Dormiste quase oito horas na noite anterior. Acordaste poucos minutos antes do despertador tocar, o que faz toda a diferença. O acumular de ansiedade e tensão nos últimos dias leva-te àquela sensação estranha no corpo, sobretudo braços e pernas, de uma espécie de formigueiro: milhentas mini picadas eléctricas subcutâneas. Como se tivesses acumulado doses cavalares de electricidade estática na carne, no músculo, na pele. Oito horas de sono fazem toda a diferença. Acordaste com os músculos relaxados e capaz de produzir o dobro durante o dia de trabalho. Há uns tempos esta ansiedade manifestava-se de outra forma: por dois ou três anos deixaste de ter a regular lágrima nos olhos, tendo que recorrer a colírios para a repôr. E deixar de usar lentes de contacto, tuas companheiras desde os doze anos. Uma vez perdido o hábito agora só as usas raramente apesar do problema dos olhos secos ter passado - era uma sensação estranha, parecia areia nos olhos. Curiosa era a forma directa com que a secura se ligava à ansiedade. Por mais de uma vez em situações de tensão como dificuldades profissionais ou discussões sentiste os olhos secarem completamente no momento preciso em que o problema se colocava. Sacavas do colírio como quem toma as gotas - e fazias piada a esse propósito com uma colega de trabalho. Outra variante de manifestação de stress é a orelha a ferver. Chamam a isto somatizar. Ainda assim ficas sempre contente quando estas manifestações são físicas, é preferível assim e que as meninas não acabem por se dar sob o ponto de vista psicológico.
Sabes que não queres falar sobre a invasão na Ucrânia mas como a intenção é escrever corrido sem atrapalhar as ideias que vão fluindo tens que dizer que ficas com complexo de culpa por este partilhar de pequenos incómodos num tempo em que centenas de milhares de mulheres e crianças e mais velhos sofrem por ter que abandonar as suas casas, a sua terra, de mãos vazias sem saber do seu destino, enquanto homens - e algumas mulheres - ficam a defender a pátria em condições atrozes, e outros homens atacam um país vizinho sem qualquer convicção. Mas afinal quando é que houve um tempo diferente? Na Síria os primeiros protestos foram há onze anos e a guerra desenrola-se desde então com milhões de refugiados. Se recuarmos vemos que não há ano em que um grupo de países não fosse palco de conflitos. Sucede que eram distantes. Na Europa relaxada achava-se que aquelas guerras não a tocariam - salvo talvez a dos Balcãs nos anos 90. O sentimento de culpa a existir e para ser coerente devia pois ser perene. Sabes, isto é patético. Se há consciência da futilidade dos pequeníssimos interesses narcísicos e dorzitas, para quê escrever sobre eles? Tão só porque apetece, é o que te vai na alma passível de ser dito.
Agora talvez vás pescar duas ou três ideias que te passaram pela cabeça ontem enquanto trabalhavas sem tempo para anotar o quer que seja e que no fundo não acrescentam muito ao que tens vindo a dizer aqui nas Comezinhas. Vais elencá-las antes que se percam, como se tivessem algum interesse. Uma sobre a admiração pelas pessoas que trazem nova informação, nova perspectiva e, em simultâneo e por regra, respeitam os outros. Outra sobre a necessidade de afirmação pela diferença e de conflito. Por último, o interesse como móbil de aproximação entre pessoas e ideias.
Não és diferente de muitos: gostas da novidade e da diferença. Se alguém ou uma entidade te faz chegar de forma credível informação ou perspectiva que não obténs de outra forma, valorizas essa pessoa ou entidade de forma particular. É natural num tempo em que se replica a informação de modo estonteante e saturante. É um privilégio ter acesso a quem diga coisa diferente do repisado ad nauseam nos meios de comunicação social, nas redes sociais, nas conversas profissionais e sociais, em família. Se essa pessoa ou entidade tem uma postura de respeito pelo outro, ganhou em ti uma admiradora. Por fazer o mais difícil: procurar com seriedade conhecer e partilhar o que sabe sem necessidade de se impôr aos demais, sem ser por procura fútil de protagonismo.
Coisa diferente é a necessidade de afirmação pela diferença e o gosto pelo conflito. Nos últimos tempos seja a propósito do tema pandemia seja agora com a invasão da Ucrânia pela Rússia (ou pelo facínora que a preside) reparas nas dezenas de opiniões ou bitaites que resultam dessa necessidade. Neste caso não tens pejo algum em incluir-te no lote daqueles que se acham mais espertos do que o vizinho do lado. Quantas vezes dás por ti a pensar: fulano tal só diz aquilo por ser estúpido ou ressabiado, por não conhecer a realidade, por ter um quadro mental estreito. Quantas vezes assistes a comentários de outros que nitidamente partem do princípio que estão especialmente iluminados por uma razão facilmente redutível a mero preconceito? Metade disto é ultrapassável com simples honestidade de princípios - odeias a expressão honestidade intelectual por a teres visto demasiadas vezes usada abusivamente por gente que costuma deturpar directa ou dissimuladamente os argumentos do interlocutor ou do adversário. Nada de espantar: vive-se o tempo em que é usual acusar o interlocutor ou adversário de falhas próprias. Vive-se também o tempo - se é que não foi sempre assim - em que se caça e copia argumentos de alguém para usá-los contra aquilo que essa mesma pessoa acredita ou pensa e para daí tirar proveito próprio. Voltando ao que interessa, a honestidade impõe que não se exija aos outros aquilo que não se pratica e abertura de espírito suficiente para tentar perceber as razões do vizinho para além do manto de suspeições impostas por sentimentos hostis tantas vezes sem fundamento lógico. Não se trata de ser bonzinho - até por em muitos casos existirem justificações válidas de desconfiança -, mas sim razoável.
O preconceito e a falta de honestidade inquinam muitas das opiniões expressas e fazem com que apesar da aparência de credibilidade - conferida pela forma e sofisticação do discurso - se argumente por sistema com base em perspectiva de facção. Num tempo em que todos expressam constantemente as suas opiniões é muito fácil encontrar contradições e reduzir outrem por mera animosidade a um amontoado de incoerências, mais difícil é olhar-se ao espelho e verificar de onde vem essa necessidade de destruir quem num determinado momento toma uma decisão ou tem uma postura diferente do catalogador. Difícil também é admitir que muito frequentemente os ataques dirigidos a determinada pessoa são feitos na aparência da defesa de belos princípios quando na realidade estão a ser usados para defender outra pessoa ou ideia que não merece qualquer crédito - apenas por fazer parte da tribo ou quadro mental estreito do agressor. E aqui entra a questão de saber por que razão se aproximam as pessoas ou ideias e a génese das facções ou tribos de interesse. O encosto a um ou mais indivíduos que se mostrem fortes na estratégica e cínica defesa de valores benignos é não raro mera fachada para robustecer teias de influência em proveito próprio e ilegítimo. Aqui já não se trata do mero gosto pelo conflito, mas do uso do dito como jogo profissional para obter protagonismo, influência e privilégios injustificados - ilegítimos muitas vezes por si só, outras apenas por serem obtidos à custa dessa desonestidade, deste jogo pouco limpo que é o da retórica interesseira e ardilosa a que alguns chamam falsamente pluralismo.
É irresistível. Para quem não queria falar da Ucrânia nem dizer mal de ninguém parece que algo correu mal. Bom, ao menos não foste leviana, achas tu.