Oiço ao longe a voz do nosso Presidente da República. Prescindi de o ouvir nesta divisão da casa – onde reina o quase silêncio -, como medida profiláctica. Hoje à hora de almoço tive a oportunidade de sentir o medo estampado na cara e na voz de uma empregada doméstica, que se indignava em tom pesaroso contra as pessoas que andam sem máscara e não têm cuidado nenhum, e agora só se ouve falar em grandes festas e essas coisas. Concluindo: isto está muito mau e tudo vai depender de como as pessoas se portarem.
Depois desta amostra, fiquei logo ciente de não precisar de ouvir o nosso Presidente ou o Primeiro-Ministro. O trabalhinho já havia sido feito e o nosso destino estava marcado.
Há momentos em que acredito que há progressos e que o juízo vai acabar por imperar, mas depois caio em mim e noto que isto vai num crescendo. Há meio ano, na primeira vaga, o lema era: fiquem em casa, que vai ficar tudo bem. Agora na segunda: ponham a máscara, tentem não sair, guardem a distância física a ver se não isto não piora muito por vossa culpa. Lá para a terceira já devemos estar no patamar: denunciem e castiguem os maus exemplos para evitar que morramos todos. E, finalmente, na quarta vaga, presumo que tenhamos: há que sacrificar prevaricadores para salvar a humanidade e ganhar o reino dos céus. A vacina chegará antes da quinta vaga, mesmo a tempo da governação e presidência se congratularem com novo milagre português do baralha, parte e volta a dar, mantendo a população na ignorância e os governantes inimputáveis.
A arte de governar sacudindo a água do capote. Ou, na boa sabedoria chinesa: a arte de enfraquecer o povo. E voltamos ao mesmo.
