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22/11/2020

O real

É sempre difícil fazer perceber que cada um de nós não é barro moldável nas mãos das verdades universais. E que a dor não é democrática. Como explicar que a injustiça é cruel e real. E fazer entender que muita da conversa da superação, do domínio total sobre as nossas acções é uma ilusão própria de vidas mais fáceis. E que a facilidade às vezes dá ares de grandes trabalhos e feitos, tratando-se afinal de mera decorrência de impulsos de natureza e circunstância que pouco têm a ver com a vontade, o carácter e a acção de cada um. Sei, já disse isto trinta vezes. Mas há sempre um dia em que volta a fazer sentido bater na mesma tecla. E sorrir com a nossa própria anterior ingenuidade, quando assim também pensávamos.


Como mostrar a quem na realidade nunca se perdeu, que a vida nos dobra e subjuga de modo aleatório. Sem racionalidade ou justeza de espécie alguma. Como pedir que não nos queiram fazer à imagem de outrem. E exijam que ofereçamos o céu quando foi no inferno que nos moldámos.