque. Que as instituições e as leis existem para os bons e os maus momentos, estando a diferença efectiva no carácter e preparação de quem nos representa, governa e preside. E que, neste momento, devemos exigir que defendam os interesses de todos, honrem as instituições democráticas e respeitem a lei.


É sabido que existe em grupo de gente que está do contra (às vezes, a favor) por mero desporto. Como se jogasse bridge ou esgrima. As elites alcoviteiras encaram a democracia como um jogo lúdico entre amigos, conhecidos e rivais. Sobretudo entre interesses. Sentam-se há anos nas mesas dos debates televisivos e virtuais, como se pegassem num florete e, assim, alapados numa cadeira confortável, esgrimissem o acumulado de razões bem estudadas, mas pouco sentidas. É frustrante vê-las argumentar tantas vezes com acerto, pondo até o dedo na ferida – veja-se o exemplo da falta de antecipação das crises hospitalares -, mas sabê-las absolutamente indiferentes ao sofrimento provocado pelos erros de governação. Saber que o fazem como arma de arremesso ideológico ou partidário. Utilizarem este mesmo argumento, apesar de usarem e abusarem do mesmo vício e de, no cúmulo da desfaçatez, acusarem de desonestidade intelectual cada incauto que ousa questionar a sua douta opinião. Perceber que não produziriam diferente nem nunca tiveram intenção de fazer diferente. E saber que não fazem ou fizeram quando estiveram em posição de o fazer. E pior: pensar que não raro nem razões ideológicas ou partidárias existem, mas simples prazer lúdico. Retórica para deleite próprio ou de um grupo de apaniguados.


Insisto na crítica aos fazedores de opinião, por estar convencida de que enquanto tivermos tão rasteira elite pensante – e não gente independente com pensamento focado no interesse público -, nada de bom pelo País se fará na governação. É dela que emanam, em círculo vicioso, os nossos governantes. É ela que os mantém, conferindo-lhe legitimidade com críticas inócuas, as tais que permitem a continuidade da corrupção. O bridge dos comentadores transformado em governação dá nesta mediocridade de País que temos sido. Cheio de si, cheio de opinião. E sem coragem, sem generosidade, sem outro talento que não seja para a tagarelice e intriga inconsequente, mas muito estudada. Muito preparada. Muito conhecedora.


Ao lado dos que opinam por diversão, uma minoria com grande influência na opinião pública, estão os seguidores dos sound bites. De ouvido pouco selectivo, inclinam para o lado de maior ruído. São parte importante dos utilizadores das redes sociais. A principal característica é considerarem-se tão sábios quanto os comentadores profissionais, com a desvantagem de não terem estudado as matérias sobre as quais opinam. São, por isso, uma massa acrítica, preparada para debitar todos os dislates pregados pelo pivot televisivo com maior impacto no momento. Gente afoita, com vontade de sair à rua para se manifestar pelas grandes causas dos pobres e oprimidos que a televisão e as redes decretarem a cada dia.


É isso. As elites viciadas – por dependência do poder, dos lugarzitos, dos interesses - e as populações sem discernimento pedem fanáticos ao mesmo tempo que, hipocritamente, os esconjuram. Está o caldinho pronto a servir a tirania, seja de que natureza ideológica for. Só precisa de vir em pacote ruidoso e conservar os interesses egoístas das elites.


*


O que fazer para inverter a tendência? Ceder. Parar de diabolizar quem pensa de modo diferente da metade do mundo altifalante, que tem vindo a impôr o pensamento único. Ceder. Perceber as razões que levaram tantos milhões de pessoas a votar em Trump – como poderão votar num qualquer extremista noutro ponto do mundo. Entender que há razões atendíveis e que o programa de lavagem cerebral levado a cabo pela esquerda radical, pelos identitários e fanáticos de vária ordem estão a causar reacção virulenta e a minar o mundo civilizado.

A ler

Para variar e desenjoar da onda de delírios que por aí corre, talvez um pouco de lucidez. Leia-se Não está a ser como esperavam, pois não?, de Rui Ramos. E O grande ogre, de Jaime Nogueira Pinto.


*


A realidade é uma chatice. São tão aborrecidos factos a contrariar as predicas que tomaram conta da comunicação social e de boa parte das redes sociais. A democracia é uma maçada quando nos desmente. Do insulto básico às complexas e criativas teorias para demonstrar a falência norte-americana e, em especial, a menoridade da sua população quando comparada com os ilustríssimos e doutos europeus, vale tudo. Menos olhar para a realidade presente e perceber o que se passa. 

I know it´s over


05/11/2020

Soberba

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O mundo está suspenso: Trump é a horrenda figura que reflecte o desprezo pela humanidade, na fraqueza e virtude. Percebe-se que homens e mulheres que só têm certezas estejam muito aflitos ao rever-se ao espelho.


Desculpem, mas já vos falei da soberba? Podia nascer uma alma milenar com o propósito único de bater nesta tecla que não adiantaria. Há pezinhos que - tamanha é a necessidade de afirmação -, fogem sempre para os socos e para a necessidade de calcar. A soberba instalou-se no mundo a tempo inteiro.  O mundo está cheio de ‘trumpezinhos’ mais ou menos dissimulados, mais ou menos letrados. Os arrogantes são aos magotes - por esse planeta fora, estão tão do lado republicano como democrata -, podem ser lidos e ouvidos, estão cheios de si e a única diferença entre uns e outros, é que os mais letrados são bastante mais estúpidos e perigosos (apesar se serem os que mais usam este argumento contra os que chamam imbecis) e, nem percebem que as críticas que dirigem ao trumpismo são auto-críticas inconscientes.


A única pergunta que se coloca hoje:  vamos passar mais quatro anos a espelhar a estupidez do mundo ou a disfarçá-la? É tão fácil pregar a tolerância, quanto difícil praticá-la.