
As elites e as populações pedem fanáticos ao mesmo tempo que, hipocritamente, os esconjuram. Está o caldinho pronto a servir a tirania, seja de que natureza ideológica for. Nada de novo nestas linhas: a ingenuidade do costume, que o sarcasmo dos intelectuais não tolera pelo perigo que comportam os simplismos e a ignorância alçada a opinião. Chamam-lhe estupidez. Sigo, ainda assim.
Como fazer perceber que não é na normalidade, mas nos tempos difíceis que mais se impõe o estofo da lucidez. A questão colocou-se várias vezes a propósito da actuação dos nossos governantes e autoridades nos últimos meses. Creio que no espírito de muitos perpassa este pensamento: não é possível fazer diferente. Ideia com que contam os detentores do poder. O mundo não estava preparado para a pandemia, estamos a adaptar-nos e a fazer o melhor possível. Nada como responsabilizar todos por igual pelo mal que aconteça (quando o poder de decisão está nas mãos de alguns, apenas) e desvalorizar a restrição das liberdades individuais (como se fosse uma inevitabilidade). Como fazer perceber que as instituições democráticas e os seus representantes não foram eleitos para dar um passeio no parque. Que as instituições e as leis existem para os bons e os maus momentos, estando a diferença efectiva no carácter e preparação de quem nos representa, governa e preside. E que, neste momento, devemos exigir que defendam os interesses de todos, honrem as instituições democráticas e respeitem a lei.
É sabido que existe em grupo de gente que está do contra (às vezes, a favor) por mero desporto. Como se jogasse bridge ou esgrima. As elites alcoviteiras encaram a democracia como um jogo lúdico entre amigos, conhecidos e rivais. Sobretudo entre interesses. Sentam-se há anos nas mesas dos debates televisivos e virtuais, como se pegassem num florete e, assim, alapados numa cadeira confortável, esgrimissem o acumulado de razões bem estudadas, mas pouco sentidas. É frustrante vê-las argumentar tantas vezes com acerto, pondo até o dedo na ferida – veja-se o exemplo da falta de antecipação das crises hospitalares -, mas sabê-las absolutamente indiferentes ao sofrimento provocado pelos erros de governação. Saber que o fazem como arma de arremesso ideológico ou partidário. Utilizarem este mesmo argumento, apesar de usarem e abusarem do mesmo vício e de, no cúmulo da desfaçatez, acusarem de desonestidade intelectual cada incauto que ousa questionar a sua douta opinião. Perceber que não produziriam diferente nem nunca tiveram intenção de fazer diferente. E saber que não fazem ou fizeram quando estiveram em posição de o fazer. E pior: pensar que não raro nem razões ideológicas ou partidárias existem, mas simples prazer lúdico. Retórica para deleite próprio ou de um grupo de apaniguados.
Insisto na crítica aos fazedores de opinião, por estar convencida de que enquanto tivermos tão rasteira elite pensante – e não gente independente com pensamento focado no interesse público -, nada de bom pelo País se fará na governação. É dela que emanam, em círculo vicioso, os nossos governantes. É ela que os mantém, conferindo-lhe legitimidade com críticas inócuas, as tais que permitem a continuidade da corrupção. O bridge dos comentadores transformado em governação dá nesta mediocridade de País que temos sido. Cheio de si, cheio de opinião. E sem coragem, sem generosidade, sem outro talento que não seja para a tagarelice e intriga inconsequente, mas muito estudada. Muito preparada. Muito conhecedora.
Ao lado dos que opinam por diversão, uma minoria com grande influência na opinião pública, estão os seguidores dos sound bites. De ouvido pouco selectivo, inclinam para o lado de maior ruído. São parte importante dos utilizadores das redes sociais. A principal característica é considerarem-se tão sábios quanto os comentadores profissionais, com a desvantagem de não terem estudado as matérias sobre as quais opinam. São, por isso, uma massa acrítica, preparada para debitar todos os dislates pregados pelo pivot televisivo com maior impacto no momento. Gente afoita, com vontade de sair à rua para se manifestar pelas grandes causas dos pobres e oprimidos que a televisão e as redes decretarem a cada dia.
É isso. As elites viciadas – por dependência do poder, dos lugarzitos, dos interesses - e as populações sem discernimento pedem fanáticos ao mesmo tempo que, hipocritamente, os esconjuram. Está o caldinho pronto a servir a tirania, seja de que natureza ideológica for. Só precisa de vir em pacote ruidoso e conservar os interesses egoístas das elites.
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O que fazer para inverter a tendência? Ceder. Parar de diabolizar quem pensa de modo diferente da metade do mundo altifalante, que tem vindo a impôr o pensamento único. Ceder. Perceber as razões que levaram tantos milhões de pessoas a votar em Trump – como poderão votar num qualquer extremista noutro ponto do mundo. Entender que há razões atendíveis e que o programa de lavagem cerebral levado a cabo pela esquerda radical, pelos identitários e fanáticos de vária ordem estão a causar reacção virulenta e a minar o mundo civilizado.