
Pesquisar neste blogue
31/03/2022
Falsidade
Das pechas que mais abomino por implicar manifesta falta de carácter é a desconsideração dos que se amam ou gostam e o enaltecimento de outros por pura conveniência. Quantas vezes nos deparamos com sujeitos que desprezam pessoas queridas ou próximas ou simplesmente pessoas de quem gostam e de quem muito recebem: desconsideram-nas por acharem manifestações de agrado ou simples delicadeza desnecessárias, pouco atraentes, incómodas ou inapropriadas, beneficiando isso sim através do elogio ou de acções de favorecimento mais palpáveis outros sujeitos sem especial valor só por representarem o que é tido momentaneamente por atractivo, conveniente e vantajoso.
É gente que merece a solidão no meio da multidão de falsos amigos. Normalmente, é assim que vivem.
Tílias - Cozinhotes
Da mesma saga existem os seguintes postais:
Fragmento 1. Tílias - Rua N. S. de Fátima
Fragmento 2. Tílias - Compor os Sonhos
Fragmento 3. Tílias - Brilho e Falsidade
Fragmento 4. Tílias - Rua General Torres e Brasil
Fragmento 5. Tílias - Filha e Maternidade
Fragmento 6. Tílias - 11 de Setembro 2001
Fragmento 7. Tílias - Chave em Christchurch
Fragmento 8. Tílias - Maçãs e Batatas
Fragmento 9. Tílias - Jerusalém há 2000 anos
Fragmento 10. Tílias - Avó
Fragmento 11. Tílias - Virinha
Fragmento 12. Tílias - Sonhos
Fragmento 13 - Tílias - Livros da Infância
Fragmento 14 - Tílias - Café
30/03/2022
Cozinhar
Sendo incapaz de estar sossegada ou sem ideias e planos futuros, ainda que a maioria fique suspenso ou se perca, enquanto estive fora pensei em fazer obras em casa. Como a sala neste apartamento é muito pequena pensei em deitar abaixo uma parede (não faz parte da estrutura) e prescindir de um dos quartos para estendê-la. Para além de outras alterações mais pequenas, já tinha o plano todo traçado e as divisões mobiladas mentalmente. Ontem quando acordei da sesta estava mais lúcida e pensei: se fosse para ficar nesta casa em definitivo podia fazer sentido, mas à velocidade que mudas de casa é uma estupidez. Seria fazer obras para retirar valor ao apartamento que passaria a tipologia inferior. Desisti. Vou-me ficar apenas pela nova cabine de chuveiro.
Posto isto, hoje tive que arranjar outro tema para me entreter. Sabendo que preciso recomeçar a cozinhar e convém ter ideias para pratos que me desfaçam o tédio de ter que pensar todos os dias na ementa fui procurar uns caderninhos de receitas da Círculo de Leitores. Não era exactamente o que queria, já que o que procuro é receitas de pratos vulgares da cozinha portuguesa para aprender os truques que no dia-a-dia acabamos esquecer e facilitar tornando-os desenxabidos. O melhor será pedir à minha mãe o livro de receitas manuscrito. Isso sim. Aprender a fazer as Lulas à Bordalesa com arroz, o meu prato favorito em criança. Se bem que estes livrinhos da Círculo de Leitores têm as Lulas Recheadas que a minha mãe também fazia e eram bem boas.
De qualquer modo, por agora vou colocar aqui uma selecção de receitas da dita Colecção Bom Apetite - nome de um mau gosto atroz -, da Círculo de Leitores. É sempre bom ter umas ideias para massas, saladas e tortilhas. O engraçado destes livritos é ver com as modas das receitas são datadas. Na primeira década desde século tudo eram as courguettes, que entretanto passaram de moda para dar lugar a outros vaipes das marés culinárias. Aqui ficam as de há uma década e meia.

Legumes


Massas




Saladas





Batatas






Marisco



29/03/2022
28/03/2022
Diário
Não conhecia nem conheço, senão destas estadas, nenhum elemento da equipa médica, de enfermeiros e auxiliares. Ao fim de 11 dias neste hospital, à parte de pequenos momentos de desorganização tudo quanto devo realçar é o cuidado, a dedicação e até delicadeza de todos.
Na madrugada de 17 para 18 quando me debatia com dores agudas ponderei chamar um Uber e ir para os Lusíadas ou o Arrábida (onde já fui operada há 7 anos). Estava convencida que iria tomar uma injecção e voltar para casa no próprio dia. Se o tivesse feito a esta altura do campeonato já teria deitado as mãos à cabeça apesar da comparticipação da Médis. O facto de ter cá feito o bypass gástrico e saber que a crise de pedras da vesícula ser uma complicação possível decorrente da perda rápida de peso, levou-me a decidir chamar o 112 para me trazer para o Santo António. Desde o momento que pus os pés na ambulância até à boa disposição com que acordei hoje da anestesia e agora em que estou prestes a levantar-me, quase tudo foram bons modos, disponibilidade e cuidado.
Como há 15 anos só posso estar agradecida ao SNS.
27/03/2022
Ponto de situação
Ainda não é desta que termino o primeiro Espanador. Falta-me a Nova Zelândia e confesso que não tenho apelo especial para escrever sobre a terra da grande nuvem branca. Hoje estive nas leituras prévias, mas não consigo espremer nada para que saia um postal que me contente. No caso da Coreia do Norte já tinha feito as leituras há dois meses, mas quando o disco pifou fiquei sem as notas que tinha tomado desde a pré-história. Acabei por isso por me limitar ao século XX.
Estive a congeminar e o próximo Espanador vai incidir sobre países europeus, precisamente aqueles sobre os quais se parte do princípio tudo saber quando, se formos francos, há grandes lacunas de conhecimento sobre aspectos básicos. Como é meu timbre admito a ignorância e estou com vontade de me dedicar à história da Inglaterra e do Reino Unido.
Em novita engoli a enciclopédia geográfica, tendo estudado a história de todos os estados independentes existentes à época, mas ninguém dirá. Repito uma vez mais aquilo que já aqui disse variadas vezes: tenho memória de peixe. Dificuldade em reter na memória o que absorvo. Cada um é como cada qual e não há como insistir. O Espanador é uma forma de me obrigar a fazer leituras sobre aquilo que me interessa e escrever os postais em regra um exercício de puro gozo ao mesmo tempo que fico na expectativa de reter informação útil sem a pretensão dos registos de grande desenvolvimento e aparente profundidade tantas vezes absolutamente desinteressantes e artificiais - excluo naturalmente os casos dos verdadeiros conhecedores que conjugam a capacidade de penetração e aprofundamento da história com capacidade analítica e verdadeira aptidão para estruturar o pensamento. Fora destes casos o pretenso conhecimento repele-me, sobretudo, quando anda de mãos dadas com a doutrinação e revela a pequenez espiritual dos autores. É caminho por onde não tenciono enveredar nunca, a menos que perca o juízo e o amor-próprio.
Teatro
No último ano penso a vontade de assistir a uma peça de teatro. Nunca ganhei o hábito, tendo ido muito poucas vezes em novita ao Teatro. Li no Observador que a Seiva Trupe tem novo poiso no início da Rua Costa Cabral, e vem mesmo a calhar. Afinal em meia hora a pé estamos lá.
Acabei também por ver a programação noutras salas, como a da Casa Allen. A ver vamos se nos próximos meses supro mais essa lacuna na minha vida. Por agora inclino-me para os clássicos, poupando-me aos experimentalismos e doutrinações. Enfim, quando escolher e for assistir a uma peça aqui darei nota da experiência.
26/03/2022
O espanador - Coreia do Norte

16. Coreia do Norte
A anexação da Península da Coreia em 1910 pelo Império Japonês originou natural revolta dos coreanos e durante a Segunda Guerra Mundial fê-los juntarem-se ao esforço de guerra dos norte-americanos no fito de recuperarem a independência. Sucede que com o fim da guerra as duas potências vitoriosas acordaram na Conferência de Potsdam que a Península da Coreia fosse dividida em duas zonas de influência com ocupação militar provisória assente no marco divisório Paralelo 38: a zona norte ficou sob domínio soviético e a parte sul sob influência americana. Em 1950 a Coreia do Norte, com apoio soviético e mais tarde a participação chinesa, invadiu a Coreia do Sul com intenção de reunificar o país sob o comando de Kim Il Sung. Do lado da Coreia do Sul houve intervenção de tropas americanas. Em 1953 o armistício de Panmunjom determinou uma trégua que pôs fim ao conflito sem que viesse a ser assinado um verdadeiro tratado de paz.
Na Coreia de Norte vingou um regime comunista pró-soviético de partido único concentrado na industrialização e na auto-suficiência, que veio a perder o apoio russo em razão da cisão sino-soviética. A partir dos anos 70 a economia norte-coreana começou a decair com a crise energética provocada pela crise petrolífera passando a estar altamente endividada. Nos anos 90 estima-se que 800 mil pessoas tenham morrido de fome.
É difícil perscrutar o que se passa na Coreia do Norte atenta a ausência de informações sobre o que se passa neste país isolado do resto do mundo com um governo norteado por uma política extremista, com total opressão interna e intenções de agressão externa. Um país onde existe trabalho escravo e execuções públicas. Além de reconhecido como pólo de actividades cibernéticas maliciosas. É por isso de extrema importância o testemunho de quem está dentro dessa bolha tenebrosa que é a vida norte-coreana.
A realizadora do filme Soup and Ideology Yonghi Yang conta em documentários a história da família - coreanos emigrados no Japão em busca de uma vida melhor, com toda a envolvente de discriminação associada e a particularidade da comunidade coreana no Japão espelhar o conflito norte/sul do país de origem. Descreve a sedução no pós-guerra da primeira facção pela Revolução Comunista. Relata a forma como nos anos 70 o pai, entusiasta do regime socialista da Coreia do Norte, deu os três filhos rapazes adolescentes como uma espécie de presente de aniversário a Kim Il Sung, enviando-os orgulhosamente para o país de origem para viver na capital, Pyongyang. E a forma como pouco depois os pais se aperceberam do erro que cometeram ao receberem cartas dos filhos, nas quais se mostravam sempre muito agradecidos e tecendo louvores à Coreia do Norte ao mesmo tempo que juntavam fotografias dos próprios cuja magreza extrema os denunciava famintos. A realizadora descreve que esteve mais de uma década sem ver os irmãos e quando autorizada a visitar a Coreia do Norte, os viu por breves minutos, sendo orientada a usar o tempo nas visitas a museus laudatórios da história da Revolução.
A génese do programa nuclear da Coreia do Norte, intensificado nos anos 80/90, remonta aos anos 60/70 quando a União Soviética forneceu o primeiro reactor e foi construído o segundo - em resposta às pré-existentes ogivas nucleares na Coreia do Sul instaladas pelos Estados Unidos. Os norte-americanos negociaram nos anos 90 troca de ajuda económica pelo desmantelamento do programa nuclear norte-coreano, que nunca se concretizou, tendo-se a Coreia do Norte desvinculado do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares em 2003, continuando a desenvolver e modernizar armas nucleares e misseis balísticos, em violação das resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas. No último ano Kim Jong Un tem promovido o lançamento de diversos misseis balísticos e ameaçou suspender a moratória de quatro anos quanto a testes nucleares e lançamento de mísseis balísticos intercontinentais.
Desta saga existem nas Comezinhas as entradas abaixo indicadas, muito desiguais entre si.
25/03/2022
Abafo
As paixões passam: vividas e devaneadas. Consomem o que têm de melhor, os ímpetos, os sonhos, a vontade. Labaredas descontroladas não se compadecem do razoável e conveniente. Bem pode dizer que é perda de tempo, que é de todo inadequado ou mesmo nocivo, mas entrega-se em silêncio ao homem ou à ideia de um homem, imprudente, de mãos abertas, sem freio, absorvendo o mundo que ele transporta. Eis que o tempo vai passando, depara-se com ilusões e enganos. O fogo vivo faz-se brasa mais quieta. O assomo de realidade, de contrariedades, de pé no chão faz-se abafo. A brasa dos sonhos desencantados amorna até se transformar em cinza para adubar um coração mais sofrido, mais rico. Saiba ele fazer chegar à mioleira o que aprendeu.
Diário
Mais uma semana retida. E na segunda-feira a cirurgia. Resta por isso conformar-me a ter que passar mais uma semana reclusa e arranjar o que fazer. Nada como aproveitar o tempo para acabar a primeira série do Espanador. É a isso que me vou atirar neste fim-de-semana. Entretanto há também um laivo de postal na cabeça sobre articulação da actual guerra e as implicações dos principais actores geopolíticos com uma ideia em que venho a insistir nos últimos meses: a virtualização da realidade. Não me atiro já a escrevê-lo por acarretar dizer exactamente o que penso sobre algumas posições dos actores políticos e o terreno da opinião estar minado. É preciso ser cuidadosa, não por medo de ser acusada de ter posições inaceitáveis, mas por não ser compreendida. Não é que me doa a crítica ou isolamento, mas o certo é que os rótulos voluntariosos impedem a comunicação, tornando-a supérflua. Não adianta dizer o que se pensa se quem lê tiver uma postura de total relutância baseada no preconceito ou em visões maniqueístas.
Num registo completamente diferente tenho lido a Matemática para Pessoas com Pressa, e confirmo a minha extrema dificuldade no campo da lógica. Julgo que quando tiver tempo será melhor ler o livro a meias com o Nuno, sempre me vai iluminar uma ou outra ideia e desembaraçar os meus embrutecimentos na área das ciências.
24/03/2022
23/03/2022
Sinais preocupantes
- Poland Expels 45 Russian Diplomats for Espionage
- ‘Clear sign’ Putin is weighing up use of chemical weapons in Ukraine, says Biden
Duas notícias que deixam sinais preocupantes. A primeira face à Polónia ser Estado-membro da NATO e a noção que guardo do tempo de estudo e interesse pelo direito internacional do grau de gravidade implícito num corte de relações diplomáticas. A segunda desde logo pela perigosidade de colocar a hipótese do uso de armas químicas, mas também pelo sinistro que tem sido este constante mapear prospectivo dos acontecimentos por Joe Biden nos últimos dois meses, que os russos dizem tomar por uma espécie de espicaçar ou provocação. Em abono da verdade, gelo a cada declaração deste tipo de Biden. É sinistro. Dirão que é tão só a antecipação dos passos do inimigo, e correspondente aviso ao mundo. Não me parece tão linear, muito menos desinteressado. Espero que escrever isto não signifique para algumas almas ser pró-Putin. Não pondo em causa a importância de definir posição e de declarar apoio à Ucrânia, que continua a ser massacrada e palco de sucessivos crimes contra a humanidade, a mentalidade de jornalismo imediatista faz com que muitos precisem de correr e medir o grau de apoio (de língua) à Ucrânia, num joguinho infantil absolutamente dispensável para pessoas sensatas, que têm muito clara na sua mente a indignação e repúdio da barbárie infligida pelo facínora do Putin, não precisando de medir e exibir o grau de indignação para auto-satisfação ou para alimentar espírito de claque.
21/03/2022
Oráculos
Nos últimos dias fico a cismar sobre a tendência que temos para o vaticínio. Artigos e postais sobre a Ucrânia antevendo os meses que durará a guerra, as causas que levarão a que cesse, as consequências económicas para os ucranianos e russos, o destino de Putin e do mundo. O impacto na economia e no tecido empresarial português da entrada em cena dos refugiados como trabalhadores. Tudo é escalpelizado e as previsões mais do que muitas. Ainda não escapamos da pandemia, que continua por cá a fazer estragos e deu pano para mangas em profecias goradas de todo o género e feitio, sendo espantoso o grau de certeza das afirmações sobre o futuro: não há espaço para o tão provável imprevisto. Devíamos aprender qualquer coisa com a realidade e perceber que não temos o destino nas mãos, muito menos capacidade de adivinhação por mais preparados e entendidos nos consideremos na avaliação do presente e futuro. Dizer isto é chover no molhado para quem está habituado a cantar vitória cada vez que é feliz com uma projecção e a dissimular ou manipular as palavras sobre as muitas em que errou sucessivamente no alvo. Da minha parte há bem pouco tempo levei uma banhada. Não fujo. Também por isso estranho tanto a segurança com que as páginas de jornais, redes sociais e blogues se enchem de grandes tiradas sobre o futuro da Ucrânia, da Rússia, da Europa, de Portugal, do mundo.
Exibicionismo

A primeira sopa depois de três dias a soro, soube a manjar dos deuses. A segunda soube... a sopa. ;)
20/03/2022
Definhar
Agora via-a como nada mais do que uma tonta. Incapaz de se posicionar perante os factos em consonância com as evidencias e os critérios de aceitabilidade do grupo de pessoas que respeitava. Fraca e fútil. Permeável à tentação de revelar dados pessoais e profissionais em público. Aduladora de menoridades. Sempre a repetir os mesmos temas e falha de alegria. Pouca coisa. Imprestável.
Tão longe da imagem refrescante com que tropeçara um par de anos antes. Parecia trazer qualquer coisa diferente. Parecia. Passou. Outras aparecerão, prontas a provocar o leviano entusiasmo de quem idealiza e que sempre definha quando se defronta com a verdade.
19/03/2022
Diário
Não gosto de escrever no telemóvel, amanhã já vou ter o computador comigo e hoje veio a Matemática para Pessoas com Pressa, a ver se animo. Por agora a disposição é triste. Vou continuar sem poder comer pelo menos até segunda-feira, oiço uma máquina dopler na vizinha de quarto (que usa dois palavrões em cada três palavras) a fazer muito ruído e mais grave constato que é inviável qualquer sonho de construção futura - sinto-me sem asas.
Eh, sei. Acontece a todos, é passageiro e são muito mais bonitas palavras de força, resistência e esperança. Mas isto é um diário, não um ranking de bom desempenho e boa imagem.
18/03/2022
Diário
Só imprevistos. Depois de Sábado ter sido apanhada por fortes dores do estômago e costas e ter desvalorizado quando passaram, a madrugada passada reincidi tendo de vir de requitó para o Santo António. Resultado: fico internada uma semana com pedras e infecção na vesícula, que vai ter de ser extraída. Nesta altura do campeonato - em razão das necessidades profissionais - era tudo o que vinha a calhar. É praga.
Cada vez mais livro aberto.
17/03/2022
Relações abertas
Orgulho-me do espírito de missão com que o Nuno defende a Ucrânia e o Ocidente junto das renitentes amigas sul-americanas (colombiana, peruana e brasileiras). É a nova evangelização.
14 litros aos 100
É uma mulher de sonho, mas o consumo, ui: são pelo menos 14 litros de mimo aos 100.
16/03/2022
Independência Zero
Quando se vive a vida como quem folheia um catálogo refastelado no canapé em frente ao espelho da vaidade perde-se o essencial. São escolhas: há quem prefira o conforto das alcofas, há quem escolha viver.
Da base da sociedade às mais sofisticadas elites intelectuais o vício é transversal e ataca feroz: o que é não existe pelo que é, pelo seu valor intrínseco, mas pelo ricochete da apreciação na boa imagem no sujeito. Gosta-se ou desgosta-se em função da boa imagem que se dá ao apreciar ou mostrar desagrado. Uma composição musical pode ser excelente, mas se tiver associado algum sinal de repulsa pelas gracinhas aleatórias em voga que faça o sujeito correr o risco de ser tomado por bronco, logo o dito desdenha da música - ainda que a adore.
Uma opinião pode ser cristalina e a mais avisada, mas se for dita por um rival da intriga palaciana, logo é achincalhada pelo viveiro de umas centenas (vá, talvez um milhar) de figuras que vivem nos media, no twitter, no facebook, nos blogs do encosto mútuo e de tecer maledicência sobre os rivais de ocasião. Nem vale a pena tomar as dores de alguns porque os vários grupelhos equivalem-se na baixeza e alimentam-se mutuamente. Para assegurar encosto próprio e dos apaniguados atacam em matilha com reprodução da mesma verborreia entre si, sendo incapazes de agir com independência. São facilmente identificáveis ao regurgitar a cartilha dominante ou reactiva-dominante (estejam certas ou erradas) a papel químico, ao aderir a todos os temas quentes (para os quais normalmente só despertam quando começam a render, estando na verdade a marimbar para a substância da coisa) e ao invocar as mesmas personalidades como referências. Tudo com cada vez maior abstracção e suposta sofisticação de raciocínio - sempre acompanhada de doses consideráveis de dados e informação - histórica ou actual - que servem sobretudo para se demarcarem da massa ignorante que consideram incapaz de pensar e ter opinião válida.
A música pode ser óptima e a opinião dos rivais clarividente, mas sentados no canapé em frente ao espelho ficam ofuscados com a imagem de erudição e carácter, quando o dito reflecte sobretudo soberba, intransigência e prosápia no lugar da espinha dorsal.
Entretanto, o mundo rola segundo as leis da natureza, um tanto indiferente às vaidades e vaipes videirinhos. Continua a fazer-se boa música, o que está certo continua a estar certo e o errado mantém-se errado, independentemente de ser tema quente e o próximo palpite ser inteiramente enquadrável na última alocução de alguma vedeta promovida por cada matilha.
15/03/2022
Beth Hart
Estamos a precisar de recarregar energias.
A banda sonora desta tarde ficará a cargo de Beth Hart.
A Change Is Gonna Come.
*
Lembrete
Se escreves de molde a parecer um autor, mimetizando os tiques dos criadores, preenchendo as quotas dos clichés e contra-clichés como quem valida cânones da literatura em primorosa, presunçosa e entediante gramática, fazendo de conta que és o que nunca foste, nunca o serás. Mesmo que produzas e edites resmas de papel grafado, vendas muito e um conjunto de almas benévolas e lacaias te enalteçam o talento de grande escritor, nunca o serás.
A criação não se compadece de aparências. Tarde ou cedo a farsa será nua e só restará exposta a verdade: mediocridade. Má literatura.
Recapitulando

Sempre tiveste predilecção por gavetas mentais desarrumadas. À medida que o tempo passa e te vês já com meio caminho feito, confirmas o quão afortunada é essa inclinação. Os fora da caixa, os excêntricos, os estouvados sempre se mostram os melhores e mais ricos amigos. Não tendo as gavetas todas arrumadas, sabes que podes contar com o imprevisível. E há lá sensação melhor do que te trocarem as voltas às certezas e vice-versa? Numa mesa de jantar de amigos na meia idade celebras verdades inconfessáveis, descobertas ao fim de 30 anos. A surpresa e o insólito faz-se conversa liberta e compreensiva. E, agora, apenas com menos pudores, ris com a mesma vontade com que rias junto deles no final dos idos 80 e nos 90.
Em retrospectiva ninguém é imune a algum ataque de remorso ou arrependimento, ainda que episódico. Mas é reconfortante perceber sentido nas vidas desalinhadas e conforto na própria pele. Pode não durar sempre, nem podia. Mas faz-se tendência, e é tão bom.
Saboreias ainda com mais gosto a ideia quando a casa se enche por uns dias com a irreverência de duas miúdas a acabar de sair da adolescência. Apesar das certezas que sempre têm nestas idades, captas a desordem e celebras: ainda há esperança e o mundo ainda é mundo.
Assim tem decorrido este fim de Verão feito intervalo dos enfadonhos diálogos com argumentações maquinais a que te vais habituando, mas não resignando. E quão entediante pode ser ouvir ou ler pessoas a quem conheces todas as respostas de antemão. E quão entediante pode ser sentir todo o movimento ordenado de autómatos. E pior, alinhares nesse tédio. Ah, que se lixem os intransponíveis e inquestionáveis. Refrescante.
Aclara-se agora a razão para tantos seres humanos precisarem de complexa ficção apimentada, alternativa, violenta ou sórdida: necessidade de fugir da imensa solidão das gavetas arrumadas.
Pedro Flores
Bom dia.
(cheguei ao escritório e recebi telefonema do Nuno a chamar a atenção para esta nova canção.)
14/03/2022
Despegada
Ia escrever um postal com base nos anteriores textos Aparência e De volta ao real, mas faltou-me a inspiração.
Sobrou o título e duas notas.
- O absurdo ganha espaço dia para dia. Vivem-se tempos de loteria: o que hoje é mentira por acaso, amanhã é verdade aleatória. Calhou ser assim: as verdades vêm por ondas, cuja cadência está por descodificar.
- Ninguém tem mão no absurdo. E quanto mais veementes são as certezas professadas, mais manifesta é a desorientação.
A opinião que não interessa
Há uma linha ténue entre a opinião válida e fundamentada e a expressão fútil de posição ou manifestação de ego. Independentemente da qualidade e eficácia da forma de discurso - da retórica -, da facilidade e sucesso com que a retórica é vendida. No caso da futilidade a tomada de posição contra visão diferente pode não representar nada além da necessidade de aconchego de mantras de tribo. É-se impelido a comentar pela excitação do jogo de facção face à celeuma do momento - à qual nunca se resiste. É-se a favor ou contra determinada preposição por se ser roxo ou amarelo e estas cores determinarem que se faça tábua rasa de tudo quanto é razoável e vertical para defender a posição de gueto. Muitas opiniões não passam deste estágio e são apanágio de muitos ilustres das gavetas arrumadas da nossa praça. Já o ego impõe a cegueira por vedetismo. Tem-se determinada posição por se tomar por brilhante, moral e intelectualmente superior e ver o mundo numa perspectiva inacessível à ralé.
Para este tipo de opiniões - às vezes cumulam - não há paciência. Ainda que por simpatia e sob a perspectiva do resultado se aproximem das posições fundamentadas não deixam de ser farsas.
*
Adenda.
É neste contexto que surgem os linchamentos diários de opiniões reflectidas e sensatas, mas menos apelativas. Para os excitadinhos de sucesso nada é visto numa perspectiva realmente humana, isenta e de longo termo. O que interessa é o clima de guerrilha - é isso que vende: o afogadilho.
13/03/2022
O espanador - Ucrânia

10.A. Ucrânia.
---
Desta saga existem nas Comezinhas as entradas abaixo indicadas, muito desiguais entre si.



