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11/11/2020

11 de Novembro de 2021

O que há em mim é sobretudo cansaço


 



O que há em mim é sobretudo cansaço —


Não disto nem daquilo,


Nem sequer de tudo ou de nada:


Cansaço assim mesmo, ele mesmo,


Cansaço.


 


A subtileza das sensações inúteis,


As paixões violentas por coisa nenhuma,


Os amores intensos por o suposto em alguém,


Essas coisas todas —


Essas e o que falta nelas eternamente —;


Tudo isso faz um cansaço,


Este cansaço,


Cansaço.


 


Há sem dúvida quem ame o infinito,


Há sem dúvida quem deseje o impossível,


Há sem dúvida quem não queira nada —


Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:


Porque eu amo infinitamente o finito,


Porque eu desejo impossivelmente o possível,


Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,


Ou até se não puder ser...


 


E o resultado?


Para eles a vida vivida ou sonhada,


Para eles o sonho sonhado ou vivido,


Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...


Para mim só um grande, um profundo,


E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,


Um supremíssimo cansaço,


Íssimo, íssimo, íssimo,


Cansaço...


 


Álvaro de Campos


*


Por mim, e sob o aspecto das discussões estéreis, adiantaríamos o calendário um ano, para nos pouparmos todos à infantilidade.