Tentando resumir o que penso sobre a questão do Chega: a melhor forma de salvaguardar e reformar a democracia - quando a reforma se impõe para que sobreviva - é trazer a ela as reivindicações legítimas dos extremos, normalizando a situação. É assim mesmo que se esvazia os partidos que representam esse espectro de queixa – sejam de esquerda ou de direita -, dos radicalismos que comportam. Claro que a estridência evangelizadora dominante na comunicação social e redes sociais não percebe isto e continua a demonizar quem vem das alas mais à direita, insuflando-as. Como se algumas das suas queixas não fossem atendíveis. Como se não houvesse direito a existir além do extremismo de esquerda, muito bem recebido no pensamento político corrente.
Não desconheço os perigos da condescendência com o populismo e o fascismo e as lições da história. Sei bem que houve um tempo em que as próprias vítimas – como muitos judeus -, se entregaram crédulas aos carrascos. Mas do que se vê actualmente – como então, aliás -, percebo que há dois carrascos e, infelizmente, as televisões e os jornais só vêem e denunciam um deles. A forma mais imbecil de fazer deflagrar uma guerra é tomar partido cego por um dos lados, tomando-o como puro.
Outra das vantagens da normalização das alas mais à esquerda e à direita é a retirada de peso relativo ao centro, essa massa mole e esclerosada de pensamento político, causadora de muitos dos danos que hoje originam legítimas reivindicações - dos ressentidos mais à esquerda e à direita. Essa massa velha e degenerada perdeu a memória - tão embrenhada está nos jogos de interesse, burocracias e pequenas e grandes corrupções -, da função mais nobre da política: a busca pelo bem comum.
Entretanto sobre este assunto, já havia dito qualquer coisa aqui e aqui.